Há muito tempo atrás esta borboletinha que lhes conta esta história presenciou algo inusitado. Debaixo de uma grande árvore com folhas amarelas, havia um moço de cabelo raspado, pele escura e olhos tristes. Ele escrevia em um papel amaçado forçosamente. Seus olhos castanhos derramavam lágrimas e seus dentes tortos mordia uma pele da boca. Tentei de todas as formas bisbilhotar o que ele andara escrevendo, mas sempre me espantava com um rude aceno.
Senti uma vibração estranha na minha asa esquerda, sinal de que alguém estava em perigo por perto. Voei o mais rápido que pude e vi uma pequena menina com um vestido azul chorando. Fui tentando me aproximar dela, seu rosto estava vermelho vivo de tanto que chorou. Seus cabelos pretos estavam embaraçados sob um chapéu de palha com uma fita laranja.
Observando agora seu vestido mais próximo, estava horrível. A barra de renda que estava ali só tinha alguns poucos pedaços restante. Um rasgo partia o tecido de seda até perto da cintura. O cinto de flores que decorava ali em outra época agora era formado por pequenos fiapos de linha solta. As mangas do vestido lhe caiam por sob os ombros.
- Por onde essa menininha andou?
- Eu caí. – O susto que tomei fez minha asa direita bater uma porção mais forte. Isso não era um bom sinal. A pequena mocinha me olhou e secou os olhos.
- Você me entende?
- É claro que sim, senhora borboleta azul.
- Oh, é a primeira vez que isso me acontece!
- Deve ser tão solitária e triste como me sinto agora. – E seu rostinho voltou a ficar tristonho.
- Ah não mocinha. Não sou solitária e triste. Na verdade, tenho muitos amigos.
- E onde eles estão agora?
- Por aí.
- Por aí onde?
- Não sei exatamente onde. Por enquanto quero saber o motivo de tamanho escândalo. Pude ouvi-la do outro lado da praça.
- Eu saí de casa mais cedo atrás de um sabiá que cantava lindamente. Mas seu canto começou a ficar muito longe e quanto mais eu o tentava achar mais distante de casa eu ficava.
- E agora não consegue encontrar o caminho de volta né?
A menina balançou a cabeça. A borboleta decidiu que a ajudaria encontrar sua casa. Começaram a caminhar enquanto a dona borboleta lhe perguntava como era sua mãe. Como sua mãe se chamava. Mas a menina não se lembrava de nada, era muito pequena e assustada como estava não conseguia parar para pensar. A praça estava tão vazia quanto o casulo que a borboleta deixara mais cedo.
Enquanto voava em círculos a borboleta teve uma grandiosa ideia. Pediria ao menino chorão que levasse a menina chorona para casa, pois suas pequenas asinhas já estavam cansadas. Aquele choro interminável estava acabando com ela.
- Mocinha, você está vendo aquele menino? Ele poderá te ajudar, vá até ele e lhe peça ajuda.
- E por que você mesmo não pede dona borboleta? Tenho medo. Mamãe disse que não posso conversar com estanhos.
- Tudo bem, esse é um conhecido meu. E minha antena esquerda avisaria se ele fosse ruim. É um dom que herdei da minha tia borboleta branca.
- Oi menino.
O rapaz que continuava a rabiscar seu papel olhou brevemente para cima. Seus olhos iam se abrindo cada vez que ele encontrava um detalhe diferente na menina. As roupas rasgadas e sujas. Um arranhão na bochecha. A meia calça cheia de buracos. Quando ele não respondeu a borboleta encorajou a para continuar.
- Preciso que me ajuda a voltar para casa. Quero muito a minha mãe. Ela está triste e sozinha. Não posso deixar ela sozinha.
- Não posso agora! Estou ocupado.
E voltou para seus rabiscos. A menina já dava meia volta quando a borboleta pousou em seu nariz, ela não poderia sair dali sem a ajuda do menino.
- Eu preciso muito da minha mãezinha, sabe o que aconteceria com ela se eu não voltasse para casa? Ela morreria!
- E por que isso aconteceria? Ela é uma mulher que pode ter mais filhos e viver uma vida feliz. E o próximo filho até seja mais obediente e não saia sozinha.
A menina juntou as sobrancelhas e comprimiu os lábios, pousando as pequenas mãozinhas na cintura disse-lhe:
- Olha seu menino mal educado! Eu me distraí e parei aqui. Mamãe poderia ficar um milhão de vezes brava, por minhas travessuras, mas nunca desejaria não me encontrar mais. Pode ter muitos filhos e nenhum vai ser como eu.
Algo nos olhos do menino mudou, não era mais raiva que os assombrava. Agora era tristeza. Ele se levantou e a menina se encolheu pensando que levaria uma bronca agora, ou até um peteleco no nariz. Mas ele disse.
- Vamos, me diga como é sua casa e vou encontra-la.
Deixou seu rabisco no chão e por mais curiosa que a borboletinha estivesse correu para acompanha-los. A menina então alegremente começou a tagarelar como é sua casa. As paredes do seu quarto são rosa, sua caminha tem pelúcias desde uma mini baleia rosa até um sapo gigante verde. Sua porta é laranja com uma girafa que sua mãe pintou ali. Falou sobre a sala em que ela e a mãe se divertem jogando xadrez e diz que sua mãe lhe ensinou que o segredo de jogar xadrez é colocar todas as peças pretas nos quadradinhos brancos e todas as peças brancas nos quadradinhos pretos antes de seu oponente. A borboleta conseguiu ver o sorriso de canto que o menino contou.
Ela também acrescentou que no quintal de sua casa tem um balanço de madeira e que ela e sua mãe pintaram várias joaninhas nas superfícies. Quando a menina chegou à parte importante o menino até diminuiu a velocidade dos passos.
- A frente da casa tem uma cerca, com um pequeno portão de trinco. A casa é inteirinha branca e tem um número na frente. O número é o dois com o cinco e o um e o três.
- Ei espera tem uma casa assim na minha rua. Mas eu não sabia que alguém morava lá.
- É que mamãe ama o silêncio, então brincamos a noite quando todos estão dormindo.
E assim o menino acompanhou aquela garotinha até o portão quebrado. O rosto dele era uma careta para a casa velha a sua frente. O mato tomava conta das cercas e da varanda de frente.
- Menino é essa mesmo! Ai que felicidade, agora posso voltar para minha mamãe. Obrigada Gabriel, obrigada senhora borboleta.
O menino sorriu e caminhou para sua casa no final da rua. Agora estampava um sorriso no rosto e não via a hora de encontrar sua mãe. A borboleta prometeu ver as brincadeiras da menina mais tarde. Agora era hora de ver o menino. Entrou em casa com ele e viu o primeiro lugar que ele foi, para a cozinha onde sua mãe lavava alguns pratos.
- Mãe? Posso te dar um abraço? – A mãe se virou e abraçou o menino com as roupas molhadas, mas ele não se importou. – Ô mãe, quem mora naquela casa com cerca no começo da rua?
- A dona Helena, coitada.
- E a filha dela como chama?
- Ah, a pequena Lara! Aquela menina era tão linda! Depois de tanto tempo Dona Helena ainda chora pela filha. A perca dela foi uma tristeza para o bairro. Lembro-me dela naquele dia, o vestido azul com flores, a meia calça branca, o chapeuzinho que ela usava. Uma boneca. Dona Helena nunca suportou perder a filha. Ela é forte, ainda sim conseguiu criar mais dois filhos. Se fosse comigo eu morreria junto com você.
O rosto do menino se contorceu em terror.
A borboleta contente voltou para o parque assim que viu o menino abraçando sua mãe. Voou para onde o desenho do menino ainda estava. Esperou até que um vento virasse a folha. Tamanho susto que levou a borboleta suas asas paralisaram.
O menino não estava escrevendo, era um desenho. Os traços grossos indicavam o que ele estava prestes a fazer. A borboleta foi levada junto com a folha quando a tempestade chegou.