Eu sou uma criança esperta em meio aos burros, aqueles animais era gentis e inteligentes, eles se destacam em meio aos animais bonitos e de portes altos.
"Burro é aquele que faz o que os outros manda"
Meu avô sempre me contava uma história de sua época, todo final de semana era uma história diferente.
"Dork era o nome de um pangaré meu, os tio do vovô eram todos home de corage, ninguém peitava os tio, e foram eles que me deram o pangaré, eles disseram, que Dork nasceu e a égua morreu logo depois, bem embaixo de uma quaresmeira, em uma quarta das cinzas... "
Na época de quaresma,aquela pequena cidade do interior ficava coberta por um manto de histórias, as pessoas diziam que tinha visto coisas sobrenaturais, alguns diziam que viu uma mula, um lobo, uma sereia, o boi-tata, o boto, o curupira, e até o caboclo d'água. Os finados era aquela fila de gente, chegava a ser bonito aquela fila de vela no escuro, e o cemitério era coberto por uma neblina de fumaça.
"Escuta netinho, Dork meu pangaré era meu mió companheiro, mas a história é a siginte, Dork não era só um cavalo, mas sim um pangaré quaresmeiro..."
Meu avô sempre me contou sobre seu cavalo, porém o que ele me contou em uma quaresma foi de se assustar, e olha que eu não sou de ficar com medo.
"Escuta...meu pangaré era o mió machado que tinha na região, papai falava que iria vendê-lo pra ter uma gaita extra, mas eu num deixei, o pangaré é meu, e é eu que vou vendê-lo, o pangaré é meu e tú não tem o puque vender ele..."
Vovô sempre falou sobre como seu pangaré veio até suas mãos, mas nunca disse o que aconteceu com ele...
" Toda quaresma, em plena sexta santa, onde o sete pele caminha, meu pangaré derretia, sua pelagem caia, seu corpo era que nem gelo na brasa, meu papai gritava com ele, e ele se arrastava pra dentro da lagoa, papai não deixava eu me proxima do pangaré, até que um dia papai descidiu mata meu cavalo..."
Um menino esperto, esperto o bastante entre os burros, animais inteligentes eu era o menino que estava olhando pro vovô que tinha apenas uma das pernas, sentado sobre uma cadeira de rodas e com uma garrafa de pinga velha nas mãos...
"Papai tentou matar o pangaré, mas o pescoço do pangaré era mole demais, papai gritou, "sai daqui coisa ruim " e ai o pangaré se levantou com a cabeça cortada, mordeu minha perna e queria me puxar com ele, papai gritava e batia na cabeça que pengalava de lado,a pangaré correu pra dentro do lago e levou minha perna na boca, papai desgotou o lago, mas o pangaré não tava lá, nem se quer os ossos, apenas minha perna"
Um menino esperto em meio aos burros, eu agora sou dono das terras do vovô e do papai, e sempre olho pra aquele lugar onde era o lago que foi aterrado, aquele local onde a água evitava, e a grama não crescia, onde nada pousava, e ninguém pisava, onde a chuva não caia e os bichos não se aproximava, ali naquele mesmo lugar depois de tanto tempo, nasceu uma quaresmeira, ela era alta e de flores roxas, ninguém sabia, e ninguém entendia. Porque eu não sentia medo? Acho que é porque eu não acreditava, mas depois de ver com meus próprios olhos, um cavalo branco correndo com a cabeça quase fora do pescoço, faltava um fio de carnê e coro segurando a cabeça pra não cair, e ai eu comecei a acreditar.