Ivan Sokolov -29 anos
Eu já sei o que me espera antes mesmo de estacionar o carro na frente da casa da minha mãe.
O sermão.
O mesmo de sempre.
Desligo o motor, pego os óculos escuros do rosto e encaro a fachada da casa onde cresci.
Eu continuo sendo arrastado para cafés da manhã familiares como se ainda tivesse dezoito.
E o pior?
Eu venho por livre e espontânea vontade.
Aos vinte e nove anos, aparentemente eu já estou velho demais para a paciência da minha mãe.
Segundo ela, eu deveria estar casado, com pelo menos dois filhos e uma terceira criança a caminho.
Segundo eu, ainda tenho muito tempo pela frente.
Saio do carro e caminho até a porta.
— Finalmente apareceu! — minha mãe reclama assim que abre a porta.
Dou um beijo em sua testa.
— Bom dia para você também, mãe.
— São quase oito horas da manhã. Seu pai já foi trabalhar...
— Isso é cedo para mim.
— Esse é exatamente o problema da sua vida.
E começou.
(...)
— Você precisa arrumar uma esposa.
Lá está.
Nem cinco segundos.
(...)
— Você vive trabalhando, ou saindo para festas e aparecendo com uma mulher diferente toda semana. Fora que uma hora Vanessa desiste de você.
— Toda semana é exagero. E eu não tenho nada sério com ela, nosso relacionamento já acabou a muito tempo.
Minha mãe me lança aquele olhar que conheço desde criança.
O olhar de quem está prestes a me dar uma bronca.
— Então pare de iludir essa coitada.
Eu rio, levando a xícara de café aos lábios.
— Eu não iludo ninguém.
— Ivan...
— É verdade. Eu já deixei claro que não quero voltar. Já deixei claro que não quero casar. Já deixei claro que não quero nada sério.
— E mesmo assim ela continua vivendo praticamente dentro do seu apartamento.
Dou de ombros.
— Isso não é problema meu.
— Claro que é.
— Não é, não.
— É uma mulher apaixonada.
— E eu não tenho culpa disso.
Minha mãe suspira, claramente perdendo a paciência.
— Às vezes eu me pergunto onde foi que eu errei com você.
— Ah, pronto.
— Estou falando sério.
— Mãe, sexo casual não é relacionamento. Não posso fazer nada se ela confunde as coisas.
Ela arregala os olhos.
— Ivan!
— O quê? Estou sendo sincero.
— Você fala dessas coisas como se fossem normais.
— Porque são normais.
— Não para mim.
— Graças a Deus, porque seria muito estranho.
Ela pega um guardanapo e o joga na minha direção.
Eu rio enquanto desvio.
— Você é impossível.
— E você é dramática.
— Eu só espero que um dia apareça uma mulher que coloque juízo nessa sua cabeça.
— Boa sorte para ela.
Volto a beber meu café, completamente tranquilo.
Ela revira os olhos.
— Ivan, você tem vinte e nove anos.
— Exatamente. Vinte e nove. Não sessenta.
— Seu primo Viktor é só alguns anos mais velho que você é já deu duas netas para Alina.
— Problema dele.
Pego um pão de queijo e me recosto na cadeira.
— Por que essa obsessão por netos?
— Porque quero estragar crianças sem ter que educá-las.
Não consigo evitar a gargalhada.
— Pelo menos você é sincera.
— Sempre fui.
Ela se senta à minha frente.
Os olhos dela suavizam.
— Eu só quero ver você feliz.
A brincadeira desaparece do ambiente.
Porque eu sei que ela está falando sério.
Minha mãe sempre fala sério quando o assunto sou eu.
— Eu sou feliz.
Ela me observa por alguns segundos.
— Tem certeza?
A pergunta fica pairando entre nós.
E, pela primeira vez naquela manhã, eu não respondo imediatamente.
Porque felicidade sempre foi uma palavra complicada.
Tenho dinheiro.
Tenho sucesso.
Tenho liberdade.
Posso viajar para qualquer lugar do mundo quando quiser.
Posso comprar qualquer coisa que desejar.
Mas ainda assim...
Às vezes a casa parece grande demais.
Silenciosa demais.
Vazia demais.
Balanço a cabeça.
— Está vendo? — ela diz.
— Vendo o quê?
— Demorou para responder.
— Você está analisando demais.
— Sou sua mãe. Fui treinada para isso.
Solto uma risada.
Talvez ela tenha razão.
Talvez não.
Mas uma coisa é certa.
Eu definitivamente não estou pronto para admitir isso.
Ainda não.
Termino meu café e me levanto.
— Já estou indo.
— Nem pense em fugir tão rápido.
Minha mãe também se levanta da cadeira.
— Vou com você.
— Vai para onde?
— Para o meu spa.
— O seu spa fica a quinze minutos daqui.
— Exatamente. Você vai me levar.
Reviro os olhos.
— A senhora tem carro.
— E você tem obrigação moral de carregar sua mãe.
— Desde quando?
— Desde que nasceu.
Eu rio e pego as chaves.
Durante todo o trajeto, ela não para de reclamar.
Mas, para minha surpresa, o alvo da vez não sou eu.
É Yuri.
— Aquele menino é impossível.
— Estou falando sério. O Yuri é mais fechado que um cofre.
— Você gosta dele assim.
— Gosto. Mas isso não impede que ele me irrite.
— O que ele fez agora?
— Nada. Esse é o problema. Nunca faz nada.
Dou risada.
— Que acusação terrível.
— Eu preciso fazer chantagem emocional para ele aparecer na minha casa.
— A senhora exagera.
— Não exagero.
— Exagera sim.
Ela cruza os braços.
— Você, pelo menos, aparece.
— Porque a senhora não me dá escolha.
— Mesmo sendo ordinário desse jeito.
— Obrigado pelo carinho.
— Mas não me abandona.
Sorrio de lado.
— Viu só? Tem qualidades.
— Poucas.
— Ainda assim contam.
Ela resmunga alguma coisa que escolho ignorar.
Alguns minutos depois, estaciono em frente ao spa.
Minha mãe está prestes a abrir a porta quando algo chama minha atenção.
Uma mulher atravessa a calçada apressada.
Ruiva.
Os cabelos longos balançam atrás dela enquanto caminha.
Ela usa roupas simples, mas parece não precisar de esforço algum para chamar atenção.
É linda.
Não.
Linda é pouco.
Ela é absurdamente linda.
Me pego acompanhando seus movimentos por alguns segundos.
— Quem é a beldade?
Minha mãe vira o rosto na direção que estou olhando.
No instante seguinte, ela bate forte no meu braço.
— Ai!
— Nem pense.
— O quê?
— Nem pense.
— Eu só fiz uma pergunta.
— E eu conheço você.
Dou uma risada.
— Então responde.
— Aqui é território proibido, Ivan.
— Território proibido?
— Exatamente.
Ela aponta o dedo para mim.
— Você sabe das regras.
— Não lembro de regra nenhuma.
— Serena é a minha melhor funcionária.
Meu olhar volta imediatamente para a ruiva.
Serena.
Até o nome combina.
— Então é Serena...
— Nem comece.
— Não comecei nada.
— Some daqui.
Minha mãe abre a porta do carro.
— Estou falando sério.
— Mãe...
— Ivan.
— Nem um cafezinho?
— Ivan!
Eu rio.
Ela sai do carro balançando a cabeça, claramente sem confiar em mim.
E com razão.
Observo a mulher desaparecer pela entrada do spa.
Então murmuro para mim mesmo:
— Até o nome é lindo.
Eu deveria ir embora.
Era o que qualquer pessoa sensata faria.
Minha mãe literalmente tinha acabado de me expulsar dali.
Mas eu nunca fui muito bom em seguir regras.
Principalmente quando elas pareciam absurdas.
Desligo o carro novamente.
— Ah, foda-se
Saio e atravesso a entrada do spa.
O ambiente é elegante, tranquilo e perfumado. Algumas clientes conversam baixinho enquanto funcionárias circulam pelo local.
Vou direto ao balcão da recepção.
A atendente sorri profissionalmente.
— Bom dia, senhor. Como posso ajudar?
— A ruiva que entrou agora.
Ela pisca algumas vezes.
— Perdão?
— A ruiva. Linda. Cabelos longos. Entrou há menos de dois minutos.
A moça tenta esconder o sorriso.
— Ah... a Serena?
— Então esse é mesmo o nome dela.
— É.
— O que eu preciso fazer para ser atendido por ela?
A recepcionista fica claramente sem graça.
— Senhor...
— Ivan.
— Senhor Ivan, a Serena só trabalha com maquiagem e limpeza de pele.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Quero uma limpeza de pele.
A mulher me encara como se estivesse tentando decidir se estou falando sério.
— O senhor quer uma limpeza de pele?
— Com urgência.
Ela abre a agenda.
— Certo...
Antes que possa continuar, uma voz conhecida surge atrás de mim.
— Menino Ivan...
Fecho os olhos.
Fui descoberto.
Viro devagar.
Rosângela está parada ali com os braços cruzados.
Ela trabalha para minha mãe há anos e me conhece desde criança.
O sorriso divertido em seu rosto já diz tudo.
— Bom dia, Rosa.
— Se a sua mãe te pegar aqui, eu não vou te defender.
Levo o dedo aos lábios.
— Shhh.
Ela revira os olhos.
Então me aproximo e a abraço.
— Você continua sendo meu preferido, sabia?
— Mentira.
— Talvez.
Rosângela ri.
— O que você está fazendo aqui?
— Cuidando da minha pele...
Serena Orlova -19 anos
Eu acordo com Vitória me chamando.
— Bora, Serena. Desse jeito a gente perde o ônibus.
Eu me levanto, o dia ainda nem nasceu. Tomo meu banho rápido e me arrumo. Vitória já fez o nosso café.
Eu pego uma xícara e agradeço.
Vitória é a única pessoa que eu tenho nesse mundo. Ela é quatro anos mais velha que eu. Nós nos conhecemos no orfanato. No meu último dia lá, Vitória cumpriu sua promessa. Ela estava me esperando.
Hoje moramos em um apartamento minúsculo. Trabalhamos todos os dias para nos manter e, graças a Deus, tenho conseguido. Nada nos falta, dentro das nossas possibilidades.
Eu pego minha bolsa correndo. Vitória vai comigo até o ponto de ônibus. Nos despedimos e seguimos em direções opostas.
Eu trabalho há um ano no spa. A dona do spa é muito boa. Me trata com respeito, diferente das outras meninas.
Mas eu não ligo.
O problema é que agora quase todas as clientes pedem pelos meus serviços.
Eu não tenho diploma ou cursos caros. Tenho apenas o básico e muito talento, como dona Ana costuma dizer.
O caminho até lá é rápido, mas se eu não correr vou me atrasar.
Eu desço do ônibus e ando rápido. Atravesso a rua e finalmente chego ao spa.
Assim que entro, Rosângela cruza os braços na recepção.
— Cinco minutos atrasada.
Eu arregalo os olhos.
— Não estou!
Ela aponta para o relógio na parede.
— Está sim.
Eu olho e suspiro.
— Dois minutos.
— Cinco.
— Dois.
— Cinco.
Eu rio.
— Bom dia para você também, Rosângela.
Ela tenta manter a expressão séria, mas acaba sorrindo.
— Vai trabalhar, menina.
Eu sigo para o vestiário, coloco o uniforme guardo minhas coisas e prendo o cabelo em um coque. Poucos minutos depois já estou na minha sala preparando os materiais do primeiro atendimento.
Eu higienizo as minhas mãos.
Estou de costas para a porta enquanto organizo os materiais. Coloco uma música ambiente suave, daquelas que sempre me ajudam a relaxar. Eu prefiro trabalhar com música. O silêncio me deixa nervosa.
Ouço a porta se abrir.
Passos firmes entram na sala.
Assim que me viro, eu o vejo.
Meu coração falha uma batida.
O homem é lindo.
Muito lindo.
Alto, ombros largos, cabelos loiro escuro perfeitamente alinhados e um sorriso que parece iluminar o ambiente inteiro.
— Serena? — ele pergunta.
A voz grave faz um arrepio percorrer meu corpo.
— Sou eu.
Ele sorri.
— Então eu acertei.
Eu franzo a testa.
— Desculpe?
— Disseram que você era a melhor daqui. Resolvi conferir pessoalmente.
Eu quase rio.
— E o senhor é?
— Ivan.
Ele estende a mão, mas logo a recolhe quando percebe que estou de luvas.
— Prazer.
— Prazer.
— E, pelo que me disseram, sou o primeiro cliente homem da sua agenda.
Eu arregalo os olhos.
— Como sabe disso?
— A recepcionista comentou.
Eu balanço a cabeça, sem acreditar.
Então volto a focar no trabalho.
Separo os materiais, ajusto a iluminação e me aproximo.
— Pode se acomodar.
Ivan se deita na maca sem tirar os olhos de mim.
Eu finjo não perceber.
Respiro fundo e inicio a limpeza de pele.
O problema é que, quanto mais tempo passa, mais difícil fica ignorar aquele olhar.
O homem à minha frente parece enxergar até a minha alma.
Como se estivesse me estudando.
Como se cada expressão minha fosse importante.
Eu aplico o produto de limpeza e tento manter a postura profissional.
— O senhor precisa fechar os olhos.
— Ivan.
— O quê?
— Pode me chamar de Ivan.
Eu respiro fundo.
— Certo. Então você precisa fechar os olhos, Ivan.
Ele sorri.
Mas não fecha.
— Ivan.
— Estou fechando.
Só então ele obedece.
Mesmo assim, alguns minutos depois, quando preciso me aproximar mais para trabalhar na região do nariz, percebo que ele abriu os olhos novamente.
— Você faz isso com todas as clientes? — ele pergunta.
— Faço o quê?
— Fica tão concentrada que parece esquecer que existe um mundo ao redor.
Eu não consigo evitar um sorriso.
— Estou trabalhando.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque se você estivesse tentando me impressionar, eu estaria preocupado.
Eu paro por um segundo e o encaro.
Ele está sorrindo.
Eu balanço a cabeça.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Atrevido.
O sorriso dele aumenta.
— Só quando encontro alguém interessante.
Meu estômago aperta sem motivo.
Então volto imediatamente ao trabalho.
Porque uma coisa é certa.
Ivan é o tipo de homem que pode trazer problemas.
E eu passei a vida inteira aprendendo a fugir deles.
Eu foco na finalização da limpeza de pele.
Ignoro o olhar constante de Ivan e continuo trabalhando.
— O que você gosta de fazer? — ele pergunta de repente.
— Como assim?
— Nas horas vagas.
Eu solto uma risada sem humor.
— Eu não tenho horas vagas.
Ele ri.
Uma risada baixa, divertida.
— Calma, raposinha. Eu só fiz uma pergunta.
Eu congelo por um segundo.
— Raposinha?
— Combina com você.
— Não combina.
— Combina sim.
Eu balanço a cabeça e continuo organizando os produtos.
O problema é que os olhos dele não se desviam dos meus.
Nem por um instante.
É desconcertante.
Ninguém nunca me observou daquela forma.
Como se cada resposta minha tivesse importância.
Como se ele estivesse tentando me descobrir.
— Pronto. Terminamos.
Dou um passo para trás.
Finalmente.
Mas antes que eu consiga me afastar completamente, a porta da sala se abre
Para meu absoluto alívio.
— Ivan!
Dona Ana entra sem bater.
Ela vai direto até ele.
— Seu sem-vergonha.
Ivan sorri.
— Oi para você também.
— Eu disse para você ir embora.
— E eu fui.
— Mentiroso.
— Tecnicamente eu mudei de ambiente.
Eu observo os dois sem entender nada.
Dona Ana coloca as mãos na cintura.
— Você está perturbando minha funcionária?
— Eu estava sendo um cliente exemplar.
— Você não sabe ser exemplar nem dormindo.
Eu me afasto discretamente.
Claramente existe uma intimidade entre eles.
Talvez sejam parentes.
Talvez amigos.
Talvez os dois.
Dona Ana finalmente se vira para mim.
Seu rosto suaviza imediatamente.
— Desculpe por isso, Serena.
— Não tem problema.
— Pode tirar um momento para descansar. Eu assumo daqui.
— Obrigada.
Ela sorri.
— Vai tomar um café.
Eu praticamente não preciso ouvir duas vezes.
Saio da sala dando graças a Deus.
Assim que fecho a porta atrás de mim, solto o ar que nem percebia estar prendendo.
Meu coração está acelerado.
E eu nem sei o motivo.
Caminho pelo corredor em direção à copa.
Mas, mesmo longe dali, uma sensação estranha permanece.
Como se eu ainda estivesse sendo observada.
Como se aqueles olhos obscuros continuassem sobre mim.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu me pego pensando em um homem que acabei de conhecer.
Assim que eu chego na copa, o burburinho começa.
Eu nem preciso olhar para saber que estão falando de mim.
As conversas diminuem por alguns segundos.
Depois voltam mais altas.
Mais diretas.
— Olha quem chegou.
— A favorita.
— A ruivinha da vez.
Eu suspiro e vou até a cafeteira.
Finjo que não escuto.
Mas Elize nunca facilita as coisas.
— E aí, ruivinha?
Eu continuo servindo meu café.
— Oi, Elize.
— Foi só limpeza de pele ou você deu para o filho da nossa chefinha?
As outras meninas explodem em risadas.
Meu rosto esquenta imediatamente.
Eu me viro.
— O quê?
— Ah, para.
Ela cruza os braços.
— Não tem sentido o homem chegar aqui e procurar justamente por você.
— Eu não o conheço.
— Claro que não.
— Estou falando sério.
— E eu sou uma freira.
Mais gargalhadas.
Eu aperto a xícara com força.
Não porque estou com raiva.
Estou acostumada.
Desde criança as pessoas gostam de encontrar motivos para me diminuir.
No orfanato era porque eu ruiva.
Na escola porque minhas roupas eram simples.
Agora porque tenho clientes.
Sempre existe alguma coisa.
— Eu realmente não conheço o Ivan.
Elize revira os olhos.
— Se você diz.
— Eu estou dizendo.
— Então ele ficou te encarando porque gostou das suas sardinhas?
As meninas riem outra vez.
Eu abaixo os olhos para o café.
Não vou discutir.
Nunca vale a pena.
Nesse momento a porta da copa se abre.
Rosângela entra.
E basta um olhar dela para o silêncio tomar conta do ambiente.
— O expediente acabou e ninguém me avisou?
Ninguém responde.
— Então por que vocês estão todas aqui?
As meninas começam a se dispersar imediatamente.
— Eu quero todo mundo trabalhando. Agora.
Elize fecha a cara.
Ela passa por mim para sair.
Quando está ao meu lado, diminui o passo.
E sussurra apenas para mim ouvir:
— Aproveita sua vez.
Meu estômago aperta.
Ela sorri sem humor.
— Porque depois ele vai te descartar como lixo.
As palavras acertam exatamente onde dói.
Porque eu sei o que é ser abandonada.
Sei o que é não ser escolhida.
Sei o que é ver alguém ir embora sem olhar para trás.
Por um segundo, a voz de Elize se mistura às lembranças do orfanato.
À sensação de esperar.
De nunca ser a primeira opção de ninguém.
Eu permaneço imóvel.
Tentando fingir que aquilo não me atingiu.
Mas Rosângela percebe.
Ela sempre percebe.
— O que ela disse?
Eu balanço a cabeça.
— Nada.
— Serena.
— Não foi nada.
Rosângela suspira.
Então segura meu queixo com carinho, me obrigando a encará-la.
— Escuta uma coisa.
Eu permaneço em silêncio.
— Pessoas infelizes sempre tentam espalhar a própria infelicidade.
Meus olhos ardem.
— Vai trabalhar e esquece essa bobagem.
Eu forço um sorriso.
— Certo.
Mas enquanto volto pelo corredor do spa, as palavras de Elize continuam ecoando na minha cabeça.
E o pior de tudo...
É que eu nem sei por que a opinião dela me incomoda tanto.
Afinal, eu conheci Ivan há menos de uma hora.
Então por que continuo pensando nele?
Serena
Eu volto a trabalhar, algumas clientes para limpeza de pele, outras para maquiagem. Minhas pernas já doem de tanto tempo em pé. O bom é que consegui um extra para o final de semana. Maquiagem a domicílio.
Termino o último atendimento e sigo para o vestiário. Eu tiro o uniforme. Solto meus cabelos e ouço o mundo se acabando lá fora.
Eu odeio chuva.
Um raio clareia tudo, eu estremeço de medo. No orfanato os dias de tempestade eram os piores dias. Eu tento afastar as lembranças.
Eu pego minha bolsa e vou saindo.
Assim que passo pela porta do spa eu abro meu guarda-chuva. Eu ando rápido, um carro se movimenta ao meu lado. Eu aperto o passo.
Até o vidro abaixar e chamarem pelo meu nome.
— Serena
Eu viro o rosto e vejo Ivan.
Ele abre a porta por dentro.
— Entra, eu vou te dar uma carona...
— Não, obrigada. Eu não ando com estranhos.
O infeliz ri.
— Você me conhece.
Eu continuo andando e, para minha surpresa, o homem sai do carro.
— O que você está fazendo? — pergunto.
— Indo buscar a mulher mais teimosa de Moscou.
— Eu não pedi para ser buscada.
— Percebi.
Eu continuo andando.
Ele continua me seguindo.
— Volta para o carro.
— Não.
— Ivan!
— Serena!
Eu paro e me viro para ele.
— Você sempre faz isso?
— Isso o quê?
— Persegue mulheres na rua.
— Só quando elas recusam carona debaixo de uma tempestade.
Um trovão explode no céu.
Meu corpo inteiro trava por um segundo.
Maldição.
Ivan percebe.
Claro que percebe.
— Você está com medo.
— Não estou.
— Está sim.
— Não estou.
Outro raio corta o céu.
Meu coração dispara.
Eu odeio tempestades.
Odeio o barulho.
Odeio a sensação de não ter para onde correr.
Odeio as lembranças que sempre voltam.
— Serena...
— Não.
— Você está tremendo.
— Estou com frio.
— Mentira.
Reviro os olhos.
— Você é muito irritante.
— Já ouvi isso antes.
— Então deveria se preocupar.
— Engraçado. Sempre escuto isso de mulheres que gostam de mim.
Eu quase engasgo.
— Nossa autoestima passou longe da humildade.
— Não é autoestima. É observação.
— Convencido.
— Linda.
Eu fico tão surpresa que nem respondo.
Ivan sorri.
Aquele sorriso torto.
Perigoso.
Outro trovão ecoa.
Eu me encolho involuntariamente.
Dessa vez ele não ri.
O sorriso desaparece.
— Serena, vem entra no carro.
A voz dele sai mais suave.
Mais séria.
— Eu moro perto.
— Perto quanto?
— Algumas quadras.
— E pretende andar tudo isso debaixo desse temporal?
— Pretendo.
Uma rajada de vento atinge meu guarda-chuva.
Eu seguro com força.
Outra rajada vem logo depois.
Mais forte.
A estrutura entorta.
— Não, não, não...
Tarde demais.
O guarda-chuva vira completamente.
Eu fecho os olhos.
Perfeito.
Simplesmente perfeito.
Ivan morde o lábio para não rir.
— Não se atreva.
Ele perde a batalha.
— Desculpa.
— Você está rindo!
— Um pouco.
— Ivan!
Ele pega o guarda-chuva destruído das minhas mãos.
— Certo. Agora acabou a discussão.
— Não acabou.
— Acabou sim. Ele segura firme minha mão. A mão dele é grande e quente. ele me conduz até o carro.
Ele abre a porta do carro e aponta para o banco do passageiro.
— Entre.
A chuva continua caindo pesada ao nosso redor.
Eu olho para a rua.
Olho para o carro.
Olho para Ivan.
E percebo que estou encharcada dos pés à cabeça.
— Uma carona — digo apontando o dedo para ele. — Só uma.
O sorriso dele surge imediatamente.
— Claro, raposinha.
— Não me chama assim.
— Entra no carro primeiro. Depois discutimos os apelidos.
E, pela primeira vez, eu entro no carro de um homem que conheci essa manhã. Talvez eu tenha perdido o juízo.
Ivan assume a direção do carro. O interior do veículo é confortável e tem um cheiro agradável, uma mistura de perfume masculino e couro novo.
Eu aperto o cinto de segurança enquanto a chuva continua castigando o para-brisa.
— Qual o endereço?
Eu digo o endereço do pequeno apartamento que moro com Vitória.
Ele digita tudo no GPS.
Alguns segundos depois, o mapa aparece na tela.
Ivan arqueia uma sobrancelha.
Então vira o rosto para mim.
— Isso não são algumas quadras daqui.
— São quadras maiores.
— Serena...
— O quê?
— São quase vinte minutos de carro.
Eu dou de ombros.
— Continua sendo uma quantidade de quadras.
Ele balança a cabeça, incrédulo.
— Você mente com muita facilidade.
— Eu não menti.
— Claro que não.
— Não menti.
— Certo. E eu sou um astronauta.
Eu rio.
Não consigo evitar.
Ivan sorri imediatamente, como se tivesse acabado de conquistar alguma vitória importante.
— Finalmente.
— Finalmente o quê?
— Você riu para mim.
— Não se empolga.
— Tarde demais.
Reviro os olhos.
Que homem impossível.
Ele coloca o carro em movimento e entra na avenida iluminada pelas luzes dos postes refletidas na água da chuva.
— É até bom assim.
— O quê?
— O trajeto.
— Por quê?
— Porque eu conheço você melhor.
Eu viro o rosto para ele.
— Você realmente fala tudo o que pensa?
— Quase tudo.
— Isso costuma funcionar?
— Depende.
— Do quê?
— Da mulher.
— E comigo?
Ele sorri de lado.
— Ainda estou descobrindo.
Eu rio novamente da audácia desse homem.
Ele fala aquilo com tanta naturalidade que parece não perceber o absurdo das próprias palavras.
Ou percebe e simplesmente não se importa.
— Você faz isso com todas?
— Faço o quê?
— Isso.
— Isso o quê?
— Fica perseguindo mulheres, oferecendo carona e dizendo que quer conhecê-las melhor.
— Não.
— Não?
— Não.
— E por que eu deveria acreditar?
Ele tira os olhos da estrada apenas por um instante.
O suficiente para me encarar.
— Porque eu nem deveria estar aqui.
Meu sorriso diminui.
— Como assim?
— Eu passei o dia pensando em você.
Meu coração tropeça dentro do peito.
Literalmente tropeça.
Ivan volta a olhar para a estrada.
Como se não tivesse acabado de dizer algo capaz de me deixar completamente sem reação.
— Isso é uma péssima cantada.
— Não foi uma cantada.
— Foi sim.
— Não. Foi uma confissão.
Eu fico em silêncio.
Porque não sei o que responder.
A chuva continua batendo no carro.
O limpador se move de um lado para o outro.
E, pela primeira vez desde que entrei naquele veículo, percebo uma coisa perigosa.
Eu deveria estar desconfortável.
Deveria estar procurando uma desculpa para encerrar aquela conversa.
Mas não estou.
Pelo contrário.
Estou curiosa.
E isso talvez seja muito mais perigoso do que a tempestade que acontece lá fora.
Ivan faz muitas perguntas.
Minha idade.
Se sempre morei na capital.
Há quanto tempo trabalho no spa.
Se gosto do meu trabalho.
Se moro sozinha.
Eu respondo com calma, escolhendo as palavras com cuidado. Não gosto de falar sobre mim. Nunca gostei.
Mas, de alguma forma, conversar com ele não parece tão difícil.
Talvez porque Ivan também fale bastante.
Ou talvez porque ele me faça rir sem perceber.
Quando me dou conta, já estamos entrando na minha rua.
As luzes dos prédios iluminam o asfalto molhado pela chuva.
Ivan diminui a velocidade.
O GPS anuncia o destino.
Ele observa o prédio por alguns segundos.
Franze o cenho.
— Você mora aqui?
— Moro.
Ele continua olhando para a fachada simples.
Depois volta a me encarar.
— Então está entregue.
Eu sorrio.
— Obrigada pela carona.
— Disponha.
Eu puxo a bolsa para o colo e alcanço a maçaneta.
Mas antes que eu consiga abrir a porta, sinto sua mão segurar a minha.
Meu coração dá um salto inesperado.
Olho para nossos dedos.
Depois para ele.
Ivan não parece nem um pouco constrangido.
— Me dá seu número pelo menos.
Eu rio.
— Não.
— Não?
— Não.
— Nem para eu agradecer pela companhia?
— Você já agradeceu.
— Acho que não foi suficiente.
— Vai ter que sobreviver com isso.
Ele me observa por alguns segundos.
Como se estivesse avaliando uma estratégia nova.
Então simplesmente dá de ombros.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— Tudo bem.
Eu estreito os olhos.
Aquilo foi fácil demais.
— Você desistiu?
— Não.
— Então?
Um sorriso lento surge em seu rosto.
Daqueles que me deixam imediatamente desconfiada.
— Quando eu estiver com saudades, eu venho pessoalmente.
Eu arregalo os olhos.
— O quê?
— Já sei onde você mora.
— Ivan!
Ele ri.
— Estou brincando.
— Não parece.
— Um pouco talvez.
Eu balanço a cabeça, incrédula.
— Você é sem noção.
— E você continua conversando comigo.
— Porque estou tentando entender seu problema.
— Meu problema tem cabelos ruivos e sardas.
Meu rosto esquenta.
Imediatamente.
— Boa noite, Ivan.
— Boa noite, Serena.
Abro a porta antes que ele fale mais alguma coisa.
Saio do carro e corro para a entrada do prédio.
Quando chego sob a cobertura, olho para trás.
O carro continua parado.
Ivan continua me observando.
Como se quisesse ter certeza de que entrei em segurança.
Eu deveria achar isso estranho.
Talvez até invasivo.
Mas, por alguma razão, não acho.
O que me assusta é que, quando subo as escadas, percebo que estou sorrindo.
E isso é muito mais perigoso do que qualquer tempestade.
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