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A MULHER QUE ENGANOU O CARTEL

PRÓLOGO

Maria

O quarto estava mergulhado em penumbra, aquecido artificialmente contra o frio cortante da noite em Boston, o cheiro de cigarro e sexo ainda pairava no ar, a vibração constante do aquecedor abafava o silêncio tenso do início da madrugada.

Meus olhos estavam abertos havia minutos, mas eu fingia dormir.

Não queria falar, não queria sentir, apenas queria decidir.

Esteban se moveu atrás de mim, sua respiração estava profunda, seu corpo ainda nu, quente contra o meu. Ele me conhecia bem demais pra acreditar no meu silêncio, sabia que algo fervia dentro de mim e não era desejo, era decisão.

— Já está decidido? — a voz rouca dele rasgou o silêncio, baixa e firme.

Me virei devagar, encarei aquele rosto que já foi meu abrigo tantas vezes, agora, era meu obstáculo.

— Você disse que a agente está grávida. Que ela está fora.

— Disse, mas você não vai entrar.

— Por quê não? — perguntei, me sentando. O lençol colou no meu corpo ainda quente. — Tá com medo de me perder?

Ele suspirou, com os dedos deslizando cansados pelo rosto, o homem frio, calculista, chefe de operações especiais da SEIDO, sumia quando estava comigo e eu sabia usar isso.

— Você é muito nova, Maria. Isso não é uma missão qualquer, é o filho do Don Rodríguez. Você sabe o que isso significa, não estamos falando de um traficante de rua. Ele é o futuro da organização criminosa mais poderosa da América Latina.

— Justamente por isso. — Cruzei os braços, firme. — Eu quero ir pro México. Eu quero chegar até ele.

Ele me olhou, com raiva e dor, misturadas. Ele sabia que aquilo não era só mais um disfarce pra mim, não era só mais uma operação.

— Isso é sobre o seu pai?

Eu não respondi.

Não precisava.

Ele se levantou, e cruzou o quarto em silêncio, pegou a calça jeans do chão e a segurou nas mãos por um instante, como se ela pudesse dar alguma resposta que eu não desse.

Ficou ali, estático.

— Você não sabe o que está pedindo, Maria.

Levantei também.

Fui até ele.

Olhei nos olhos dele.

Eu tremia por dentro, mas por fora eu era rocha.

— Eu sei exatamente, estou pedindo pra entrar nessa operação, para me infiltrar, pra destruir esse cartel por dentro, pra olhar nos olhos daquele desgraçado... e saber que, dessa vez, a gente vai vencer. Porque vou prender o assassino do meu pai!

Os olhos dele se fixaram nos meus, sua mandíbula tencionou. Ele respirou fundo, colocou as mãos na cintura, virou o rosto, mas não conseguiu mais negar. Eu não ia desistir.

Ele sabia disso, me conhecia e me amava demais para não ceder.

— Merda... — ele murmurou. — Merda, Maria...

Eu sorri, leve e triunfante.

Estava feito.

Operação Escudo Silencioso, uma força-tarefa conjunta da Agência Antinarcóticos dos EUA, a qual eu servia, em parceria direta com a SEIDO mexicana. Era o movimento mais arriscado em anos. E agora... eu estava dentro.

Recado da Autora: Vocês pediram muito e eu estou de volta para trazer essa obra completa para minhas leitoras maravilhosas, venha fazer parte do meu grupo para se manter atualizada das novidades! me segue @autoramiabianchi

Mary Nunes

Cidade do México, quatro meses depois.

O calor me acertou no rosto assim que desci do avião, um tapa quente, denso, quase pessoal, o sol do México não era só forte, era mais pesado, mais agressivo e mais... vivo.

Eu mal lembrava da última vez que estive aqui. Não com clareza, saí de Sinaloa aos três anos, fugindo no colo da minha mãe com um sobrenome marcado pra morrer e uma promessa de vingança costurada na alma.

Hoje eu estava de volta, mas não como Maria José Nunes Santos.

Essa ficou em Boston.

Quem caminha agora pela pista com passos firmes, jaqueta jeans clara, legging preta e um rabo de cavalo milimetricamente alinhado é Mary Nunes, personal trainer, mexicana criada em "algum lugar frio perto do Canadá" empresária fitness, especializada em corpos femininos de alto padrão, suplementação natural e treinos personalizados.

Mentira por mentira, essa era a minha favorita.

Parei diante da imigração com a confiança de quem treinou pra isso a vida inteira, passaporte falso, carimbo recente, identidade limpa, cabelo e rosto impecáveis, voz segura, sotaque neutro com uma pitada americana, o histórico digital do meu alter ego era mais sólido que o de muita influencer real por aí. Loja online, com depoimentos, parcerias falsas com marcas, perfil lotado de seguidores comprados e lifestyle fabricado no capricho.

A agente desapareceu e nasceu uma personal.

Do lado de fora, ele me esperava, encostado casualmente num carro que era mais discreto do que ele.

Kako.

Ruivo com sardas, óculos redondos, uma mistura de nerd e espião. Jaqueta verde-oliva gasta, camisa de linho aberta no peito e aquele ar de quem sempre sabe mais do que vai dizer.

— Bem-vinda à Cidade do México, Mary Nunes — disse ele, com aquele meio sorriso torto que me conhecia demais.

— Que saudade de você, Kako — respondi com um beijo na bochecha. — O apartamento está pronto?

— Tudo certo, a vizinha da frente é aeromoça, vive fora, coloquei criptografia na rede, câmeras internas ocultas, microfone na bancada da cozinha e um alerta de proximidade na porta, tem um kit de emergência no fundo falso do armário do banheiro. E vinho na geladeira, sei que vai precisar.

Sorri, ainda que cansada, o reconhecimento de estar ali me deixava elétrica.

Eu estava oficialmente infiltrada.

A Operação Escudo Silencioso começava.

No caminho até o apartamento, o silêncio entre nós era cheio de camadas. Fiquei olhando a cidade pela janela, prédios baixos, mercados nas esquinas, buzinas, cheiro de taco e gasolina, uma parte de mim tentava puxar alguma lembrança da infância, um cheiro, um som, um nome, mas o México era um borrão, um espaço cinza cheio de segredos, povoado apenas pelas memórias contadas da minha mãe. Histórias sussurradas com ódio, entre tragos de cigarro e olhos marejados.

Ela me chama de Nega, mesmo eu sendo branca como a neve, diz que eu nasci pra isso, pra vingar nós duas.

Quando chegamos, Kako me entregou um envelope com os documentos atualizados, as chaves e um celular novo. Subi com as malas ainda com a roupa do voo, pouca bagagem, mas um peso absurdo no peito.

O apartamento era exatamente como o combinado: compacto, moderno e funcional, tons neutros, sala, cozinha e jantar num ambiente só, armários brancos, inox reluzente, bancada limpa, mesa de jantar pequena com cadeiras claras, estilo escandinavo, sofá claro, TV na parede.

O quarto era um refúgio: cama de casal com lençois claros, escrivaninha minimalista e armário discreto, o banheiro era pequeno, com azulejos cinza fosco, box de vidro, chuveiro forte. Secador escondido atrás do espelho, kit de higiene e primeiros socorros prontos, tudo no lugar.

A geladeira tinha o básico, frutas, ovos, suplementos, uma garrafa de vinho tinto seco.

Joguei as malas no canto da sala, abri a bolsa, tirei minha pistola e conferi a munição, estava viva, em território inimigo e armada.

Fui direto pro banho, liguei o chuveiro no quente, tirei a roupa com raiva, como se pudesse arrancar junto o cheiro de aeroporto, a tensão do voo e os fantasmas da minha infância.

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Os Malditos Rodríguez

Mary

Quando saí enrolada na toalha e os cabelos pingando, o celular já tinha vibrado.

Esteban:

“Chegou bem?”

Respondi sem pensar:

“Sim, estou no apartamento, tudo pronto. Amanhã nos falamos.”

Coloquei o celular em modo “não perturbe” e o joguei sobre a cama sem pensar duas vezes, a toalha caiu do meu corpo em seguida, largada ao pé da cama como se carregasse o peso de tudo que eu queria deixar para trás. Me abaixei, abri a mala com calma e vesti a primeira camiseta grande e confortável que encontrei, uma peça cinza, gasta nas bordas, que me envolveu como uma armadura de tecido, meus cabelos ainda úmidos escorriam pelas costas, pingando gotas lentas que escorriam até o cós da calcinha.

Peguei minha pistola da bolsa e verifiquei a munição com a precisão de quem já fez isso mil vezes, mas nunca o suficiente. Nenhum movimento era só rotina, no México, descuido é sentença e aqui, especialmente aqui, o Estado não manda em porra nenhuma, essa terra tem dono, e o dono se chama Rodríguez.

Os malditos Rodríguez.

Cruzei o apartamento pequeno com passos silenciosos, abri a geladeira e ali estava ele: um vinho seco chileno, daqueles que Esteban sabe que eu gosto, ninguém mais teria deixado aquilo ali por mim. Abri a gaveta, peguei o saca-rolhas e, sem o menor cuidado em procurar taças, levei a própria garrafa à boca, o gosto seco, levemente amadeirado, queimou meu peito na primeira golada, era exatamente o que eu precisava.

Depois peguei meu maço de cigarros da bolsa, acendi um com calma, traguei fundo, sentindo a fumaça preencher meus pulmões como se pudesse silenciar os pensamentos que não me davam trégua, com o iPad em mãos, caminhei até a janela, puxei levemente a cortina para o lado, conferindo os arredores do bairro, era uma vizinhança de classe média alta, segura o suficiente para não levantar suspeitas, simples o bastante para não atrair atenção, boa escolha, Esteban, sem ostentação, sem ruído.

Fechei as cortinas, tranquei as trancas adicionais da porta e me afundei no sofá, cruzando as pernas sob mim, a garrafa em uma mão, o cigarro na outra, o iPad equilibrado no colo, as anotações estavam todas ali, nomes, datas, fotos e conexões.

Quando entrei para a Divisão de Narcóticos, cinco anos atrás, imaginei que aquele seria o maior desafio da minha vida. Eu estava enganada, não foram os treinamentos exaustivos, as madrugadas em claro ou as missões arriscadas que me colocaram à prova, o verdadeiro desafio sempre foi manter a raiva sob controle, todos os dias, escondida sob o uniforme, enquanto jurava lealdade à lei.

Eu me dediquei como poucos, treinei como uma soldado, estudei como uma louca, superei cada obstáculo com um único objetivo: deixar minha mãe orgulhosa. Ela, que desde sempre dizia que o mundo precisava de mais mulheres fortes, mais mulheres da lei, minha mãe é tudo pra mim, minha melhor amiga, minha razão.

Maria Flor Nunes Santos, mexicana, natural de Culiacán, Sinaloa, criada pelas tias depois de perder os pais muito cedo, conheceu meu pai ainda jovem e, segundo ela, se apaixonou como quem se afoga sem perceber, mas meu pai não era um homem comum. Era parte de algo sujo, violento, parte de um mundo que não admite amor, apenas alianças. Quando ele se recusou a assumir um compromisso com ela e as ameaças começaram, minha mãe tomou uma decisão que mudaria nossas vidas para sempre: ela o denunciou.

Fomos colocadas no Programa de Proteção a Testemunhas quando eu tinha três anos, fomos levadas aos Estados Unidos, rebatizadas, recomeçamos, minha mãe se casou com meu padrasto, um policial mexicano que foi transferido para Boston e nos acolheu como a família que nunca tivemos. Ele cuidou da gente com um amor discreto, firme, protetor, foi ele quem me ensinou a atirar, a correr, a não confiar em ninguém, mas ele também teve seu fim.

Aos treze anos, eu o vi partir, morto numa operação secreta contra o cartel Rodríguez, a mesma organização que havia matado meu pai anos antes, segundo o que nos disseram, minha mãe nunca superou, nunca perdoou, nunca esqueceu.

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