O vento cortante no topo do terraço não era mais frio que a dor que Lían carregava na alma. A cidade, sob as luzes da noite, parecia um palco para a sua tragédia pessoal. Aos 23 anos, ele havia desistido. A queda seria o ponto final, a libertação de um peso que o consumia há anos. Lían se inclinou sobre o parapeito e, com um suspiro de exaustão, saltou. Contudo, em vez do fim, ele encontrou a escuridão e, depois, um mundo de lembranças.
Em seu coma de três meses, Lían viajou pelas paisagens de seu passado. Primeiramente, viu-se aos 11 anos, um garoto ingênuo e curioso. Uma mão desconhecida lhe ofereceu um pequeno pacote.
— Isso vai te fazer sentir bem — disse uma voz sussurrada.
O Lían do coma assistiu, impotente, seu eu mais jovem aceitar a oferta. Ele se lembrava daquele dia, da sensação de estar flutuando, da falsa paz.
A cena mudou. Agora, com 15 anos, ele discutia com a mãe.
— Eu já te disse que não uso mais! Por que você não acredita em mim? — gritou, enquanto a mãe tentava acalmá-lo.
— Lían, meu filho, por favor, me deixe te ajudar. Eu só quero o seu bem — ela respondeu, a voz embargada. Lían, o homem em coma, sentiu a mesma raiva e a mesma dor, sabendo que a mentira era apenas um escudo.
O tempo avançou. Aos 19 anos, Lían encarou a mãe.
— Mãe, desiste de mim! Eu já desisti de mim há muito tempo e a senhora também deveria ter desistido — ele disparou, com uma crueldade que só o desespero consegue produzir.
Lían, agora viu-se com 19 anos. A mãe, com o coração partido, viajou para o exterior com Yuna, a irmã mais nova de Lían, deixando-o sozinho com suas escolhas. Lían, no coma, assistiu a si mesmo, aos prantos, enquanto se afogava na solidão, sabendo que havia empurrado para longe as únicas pessoas que o amavam.
Após o tormento, a paisagem se transformou. Diante dele, apareceu um homem radiante e em paz, a versão de Lían que ele nunca pensou que existiria.
— Quem é você? — perguntou Lían, a voz fraca. O outro sorriu.
— Eu sou você, Lían. O que você pode ser. — disse o outro.
O Lían do coma, incrédulo, olhou para a sua versão do futuro, que parecia tão sólida e cheia de vida.
— Mas como? Eu falhei. Eu destruí tudo. —sussurrou.
— Não, você não destruiu. Você apenas se perdeu. — respondeu o Lían do futuro. — É hora de se encontrar.
Os dois conversaram por horas, e o Lían do futuro lhe deu um choque de realidade.
— Você tem que se perdoar, Lían. E depois, tem que se reconciliar com a sua mãe. Pedir perdão por todas as palavras que a magoaram. — disse o Lían do futuro, a voz suave e firme. — Você tem que cuidar de si, e cuidar de quem te ama. Sua irmã, Yuna, precisa de você.
O Lían em coma, com lágrimas nos olhos, sentiu um desejo avassalador de viver, de ser aquele homem. Uma porta surgiu. O Lían do futuro o incentivou a atravessá-la, mas antes disso, lhe disse: "Seja forte, Lían. Eu acredito em você".
Quando Lían abriu os olhos, o teto branco de um quarto de hospital o recebeu. O aroma de desinfetante flutuava no ar. A primeira pessoa que viu foi sua irmã, Yuna, que estava sentada numa poltrona ao lado da cama, lendo um livro. Ela parecia exausta, mas seus olhos brilharam com alívio.
— Lían! Você acordou! — ela disse, atirando o livro no chão e correndo para abraçá-lo. — Eu sabia que você ia voltar.
Lían a abraçou de volta, sentindo o calor e o amor que a muito tempo havia esquecido.
Ao acordar do coma, com o abraço de Yuna, Lían sabia que o caminho seria longo, mas não mais solitário. Ele se lembrava das palavras de do Lían do futuro. A jornada de perdão e de redenção seria árdua, mas ele, pela primeira vez em muito tempo, sentia a esperança florescer em seu peito.
— Eu vou me reconciliar com a nossa mãe, Yuna. — ele prometeu. — Eu vou fazer as coisas darem certo.
Aos poucos, ele estava pronto para se curar.
Após se recuperar, Lían decidiu iniciar terapia. Sua irmã, Yuna, o indicou à Dra. Zayra, uma psiquiatra notável. Inicialmente, a Dra. Zayra conversou com Yuna, solicitando-lhe que explicasse a situação de seu irmão.
Yuna então relatou:
— Meu irmão se envolveu com drogas aos 11 anos de idade. Nossa mãe tentou ajudá-lo, mas ele não aceitou. Ele, na realidade, havia desistido de qualquer possibilidade de ser salvo daquele estilo de vida. Quando ele completou 19 anos, minha mãe e eu nos mudamos para a Flórida, onde nossa mãe possuía uma residência. Foi um período extremamente difícil para todos nós, mas, ainda assim, minha mãe afirmava que era a única alternativa. Ela disse que meu irmão precisava aprender a viver por conta própria e que aquilo era uma escolha dele, e que ela, naquele momento, não podia fazer mais nada. Eu tinha apenas 14 anos. Agora, com 18 anos, meu principal objetivo é auxiliar meu irmão, apesar de tudo o que ele me disse...
Yuna concluiu sua fala com a voz embargada e uma expressão de profunda tristeza.
Dra. Zayra expressou sua gratidão pela sinceridade dos fatos:
— Agradeço a sinceridade e a profundidade de seu relato, Sra. Yuna. As informações que a senhora me forneceu são de extrema importância para a compreensão da dinâmica familiar e do contexto no qual o Sr. Lían se encontra. Com base no que foi exposto, considero fundamental que iniciemos as sessões com ele para uma avaliação direta e, a partir daí, elaborarmos um plano terapêutico adequado. Há algo mais que a senhora julgue relevante adicionar neste momento?
— Acredito não doutora. — disse Yuna, concluindo a conversa.
Na primeira sessão de terapia com Lían, a Dra. Zaira iniciou a conversa com uma abordagem direta e acolhedora:
— Lían, a gente não vai falar de drogas. A gente vai falar de você. Do que você sente falta, do que você queria ser.
Surpreso com a proposta, Lían refletiu por alguns instantes antes de responder:
— O que eu queria ser... Bem, quando eu era criança, meu maior sonho era ser fotógrafo.
Um sorriso sutil surgiu em seu rosto ao recordar.
Disse ele:
— Sempre gostei de apreciar fotografias e ouvir música. Às vezes, eu até cantava, quando minha voz ainda não estava comprometida pelo uso de substâncias.
A Dra. Zaira demonstrou genuíno interesse na revelação de Lían, incentivando-o a continuar a explorar suas memórias:
— Isso é esplêndido! Recordar seus sonhos e aspirações é um sinal de progresso significativo.
Após diversas sessões, a Dra. Zayra fez um convite a Lían:
— Você gostaria de me acompanhar em uma exposição de fotografias em um museu de arte no sábado, às 8h da manhã?
Um sorriso genuíno se formou no rosto de Lían, que prontamente aceitou o convite:
— Eu adoraria!
No sábado, durante a exposição, eles encontraram Mia, a melhor amiga da Dra. Zayra. Após as saudações, a Dra. Zayra os apresentou formalmente:
— Lían, esta é minha melhor amiga, Mia. Mia, este é Lían. No consultório, ele é meu paciente, mas aqui ele está na condição de meu amigo.
Mia se dirigiu a Lían com cordialidade:
— Que coincidência nos encontrarmos aqui! É um prazer conhecê-lo, Lían.
Lían respondeu de forma educada:
— Igualmente.
A Dra. Zayra recebeu uma ligação urgente e precisou se ausentar, deixando Mia e Lían sozinhos na exposição. Eles iniciaram uma conversa, e Mia, com cautela, abordou um assunto delicado:
— Lían, serei direta. Há quanto tempo você está limpo?
Lían, surpreso, questionou:
— Como assim? A Dra. Zaira lhe contou algo?
Ele foi interrompido por Mia, que esclareceu a situação:
— Não, de forma alguma! A Zayra é extremamente profissional em relação ao seu trabalho. É que eu também sou uma ex-dependente química, então consigo reconhecer a situação facilmente, entende?
Lían respondeu com compreensão:
Compreendo. Mas como você conseguiu? É tão difícil!
Mia respondeu elevando sua voz e com um olhar fixo em Lían:
— Para de se tratar como vítima, Lían. Você não é um coitado. Você errou, sim, mas a sua história não acaba aqui. A gente não pode controlar tudo o que acontece na vida, mas pode escolher como reage a isso.
Mia dirigiu-se para fora do museu e Lían permaneceu em estado de profunda reflexão.
Devido a uma reforma no consultório da Dra. Zayra, a sessão de terapia de Lían, agendada para uma terça-feira, ocorreu na residência da psicóloga. Nesse encontro, Lían teve a oportunidade de conhecer a mãe da Dra. Zayra, a Sra. Maya. A consulta seria realizada no consultório doméstico da Dra. Zayra, mas momentos antes do início da sessão, Lían e a Sra. Maya tiveram uma breve conversa na sala de estar.
A Sra. Maya questionou Lían sobre seu histórico de uso de drogas:
— Então Lían, há quanto tempo usa drogas?
Ele respondeu com arrependimento:
— Desde os 11 anos de idade.
A Sra. Maya, em um gesto de assentimento, compartilhou suas experiências de vida com o objetivo de incutir em Lían valores de retidão e a noção da realidade.
— Sabe Lían, minha vida foi marcada por uma constante luta pela subsistência, após o falecimento de meu pai ainda na infância. Minha mãe, apesar de não ter sido a mais exemplar, sempre proveu o necessário, ensinando-me a importância da honestidade, mesmo que sua prática fosse difícil. Escute bem o que eu vou te dizer: "A vida é uma caixinha de surpresas. A gente cai, mas se a gente tiver um pingo de coragem, a gente se levanta. O importante não é cair, é se levantar." Lembre-se sempre disso.
Após a sessão de terapia, Lían regressou a casa com a intenção de escrever uma carta à sua mãe. Nela, ele pretendia expor todos os acontecimentos de sua vida e, acima de tudo, buscar o seu perdão. Ao colocar a caneta sobre o papel, ele não imaginava que cada palavra seria um passo em direção à reconciliação de uma família que, embora fragmentada pelo tempo e pela dor, ainda mantinha a esperança de um novo começo. Cada linha escrita era um testemunho de sua jornada, um pedido sincero de cura e um alicerce para a reconstrução de um amor que nunca se desfez.