Território do Novo México, Estados Unidos — 17 de agosto de 1887
O sol ainda nem tinha subido direito quando Samuel Crowley acordou com o gosto metálico da culpa na boca. Dormiu mal, como sempre. O teto de madeira do quarto barato da pensão rangia com o vento quente do deserto, e o cheiro de café queimado vinha lá de baixo.
Era mais um dia em Dry Creek, uma cidade que não aparecia em mapas importantes e não fazia falta a ninguém — exceto aos mortos que ficaram enterrados ali.
Samuel tinha quarenta e dois anos, mas o rosto carregava mais tempo do que isso. A barba escondia uma cicatriz que cortava seu maxilar esquerdo, lembrança de uma faca numa briga antiga no Kansas.
O coldre estava pendurado na cabeceira da cama, um antigo hábito dele. Dizia pra si mesmo que não era mais um pistoleiro. Dizia isso fazia seis anos. Todos sabemos que, mentira repetida não vira verdade.
Dry Creek tinha um único motivo para ainda existir: a linha férrea que estava sendo construída a alguns quilômetros dali. Onde o trem passa, dinheiro pinga. Onde dinheiro pinga, homens ruins aparecem. Onde homens ruins aparecem, alguém sempre acaba morto.
Samuel desceu as escadas e encontrou o velho Elias Turner, dono da pensão, limpando o balcão com um pano que nunca ficava limpo.
— Sonhou com o passado de novo? — perguntou Elias, sem olhar.
— Eu nunca sonho com o futuro — respondeu Samuel, sentando-se.
Elias colocou uma xícara de café na frente dele. Forte. Amargo. Do jeito que Samuel gostava.
— Eles chegaram ontem à noite — disse o velho.
— Quem?
— Os irmãos Calder.
Samuel congelou por meio segundo. O suficiente para qualquer homem atento notar. Elias notou.
— Quantos?
— Todos. Thomas, Luke… e o mais novo também.
Samuel fechou os olhos. Thomas Calder. Um nome que deveria estar enterrado junto com outros erros.
— Vieram atrás de quê?
— De você, imagino. Ou do que sobrou.
Samuel terminou o café num gole só. Pagou. Subiu novamente, vestiu o casaco, pegou o revólver. Não por orgulho. Por instinto. O tipo de coisa que o corpo faz antes da cabeça autorizar.
I
Seis anos antes, 14 de março de 1881, perto de Abilene, Kansas.
Samuel ainda era rápido naquela época. Rápido demais. Trabalhava como pistoleiro contratado — escolta, cobrança, “serviços especiais”. Nada heroico. Só eficiente.
O trabalho parecia simples: proteger uma caravana de gado contra ladrões. Mas os Calder não eram ladrões comuns. Eram uma família que vivia disso. Roubavam, matavam, e chamavam de sobrevivência.
O confronto foi rápido e feio. Gritos. Cavalos em pânico. Poeira subindo como fumaça de inferno. Samuel matou Luke Calder primeiro. Depois Thomas.
O problema foi o terceiro.
O garoto tinha talvez quinze anos. Arma na mão. Olhos arregalados. Tremendo. Samuel apontou o revólver. O garoto atirou primeiro. Errou. Samuel não.
Naquele dia, Samuel Crowley deixou de dormir em paz.
II
Dry Creek estava estranhamente silenciosa naquela manhã. Lojas fechadas. Janelas entreabertas. Gente observando pelas frestas, como se o ar estivesse contaminado.
Os irmãos Calder estavam no saloon Red Dog. Três homens sentados, calmos demais. Armados demais.
Thomas Calder, o mais velho, estava vivo — o que só significava uma coisa: Samuel lembrava errado. E essa era uma memória que ele não queria corrigir.
Thomas levantou o olhar quando Samuel entrou.
— Olha só — disse, sorrindo. — O morto anda.
Samuel não respondeu. Aproximou-se do balcão, pediu uísque. Bebeu. O silêncio virou um fio esticado prestes a arrebentar.
— Seis anos — continuou Thomas. — Seis anos pensando em você.
— Eu pensei que tivesse te matado.
— Tentou — disse Thomas, tocando o peito. — Bala passou perto. Quem morreu foi meu irmão… e o garoto.
O mais novo dos Calder se mexeu na cadeira. Era alto, magro, olhos fundos. Ódio puro.
— Ele era meu filho — disse Thomas. Simples assim. Sem drama. Isso doeu mais.
O saloon inteiro parecia prender a respiração. Tenso.
— Não vim pedir desculpa — disse Samuel. — Nem perdão.
— Que pena — respondeu Thomas. — Porque eu vim buscar algo.
Thomas levantou devagar. Sacou a arma. Não apontou.
— Amanhã, ao pôr do sol. Lá fora da cidade. Você e eu. Sem irmãos. Sem truques.
— E se eu for embora?
— A gente mata Dry Creek inteira até sobrar só poeira.
Samuel sabia que não era blefe.
— Amanhã, então.
III
A noite caiu.
Samuel passou horas sentado na varanda da pensão, olhando o nada. Elias sentou ao lado dele em silêncio.
— Você podia fugir — disse o velho.
— Podia.
— Não vai?
— Não.
— Por quê?
Samuel demorou.
— Porque algumas dívidas só se pagam com sangue, Elias... e eu tô devendo essa já faz tempo.
Samuel escreveu uma carta naquela noite. Curta. Sem destinatário. Deixou na gaveta.
“Eu tentei ser melhor do que fui. Não consegui. Mas tentei.”
IV
18 de agosto de 1887. Pôr do sol.
O deserto estava vermelho. O vento arrastava areia como navalha fina. A cidade inteira assistia de longe.
Samuel e Thomas ficaram frente a frente. Dez passos. Armas baixas.
— Pronto? — perguntou Thomas.
— Faz tempo — respondeu Samuel.
O silêncio durou um segundo. Dois.
O disparo veio quase junto.
Thomas foi mais rápido.
A bala atravessou o abdômen de Samuel, jogando-o de joelhos. Mesmo assim, Samuel atirou. Acertou Thomas no peito. Os dois caíram.
Thomas morreu ali mesmo. Sem palavra final. Sem redenção.
Samuel ficou estirado na areia, respirando com dificuldade. Sangue quente escorrendo. O céu ficando laranja, depois roxo.
O filho sobrevivente de Thomas observava de longe. Não atirou. Não falou nada. Apenas virou as costas.
Samuel sorriu fraco, apesar do medo crescente.
— Justo… — murmurou.
Quando Elias chegou, Samuel já estava frio.
A carta foi encontrada depois. Elias nunca entregou a ninguém. Apenas queimou.
Dry Creek continuou existindo por mais três anos. Depois o trem mudou de rota. A cidade morreu devagar, como tudo ali.
Hoje, só resta poeira.
E dizem que, quando o vento sopra forte no deserto, ainda dá pra ouvir dois tiros quase ao mesmo tempo.