Denyse Vicentini
Jovem de 21 anos, estudante, sensível, leal e sonhadora. Ao conhecer Vittorio, vê surgir um sentimento novo e confuso, que a coloca diante de um dilema entre o coração e a lealdade à amizade.
Vittorio Ferraz
45 anos, empresário bem-sucedido, carismático, reservado e envolto em um ar de mistério e segurança. Pai de Mariana; inicialmente educado e distante, acaba se deixando envolver pela presença de Denyse.
Mariana Ferraz
20 anos, melhor amiga de Denyse. Alegre, confiante e muito próxima do pai. É o elo que une os dois — e também o maior obstáculo para o sentimento proibido que surge.
🧩 Secundários
Sofia Ferraz
Ex-esposa de Vittorio e mãe de Mariana. Independente, fria em alguns momentos, ainda mantém contato com a família; representa pressão social e familiar sobre todos.
Carlos Vicentini
Pai de Denyse. Homem tradicional, valoriza muito princípios e reputação; sua visão conservadora aumenta o peso do segredo da filha.
Luiza Vicentini
Mãe de Denyse. Mais compreensiva, mas também preocupada com o futuro da filha e com o que os outros diriam, caso a verdade viesse à tona.
Rafael Mendes
Amigo de longa data de Denyse, secretamente apaixonado por ela. Percebe as mudanças no comportamento dela e tenta alertá-la, servindo como voz da razão.
5 meses antes
Se alguém me perguntasse, naquela época, como eu imaginava o meu futuro, eu responderia sem pestanejar: tranquilo, previsível e cercado das pessoas que eu mais amava. Aos 21 anos, a minha vida seguia um ritmo que eu achava perfeito: cursava o segundo ano da faculdade de Direito, morava com os meus pais numa casa simples mas cheia de carinho, tinha uma rotina organizada e, acima de tudo, contava com a presença constante de Mariana — a minha melhor amiga, a minha irmã de alma, quem me acompanhava desde os oito anos de idade.
Nós éramos inseparáveis. Não havia segredos entre nós, nem limites para a confiança que construímos ao longo de tantos anos. Por isso, a casa da família Ferraz era para mim como uma segunda morada. Eu entrava e saía sem bater, conhecia cada corredor, cada detalhe da decoração, sabia onde ficava tudo na cozinha e tinha até um lugar marcado à mesa de jantar. Os funcionários da casa já me recebiam com sorrisos, como se eu fosse parte da família, e a mãe de Mariana, Sofia, embora um pouco reservada, sempre me tratou com educação e respeito.
Mas havia uma presença que, por mais que eu ouvisse falar, nunca tinha conhecido pessoalmente: Vittorio Ferraz.
Mariana falava dele com uma admiração que parecia não ter fim. Contava que ele era um homem de palavra, extremamente trabalhador, que construiu todo o seu império empresarial com esforço e determinação. Dizia que ele tinha um senso de justiça muito forte, que era protetor ao extremo e que, mesmo passando dias inteiros fora por causa de viagens e reuniões importantes, nunca deixava de estar presente na vida da filha quando mais precisava.
— Ele é diferente de todos os homens que você conhece, Denyse — repetia ela, sempre com um brilho especial nos olhos. — Tem um jeito calmo, mas quando fala, todos ouvem. Parece ver as coisas que ninguém mais percebe.
Para mim, porém, Vittorio continuava sendo apenas uma ideia, uma figura distante, um nome mencionado em conversas. Durante esses cinco meses que antecederam aquele encontro, ele nunca estava em casa quando eu ia visitar Mariana. Sempre havia um motivo: uma viagem de negócios ao exterior, uma reunião que durava dias, um compromisso urgente que não poderia ser adiado. Às vezes, eu até me perguntava como seria esse homem que despertava tanta admiração na minha amiga, mas a curiosidade era leve, passageira, sem peso algum.
No fundo, eu não via nele nenhuma possibilidade de se tornar algo mais do que o pai da minha melhor amiga. Para mim, as coisas tinham uma ordem clara, limites bem definidos. Eu sabia distinguir o que era certo do que era errado, valorizava acima de tudo a lealdade e jamais imaginaria ser capaz de sentir algo que pudesse colocar em risco o laço mais importante da minha vida. O meu coração, até então, estava tranquilo, sem nenhuma confusão, sem nenhum segredo.
Eu ainda não sabia, porém, que o destino gosta de desafiar as nossas certezas mais sólidas. Que ele costuma colocar no nosso caminho situações que nunca pensamos viver, sentimentos que nunca imaginamos ser capazes de sentir.
Naqueles dias, a cinco meses de distância do momento em que os nossos olhares se cruzariam pela primeira vez, Vittorio Ferraz era apenas uma história contada por Mariana. Eu não fazia ideia de que, quando ele finalmente aparecesse, tudo o que eu acreditava, tudo o que eu tinha como regra, iria desmoronar pouco a pouco. Não imaginava que aquele homem, tão próximo por vínculo e tão distante até ali, se tornaria a minha maior tentação, o meu pensamento mais frequente, o meu segredo mais proibido e, no final, o amor que iria virar de cabeça para baixo a minha existência.
E o tempo, que parecia correr devagar e sem surpresas, já contava os dias para que tudo mudasse de vez.
O mês de julho chegou trazendo consigo uma mudança suave no clima, mas uma sensação imensa de liberdade. Para mim, Denyse Vicentini, com meus vinte e um anos recém-completados e cursando o segundo ano de Direito, o início das férias universitárias significava apenas uma coisa: deixar para trás a rotina de provas, trabalhos e horários apertados, e entregar-me aos dias leves e sem pressa. E, claro, passar ainda mais tempo ao lado de Mariana Ferraz — minha melhor amiga, minha irmã de alma, quem compartilhava comigo segredos, sonhos e momentos desde que eu tinha apenas oito anos de idade.
Nós éramos inseparáveis. Tão próximas que a casa da família Ferraz, uma residência ampla, cercada por um jardim imenso e bem cuidado, com árvores altas que davam sombra e flores que espalhavam um perfume doce por todo o ar, havia se tornado, ao longo dos anos, uma espécie de segundo lar para mim. Eu entrava e saía sem bater, conhecia cada corredor, cada canto da biblioteca, cada detalhe da cozinha e tinha até um lugar reservado à mesa de jantar. Os empregados já me recebiam com sorrisos, como se eu fosse parte da família, e Sofia, a mãe de Mariana, embora reservada e de poucas palavras, sempre me tratou com educação e respeito.
Mas havia uma presença importante que, durante esses cinco meses que antecederam o início das férias, eu nunca tinha tido a oportunidade de conhecer pessoalmente: Vittorio Ferraz.
Mariana falava dele com uma admiração que parecia não ter fim. Contava que ele era um homem que construiu todo o seu império empresarial com muito esforço, dedicação e honestidade, vindo de uma origem humilde até se tornar um dos homens mais bem-sucedidos e respeitados da região. Descrevia-o como alguém de palavra, com um senso de justiça rígido, protetor ao extremo e com uma calma que parecia acalmar qualquer ambiente ao seu redor. “Ele tem uma presença que faz qualquer um prestar atenção quando fala”, costumava dizer ela, com brilho nos olhos. “E, mesmo que passe dias inteiros fora, nunca esquece de nada do que é importante para mim.”
No entanto, por mais que ouvisse essas histórias, Vittorio continuava, para mim, apenas uma figura distante, um nome mencionado em conversas, sem rosto definido ou voz conhecida. Sempre que eu ia à casa deles, ele estava viajando a negócios, fora do país ou envolvido em reuniões que duravam semanas. A curiosidade existia, sim, mas era leve, sem peso, sem despertar nada além de uma simples vontade de conhecer quem era esse homem tão especial para a minha amiga. Eu jamais poderia imaginar que esse encontro iria transformar completamente o rumo da minha vida.
Naquela tarde de início de férias, eu e Mariana estávamos na área externa, ao redor da piscina, aproveitando o sol suave que iluminava a água cristalina. Deitadas em espreguiçadeiras, com copos de suco gelado ao lado, conversávamos sobre planos para os dias que viriam: passeios, compras, viagens curtas e tardes inteiras só para nós duas. Foi então que ela parou de falar, olhou para mim com um sorriso cheio de expectativa e fez um anúncio que mudaria tudo.
— Denyse, tenho uma notícia que vai mudar completamente esses dias de férias — disse ela, animada. — Meu pai está voltando definitivamente. Ele encerrou todos os projetos que o mantinham fora do Brasil por tanto tempo e, desta vez, não há mais viagens marcadas. Ele chega hoje à tarde.
Levantei a cabeça, surpresa, mas sem sentir nada além da curiosidade habitual.
— Então finalmente vou conhecê-lo de verdade, não é? — respondi, sorrindo. — Já ouvi tanto falar, que parece até que já o conheço, mas nunca tive essa chance. Espero que ele seja tão legal quanto você descreve.
— Você vai ver — garantiu Mariana, com orgulho. — Ele é diferente de todos os homens que você já cruzou na vida. Tem um jeito de olhar que parece enxergar o que a gente pensa, e uma segurança que faz qualquer um se sentir protegido só de estar por perto.
Continuei conversando e brincando, tentando não dar muita importância. Afinal, ele era apenas o pai da minha melhor amiga. Para mim, as coisas tinham uma ordem clara, limites bem definidos, e a lealdade à amizade era algo que eu jamais imaginaria ser capaz de colocar em risco.
Mas o tempo pareceu correr mais rápido naquela tarde. Pouco antes das seis horas, a casa começou a se mover: os empregados arrumaram a sala principal, colocaram flores frescas nos vasos, prepararam bebidas e petiscos, e tudo ganhou um ar de recepção especial. Quando o relógio marcou seis horas em ponto, ouvimos o som de um carro potente entrando pela portaria e parando em frente à porta de entrada.
Meu coração deu um salto leve, sem explicação, e eu me levantei rapidamente, acompanhando Mariana que já corria animada. Quando a porta se abriu e ele entrou, senti como se todo o ar tivesse parado de circular ao meu redor.
Ali estava Vittorio Ferraz. Alto, com postura elegante e firme, vestido com uma calça de linho clara e uma camisa de botões aberta na gola, que deixava ver parte do seu pescoço. Seus cabelos escuros tinham alguns fios grisalhos nas têmporas, que não envelheciam, mas sim davam um ar ainda mais marcante e atraente ao seu rosto. Seus olhos eram profundos, escuros como a noite, e pareciam observar tudo ao seu redor com uma calma que impunha respeito. Ele exalava confiança, poder e um certo ar de mistério que me deixou paralisada, sem saber como reagir.
Mariana correu e o abraçou com força, e ele a envolveu nos braços com um carinho visível, acariciando seus cabelos como quem cuida de algo muito valioso. Quando se afastaram, ele virou o olhar diretamente para mim. Naquele instante, senti o calor subir pelo meu rosto, chegando até a ponta das orelhas, e o meu coração começou a bater mais forte, como se quisesse sair do peito.
— Papai, essa é a Denyse! — apresentou Mariana, com um sorriso radiante. — A minha melhor amiga, de quem eu sempre falo, que é como uma irmã para mim.
Respirei fundo, lutando para manter a voz firme, embora sentisse as mãos levemente trêmulas.
— Sou Denyse Vicentini. É um prazer conhecê-lo, senhor Ferraz.
Ele deu um sorriso pequeno, educado, mas que trazia uma intensidade que fez o ar parecer mais denso e mais quente ao mesmo tempo. Com uma voz grave, calma e suave, que percorreu todo o meu corpo como um arrepio bom e desconhecido, ele respondeu, mantendo os olhos fixos nos meus:
— Por favor, me chame apenas de Vittorio. O prazer é todo meu, Denyse. Minha filha contou tantas coisas boas sobre você, que já parecia conhecê-la também. Espero que, durante esses dias e daqui para frente, possamos nos conhecer melhor.
Naquele instante, enquanto nossos olhares permaneciam cruzados por mais tempo do que seria considerado normal, eu não fazia ideia do que estava por vir. Não imaginava que, no meio da tranquilidade das minhas férias, tinha acabado de encontrar o homem que viraria o meu mundo de cabeça para baixo. Vittorio Ferraz, o pai da minha melhor amiga, se tornaria, sem que eu pudesse evitar, o meu pensamento mais constante, a minha maior tentação e o amor mais proibido e intenso que eu jamais iria viver.
E ali, sob o sol que se punha devagar, eu dava o primeiro passo para uma história que iria desafiar todas as minhas regras, todos os meus valores e tudo o que eu acreditava ser certo.
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