O mar de Planaltina não existe — mas, pra Léo, existia.
Ele dizia isso pra todo mundo desde criança.
Que um dia ia embora, ver o mar de verdade, e descobrir se o azul era mesmo daquele jeito absurdo que aparecia nos filmes.
Ninguém levava muito a sério.
Exceto Caio.
Eles se conheciam desde o 7º ano. Mesma sala, mesma bagunça, mesma dificuldade em matemática… e o mesmo segredo que nenhum dos dois sabia nomear.
Naquela tarde quente demais, os dois estavam sentados na calçada, dividindo um refrigerante quente e uma vida inteira de pensamentos não ditos.
— Você ainda quer ver o mar? — Caio perguntou, chutando uma pedrinha.
— Quero. — Léo respondeu sem hesitar. — Quero ver algo que seja maior que tudo isso aqui.
“Tudo isso” era o bairro pequeno, as fofocas grandes, os olhares que demoravam demais quando eles andavam juntos.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não é vazio — é cheio de coisa entalada.
— Eu tenho medo, sabia? — Caio soltou de repente.
Léo virou o rosto.
— De quê?
Caio deu um meio sorriso torto.
— De não ser quem eu sou. De passar a vida inteira fingindo… e ninguém nunca me ver de verdade.
O coração de Léo começou a bater tão forte que parecia que alguém tinha ligado um tambor dentro do peito dele.
— Eu te vejo. — ele disse, baixo.
Caio riu, mas os olhos ficaram brilhando.
— Não desse jeito.
E ali estava. A frase que sempre ficou entre eles, mas nunca tinha saído.
Léo respirou fundo. O mundo parecia parado, como se até o vento estivesse esperando.
— Então deixa eu tentar de novo…
Eu vejo você quando você ri alto demais.
Quando você finge que é forte, mas fica quieto quando tá triste.
Quando você segura minha mochila como desculpa pra andar mais perto.
Eu vejo você, Caio. De verdade.
O silêncio voltou — mas agora era outro. Vivo. Tremendo.
— Léo… — a voz de Caio saiu falhando.
E foi Caio quem fez primeiro.
A mão dele encostou na de Léo, de leve, como se estivesse testando se o mundo ia acabar.
Não acabou.
O bairro continuou barulhento. Um carro passou. Um cachorro latiu. A vida seguiu.
Mas ali, entre os dedos que se entrelaçaram, alguma coisa finalmente começou.
— E se o mar não for tudo isso? — Caio sussurrou.
Léo sorriu, com os olhos marejados.
— A gente vai junto.
Se for feio, a gente ri.
Se for lindo… a gente lembra desse dia.
Caio apertou a mão dele.
— Então promete uma coisa?
— O quê?
— Que, onde quer que a gente vá… você não vai fingir que não me conhece.
Léo deu um beijo na mão dele — rápido, nervoso, mas cheio de verdade.
— Nunca mais.
E talvez o mar ainda estivesse longe.
Mas, pela primeira vez, eles não estavam.
E isso já deixava o mundo grande o suficiente.