O início do Caos, e o começo do Fim
05/05/2026
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O sol de meio-dia batia forte na Escola Estadual Eric Evaristo. Na sala de aula, o ventilador fazia mais barulho do que vento — era uma aula incrivelmente chata de Matemática.
— Hugo, quer parar de bater essa caneta na mesa, pelo amor de Deus?! — reclamou Helena, enquanto tentava manter o foco na atividade.
— Eu tô tentando me concentrar, deixa eu! — disse Hugo, batendo ainda mais forte só pra encher a paciência de Helena.
— Você presta atenção assim? Que genial você é. — Arlyson diz, zoando o amigo.
Enquanto isso, atrás deles, estava Júlia, escrevendo o que está na lousa e Aurora desenhando no canto de seu caderno. Júlia olha por cima do ombro.
— Credo, o que é isso? — ela disse, vendo Aurora desenhando uma criatura estranha no caderno.
— Sei lá, sonhei com isso ontem. — respondeu Aurora, dando o toque final no desenho.
— Hugo, eu vou te tirar da sala se eu te ver falando de novo! — a professora ameaçou, com uma cara de brava.
— Mas foi o Arso, professora! Eu nem fiz nad—
Hugo dizia, mas foi interrompido por sons altos de hélices girando e vento vindo de fora. A professora foi até a janela, os outros alunos também se levantaram, e conseguem avistar um helicóptero voando baixo, tão baixo que fez as árvores ao lado da escola se curvarem.
Dele vem um som metálico de um megafone:
— Atenção, moradores do Vale de Lórien! Tem monstros pela cidade atacando civis! Não saiam para as ruas! Repito, não saiam para as ru—
Um soldado dizia, mas é interrompido por uma criatura que salta no helicóptero, se pendura nele e o faz cair na rua fora da escola.
Tudo fica em silêncio por um momento, até que todos os sons de repente retornam, com gritos desesperados. Alunos descem a escada, empurrando-se uns aos outros, tentando encontrar uma forma de sobreviver a esse ataque repentino. Os amigos se olham por alguns segundos, como se comunicassem sem nem falar nada.
— Vamo logo!! — Helena disse, e todos começaram a seguir a multidão, descendo as escadas em meio ao caos.
Quando eles conseguem descer, vêem o pátio em completa desordem — haviam pessoas tentando abrir o portão para sair da escola, alunos caindo enquanto tentavam correr, e no meio da confusão, era possível ver uma criatura atacando um dos alunos. Ela era alta, rosto vazio, sem alma, corpo distorcido, como se fosse uma sombra.
— Gente... é melhor nós subirmos de no— — Aurora dizia, mas é interrompida por mais uma das criaturas que, de repente, avançou em sua direção. Hugo reagiu imediatamente por puro instinto, se colocando à frente de sua amiga, na intenção de protegê-la de alguma forma. Nesse momento, um flash de luz surge de repente, e quando essa luz sumiu, Hugo deu um soco no rosto (ou seja lá o que isso seja) da criatura, o que a fez ser lançada para trás, batendo contra uma parede e morrendo instantâneamente.
— Que merda é essa...? — Hugo disse, enquanto olhava para as próprias mãos, tentando entender o que estava acontecendo.
Quando a criatura morre, outros monstros emitem um som, algo como um rugido, vindo da parte de fora da escola, como se tivessem sentido a morte do outro. E então, começam a saltar e escalar o portão da escola, o que consequentemente, o derruba, fazendo mais criaturas invadirem a escola, matando todos os alunos que vêem pela frente com facilidade.
O grupo de amigos fica espantado por um momento.
— Não temos tempo pra pensar!! Vamos nos esconder! — Helena diz, chamando os amigos para a sala do coordenador. Assim que entram, fecham a porta e a trancam com o primeiro móvel que vêem à frente.
— Que que tá acontecendo?!! — Júlia disse, andando em círculos pela sala, com as mãos na cabeça. — Por que isso tá acontecendo?!
— Sei lá!! Tem uns monstros doidos matando geral!!! — Arlyson disse, sendo incrivelmente útil com suas palavras.
— Uau!!! Muito obrigado por dizer o óbvio, seu merda!! — Hugo gritou, se estressando com ele.
— Cala a boca, não é hora de fazer piadinhas!! — Aurora fala, dando uma bronca em Hugo.
— Será que vocês podem se controlar?!! Brigar agora não vai resolver nada, precisamos pensar em algo!! — Helena disse, tentando botar ordem na zona que estava se formando.
Até que... Um barulho pode ser ouvido, vindo do outro lado da sala, depois dos armários... Os amigos param de gritar entre si e se olham por um momento, e então, vão com cautela, lentamente, ver qual é a causa do barulho, e encontram duas das criaturas devorando o antigo coordenador. A cena faz arrepios subirem pelas espinhas de todos.
Um dos monstros os nota e os encara, como se estivesse processando algo. Antes que os amigos pudessem fazer qualquer coisa, o outro monstro — que havia sido esquecido — salta na direção de Hugo com a intenção de mordê-lo. O impacto o joga contra a parede, e o ar sai de seus pulmões. As presas e garras rasgam o ar a centímetros do rosto dele; Hugo se esforça para mantê-lo afastado, segurando-o pelo pescoço.
— Sai, cachorro nojento, desgraçado!!! — Hugo grita enquanto tenta chutá-lo para o afastar, mas sem muito efeito.
— Gente! — Aurora chama a atenção dos outros para o outro monstro, que a encara e se aproxima lentamente. Quando ela se distrai por um milissegundo, ele salta em sua direção, mas ela consegue desviar, fazendo-o bater contra o armário. Não demora muito para ele se levantar. Júlia pega um rodo e Helena, uma vassoura, para tentar se defender de alguma forma, enquanto Arlyson continua parado sem fazer nada.
— FAZ ALGO, SEU IMPRESTÁVEL DE MERDA!!! — Hugo grita para o amigo; o monstro estava quase conseguindo morder seu rosto.
— Merda...! — Arso diz, acordando, e pega a primeira coisa que vê à frente, um grampeador e joga na cabeça da criatura que atacava Hugo. Isso faz o monstro aliviar a força, dando abertura para Hugo afastá-lo com um chute. O monstro cai no chão, mas se levanta rápido. Arlyson e Hugo ficam lado a lado para se protegerem.
— Alguma ideia? — Hugo pergunta, enquanto o monstro os encara com olhos cheios de fome.
— Nem ideia. — Arso responde.
— Já era... — os dois dizem ao mesmo tempo, sem ideia do que fazer.
Enquanto isso, com as garotas, o monstro tenta mais um ataque, mas é recebido por uma vassourada no rosto — não muito efetiva. Isso apenas chama a atenção do monstro para Helena, que agora avança em sua direção, mas Júlia consegue deixar o medo de lado para defender a amiga e ataca o lugar onde deveria ser o olho do monstro, perfurando-o. Nesse momento, ele faz um som esquisito, e o outro responde com um quase igual antes de saltar, dessa vez em Arlyson, que cai no chão sendo atacado pelo monstro.
Hugo então aproveita a oportunidade e dá um chute nele como se fosse uma bola de futebol, lançando-o contra o outro monstro. Os dois batem contra a parede e soltam outro som esquisito antes de morrerem.
Arlyson continua deitado no chão tentando recuperar o fôlego. Hugo se senta com as costas apoiadas na parede. As meninas se apoiam nas primeiras coisas que veem à frente — Helena no armário, Júlia na mesa e Aurora se senta na cadeira.
O grupo fica em silêncio, todos cansados da luta, até que... De repente, as criaturas de fora começam todas a tentar abrir a porta da sala, batendo o corpo contra ela de forma selvagem.
— Esses bichos não têm pausa, não?! — Hugo rosna com raiva e se levanta assustado.
— Gente, eu tô com medo... — Júlia diz, choramingando. — O que a gente vai fazer?
— Tem algumas pessoas e monstros no pátio lá fora, mas tem como a gente sair se for rápido. Alguém tem algo pra quebrar a janela? — Helena diz, olhando pela janela, onde tem um muro alto que leva para o lado de fora da escola, pensando o mais rápido possível.
Hugo pensa um pouco e pega o grampeador que o Arlyson tinha jogado no monstro anteriormente, e o arremessa na janela, quebrando-a.
— Pronto, agora vamo rápido! O barulho vai atrair eles! — Hugo diz, saltando pra fora da janela quebrada.
Quando eles estavam quase pulando o muro, Hugo parou de repente. Lá no meio do pátio, uma garota, possivelmente do nono ano, estava caída, tentando se arrastar enquanto um dos monstros se aproximava dela, lentamente, como um predador.
— Hugo!! — Aurora gritou. —Acorda! O que foi?!
Mas ele já tinha travado o olhar.
— Merda… — sussurrou, e antes que alguém pudesse impedir, começou a correr na direção da garota.
— Você é doido?! — Arlyson berrou, pulando atrás dele. — Nós acabamos de sair vivos, seu animal!
— Tem um monstro atacando uma mina lá! — Hugo respondeu, sem olhar pra trás.
O monstro já estava prestes a atacar quando Hugo saltou em cima dele, empurrando-o para longe da garota.
Hugo se abaixou e puxou a garota pelos ombros.
— Tá esperando o quê?! Corre! — gritou, empurrando-a pra longe, a garota não consegue nem mesmo agradecer pela ajuda e foge.
Atrás dele, outros dois monstros avançavam. Arso viu e jogou um pedaço de madeira que encontrou no chão na cabeça de um deles, para chamar a atenção.
Os monstros se viraram para Arso e dispararam atrás dele.
— Merda, não pensei nessa parte... — ele falou para si mesmo, começando a correr com medo.
Hugo olhou pra trás, viu o amigo sendo perseguido e correu pra ajudar. Quando Arso passou perto, ele deu um chute certeiro num dos monstros — o bicho voou e bateu contra o outro.
Ambos caíram duros no chão.
Os dois amigos se entreolharam, respirando pesado.
— Nunca mais... — Arlyson disse, ofegante.
— Cala a boca e sobe logo o muro, antes que apareçam mais. — Hugo disse, dando um high five junto com Arso.
Eles escalaram e pularam para o outro lado, caindo na rua de trás da escola. Lá embaixo, as garotas os esperavam.
— Vocês são malucos?! — Helena gritou. — Nós achamos que vocês haviam morrido!
— Quase isso. — Hugo respondeu, ainda ofegante.
— O que foi aquilo?! — Helena perguntou, chocada.
— Salvamos uma menina — disse Arso, tentando soar heróico. — E quase viramos janta no processo, mas isso é detalhe.
Enquanto isso, Júlia estava sentada no chão ainda choramingando pela situação.
— Tá, tá, não temos tempo pra isso no momento. Temos que pensar no que fazer. Vamos cada um para suas casas, precisamos saber se nossos pais estão bem. — Helena diz, pensando nas opções e escolhendo a que parecia melhor.
— Tá bom, mas e depois, o que a gente faz? — Arso perguntou.
— O São Veríssimo (escola antiga do grupo) tá fechada hoje. Minha irmãzinha não foi pra aula porque ia ter um show ou algo assim. Podemos levar nossos familiares pra lá, não deve ter ninguém na escola, então deve estar em segurança. — Aurora sugere.
— É uma boa ideia. Iremos fazer isso então, todos de acordo? — disse Helena.
— Peraí, então eu vou ter que ir pra minha casa... SOZINHA?!! — Júlia diz, já choramingando, com medo do que pode acontecer.
— Não, não, eu vou com você enquanto minha mãe tá lá na minha casa morrendo. Lógico que você vai sozinha!!! — Hugo diz, com ironia.
Após quase todos concordarem, os amigos começam a se despedir. Helena, Aurora e Júlia se abraçam, enquanto Hugo e Arso dão um aperto de mão firme.
— Morre ainda não. — Disse Hugo, antes de soltar o aperto de mão.
— Não garanto nada. — Arso respondeu, também soltando a mão.
Após isso, eles cumprimentaram as outras garotas, e cada um segue seu caminho, em direção às suas próprias casas.