Era uma vez um garoto.
E ele era feliz.
Feliz de verdade ,daquele tipo raro de felicidade que não precisa ser provada. ainda assim, ele dizia a todos:
“Vocês deveriam ser felizes como eu. Vamos ser felizes juntos.”
um dia, ele deixou a aldeia e seguiu para um bosque.
ali, conheceu uma garota sobre quem todos falavam mal.
— Fique longe dela — diziam.
— Ela é estranha. Rouba comida, rouba de quem passa. Se chegar perto, ela vai roubar você também.
O garoto ouviu.
Mas não obedeceu.
Começou a observá-la de longe, escondido atrás das árvores, tentando entendê-la.
Até que um dia ela se virou e disse, sem levantar a voz:
— Pode sair. Eu sei que você está aí.
Ele saiu.
E ela, sem hesitar, tomou a comida que ele carregava.
— Por que você faz isso? — perguntou o garoto. — Por que rouba as pessoas??
— Não te interessa — respondeu ela. — Vá embora. Se voltar, a próxima coisa que eu roubo é a sua alma.
Ele fugiu, assustado.
Mas no dia seguinte, voltou.
Com mais comida.
Ela pegou.
E isso virou rotina.
Até que um dia, a garota se cansou.
— Por que você traz comida para mim?
— Porque você parece ter fome.
Ela riu, sem humor.
— Sabe por que eu como tanto?
— Não… por quê?
— Porque eu sou vazia.
Ela disse isso sem chorar.
Disse como quem já se acostumou à dor.
— Eu como tentando preencher algo que não sei o que é. Não quero ser vazia para sempre. O vazio dói. Eu não sou feliz. Não tenho afeto. Nunca me ensinaram o que é sentir.
O garoto a olhou em silêncio.
E então fez algo que ninguém jamais tinha feito.
Ele a abraçou.
No começo, ela ficou rígida.
Depois, algo estranho aconteceu.
Uma sensação quente nasceu em seu peito. Um aperto bom. Um nó diferente.
Algo que ela não sabia nomear.
— O que é isso? — perguntou, assustada.
— Isso é sentir — respondeu o garoto. — E dói às vezes. Mas também cura.
A partir daquele dia, ele não levou só comida.
Levou presença.
E a garota parou de roubar.
Não porque ficou cheia,
mas porque deixou de estar sozinha.
Mas o garoto, que queria ensinar felicidade a todos, não percebeu algo importante:
não se ensina sentimento carregando o vazio do outro nos braços.
Com o tempo, ele começou a cansar.
E ela começou a depender.
Ela já não queria aprender a sentir sozinha.
Queria sentir através dele.
E foi ali que a história deixou de ser sobre felicidade…
e passou a ser sobre limites.
Porque ninguém pode preencher o vazio de alguém para sempre.
E amor não é salvação.
Às vezes, é só o começo da cura.
E às vezes, se não houver cuidado,
vira mais um lugar onde se aprende a doer.