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Fim do Contrato de Casamento

Capítulo 1

Lucas: Traga um terno. Tenho uma reunião importante. E o remédio para o estômago.

O celular vibrou sobre a bancada da cozinha, e Camille olhou para a tela por alguns segundos antes de pegar o aparelho. A mensagem era curta, fria e direta, exatamente como Lucas Durand costumava ser com ela nos últimos cinco anos. Ela já tinha aprendido que existia uma enorme diferença entre ser procurada porque alguém sente sua falta e ser procurada apenas porque é útil. No caso dela, quase sempre que necessário.

Eram oito e quarenta da noite, e Lucas estava na Durand Group resolvendo a assinatura de um contrato importante ligada ao retorno de Nicole Bernard ao país. Só de pensar naquele nome, Camille sentia um aperto estranho no peito. Depois de tanto tempo, ainda doía, e isso a irritava mais do que deveria.

Ela levantou devagar e foi até o quarto do marido. Durante anos aquilo pareceu normal: separar roupas, lembrar horários, separar medicamentos, mandar mensagens perguntando se ele tinha comido ou descansado. Pequenos cuidados que uma esposa oferecia naturalmente. O problema era saber que ela sempre fez tudo isso por ele, que nunca fez nada da mesma forma por ela.

Abriu o closet enorme e pegou o terno cinza escuro de três peças que Lucas costumava usar em reuniões importantes. Depois abriu a gaveta dos medicamentos e pegou o remédio para gastrite. Lucas vivia de café, reuniões intermináveis e poucas horas de sono. Ela conhecia seus hábitos, seus horários, suas dores no estômago e até o jeito como ele ficava irritado quando estava cansado. Conhecia tanto aquele homem que às vezes parecia absurdo perceber o quanto ele sabia pouco ou nada sobre ela.

Sem perceber, seus olhos foram até o cronômetro ativado no celular.

28 dias.

Faltavam vinte e oito dias para o fim do contrato de casamento.

Vinte e oito dias para deixar oficialmente de ser esposa de Lucas Durand.

Cinco anos esperando.

Cinco anos acreditando que paciência e amor mudariam alguma coisa. Mas algumas pessoas nunca mudam, por mais tempo que você ofereça. No fim, ela simplesmente cansou.

Cansou de amar sozinha, de esperar e de acreditar. Camille soltou o ar lentamente, pegou as coisas e pediu um Uber.

Durante o caminho, abriu novamente uma mensagem recebida naquela manhã.

Número desconhecido. Mas ela sabia perfeitamente quem era.

Nicole: Camille, ainda se lembra da sua irmã? Aqui é a Nick. Voltei. Estou tão feliz em poder te ver de novo. Mesmo você tendo ficado com o Lucas, ainda somos irmãs, não é? Vamos jantar qualquer dia.

Irmãs.

Um sorriso sem humor apareceu nos lábios dela.

A família Bernard acolheu Camille depois da morte dos pais dela, e durante anos Nicole foi tudo, menos amiga, mas foi confidente e quase, quase uma irmã realmente. Até deixar de ser. Porque algumas pessoas nunca mudam de verdade, apenas param de fingir.

Quando começaram as fofocas no colégio, Camille acreditou que fossem apenas brincadeiras cruéis da adolescência. Depois vieram as humilhações, o afastamento dos colegas e o isolamento. Muito tempo depois descobriu que Nicole, a que se dizia sua " irmã " estava por trás de boa parte daquilo.

Foi Arthur Durand quem separou Nicole e Lucas anos atrás. Nicole aceitou dinheiro, aceitou cair fora, aceitou desaparecer da vida de Lucas, por uma boa grana. Então, olhando para outro lado, quem abandonou quem?

Mas Camille também nunca foi completamente boba e permissiva. Ela aceitou a proposta, o contrato. Aceitou ocupar o espaço vazio na vida de Lucas. Que ela fosse uma garota ambiciosa, talvez. Talvez apenas fosse uma garota desesperada tentando ser amada pelo seu amado.

O carro parou diante da Durand Group.

Ela respirou fundo antes de descer.

Era ridículo sentir nervosismo para entregar um terno ao próprio marido, mas talvez soubesse exatamente quem encontraria lá dentro.

Quando chegou ao último andar, bateu na porta do escritório, alguns segundos se passaram antes que alguém abrisse.

Mas não era Lucas, e sim Nicole, com um vestido vermelho impecável, maquiagem perfeita e o mesmo sorriso doce que enganava todo mundo, menos Camille.

— Mille, que bom te ver. Estávamos falando de você.

Camille não respondeu imediatamente. Seus olhos desceram involuntariamente até o pescoço dela olhando para o colar. Ela reconheceu na mesma hora. Dias atrás tinha visto Lucas analisando aquela joia em um catálogo de leilão. Então era isso. Um presente de boas vindas para Nicole.

Seu peito apertou, mas a sensação passou rápido. Já não tinha direito de esperar e muito menos sentir nada.

— Só vim trazer o terno e o remédio que Lucas pediu.

Nicole inclinou levemente a cabeça e sorriu.

— Ainda está brava comigo depois de todos esses anos? Eu já disse que nunca guardei mágoa por você ter ficado com o Lucas.

Aquela frase já estava ficando cansativa e repetitiva.

Camille tentou entrar para deixar as coisas sobre a mesa, mas Nicole bloqueou sua passagem.

Naquele instante, uma funcionária passou carregando uma bandeja com chá quente, caldo e torradas para servir na reunião.

Nicole pegou a bandeja naturalmente.

— Bom, se não quer entrar, eu mesma entrego isso para ele.

Foi uma atitude estranha.

Mas Camille estava cansada demais para pensar. Então entregou o cabide e a bolsinha de remédios. Tudo aconteceu rápido.

O braço de Nicole bateu na bandeja. A panela virou. O líquido fervendo caiu diretamente sobre o pé de Camille. A dor veio imediatamente, forte o suficiente para fazê-la perder o ar. Mas antes que reagisse, Nicole gritou primeiro. Alto. Desesperada.

Como uma vítima. A porta abriu quase imediatamente. Lucas apareceu.

Os olhos foram direto para Nicole.

— O que aconteceu?

Ele já estava ajoelhado ao lado dela.

Nicole chorava enquanto segurava a própria perna.

— Lucas, a culpa foi minha, eu não segurei direito a bandeja.

Mentira. Camille viu. Naquele olhar rápido entre lágrimas. Lucas virou para ela. Frio.

— Como conseguiu deixar isso acontecer?

Ela sentiu a dor subir pelo tornozelo enquanto tentava responder.

— Eu não…

— Nem isso você consegue fazer direito?

Cada palavra atingiu mais do que a queimadura.

Ela tentou explicar outra vez, mas Lucas já observava a cena.

— A bandeja estava estável. Isso não teria acontecido sem alguém provocar.

— Foi um acidente…

A voz dela saiu baixa.

Lucas ergueu os olhos.

— Ou fez de propósito?

Ela ficou imóvel.

Cinco anos ao lado daquele homem. E ainda assim ele nunca escolhia acreditar nela. Nunca. Lucas notou a queimadura em seu pé. Era pior do que qualquer marca em Nicole.

Ele hesitou por um segundo. Só um. Depois a hesitação desapareceu. Porque no fim pouco importava. Lucas segurou Nicole nos braços, e ela imediatamente se agarrou ao pescoço dele.

— Lucas a Mille também se machucou!

Ele sequer olhou para trás.

— Ela não vai morrer. Se precisar, vai sozinha ao hospital.

Depois completou:

— Você é modelo. Uma cicatriz pode acabar com sua carreira.

E foi embora, carregando Nicole.

Deixando Camille parada naquele corredor, olhando para a própria queimadura enquanto entendia dolorosamente que a pele queimaria, doeria, mas depois cicatrizaria. Mas algumas dores deixavam a ferida viva dentro da gente.

E talvez naquela noite tenha morrido a última parte dela que ainda esperava ser escolhida por Lucas Durand.

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Olá Leitoras!

Sejam muito bem-vindos à minha nova obra!

É uma alegria enorme ter vocês aqui comigo. Espero, de coração, que esta história consiga emocionar, divertir e conquistar um espaço especial no seu coração.

Se estiver gostando da leitura, não esqueça de curtir, votar, avaliar e favoritar a obra. Se desejar, também pode me presentear com flores e moedas.

Mas, acima de tudo, deixe seu comentário em cada capítulo. Sua opinião é muito importante para mim! É através da interação com vocês que consigo crescer como autora, aprimorar minha escrita e trazer histórias cada vez melhores.

Cada curtida, comentário e incentivo faz toda a diferença nessa jornada.

Desde já, muito obrigada pelo carinho e apoio.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao início desta aventura!

Com carinho,

Sila Reis

Capítulo 2

Lucas saiu apressado carregando Nicole nos braços, como se estivesse protegendo algo precioso demais para tocar o chão. Ao passar pela porta, seu ombro bateu no de Camille com força suficiente para fazê-la perder o equilíbrio. O corpo dela cambaleou para trás, e por instinto precisou segurar o batente da porta para não cair.

No instante em que apoiou o peso sobre a perna machucada, uma dor absurda atravessou o dorso do pé e subiu até a panturrilha como fogo vivo. Seus dedos apertaram a madeira com tanta força que os nós dois seus dedos ficaram esbranquiçados. Por alguns segundos, ela sequer conseguiu respirar direito.

Lucas não olhou para trás ou talvez tivesse percebido. Só escolheu continuar andando.

Porque Nicole chorava em seus braços. Sempre Nicole.

Camille levantou o rosto devagar. Dentro da sala ainda havia pessoas observando discretamente. Funcionários. Executivos. Parceiros comerciais. Alguns desviaram os olhos quando perceberam que foram flagrados. Outros continuaram encarando.

Ela conhecia aqueles olhares. Pena, um pouco de deboche, curiosidade. Como se estivessem assistindo à esposa inconveniente do CEO sendo deixada para trás enquanto o grande amor dele recebia toda atenção.

Aquilo deveria machucar, talvez tivesse se machucado anos atrás, mas agora, parecia só mais uma noite comum. Ela soltou lentamente o batente e começou a andar apoiando uma das mãos na parede fria do corredor. Cada passo fazia a queimadura pulsar mais forte. O líquido preso sob as bolhas parecia pressionar sua pele por dentro.

O corredor iluminado parecia longo demais naquela noite. Ou talvez fosse apenas ela que estivesse cansada demais. Quando entrou no elevador, viu o próprio reflexo na porta espelhada. Os cabelos estavam desalinhados. A maquiagem discreta começava a desaparecer. O rosto estava pálido. Cansado. Ela ficou alguns segundos olhando aquela mulher refletida diante dela.

Era estranho.

Cinco anos atrás, teria feito qualquer coisa para agradar Lucas. Mudaria roupas. Mudaria hábitos. Mudaria até mesmo os sonhos.

Cinco anos depois, mal reconhecia quem havia se tornado. Desviou os olhos antes que o pensamento fosse longe demais.

O caminho até o hospital aconteceu em silêncio. As luzes da cidade atravessavam a janela do carro enquanto Camille permanecia olhando para fora. Ela não chorou. Curiosamente, nem vontade sentia. Porque existe um tipo de sofrimento que ultrapassa lágrimas.

Quando chegou ao pronto-socorro, uma enfermeira veio imediatamente em sua direção. Bastou olhar o estado do pé dela para arregalar os olhos.

— Meu Deus! Como isso aconteceu?

Camille abaixou o olhar automaticamente.

As bolhas tinham aumentado muito em poucos minutos. Algumas eram enormes. A pele estava avermelhada, inchada e brilhante sob a iluminação branca do hospital.

A enfermeira respirou fundo.

— Isso está feio. Vai doer bastante.

Camille quase sorriu. Dor. Aquilo era engraçado. Como se fosse novidade. Ela assentiu silenciosamente e sentou na maca.

Enquanto preparava os materiais, a enfermeira continuou falando:

— Você acredita que há pouco apareceu aqui outra moça com queimadura? Uns pontinhos vermelhos. Quase nada.

Ela balançou a cabeça enquanto calçava as luvas.

— O namorado entrou carregando ela nos braços, desesperado, exigindo atendimento imediato.

Depois suspirou:

— Mais meia hora e provavelmente nem precisava vir.

O peito de Camille apertou discretamente.

Ela não perguntou. Não precisava, pois sabia que era Nicole.

E o homem desesperado, Lucas. Seu marido. O homem que a deixou sair sozinha minutos antes. Uma sensação amarga subiu pela garganta.

Engraçado como situações pequenas mostravam exatamente o lugar que ocupamos na vida de alguém.

Com Nicole, ele era protetor, atencioso, amoroso.

Com Camille?

"Ela não vai morrer."

As palavras voltaram imediatamente à memória. Ela fechou os olhos por alguns segundos. Seu celular vibrou.

Uma vez, depois outra.

Ela abriu os olhos e viu no visor:

"Lucas"

Camille observou o nome na tela durante alguns segundos antes de virar o aparelho para baixo e não atendeu, não queria conversar. Na verdade, estava cansada demais até para sentir curiosidade. A enfermeira já preparava uma agulha.

— Essa bolha maior precisa ser drenada. O líquido não vai absorver sozinho.

Camille respirou fundo e assentiu. Foi nesse instante que ouviu passos rápidos no corredor. Levantou o rosto e viu Lucas parado na porta. Impecável em seu terno escuro. Estava com a expressão fechada, postura rígida. Os olhos dele encontraram imediatamente os dela.

A primeira frase foi:

— Por que não atendeu minhas ligações?

Cobrança. Não preocupação.

Camille demorou alguns segundos antes de responder:

— O celular está no silencioso.

Lucas desviou automaticamente o olhar para o aparelho virado sobre a cadeira e oercebeu. Mas não fez comentário.

A enfermeira ergueu os olhos e o reconheceu quase imediatamente. Era o mesmo homem. O homem que entrou carregando outra mulher. Ela perguntou sem rodeios:

— Você é o quê dela?

Lucas ficou imóvel. Os lábios se abriram.

Mas antes que respondesse, uma voz surgiu atrás:

— Lucas, Camille está bem?

Nicole.

Ela apareceu usando uma expressão preocupada demais para ser verdadeira.

Os olhos de Lucas foram automaticamente até ela. E naquele pequeno instante, ele hesitou.

A palavra marido ficou presa na garganta, como se assumir aquilo diante dos outros fosse mais difícil do que deveria.

Camille percebeu imediatamente.

Depois de cinco anos ao lado dele, aprendeu a reconhecer cada desconforto, cada silêncio e cada expressão que tentava esconder. Uma sensação estranha surgiu dentro dela. Não era exatamente dor. Talvez tristeza. Ou apenas cansaço. Então resolveu poupá-lo daquele constrangimento.

— Somos conhecidos mas, não somos amigos..

A resposta saiu calma, parecendo verdade.

O olhar de Lucas voltou imediatamente para ela. Algo endureceu em sua expressão.

Irritação? Ou incredulidade. Ele respondeu rapidamente:

— Ela é minha esposa. A voz saiu mais áspera do que deveria. Não foi você quem insistiu nesse casamento? Agora vai negar?

Camille franziu levemente a testa. Depois quase riu. Porque aquilo era ridículo. Quem passou cinco anos escondendo aquele casamento foi ele. Quem evitava aparecer em público com ela era ele. Quem nunca assumiu verdadeiramente a relação era ele.

Ela apenas estava poupando o constrangimento. Atrás deles, Nicole ouviu perfeitamente.

"Ela é minha esposa."

Seu sorriso vacilou por uma fração de segundo. Pequena demais para quase qualquer pessoa notar. As unhas perfeitamente pintadas afundaram discretamente na palma da mão. A enfermeira observou os três por alguns segundos e pareceu entender tudo.

Seu tom ficou frio:

— Pessoas sem relação direta podem esperar do lado de fora. Estão atrapalhando. A expressão de Lucas mudou imediatamente. A frase incomodou mais do que deveria. Mas então seus olhos caíram sobre o pé de Camille.

E dessa vez, ele viu de verdade as bolhas enormes e a pele avermelhada. Umas partes escurecidas. E o inchaço. Parecia pior do que imaginou. Muito pior. A enfermeira perfurou cuidadosamente uma das bolhas.

O líquido amarelado começou a sair lentamente. A perna de Camille tremeu involuntariamente. Ela apertou o lençol tentando suportar. Não reclamou. Não chorou. Lucas observava em silêncio. Aquela mulher era sua esposa.

Cinco anos.

Cinco anos morando na mesma casa.

E só naquele momento percebeu o quanto ela parecia pequena, frágil e desprotegida.

— Nos próximos dias evite sapatos fechados, aplique a pomada três vezes por dia e tente não forçar o pé, orientou a enfermeira quando terminou.

Camille assentiu e tentou levantar. Mas assim que apoiou o pé no chão, uma dor absurda atravessou sua perna inteira. Seu corpo perdeu força imediatamente. Ela ia cair, só não caiu porque Lucas foi mais rápido. Num reflexo, segurou Camille antes que atingisse o chão.

Ela se assustou e agarrou automaticamente o ombro dele. Depois percebeu e tentou afastar-se.

— Me coloca no chão.

— Se cair depois, a culpa não é minha respondeu sem olhar para ela. E ajustou o corpo dela nos braços.

Camille ficou rígida. Conhecia Lucas. Aquilo não era carinho, era receio da reação de Arthur Durand, seu avô. Nada além disso.

Quando saíram do ambulatório, Nicole continuava esperando. Ela olhou imediatamente e viu Lucas carregando Camille.

Por um segundo, o seu sorriso vacilou.

Depois voltou perfeitamente.

— Camille, você está bem? A voz era suave e falsa.

Camille sequer respondeu. Não tinha mais energia para participar daquele teatro. Mas Lucas respondeu automaticamente:

— O pé dela está pior do que pensamos. Ela não consegue andar.

Nicole manteve o sorriso, embora alguma coisa estranha tenha surgido em seus olhos. Parecia incômodo, talvez raiva ou até ciúme, mas sua voz continuou suave quando falou:

— Não precisa me explicar, Lucas. A Camille é sua esposa. Carregar ela nos braços é o mínimo, principalmente nesse estado.

Parecia gentileza. Mas Camille conhecia Nicole há anos. Sabia reconhecer Nicole quando sorria daquele jeito sempre que estava ferida. E também quando estava prestes a destruir alguém.

Conheçam nossa Camila Fontaine

Capítulo 3

Lucas hesitou por um segundo, apertou os lábios, olhou para Vitória, mas, no fim, não disse nada.

Camille ouviu o diálogo entre os dois e não conseguiu evitar um sorriso amargo, carregado de ironia. Ela era a esposa de Lucas mesmo sendo somente no papel.

Mas, naquele momento, a sensação era de que os verdadeiros marido e mulher eram eles. E ela era apenas a intrusa, a amante inconveniente.

Lucas caminhava na frente, Vitória ao lado dele, como se fosse um casal perfeito saído de um comercial de margarina.

E, mesmo que Camille tentasse ignorar toda a falsidade de Nicole, a boazinha não perdia uma chance de manter seu teatrinho:

— Camille, deve estar doendo muito. Por favor! Me desculpa. Na hora, o Lucas só pensou na minha carreira, por isso me trouxe primeiro ao hospital. Não fica brava com ele, tá? Disse Nicole, num tom doce e caridoso, olhando para ela como se estivesse pedindo desculpas sinceras.

Camille sorriu de canto e respondeu com calma:

— Eu não estou brava. Afinal, na cabeça dele, você sempre vem em primeiro lugar.

Era apenas a verdade. Mas, para Lucas, soou como ironia.

Seu rosto ficou sério, e ele a repreendeu:

— Que tom é esse? Mesmo que Nick tenha deixado cair, foi culpa da copeira. Isso foi responsabilidade dela.

Camille não respondeu. Sabia que, mesmo se explicasse mil vezes, ele não acreditaria.

Levantou o rosto, encarando-o diretamente, os olhos vazios e indiferentes.

Lucas baixou o olhar e encontrou aqueles olhos frios, distantes. Sentiu algo estranho apertar o peito. Ela parecia muito diferente.

Não era mais aquela mulher submissa, mansa, que ele costumava desprezar.

Nicole, percebendo o clima pesado, logo interveio:

— Já passou, Lucas. Eu nem me machuquei tanto assim. Não briga mais com a Camille, por favor, disse, sorrindo gentilmente. Afinal somos irmãs.

— Além disso, ela também se machucou. Não seja tão duro com minha irmã.

Camille sentiu vontade de rir. Ela, a vítima, transformada em culpada e Nicole, como sempre, pousando de alma generosa.

— Da próxima vez, tome mais cuidado. Disse Lucas, dirigindo-se a Camille.

“Da próxima vez.”

Camille soltou um riso frio por entre os lábios. Não haverá próxima vez. Quando chegaram à calçada, um grito de dor atrás deles chamou atenção.

Lucas, virou-se na hora e viu Nicole caída no chão, segurando o tornozelo, o rosto contorcido em dor.

— Nick! Ele exclamou, preocupado.

Sem pensar, soltou Camille de forma brusca. Ela, pega de surpresa, caiu direto no asfalto, soltando um gemido de dor.

Mas Lucas já corria em direção a Nicole, pegando-a nos braços, voltando apressado para o ambulatório.

Deu dois passos e então olhou para trás.

Camille estava lá, tentando se levantar com dificuldade, o corpo trêmulo, incapaz de endireitar as costas da dor.

Lucas franziu o cenho. Mas, no mesmo instante, ouviu o choro abafado de Nicole:

— Está doendo, acho que torci o tornozelo e depois de amanhã eu tenho um desfile, Lucas. O que eu faço?

— Não se preocupe, eu vou cuidar de tudo. Respondeu ele, desviando o olhar e indo embora, sem voltar à cabeça novamente.

Ele se foi.

Camille, com grande esforço, conseguiu ficar meio erguida, mas a dor era tão intensa que ela mal conseguia endireitar a coluna. Nem olhou na direção deles. Sentiu os olhos arderem, segurando o choro, mas apenas levantou a mão e chamou um táxi.

Ao entrar no carro, baixou o olhar para os próprios pés. Na queda, tinha batido o dedão numa pedra saliente do calçamento. O sangue já escorria devagar. E não era só isso, a dor no cóccix era aguda, e o cotovelo estava ralado, com uma grande área da pele arrancada.

Com cuidado, ela pegou um lenço de papel e tentou limpar o sangue e a sujeira. Mas, ao toque, a dor atravessou seu corpo e, junto dela, vieram lágrimas pesadas, grossas, rolando uma após a outra.

A dor física se misturava à dor emocional, e ela mordia o lábio com força para não soluçar.

“Falta menos de um mês, pensou, só mais uns dias e eu estarei livre.”

O celular vibrou novamente.

Uma mensagem do mesmo número desconhecido:

Nicole: Desculpa, Camille, Lucas me trouxe para cuidar do meu pé e acabou te deixando sozinha. Ele ainda vai precisar ficar comigo mais um tempo. Espero que você não se importe, ok.

Camille leu a mensagem e simplesmente a ignorou. Eles ficaram separados por cinco anos, e Lucas ainda a amava tanto quanto antes. Bastava ela aparecer e ele corria, como sempre fez.

Abriu outro aplicativo e leu a mensagem enviada no dia anterior por Ângelo Moreau, seu colega de faculdade e sócio, perguntando quando ela voltaria para assumir sua posição na empresa.

Ela havia escondido seu casamento, dizendo a ele que estava no exterior cuidando de sua avó. Na verdade, tinha passado os últimos cinco anos na Itália.

Nesses cinco anos, Camille viveu girando em torno de Lucas, indo de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Sempre invisível. Pois ele nunca prestou atenção nela. Nunca se interessou pela ocupação dela.

Camille respondeu: Daqui a um mês eu volto para França. Só preciso encerrar umas pendências aqui.

Camille respondeu ao colega.

Colocar um ponto final em tudo o que dizia respeito a Lucas. A resposta veio quase imediatamente. Ângelo insistia para que ela voltasse direto para a empresa deles, já assumindo o cargo de diretora presidente.

Ela agradeceu, aceitou o convite. Depois que se formou, tinha se casado com Lucas. Na teoria, ela era uma dona de casa.

Na prática, uma faz tudo.

Tudo o que havia aprendido na universidade ela colocou em prática e fundou sua empresa. Agora, precisaria começar do zero. Reaprender a caminhar sozinha, sem girar em torno do Lucas.

Ângelo: Ah, não fala assim! Esse cargo de diretora presidente ainda é pouco para você! Você é brilhante. Lembra? Bolsista todos os anos, liderando equipe, conquistando o ouro na competição de startups ainda no segundo ano, você sempre foi incrível, Miss Flower.

Camille encarou a mensagem por alguns segundos, com os olhos lacrimejando. De repente, flashes do passado invadiram sua mente.

...Na universidade, ela sempre foi destaque.

Liderava equipes. Vencia prêmios. Foi naquela época que teve seus primeiros contatos com o Sr. Arthur Durand.

Seus olhos pararam sobre aquela palavra: “incrível.”

E, pela primeira vez em muito tempo, algo dentro dela pareceu despertar, como se uma brasa adormecida ganhasse vida. Sim. Ela era incrível. Havia ajudado Ângelo a começar a pequena empresa a distância e hoje a pequena empresa se tornou grande e renomada empresa.

Por amor, ela se rebaixou até o pó, tentando agradar, esquecendo quem era, jogando fora o próprio orgulho. Até ela mesma mal se reconhecia, parecia alguém pequena, barata, sem valor. Depois de responder à mensagem, Camille desligou o celular. A tela rachada parecia um reflexo cruel de tudo o que estava quebrado dentro dela. Encostou-se no banco do carro, fechou os olhos e tentou descansar. Mas as lembranças voltaram, invadindo sua mente sem pedir licença.

...Na época da faculdade, Ângelo a convidara para participar do projeto de startup e ela foi atrás de investidores e acabou chegando ao Sr. Arthur. Ele aceitou financiar, mas impôs uma condição de que se casasse com seu neto Lucas. Ele não queria Nicole na família.

Para Camille daquela época, aquilo parecia uma bênção dos céus. Uma oportunidade dupla, investimento garantido e a chance de ficar ao lado do homem que ela amava em segredo desde o ensino médio.

Mesmo quando Lucas namorava Nicole, o amor dela permanecia escondido, mas vivo, ardendo em silêncio. Ela foi gananciosa e quis o investimento e também quis o amor. Aceitou sem hesitar.

Agora só conseguia sentir arrependimento.

Um arrependimento sufocante, que apertava o peito até quase não conseguir respirar. Não foi um presente do destino.

Foi veneno. Veneno envelhecido, disfarçado de oportunidade. Nada que vem fácil vem sem preço. E quanto mais fácil as coisas vem, mais rápido se vão.

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Vamos conhecer o Sr. Ângelo Moreau

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