No refúgio, onde estavam reunidos todos que se opunham ao maldito império, Grigs, após conhecer os habitantes e se sentir à vontade naquele lugar, decidiu escrever um livro que registrasse suas visões. Ele o chamou de "A era sagrada". Além de escrever, Grigs compartilhava suas profecias com os soldados da Ordem dos Caçadores, que se sentiam inspirados por aquelas histórias. No entanto, uma coisa lhe intrigava: ele nunca via o líder deles ali. Por mais que quisesse conhecê-lo, o homem permanecia ausente.
Certo dia, quando o sol brilhava intensamente no céu, algo estranho aconteceu. Um murmúrio inquieto percorreu o refúgio. Pessoas apontavam para o alto, seus rostos tomados pelo espanto.
A lua surgia no firmamento.
Mas como isso era possível? Era apenas meio-dia.
Os religiosos logo entenderam o que aquilo podia significar. A última vez que um eclipse ocorreu foi ainda na época em que os deuses viviam na terra, e naquele dia, algo terrível aconteceu.
Tyla se aproximou de Grigs, seus olhos arregalados refletindo o temor que lhe tomava o peito.
— O que está acontecendo, Grigs? _A voz tremia. — Você teve alguma visão sobre isso? Se teve, me diga agora... Isso não é algo com o que devemos nos preocupar?
Grigs virou-se lentamente para ela. Seu rosto estava pálido, e suas mãos apertavam com força o livro que escrevia. Ele engoliu em seco antes de responder, sem tirar os olhos do céu.
— Eu... não tive nenhuma visão sobre isso.
O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer resposta. Se nem Grigs previu aquilo, então ninguém sabia o que estava por vir. Os caçadores, por mais fortes que fossem, começaram a lançar olhares inquietos uns aos outros. Eles não conheciam o que se escondia nas trevas, mas sabiam que aquilo estava apenas esperando pela escuridão total para surgir.
De repente, Tyla se virou, seu olhar firme, gritou para um dos guerreiros da ordem:
— Onde está o líder de vocês? Ele ainda não voltou?!
O guerreiro hesitou, trocando olhares com seus companheiros antes de responder:
— Não, senhorita Tyla... Ele ainda não apareceu.
A inquietação se espalhou pelo refúgio. Os sussurros tomaram conta do lugar.
O tempo passou, e a lua continuou avançando no céu. Agora, cobria metade do sol, algo parecia errado com ela.
Era enorme. Anormalmente próxima da Terra.
Até que, por fim, a lua se colocou diante do sol por completo.
A luz desapareceu.
Não só o refúgio foi engolido pela escuridão total, mas o mundo também.
A única fonte de claridade era a fogueira que um guerreiro havia acendido ao centro do refúgio. Nenhuma estrela brilhava no céu. Nenhuma chama além daquela.
A noite havia caído ao meio-dia.
E todos sabiam o que isso poderia significar.
Minutos se passaram, e um silêncio anormal tomou conta do refúgio. O tempo parecia suspenso, e o medo, que antes corroía a todos, começou a se dissipar. Talvez estivessem errados. Talvez tudo não passasse de um susto.
O eclipse era apenas uma lenda?
Quem dera…
Porque, uma hora depois, os sons começaram.
Primeiro, foram gemidos baixos e pegadas vacilantes, abafadas pela escuridão. Depois, os ruídos cresceram. Choros. Gritos. Grunhidos guturais ecoando no refúgio.
Eles apareceram.
A princípio, ainda tinham aparência humana. Mas algo estava terrivelmente errado. Seus rostos estavam deformados, os olhos tomados por uma escuridão profunda, sem alma. De suas órbitas vazias, escorria uma substância viscosa, negra como a "noite" sem estrelas acima deles.
A pele, pálida e enrugada, parecia se desfazer em cascas finas, como ovos se quebrando aos poucos. E suas bocas…
De suas bocas escorria um sangue negro e espesso.
Eles não eram apenas cadáveres ambulantes. Eles estavam se transformando.
Aqueles que, horas atrás, eram humanos agora estavam no limiar da monstruosidade _E continuavam evoluindo. Em breve, seriam algo pior. Algo demoníaco.
Então, veio o som mais terrível de todos.
Os gritos.
Algo angustiante, um lamento de dor e fúria. No meio da cacofonia, ouviam-se soluços desesperados. Como se parte deles ainda estivesse consciente do que estavam se tornando.
Mas não por muito tempo.
As criaturas se lançaram em um frenesi, pulando e correndo em todas as direções, sedentas por sangue. Quando avançaram contra os habitantes do refúgio, o terror tomou conta de todos.
Os caçadores instintivamente sacaram suas armas e formaram uma linha de defesa.
Tyla pegou uma espada e se preparou para lutar ao lado deles, mas, antes que pudesse avançar, um dos guerreiros segurou seu braço com firmeza.
— Não! Fique para trás!_ordenou ele, com seus olhos fixos nos horrores que se aproximavam.
Tyla hesitou. Ela queria lutar. Mas algo no olhar daquele guerreiro a fez recuar.
Enquanto isso, Grigs apenas fechou os olhos e começou a murmurar uma oração. Ele sempre recorreu à fé em momentos de perigo, mas nenhuma ameaça antes se comparava a essa.
Os civis — ferreiros, mulheres, crianças, idosos — desmoronaram em desespero. Alguns choravam, abraçando seus entes queridos. Outros tremiam, rezando para qualquer divindade que pudesse ouvir. Alguns simplesmente desmaiaram, incapazes de suportar o horror diante deles.
E então, na mais profunda manifestação de desespero…
Alguns tiraram a própria vida.
Porque, diante daqueles monstros, não conseguiam acreditar que houvesse uma maneira de vencê-los.
— Então... esses são os amaldiçoados? Com a mazela da escuridão correndo em seus sangues? _Tyla se pergunta com a voz trêmula, os olhos arregalados observando os guerreiros lutarem contra aquelas criaturas sedentas por sangue.
Enquanto a batalha entre os guerreiros e os amaldiçoados se intensificava, o cansaço e o desespero começavam a cobrar seu preço.
Um dos guerreiros, já no limite da exaustão, golpeava as criaturas com brutalidade, o sangue negro espirrando em sua armadura e rosto. Seu peito subia e descia em respirações ofegantes, a raiva queimando em seus olhos.
Então, ele gritou, sua voz carregada de ódio e frustração:
— Onde está ele?! O que caralhos ele está fazendo agora?!
Ele enterrou a lâmina no peito de uma das criaturas, empurrando-a contra o chão com violência.
— Mas que porra de líder de merda é esse, que some na escuridão e abandona o povo que sempre o apoiou?!
Cada golpe seu era de fúria e desespero, como se, no fundo, ele soubesse que estava lutando contra algo impossível. Mas, foda-se. Enquanto tivesse forças, ele mataria cada um daqueles desgraçados.
O campo de batalha estava perdido. Os guerreiros estavam afundados até o pescoço em sangue, seus corpos cobertos de feridas e exaustão. A última resistência parecia uma piada, e os gritos das criaturas ecoavam pelo refúgio. O pavor estava no ar, uma névoa escura que sufocava qualquer esperança. Mas então, algo mudou.
O som da luta foi interrompido por um ruído crescente, como se o próprio chão estivesse tremendo. Os olhos, antes fixados no caos à sua volta, se voltaram para a sombra que avançava pela escuridão.
Aquele que personificava a morte, apareceu... O líder.
A primeira coisa que qualquer um notou foi a aura de pura destruição que emanava dele. Com uma máscara cobrindo o nariz e boca, sua armadura negra, sombria como a noite, brilhava com um tom vermelho vibrante nos detalhes. Cada placa era um reflexo de batalha, amassada, rachada, mas ainda assim, forte. As ombreiras, que mais pareciam garras afiadas, se erguiam com imponência, enquanto o peitoral pulsava com uma energia ameaçadora, como se a armadura estivesse viva. Cada passo era como o som de um trovão prestes a explodir. Mas o mais impressionante, mais do que a própria armadura ou a postura, era a fúria que o líder exalava.
Ele não estava ali para salvar ninguém com palavras de consolo. Não. Ele estava ali para matar, para acabar com aqueles monstros que estavam destruindo tudo. Ele estava ali para garantir que seus aliados, ainda que cansados, vivessem mais. Ele estava ali para mostrar que ainda havia esperança, mas não uma esperança suave, uma esperança forjada na dor e no sacrifício.
O ar ao seu redor parecia queimar, a fumaça negra que saía de sua lâmina desenhando formas grotescas no ar. A espada, negra como a noite, parecia ter sido forjada nas profundezas do inferno, com uma aura vermelha que a envolvia, como se sua lâmina fosse uma extensão da própria raiva que ele carregava dentro de si. Ele não hesitou. Não parou para observar. Era um corte atrás do outro, uma linha de destruição aberta onde quer que passasse.
O primeiro monstro se aproximou com uma velocidade inesperada, suas garras ávidas por sangue. O líder não fez movimento para desviar. Ele avançou para encontrar o monstro. No mesmo momento, sua espada cortou o ar com uma precisão mortal, o metal rosnando como se fosse uma besta selvagem. A lâmina cortou a criatura ao meio em uma explosão de carne e osso, o sangue negro espalhando-se como tinta. Ele não parou. Avançou para o próximo.
— Filho da puta! _Ele gritou com sua voz rouca, como se estivesse engolindo todo o ódio que o mundo tinha para oferecer
— Vão morrer, desgraçados!
Ele cortava sem piedade, seu corpo inteiro parecendo imerso na raiva e no caos, mas seus movimentos eram calculados. Ele não estava completamente fora de controle. Não estava perdido no frenesi. Mas a intensidade com que ele atacava fazia parecer que ele estava destruindo cada um daqueles monstros com um único pensamento: eles não tinham o direito de continuar respirando.
Um guerreiro, exausto e sangrando por todos os lados, viu o líder avançar com a fúria de uma tempestade e não pôde deixar de gritar o nome dele em um momento de desespero e admiração.
— Kael, caralho! Vai devagar.. você vai se matar assim!
Mas Kael não parou, não se virou. Ele estava com os olhos fixos no próximo alvo, e nada mais importava. A máscara que cobria apenas sua boca e nariz tremia com cada respiração, mas os olhos, aqueles olhos expostos, brilhavam com a ferocidade de um predador.
Os guerreiros, alguns com as mãos nas espadas e outros tentando recuperar o fôlego, olharam com uma mistura de alívio e espanto. Aquilo era Kael, o líder deles, mas parecia que ele tinha se tornado algo mais. Eles sabiam o que ele era capaz, mas ver aquilo… a fúria sem limites, a precisão mortífera com a qual ele cortava os monstros, fez com que até os mais experientes hesitassem por um momento. Não era apenas a força física, era a presença dele. Eles o seguiam não só por respeito, mas por medo também.
Tyla, ao longe assistia com o coração acelerado. O som do combate e as explosões de sangue e carne ao redor pareciam irrelevantes, pois Kael, com aquela aura de destruição, capturava toda a sua atenção. Ela sempre soube da força dele, mas nunca dessa maneira crua. Ele parecia imortal, uma força da natureza. Mas, ao mesmo tempo, havia algo nele que a fazia sentir uma mistura de admiração e apreensão. Ela não podia negar que aquilo a aterrorizava, mas também a fazia se perguntar se eles teriam alguma chance de sobreviver sem ele.
Grigs estava em um canto assistindo tudo com os olhos arregalados. Enquanto um ferreiro chamado Hermo, que estava mais focado em proteger os civis e dar ordens do que em lutar diretamente, viu Kael avançar como um furacão e murmurou para si mesmo:
— Esse desgraçado... se ele continuar assim vai acabar com tudo... mas é isso que precisamos... Só ele pode...
Mas havia um lado sombrio na forma como Kael lutava. Hermo sentia que se Kael continuasse assim, não restaria nada e nem mesmo eles, seus próprios aliados. Ele foi para dentro de um abrigo ali no refúgio, como se tentasse se esconder um pouco mais da violência que estava diante dos seus olhos.
Os civis estavam em pânico, alguns gritando e outros chorando e tentando correr para fora daquele lugar, mas as criaturas e Kael estavam lutando justamente na saída do refúgio. A visão de Kael tão selvagem, gerava uma reação contraditória. Eles sabiam que ele estava ali para proteger, mas a cena parecia mais com um deus da guerra que marchava para dizimar tudo. As mães abraçavam seus filhos, os velhos se arrastavam tentando entender se aquele homem era o que eles precisavam ou o que poderia levá-los todos à destruição. No fundo, todos queriam acreditar que ele era o herói, mas o preço de sua força parecia alto demais para ser pago.
Kael não se importava com nada disso. Ele estava ali mas não para responder perguntas, e sim trazer uma verdade simples: quem se atrevesse a cruzar seu caminho seria apagado. Ele limpou a espada e ignorou tudo ao redor, olhando para seus guerreiros.
— Vamos, seus inúteis!! _Ditou com sua voz grossa enraivada.
— Ainda temos trabalho a fazer.
Com isso, ele girou a espada preparando-se para continuar. A batalha não tinha acabado, não até ele ter matado todos os malditos que se atreveram a invadir o refúgio.