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Leal: Herdeiros Karadag

Malik Karadag.

Tenho 23 anos. Quem nos vê juntos, Kaan e eu, confunde-nos à primeira vista: mesma altura, ombros largos, corpo forte e marcado por tatuagens que carregam a história e a honra da nossa família, cabelos loiros que contrastam com a pele e o olhar intenso. Mas basta ver como nos movemos para perceber que somos mundos diferentes.

Se o meu irmão é feito de calma, silêncio e controle, eu sou o fogo que corre nas veias, o que sente tudo com uma intensidade que parece querer explodir. Gosto da velocidade: de cavalgar sem freio pelas colinas, de treinar até os músculos gritarem, de ouvir risadas altas e música que mexe com o peito. Mas também tenho os meus momentos de quietude: sento-me nas varandas mais altas da mansão ao entardecer, observo o céu mudar de cor e lembro-me das lições que o nosso pai Aras nos repetiu desde pequenos: honra, lealdade e o laço entre irmãos, isso vem antes de qualquer desejo, de qualquer sonho, de qualquer amor.

E foi justamente esse amor que me colocou diante da escolha mais difícil da minha vida.

A festa já tinha acabado. Trouxemos elas para casa em segurança; uma a uma foi se retirando, iam descansando, as luzes da nossa propriedade começavam a ser apagadas, mas eu não tinha sono. Fiquei sentado num banco de pedra, no canto mais escuro do jardim, com um copo vazio na mão, observando o movimento à distância.

Foi então que os vi.

Kaan saiu de mansinho, atravessou o gramado e foi até onde Eliuh estava, perto da fonte, arrumando alguns vasos de flores antes de ir para dentro. Não houve pressa, não houve barulho, só aquele jeito tranquilo e seguro que ele tem. Ele parou na frente dela, disse algo baixo, e ela sorriu. Um sorriso que não era de cortesia, mas aquele que só se reserva a quem já mora no coração.

Ele puxou-a para mais perto, abraçou-a pela cintura e encostou a testa na dela. Nesse gesto simples, vi o que eu não queria ver: entre eles já existia algo, há tempo. Não era uma ideia nova, não era apenas uma declaração feita naquela noite. Era algo que já crescia, silencioso e firme, enquanto eu só conseguia olhar e sonhar com o que nunca seria meu.

Eu também a amava. Amava Eliuh desde que ela deixou de ser só a amiga de Hira e se tornou a mulher que eu esperava ver em cada canto da casa. Amava o seu jeito calmo, a sua força que não precisava de gritos, os olhos escuros como a noite que pareciam ver tudo sem julgar, a força que completaria minha proteção. Já tinha imaginado tantas vezes chegar perto, dizer o que sentia, pedir-lhe uma chance… mas nunca tinha tido coragem, e agora entendia por quê: o destino já tinha escolhido por nós dois.

E a forma como Kaan olhava para ela… era inconfundível. Para ele, Eliuh não era só uma companhia bonita. Ela era a sua paz, o seu equilíbrio, o seu oxigênio. Como ele mesmo tinha dito mais cedo, sem rodeios: ela era a sua vida.

E, naquele momento, uma certeza cortou a minha dor como uma espada: eu jamais faria isso.

Jamais, em mil anos, tiraria ou lutaria pelo oxigênio do meu próprio irmão. Não importava o quanto o meu peito gritasse, não importava o quanto eu sentisse que estava perdendo a minha própria felicidade. A nossa irmandade era mais antiga, mais forte e mais sagrada do que qualquer sentimento que tivesse aparecido depois.

— Dói, não é, filho?

A voz calma do meu pai fez-me erguer a cabeça. Ele tinha vindo em silêncio, sentou-se ao meu lado e seguiu o meu olhar, vendo também o que eu via. Não precisou que eu dissesse nada; ele sempre soube ler o que eu escondia.

— Eu não sei o que pensar, pai. Eu a amo, mas amo mais meu irmão — respondi, a voz saindo mais rouca do que eu queria. — Há muito tempo. Mas… ele a ama mais. Ou talvez não mais, mas de um jeito que se encaixa perfeitamente. E ela corresponde a ele.

Aras pousou a mão pesada e firme sobre o meu ombro.

— O amor não é só o que queremos para nós, Malik. É também saber o que é melhor para quem amamos — e para quem faz parte de nós. Você tem a lealdade gravada na alma, e isso não é fraqueza. É a sua maior virtude.

— Mas o que eu faço com essa dor? — perguntei, olhando para as minhas mãos fechadas em punhos.

Ele olhou-me com a sabedoria de quem já viveu muito.

— Você deixa o tempo trabalhar e, se precisar, procura um caminho que não destrua o que construiu. O seu coração vai encontrar o seu lugar, mesmo que pareça impossível agora.

Ficamos ali em silêncio mais um tempo, até que Kaan e Eliuh entraram na casa, de mãos dadas, e o jardim ficou só com a luz fraca dos postes.

Naquela noite, tomei a minha decisão. Eu abriria mão da minha felicidade para que ele pudesse viver a sua.

E assim, comecei a pensar na mala que iria fechar e na distância que iria colocar entre mim e tudo o que eu conhecia para proteger o meu irmão, para proteger a mim mesmo e para manter intacta a honra que carregava no nome Karadağ.

Sara Laurent

Meu nome é Sara Laurent. Tenho 23 anos, nasci e cresci em Paris, e sempre senti que a minha vida tinha mais para dar do que o que as pessoas ao meu redor esperavam de mim.

Venho de uma família tradicional, de classe média, com regras muito claras e uma visão de mundo fechada. Meu pai, Pierre Laurent, é contador e preza acima de tudo pela estabilidade e pela reputação do nosso sobrenome. Minha mãe, Marie Laurent, dedica-se ao lar e acredita que o caminho certo para uma mulher é casar cedo, ter filhos e seguir sempre o que é considerado “correto”. Tenho dois irmãos mais velhos, ambos já casados e com suas próprias famílias, vivendo exatamente o modelo de vida que os nossos pais aprovam.

Desde pequena, aprendi a ser doce, carinhosa e gentil; qualidades que a minha mãe sempre disse serem as mais importantes. Mas também desenvolvi uma força silenciosa, que me fez seguir os meus próprios passos. Formei-me em Odontologia e hoje tenho o meu próprio consultório em uma rua tranquila, perto de Montmartre. Gosto do que faço: cuidar das pessoas, aliviar suas dores e receber um sorriso de gratidão no final do atendimento me faz sentir útil.

Mas o meu trabalho é só uma parte de mim. No fundo do coração, guardo um sonho grande e vivo: quero viajar. Quero conhecer outros países, ver paisagens diferentes, aprender novas línguas, entender culturas que nada têm a ver com a minha. Quero sentir que estou vivendo de verdade, não apenas cumprindo uma rotina estabelecida por outros.

Por muito tempo, achei que esses sonhos teriam que esperar. Há dois anos, namorava Julien, um homem da mesma cidade, de uma família conhecida e que, para os meus pais, era o “partido ideal”. Eles aprovaram o nosso relacionamento logo no início e já falavam em casamento, em construir uma vida aqui mesmo, sem mudanças, sem surpresas.

Mas, com o tempo, descobri que Julien não era quem eu pensava. Ele era controlador, ciumento excessivo e, pior de tudo, traiu a minha confiança mais de uma vez. Quando tive coragem de confrontá-lo e decidi terminar, a minha própria família se voltou contra mim.

— Você está jogando fora a sua felicidade — disse minha mãe, com a voz dura. — Ele tem uma boa profissão, é de uma família respeitada. Quais são essas suas exigências?

— O nome Laurent não combina com separações e escândalos — completou meu pai. — Perdoe, volte atrás e siga o caminho que é seguro.

Eles nunca entenderam que não era questão de orgulho, mas de respeito por mim mesma. Não aceitavam que eu pudesse escolher a minha paz em vez da aprovação deles. Desde então, a nossa relação ficou fria e distante: conversamos apenas o necessário, raramente falam dos meus sonhos ou da minha rotina, e me tratam como se eu tivesse cometido um erro imperdoável.

Foi assim que fiquei sozinha. Não por querer, mas por escolher a minha dignidade. Moro em um apartamento pequeno, mas muito aconchegante, perto do meu consultório. Cuido de tudo sozinha: organizo as contas, os horários, os meus momentos de lazer. Aprendi a ser independente, mesmo amando ser cuidada e mimada, sempre tento deixar o coração aberto; mesmo que, depois de tudo, eu tenha me tornado mais cautelosa para confiar e amar novamente.

Uma das minhas pausas favoritas é quando encontro minhas amigas no final da semana, em um pequeno bar aconchegante, com luz baixa e música suave, não muito longe do centro. É ali que posso falar sem medo de ser julgada, sem ter que seguir regras ou agradar a ninguém.

Numa dessas noites, enquanto tomávamos vinho e riamos das pequenas confusões do dia a dia, o assunto acabou voltando para relacionamentos. Uma delas suspirou, dizendo que parecia impossível encontrar alguém que não tivesse defeitos graves, que não sufocasse ou mentisse.

Eu sorri, olhando pela janela para as luzes de Paris, e respondi com toda a convicção que sentia:

— Não é que não exista, é só que ainda não chegou a nossa vez. Acredito sim que existe o homem certo — aquele que não é tóxico, que não controla, que não trai e que respeita o que somos e o que sonhamos. Ele não vai querer me prender a uma vida que não me faz feliz, vai querer caminhar ao meu lado. Talvez ele esteja longe, talvez demore, mas eu sei que vou encontrar. E, quando ele aparecer, vai valer a pena toda a espera.

As amigas concordaram, e ali, entre risadas e planos para o futuro, eu sentia que o meu coração já estava preparado: livre, inteiro e esperando, sem pressa, mas com a certeza de que o destino ainda tinha boas surpresas reservadas para mim.

A vida seguia assim: entre o consultório, os livros que lia sobre lugares distantes, as caminhadas pelas ruas de Paris e os encontros com as amigas, esperando que um dia aquela crença se tornasse realidade.

A despedida.

Dizem que os gêmeos sentem a dor um do outro, mas o que eu sentia naquele dia seguinte ao noivado era uma agonia tão forte que o Kaan nunca poderia chegar a imaginar. Eu estava no meu quarto, fechando as malas devagar, como se cada peça de roupa que colocasse dentro fosse mais um pedaço de mim que eu deixava para trás.

De vez em quando, parava e olhava pela janela. Lá embaixo, no jardim banhado de sol, estavam eles: Kaan e Eliuh, de mãos dadas, rindo de algo que só os dois entendiam. Ele a abraçava pela cintura, encostava a testa na dela, e a forma como a olhava era tão clara que não restava dúvida.

Dói. Dói mais do que qualquer ferida que já levei em lutas, mais do que qualquer cansaço ou perda. Eu a amava. Amava o jeito calmo e decidido com que ela falava, o brilho dos olhos escuros, o cheiro suave que ficava no ar quando ela passava, a força que ela tinha sem precisar gritar. Sonhei tantas vezes em tê-la ao meu lado, em ser eu a protegê-la, a fazê-la sorrir assim…

Não importava o quanto o meu peito gritasse, não importava o quanto o meu coração se partisse: a nossa irmandade vinha antes de tudo.

— É a decisão mais difícil da minha vida — sussurrei para o vazio do quarto, enquanto fechava o zíper da última mala.

Se eu ficasse, o meu olhar me trairia cedo ou tarde. Se eu ficasse, a dor e a saudade poderiam se transformar em ressentimento, e a dúvida iria crescer entre nós, colocando em risco tudo o que construímos lado a lado desde que nascemos. Não poderia permitir que a nossa família, a nossa honra, o nosso vínculo fossem destruídos por um amor que não era para mim. Eu escolhi o meu próprio exílio, para que ele pudesse ter o seu reino em paz.

Quando desci com as malas na mão, já havia gente na sala. A notícia de que eu partiria havia se espalhado, e todos estavam ali para me receber, cada um com uma reação diferente.

Minha mãe, Bia, foi a primeira a se aproximar. Ela segurou o meu rosto com as mãos trêmulas, e os olhos dela já estavam cheios de lágrimas antes mesmo de falar. Ela sempre soube ler o que eu escondia.

— Filho… por que essa pressa? — perguntou ela, com a voz embargada. — Você e o Kaan nunca se separaram. Deixe para ir depois, aproveite esse momento de alegria da família.

Apertei as mãos dela contra o meu rosto, sentindo um nó na garganta.

— Mãe, não é nada de errado — respondi, forçando um tom mais leve. — Apenas sinto que chegou a hora de eu conhecer o mundo, de expandir os negócios da família também pela Europa. Quero ver novas terras, aprender outras formas de fazer as coisas. Não estou fugindo, apenas seguindo um caminho que eu mesmo escolhi.

Ela balançou a cabeça, como se não acreditasse totalmente, mas respeitou o meu silêncio. Sabia que, quando eu tomava uma decisão, não voltava atrás.

Kaan estava ao lado dela, com o cenho franzido e uma expressão de confusão e pesar. Ele pegou a minha mala e colocou no chão, olhando-me nos olhos.

— Expandir negócios? Sem falar nada com ninguém antes? — perguntou ele, com a voz mais baixa e preocupada. — Você vai ficar longe por quanto tempo? Não parece você, Malik. Não gosto de ver você partir assim, de repente.

Bati em seu ombro com força, o mesmo gesto de sempre, tentando parecer tranquilo.

— Não seja tão preocupado, irmão. Alguns meses, talvez mais. Depois eu volto, ou vocês vão me visitar. A vida não pode ser só aqui, não é mesmo? Aproveite a sua felicidade, cuide da Eliuh e não se preocupe comigo.

Depois, Aras, o nosso pai, aproximou-se acompanhado de Luan. Ele não demonstrou surpresa, mas o seu olhar era mais profundo.

— Se é o que o seu coração pede, não vamos impedir — disse ele, com a voz firme. — Mas Karadağ nunca viaja sozinho sem segurança. Vou enviar com você uma equipe de homens de confiança para proteger a sua vida e os nossos interesses.

Balancei a cabeça, negando com firmeza.

— Não precisa, pai. Eu não vou para assuntos de risco ou conflito. Vou apenas estabelecer contatos, abrir portas em outras cidades. Se eu levar segurança, só chamarei atenção desnecessária. — Coloquei a mão no peito, com toda a sinceridade que podia mostrar. — Mas garanto: eu me manterei sempre seguro. Conheço o mundo, sei me defender e não me exporei a perigos sem necessidade. Pode confiar em mim.

Luan, que estava ao lado, concordou com a cabeça, embora também estivesse com o semblante pesado.

— Se ele diz que dá conta, então vamos confiar — disse ele, mas olhou para mim com um brilho de compreensão silenciosa. — Qualquer coisa, é só chamar. Não importa a distância, a família vai estar sempre ao seu lado.

Os outros foram chegando também para se despedir: Derya e Baran, com palavras de sorte e proteção; Cem e Lúcia, desejando que a viagem trouxesse crescimento; Dalila e Nezir, lembrando que as portas da casa estariam sempre abertas; Azad e Zeynep, prometendo notícias constantes; Selin e Alik, com abraços apertados e desejos de boa sorte.

Eliuh também se aproximou, com um olhar doce e preocupado.

— Volte logo, Malik. A casa não vai ser a mesma sem você — disse ela, e aquelas palavras foram como uma lâmina no meu peito.

Sorri o melhor que pude, sem deixar que a dor transparecesse.

— Fique tranquila, Eliuh. Cuide bem do meu irmão, e nos vemos em breve.

Quando chegou a hora de entrar no carro, abracei Kaan uma última vez, com toda a força que eu tinha, como se quisesse gravar o seu cheiro, a sua presença, a nossa irmandade na memória.

— Seja feliz, irmão — sussurrei, só para ele ouvir. — Você merece tudo o que está vivendo.

— Você também, Malik — respondeu ele, com a voz embargada. — Não demore muito.

Assim que o carro começou a se afastar e a mansão ficou para trás, senti que deixava ali não apenas a minha terra, mas também o meu coração. Segui em frente, com a mala cheia e o peito vazio, rumo a uma cidade que não me conhecia, onde eu esperava, com o tempo, aprender a viver sem o que mais desejava.

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