O Capuz Escarlate
Era uma vez, em uma vila cercada por bosques densos e trilhas esquecidas, uma jovem chamada Elena. Diziam que nasceu com a lua vermelha — sinal de paixão e desgraça. Sua avó, uma antiga curandeira temida e respeitada, lhe costurou um manto escarlate, pesado e firme, para protegê-la dos ventos do norte… e dos olhos dos homens.
Certa manhã, a velha adoeceu. Elena, contrariando os avisos da mãe, decidiu atravessar a floresta para levar ervas e vinho escuro, fermentado com raiz de sono. O caminho era conhecido, mas nunca seguro. "Não fale com estranhos, nem tire o capuz", disse a mãe antes de deixá-la partir.
No meio do caminho, surgiu um homem de voz aveludada e sorriso afiado — um caçador, segundo ele. Mas seus olhos brilhavam como o de um lobo faminto, e sua presença era doce como veneno em flor.
— Para onde vai, moça bela, com esse vinho e essas ervas raras? — perguntou ele.
Elena hesitou. A floresta, os galhos, o silêncio... tudo parecia ouvir. Mas ela era esperta. Sorriu como quem já sabia jogar.
— Para um encontro com alguém que não teme a morte — respondeu.
O lobo riu. Despediu-se com reverência e desapareceu entre as árvores. Mas Elena sabia. Sabia que ele tomaria um atalho. Sabia que o mal não resiste ao cheiro de fraqueza.
Quando chegou à cabana, a porta estava entreaberta. Lá dentro, o lobo, disfarçado, tentava enganar sua avó. Mas a velha, que já havia enfrentado fome, guerra e homens piores, não se dobrou. Foi devorada, mas não em silêncio — deixou um feitiço preso nos ossos, esperando pela neta.
Elena entrou e viu a figura na cama, coberta até os olhos.
— Que olhos grandes você tem... — Para te ver melhor. — Que mãos grandes você tem... — Para te tocar melhor. — Que dentes...
Ela parou. Sorriu. Tirou o capuz.
— Para morder, você precisa chegar perto.
E antes que o lobo saltasse, ela jogou o vinho na lareira. As chamas rugiram como fera ferida. O calor ativou as ervas — um sopro antigo da bruxa que a criou. O feitiço se cumpriu.
O lobo gritou, mas sua forma se dissolveu em fumaça. Tudo que restou foi a pele estendida, como uma tapeçaria sinistra.
Desde aquele dia, Elena passou a morar na cabana. Não mais uma moça indefesa, mas uma guardiã da floresta, com olhos atentos e um capuz vermelho como sangue recém-derramado.
E quando homens se perdem por aqueles caminhos… alguns não voltam. Outros, voltam mudos, pálidos. Porque o Capuz Escarlate ainda caminha por entre as árvores. E ela não teme mais os lobo—s. Agora, os lobos temem ela.