Capítulo 1 - O peso dos anos
Arabella Forbes tinha 64 anos, aposentada e residente na Suíça há mais de quatro décadas. Sentada na varanda de sua casa, com vista para os Alpes, ela observava o céu cinzento enquanto acalentava o chá quente em suas mãos enrugadas. Seus filhos – Martíno, de 47 anos; Isaac, de 48 anos (pois ele tinha 8 anos quando ela tinha 17); Levy, de 27 anos; e Álvaro, de 26 anos – já viviam suas próprias vidas, mas ela carregava cada detalhe de sua história como uma pedra no peito.
Capítulo 2 - O passado que não foge
Quando Arabella tinha 17 anos, morava em Portugal com seus pais e o irmão Isaac, de 8 anos. Um abuso deixou-a grávida, e seus pais, rígidos e convencidos de que ela havia desonrado a família, a expulsaram de casa sem hesitação. Com o filho Martíno recém-nascido, ela se refugiou em um abrigo, trabalhando desde os 12 anos em diversos serviços – lavanderia, limpeza doméstica, costura – para sobreviver. Com determinação, concluiu seus estudos um ano antes do prazo, juntou dinheiro para alugar uma kitnet e conseguiu um emprego de meio período em uma loja de artigos de presente.
Seis anos se passaram: Martíno tinha 6 anos, e Arabella conseguiu comprar uma casa melhor em Lisboa. Foi então que recebeu a ligação que mudaria tudo novamente – seus pais haviam falecido há 4 dias em um acidente de trânsito, e a deixaram guardiã de Isaac, que estava em um orfanato desde a morte deles.
Ela passou 2 dias em Portugal: preencheu os documentos do enterro no hospital, foi ao orfanato buscar Isaac – que a abraçou forte, pois eles sempre mantiveram contato por telefones públicos e cartas, escondido dos pais – e finalizou os trâmites de adoção em uma advocacia. Ao voltar para sua casa, apresentou Isaac a Martíno, que fora cuidado pela governanta Joana durante sua ausência. Os dois meninos se deram bem desde o primeiro momento, e Arabella viu em Isaac o filho que sempre considerara, mesmo quando estiveram separados.
Quatro meses depois – com Arabella com 23 anos, Martíno com 6 anos e Isaac com 9 anos – um exame de rotina revelou que Martíno tinha uma falha no rim. A cirurgia custaria 20 milhões de reais, e com seu trabalho, levaria 5 anos para juntar o valor. Desesperada, ela decidiu trabalhar em um bordel para conseguir o dinheiro mais rápido.
Em apenas 2 meses, ela arrecadou o valor necessário e pagou a cirurgia, que teve sucesso. Quando foi se demitir, entretanto, a cafetina mostrou um contrato que ela supostamente havia assinado – com 37 anos de serviços. Arabella ficou confusa e aterrorizada: não havia nada disso no documento que ela leu. Humilhada, sentindo-se suja e enganada, ela saiu do local chorando, sabendo que não tinha forças para brigar naquele momento.
Capítulo 3 - A sentença que não acaba
Com 24 anos, Arabella continuou no bordel; cada dia era um tormento, mas ela manteve tudo em segredo dos meninos, jurando que eles nunca descobririam. Cinco meses depois – com 25 anos – ela desmaiou durante seu turno de atendente em uma loja de roupas. A gerente a socorreu e a levou ao hospital, onde descobriu que estava grávida de 3 meses.
Não teve dúvidas de quem era o pai, mas decidiu manter o bebê. Meses depois, deu à luz a Levy, apresentando-o a Martíno e Isaac como um filho adotivo, explicando que era de uma parente distante que não podia cuidar dele.
Três meses após o nascimento de Levy – com Arabella com 26 anos – Guslav, o homem que a havia abusado quando tinha 17 anos, a encontrou na rua em frente à loja. Ela tentou fugir, mas ele a alcançou, jogou-a dentro do carro e a abusou novamente. Sem forças para se defender de seu corpo grande, ela só conseguia chorar e pensar quando aquele inferno acabaria.
Meses depois, ela deu à luz a Álvaro. No mesmo instante, pediu para retirar seus ovários e útero – não queria correr o risco de engravidar novamente, nem de sentir mais aquela dor. Com 27 anos, ela tinha quatro filhos para cuidar, e ainda estava presa ao contrato do bordel.
Capítulo 4 - O presente que acolhe
Agora, aos 64 anos, Arabella olhava para as fotos em cima da mesa de centro – seus filhos todos felizes, com famílias próprias. O contrato do bordel havia acabado há mais de uma década, e ela conseguiu construir uma vida estável na Suíça após anos de luta. Nem todos sabiam a verdade sobre seu passado, mas ela carregava cada parte da história como parte de quem era – uma mulher que nunca desistiu de proteger aqueles que amava, mesmo quando o caminho fosse o mais cruel possível.