Era uma vez uma princesa.
Ela tinha tudo.
Olhos azuis como o mar, cabelos dourados, pele clara que brilhava ao sol. Foi criada com amor, nunca lhe faltou nada. Tudo nela parecia fácil.
Mas a princesa tinha uma amiga.
E a amiga era uma bruxa.
Elas eram opostas.
A bruxa tinha cabelos escuros e longos, olhos castanhos tão profundos que pareciam noite. Sua beleza era diferente — mais intensa, mais marcante. Ela era, sem dúvida, mais bonita que a princesa. Ainda assim, vivia cinza. Não porque lhe faltasse beleza, mas porque lhe faltava paz.
A bruxa não tinha o que a princesa tinha.
E isso ardia.
— Por que você é tão feliz? — perguntava.
— Porque sou grata pelo que tenho — respondia a princesa.
A bruxa não acreditava.
Achava aquilo hipocrisia.
Pensava: se ela vivesse a minha vida, seria infeliz como eu.
Então, um dia, caminharam juntas até um campo bonito demais para guardar rancor.
Ali, a bruxa decidiu provar sua verdade.
— Vamos trocar de lugar — disse.
E lançou o feitiço.
A bruxa ficou com os olhos claros, o cabelo loiro, o corpo de princesa.
A princesa, ao se olhar no reflexo do lago, viu o corpo da bruxa.
E sorriu.
— Eu estou linda.
— Aproveite — disse a bruxa. — Vamos ver quem termina o dia feliz.
Elas voltaram ao castelo.
A bruxa, agora princesa, se cansou rápido: regras, exigências, expectativas. Tudo era pesado.
Nada era suficiente.
Enquanto isso, a princesa, no corpo da bruxa, viveu o dia no bosque. Trabalhou, riu, cantou com os aldeões. Estava cansada — e feliz.
No fim do dia, se encontraram.
— Por que você está sorrindo tanto? — perguntou a bruxa, irritada.
— Sou grata pelo dia que tive — respondeu a princesa. — E até por você ter passado um dia no meu corpo.
A bruxa se revoltou.
Disse que a princesa fingia felicidade.
Que ninguém poderia ser feliz vivendo daquele jeito.
Então tomou uma decisão cruel:
não devolveria o corpo.
Mandou os guardas levarem a bruxa — que agora era princesa — de volta à aldeia.
E ficou no castelo, reclamando da vida perfeita que tanto desejou.
E assim viveram.
A princesa, no corpo da bruxa, seguiu feliz.
A bruxa, no corpo da princesa, continuou vazia.
Porque no fim, a troca não revelou quem tinha mais…
revelou quem sabia agradecer.