A chuva daquela noite não trouxe alívio. Trouxe peso. Trouxe escolha.
Leonardo permaneceu parado por longos minutos, encostado na parede do apartamento escuro, observando Matheus dormir no sofá. A luz fraca do abajur desenhava sombras suaves sobre o corpo relaxado, contrastando demais com o caos que ele sentia por dentro. A câmera largada ao chão, a camisa aberta de forma descuidada, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo… aquela intimidade silenciosa o atingiu com força cruel.
Aquilo não era apenas desejo reprimido nem encontros escondidos depois da meia-noite. Era apego. Era vínculo. E vínculo significava risco.
Nos dias seguintes, Leonardo tentou se convencer de que o afastamento era necessário. Mergulhou no trabalho, alongou reuniões, respondeu mensagens de forma fria e espaçada. Cada tentativa de controle, porém, só tornava o vazio mais evidente. Matheus sentiu a mudança quase de imediato. Sempre sentia. A ausência virou incômodo, depois ferida aberta.
Até que, numa madrugada sufocante, Matheus apareceu sem avisar.
— Você vai continuar se escondendo atrás do medo ou vai olhar pra mim de verdade? — perguntou, a voz firme, mas carregada de cansaço.
Leonardo fechou a porta atrás deles. O silêncio se espalhou pelo ambiente, denso demais para ser ignorado. Os olhos dos dois se encontraram, e tudo o que vinha sendo evitado ficou exposto ali, sem defesa.
— Eu não sei amar pela metade — Matheus continuou, dando um passo à frente. — E você me toca como se estivesse sempre pronto pra fugir.
Leonardo respirou fundo. Aproximou-se devagar, como se cada passo exigisse coragem.
— Porque quando eu deixo acontecer… eu perco o chão — confessou, num tom baixo, quase quebrado.
Matheus segurou o colarinho dele, puxando-o para perto. O gesto não foi agressivo, foi urgente.
— Então perde comigo.
O beijo que veio não teve pressa. Foi carregado de tudo o que vinha sendo contido: desejo, frustração, entrega. As mãos se encontraram com familiaridade intensa, os corpos reconhecendo um ao outro no escuro, respirações descompassadas, murmúrios abafados que diziam mais do que palavras jamais conseguiriam.
Depois, deitados lado a lado, o silêncio voltou — mas já não era vazio. Leonardo encarava o teto, o coração ainda acelerado, a mente em conflito.
— Se alguém descobrir… — começou, hesitante.
Matheus virou-se para ele, os olhos atentos.
— Eu sei o risco. Só não aceito ser um segredo que você tenta apagar quando amanhece.
Leonardo fechou os olhos por um instante longo demais. Quando voltou a encará-lo, havia verdade ali.
— Eu não prometo facilidade — disse. — Mas prometo não fingir que você não existe.
Matheus sorriu, pequeno, cansado, real.
— Já é tudo o que eu precisava ouvir.
Do lado de fora, a cidade seguia indiferente.
Mas ali dentro, algo havia mudado de forma definitiva.
O amor ainda era secreto.
Ainda era intenso.
Ainda era perigoso.
Mas agora, era assumido entre eles.
E isso tornava tudo ainda mais incendiário 🔥