Félix aprendeu cedo
que algumas dores
só cabem na boca de personagens.
Na vida real,
ele engole o que sente.
No palco,
ele sangra com elegância.
Alex senta sempre na terceira fileira.
Não a primeira —
muito íntimo.
Não a última —
covarde demais.
É dali que ele observa
os silêncios de Félix
gritarem.
Quando Noa chega,
o ar muda de lugar.
Não faz barulho,
mas ocupa.
Noa ri fácil,
toca o braço de Alex
como quem testa território,
como quem não pede permissão
para desejar.
Félix percebe.
Sempre percebe.
O texto da peça escorre,
mas seus olhos traem a fala decorada.
Eles procuram Alex
— e encontram Noa.
Há uma cena de despedida.
O personagem de Félix chora
por alguém que parte.
A plateia acredita.
Alex também.
Mas o choro não é ensaio.
É aviso.
Porque o teatro,
essa mentira bonita,
é o único lugar
onde Félix pode dizer:
fica
sem mover os lábios.
Noa aplaude de pé.
Alex demora um segundo a mais.
E nesse segundo,
Félix entende:
algumas disputas
não pedem guerra,
pedem coragem.
Quando as luzes se apagam,
o palco devolve Félix ao mundo.
Mas a dor não desmonta o cenário.
Ela segue.
Com nome.
Com rosto.
Com risco.
E Alex, sem saber,
já faz parte da próxima cena.
Depois do aplauso,
há sempre o vazio.
Félix recolhe o figurino
como quem dobra a própria pele.
O espelho do camarim não devolve respostas,
só versões dele
que fingem estar bem.
Alex hesita na porta.
Esse é o gesto que o define:
quase.
Quase fala.
Quase entra.
Quase escolhe.
Noa aparece primeiro.
Sempre primeiro.
Com elogios altos demais
para um espaço tão pequeno.
— Você foi incrível —
Noa diz,
e o “incrível” soa
como promessa.
Félix agradece com educação.
Educação é o nome bonito
que ele dá
à distância.
Alex observa em silêncio,
e o silêncio pesa mais
quando é dividido.
Há coisas que não se disputam com palavras.
Só com presença.
Na cena seguinte —
que não está no roteiro —
Alex se aproxima.
Não toca.
Não invade.
Mas fica.
E ficar, às vezes,
é um ato radical.
Félix sente.
O corpo reconhece antes da mente.
O texto ensaiado some,
e sobra aquele olhar
que nunca entra em cena
porque não sabe mentir.
O teatro ensinou Félix a fingir amores.
Nunca a sobreviver a um de verdade.
Noa percebe a rachadura.
Sorriso firme.
Postura impecável.
Ciúme disfarçado de interesse legítimo
Três pessoas.
Um desejo mal distribuído.
E o palco, mesmo vazio,
segue observando.
Porque algumas histórias
não acabam quando a cortina fecha.
Elas só mudam de luz.
E Félix entende,
com o coração em desalinho,
que fugir pelo teatro
já não é suficiente
quando o que dói
aprendeu a assistir.
Noa não enfrenta Félix.
Isso seria simples demais.
Ele ocupa o espaço
entre uma frase e outra,
entre o elogio e a despedida,
entre Alex
e aquilo que não foi dito.
Félix percebe
no jeito como Noa se aproxima
sem tocar,
como quem marca território
com sombra.
Os dois sorriem.
Sorrisos educados.
Perigosos.
Noa fala de banalidades —
o texto, a cena,
a entrega emocional.
Mas seus olhos perguntam
o que a boca não ousa:
desde quando ele é seu?
Félix responde
com o corpo.
Endireita a postura.
Diminui a distância de Alex
em meio centímetro —
o suficiente para ser visto,
não o bastante para ser acusado.
O palco ensinou Félix
a sustentar silêncio
como quem segura um grito
no fundo do peito.
Noa entende.
Sempre entende.
Há uma troca que ninguém aplaude.
Um duelo sem armas visíveis.
Ciúme polido
contra dor antiga.
Noa sorri mais largo.
Félix pisca menos.
Alex sente o clima
antes de compreender.
O coração acelera
como se tivesse sido chamado
sem nome
Noa se despede primeiro.
Elegante.
Confiante.
— A gente se vê — diz.
E não é promessa.
É aviso.
Quando a porta se fecha,
Félix solta o ar
que não sabia que prendia.
O teatro nunca lhe ensinou
como vencer alguém
que não mente.
Só como resistir.
E naquela noite,
pela primeira vez,
Félix percebe:
não está disputando atenção.
Está defendendo sentimento.