**A Casa que Respira**
Às 3:17 da madrugada o assoalho rangeu uma única vez.
Não foi o estalo normal de madeira velha se acomodando. Foi um som úmido, como se alguém tivesse pisado descalço em carne fresca e depois levantado o pé devagar.
Clara acordou com o coração já batendo nos ouvidos.
Não se mexeu.
Apenas abriu os olhos no escuro absoluto do quarto e esperou.
Trinta segundos. Um minuto. Dois.
Silêncio.
Então veio o segundo rangido — mais perto, vindo do corredor.
E logo depois um terceiro, mais pesado, como se o peso estivesse aumentando a cada passo.
Ela não tinha cachorro.
Não tinha gato.
Morava sozinha na casa herdada da avó há exatos vinte e sete dias.
O quarto inteiro pareceu encolher quando ouviu o quarto rangido.
Agora estava dentro do quarto.
Clara sentiu o ar mudar.
Não era só temperatura. Era densidade. O oxigênio ficou grosso, como se estivesse respirando dentro de um pulmão alheio.
Ela apertou os lençóis contra o peito e sussurrou para si mesma, quase sem som:
— Não olhe. Não olhe. Não olhe.
Mas o corpo traiu.
Virou o rosto devagar.
Na penumbra, entre a cômoda e a porta entreaberta, havia uma silhueta.
Não exatamente humana.
Alta demais. Ombros largos demais. E o pescoço… o pescoço era longo, como se tivesse sido esticado por mãos invisíveis durante décadas.
A coisa não se movia.
Mas respirava.
Um som duplo, úmido e entrecortado: inspiração longa → expiração rouca, como se dois pulmões dessem trabalho para funcionar dentro do mesmo tórax.
Clara fechou os olhos com força.
Contou até dez.
Quando abriu novamente, a silhueta tinha sumido.
Mas o alívio durou menos de um segundo.
Porque agora o colchão afundou do lado esquerdo dela.
Lento.
Deliberado.
Como se algo muito pesado tivesse se sentado na beira da cama.
Ela não gritou.
Gritar seria admitir que aquilo era real.
Em vez disso, rolou para o outro lado da cama num movimento brusco, caiu de joelhos no chão frio e correu para o corredor arrastando-se mais do que correndo.
Atrás dela ouviu o colchão ranger violentamente, como se a coisa tivesse se levantado de supetão.
Desceu as escadas de três em três degraus.
No penúltimo lance tropeçou, rolou, bateu a cabeça no corrimão.
Sangue quente escorreu pela testa, mas ela nem sentiu dor — só pânico puro.
Chegou à sala.
A porta da frente estava trancada.
Chaves na cozinha.
Correu.
Na cozinha as luzes não acendiam.
O interruptor clicava em vão.
Então ela ouviu.
Não do andar de cima.
Não do corredor.
Do chão.
Um som grave, gorgolejante, saindo de baixo das tábuas.
Como se algo imenso estivesse rastejando logo abaixo dela.
A madeira estalou.
Uma tábua se ergueu sozinha uns cinco centímetros, como uma tampa de caixão abrindo.
Clara recuou até encostar na pia.
Foi quando viu.
Pela fresta que se abria no assoalho, uma mão pálida, dedos longos demais, unhas pretas e recurvadas, subiu devagar.
A pele não era exatamente pele.
Era membrana.
Fina.
Translúcida.
Dava para ver veias escuras pulsando por baixo.
A mão tateou o ar, procurando.
Clara segurou a faca de pão que estava na pia.
Não porque achava que ia adiantar.
Só precisava de alguma coisa nas mãos para não desmaiar.
A mão encontrou a perna da mesa.
Agarrou.
Puxou.
A mesa voou de lado como se fosse de isopor.
E então a coisa começou a emergir.
Primeiro o braço inteiro — desproporcional, dobrando em ângulos errados.
Depois o ombro.
O pescoço longo se desenrolou como uma mangueira de borracha.
A cabeça surgiu por último.
Não tinha rosto.
Apenas uma superfície lisa, da cor de gengiva inflamada, que pulsava devagar, como se estivesse respirando pela própria pele.
Mas havia uma boca.
Ou melhor: uma fenda vertical que se abriu de repente, revelando fileiras de dentes minúsculos, desiguais, que se moviam independentemente uns dos outros.
A voz veio de lá.
Não era som humano.
Era o som de muitas coisas falando ao mesmo tempo, todas em tons diferentes, todas dizendo a mesma frase:
— Você abriu a casa.
— Você abriu a casa.
— Você abriu a casa.
Clara percebeu, com um choque glacial, que a avó nunca tinha morrido de causas naturais.
A avó tinha sido devorada de dentro para fora.
E a casa… a casa era o estômago.
Ela correu para a porta dos fundos.
A fechadura estava emperrada.
Atrás dela, a coisa já estava de pé.
Tinha quase três metros.
O teto roçava no topo da cabeça sem rosto.
Clara chutou a porta.
Chutou de novo.
A madeira cedeu.
Ar frio da madrugada invadiu a cozinha.
Ela correu descalça pelo quintal, pelo terreno baldio, pela rua deserta.
Não olhou para trás.
Mas ouviu.
A coisa não corria.
Ela deslizava.
Um som de carne molhada arrastando em madeira, depois em terra, depois no asfalto.
Clara chegou à praça central da cidadezinha.
A igreja estava aberta — sempre ficava entre três e quatro da manhã por causa do grupo de oração dos velhos.
Ela entrou tropeçando, gritando por socorro.
O vigia da igreja, um homem de setenta e poucos anos, apareceu na porta da sacristia.
— Menina, o que houve?!
Clara apontou para trás.
— Tem uma coisa… atrás de mim… por favor…
O velho olhou para a porta aberta.
E sorriu.
Um sorriso triste, cansado, de quem já viu aquilo muitas vezes.
— Ela não entra aqui — disse ele baixinho. — Mas também não vai embora.
Clara virou-se.
A silhueta estava parada exatamente no batente da porta da igreja.
Não atravessava a linha.
A boca vertical se abriu mais uma vez.
E dessa vez só uma voz falou, clara, quase carinhosa:
— Você vai voltar.
Sempre voltam.
O vigia colocou a mão no ombro dela.
— Sua avó também voltou.
Três vezes.
Na quarta… ela não saiu mais.
Clara começou a chorar, mas não era só medo.
Era compreensão.
A casa não queria matá-la.
Queria que ela voltasse para casa.
E o pior:
uma parte minúscula, minúscula, dentro dela…
já queria.
Porque, lá no fundo, quando a coisa respirava, Clara sentia o próprio peito se movendo no mesmo ritmo.
Duplo.
Úmido.
Faminto.
E a casa estava esperando.
Com a paciência de quem sabe que a presa sempre retorna ao ninho.
Fim.