NovelToon NovelToon

A Bela e a Fera da Máfia

As sombras do girassol

A infância de Isabella tinha cheiro de alecrim e som de mar. Suas memórias mais antigas eram fragmentos de luz: o sol da Toscana batendo nas paredes de pedra da vila onde moravam e a voz de sua mãe, Ana Cristina, cantando canções de ninar em português. Ana era a personificação da vida. Brasileira de alma vibrante, ela trouxe para a rigidez italiana de Francesco uma cor que ele jamais conhecera.

Francesco, naquela época, era um homem transformado pelo amor. Ele não era apenas o provedor; era o pai que carregava Isabella nos ombros para colher figos e que olhava para a esposa com uma adoração que beirava a reverência.

— Veja, Bella — dizia Ana Cristina, apontando para o jardim. — Você é como essas flores. Tem raízes fortes na Itália, mas sua alma tem o calor do Brasil. Nunca deixe que apaguem o brilho desses seus olhos de cores diferentes. Eles são o seu mapa para o mundo.

A heterocromia de Isabella, que mais tarde seria motivo de troça por parte de Alessandra, era celebrada por seus pais como uma "marca de fada". Naquela bolha de felicidade, Isabella acreditava que o mundo era um lugar inerentemente seguro.

...----------------...

O estalo dos pneus no asfalto molhado e o grito abafado que Isabella ouviu da janela de cima aos dez anos de idade marcaram o fim de sua vida e o nascimento de sua sobrevivência. A morte de Ana Cristina foi um divisor de águas brutal. O funeral foi cinzento, e o silêncio que se instalou na casa era mais pesado que o caixão de madeira escura.

Francesco não soube lidar com o luto. O homem amoroso morreu junto com a esposa, deixando em seu lugar uma casca vazia e amarga que buscava refúgio no fundo de garrafas de vinho e em mesas de jogo. E foi nesse estado de vulnerabilidade que Matilda Bianchi surgiu.

Matilda não era apenas uma madrasta; era uma estrategista. Ela se infiltrou na vida de Francesco como um bálsamo falso, fingindo consolar um homem quebrado enquanto lançava olhares de gélido desdém para a enteada. Três meses após a tragédia, o casamento foi selado. No dia seguinte à cerimônia, o "reino" de Isabella ruiu.

...----------------...

Com a chegada de Matilda e sua filha, Alessandra, Isabella foi empurrada da mesa de jantar para o canto da cozinha. Matilda demitiu os funcionários antigos, alegando "cortes de gastos" devido às perdas de Francesco no jogo, e entregou o esfregão a Isabella.

— Se quer comer nesta casa, terá que ser útil — sentenciou Matilda, enquanto Alessandra, uma criança mimada e cruel, jogava suco propositalmente no tapete recém-limpo.

Aos treze anos, as mãos de Isabella já estavam ásperas pelo uso constante de produtos de limpeza. Enquanto Alessandra ganhava vestidos de seda e aulas de piano, Isabella usava roupas doadas e passava as madrugadas lavando as camisas de seda do pai. O que mais doía não eram as tarefas exaustivas, mas o olhar de Francesco. Ele passava por ela nos corredores como se Isabella fosse um móvel invisível ou, pior, um lembrete incômodo de uma felicidade que ele preferia esquecer.

— Papai, eu tirei a nota máxima em matemática — disse ela certa vez, estendendo o boletim com as mãos trêmulas.

Francesco nem sequer desviou os olhos do jornal.

— Peça para Matilda assinar. Não me amole.

O Tesouro Escondido

No entanto, havia algo que nem Matilda, com toda a sua ganância, conseguira tocar. Antes de morrer, Ana Cristina, talvez prevendo a instabilidade do marido ou por puro instinto de proteção, havia criado um fundo de investimento em nome de Isabella, registrado no Brasil e blindado por cláusulas rígidas. O testamento era claro: o dinheiro só poderia ser acessado para fins educacionais e, após os vinte e um anos, o restante passaria integralmente para a filha.

Francesco, embora soubesse da existência da conta, não possuía a senha nem o poder legal para movimentá-la. Matilda tentou, por diversas vezes, persuadir o marido a "reivindicar o que era da família", mas a barreira bancária internacional era intransponível para eles.

Aos dezesseis anos, Isabella descobriu a extensão desse legado. Foi sua tábua de salvação.

— Você não vai para a faculdade — zombou Alessandra certa noite, enquanto Isabella servia o jantar. — Mamãe disse que você vai trabalhar como governanta em tempo integral assim que terminar a escola.

— Eu vou para a faculdade, Alessandra — respondeu Isabella, a voz baixa, mas firme como aço. — E você vai continuar sendo apenas um eco da sua mãe.

O tapa que se seguiu deixou o rosto de Isabella ardendo, mas sua alma estava em festa. Ela tinha um plano.

A Adolescência de Ferro

Os anos seguintes foram uma guerra de desgaste. Isabella frequentava a escola pública durante o dia, trabalhava na casa até às dez da noite e estudava para os exames até às três da manhã, à luz de uma pequena lanterna para não "gastar energia", como exigia Matilda.

Ela aprendeu a esconder seus sentimentos sob uma máscara de submissão. Se eles achassem que a tinham quebrado, parariam de vigiá-la. E funcionou. Enquanto Alessandra se perdia em festas e escândalos locais, Isabella se tornava uma acadêmica brilhante no segredo de seu sótão mofado.

Na faculdade de Administração, escolhida estrategicamente para aprender a gerir seu próprio patrimônio — ela conheceu Helena Viegas. Helena, brasileira como sua mãe, foi a primeira pessoa em anos a olhar para Isabella e ver a pessoa, não a serva.

— Por que você volta para aquela casa todo dia? — perguntou Helena, horrorizada ao ver os hematomas roxos nos braços de Isabella, fruto dos apertos agressivos de Matilda.

— Porque ainda não tenho o suficiente para ser livre. Mas está chegando o dia, Helena.

A Fuga para a Liberdade

O dia em que Isabella completou vinte e um anos foi o mais silencioso de sua vida na casa dos Esposito. Ninguém celebrou. Não houve bolo, nem "parabéns". Mas, às nove da manhã, ela entrou em uma agência bancária no centro da cidade. Quando saiu, carregava um cartão e a confirmação de que sua herança estava disponível.

Ela não esperou pelo jantar. Voltou para casa, subiu ao sótão e colocou suas poucas posses — algumas fotos da mãe e seus livros — em duas malas velhas.

Quando descia as escadas, encontrou Francesco no hall. Ele parecia mais velho, o rosto inchado pelo álcool.

— Onde pensa que vai com isso? — ele perguntou, a voz arrastada.

— Vou embora, papai.

— Você não vai a lugar nenhum! Quem vai cuidar da casa? Quem vai aguentar os gritos de Matilda?

— Você — disse ela, olhando-o nos olhos com uma frieza que o fez recuar. — O senhor escolheu o seu destino há doze anos quando me deixou sozinha naquele inferno. Eu estou escolhendo o meu agora.

Matilda e Alessandra surgiram no topo da escada, prontas para desferir insultos, mas Isabella não lhes deu o prazer da reação. Ela caminhou em direção à porta da frente.

— Você vai voltar rastejando! — gritou Matilda. — Você não tem nada! É uma órfã miserável!

Isabella parou com a mão na maçaneta. Olhou para o retrato de sua mãe que ainda pendia, empoeirado, na parede lateral.

— Eu tenho o que vocês nunca terão — disse Isabella. — Eu tenho o amor da única pessoa que realmente importou nesta casa. E ela me garantiu que eu nunca mais precisaria de vocês.

...----------------...

Olá, queridos leitores! Estamos começando uma nova jornada. Esta história abordará o universo da máfia, portanto, conterá cenas de violência e temas sensíveis. Se você for sensível a esse tipo de conteúdo, recomendo que pule esta leitura.

Para os demais, vamos embarcar em A Bela e a Fera da Máfia. Espero que gostem!

Beijos,

Autora."

Ela bateu a porta atrás de si, sentindo o ar fresco da noite de Verona encher seus pulmões. Pela primeira vez em doze anos, ela não era a criada. Era Isabella Costa Esposito, uma mulher livre. Ou, pelo menos, era o que ela acreditava, antes que as dívidas de jogo de seu pai e o nome "Ferrari" cruzassem seu caminho novamente.

O Sacrifício

Isabella Costa Esposito, 23 anos.

Uma jovem doce, meiga e delicada, com pele morena clara, cabelos castanhos e cacheados que caíam até a metade das costas. O que mais chamava atenção em seu rosto, porém, eram seus olhos. Isabella tinha uma condição rara chamada heterocromia: um olho castanho e o outro verde.

A liberdade de Isabella tinha um sabor doce, mas era uma liberdade vigilante. Morando com Helena, ela finalmente descobrira o que era dormir sem o medo de ser acordada por um grito de Matilda ou um empurrão de Alessandra. Ela tinha seu emprego, sua faculdade e, acima de tudo, tinha Aldo. Ou, pelo menos, acreditava que tinha.

O toque do celular em uma tarde chuvosa de terça-feira interrompeu sua paz. O nome "Pai" brilhava na tela como uma assombração.

— Isabella — a voz de Francesco soou rouca, quase desesperada. — Preciso que venha à casa. É uma emergência de família.

Apesar de todas as cicatrizes, uma parte residual daquela menina de dez anos que amava o pai ainda vivia nela. Isabella foi. Mas, ao cruzar o portal da mansão que um dia fora seu lar, percebeu que a "emergência" era, na verdade, uma encenação de opulência. A casa estava mergulhada nos preparativos. Caixas de cristais, amostras de tecidos e catálogos de flores adornavam a sala onde ela fora tantas vezes humilhada.

— Alessandra vai se casar — anunciou Matilda, sem preâmbulos, saboreando uma taça de vinho caro. — Com um Ferrari. Você sabe o que isso significa, não sabe, garota? Status. Poder. Coisas que você nunca entenderá trancada naquele apartamento minúsculo com sua amiga suburbana.

Isabella manteve a postura.

— Fico feliz por ela. Agora, por que me chamou aqui, pai?

Francesco não conseguia olhar nos olhos da filha. Ele fixou a vista em um ponto qualquer na parede.

— O casamento será em três dias. É um evento de proporções imensas. A logística é um pesadelo e não confio nos funcionários contratados para os detalhes íntimos. Você conhece esta casa melhor que ninguém. Você vai ajudar nos preparativos.

O sangue de Isabella ferveu.

— Servir? Pai, eu sou sua filha, não sua empregada. Eu tenho um emprego, tenho uma vida...

— Você fará o que eu mandar! — Francesco explodiu, batendo na mesa. O desespero em seus olhos era real, embora Isabella ainda não entendesse a origem dele. — É o mínimo que você deve a esta família por todos os anos que a sustentamos!

Para evitar um confronto maior e na esperança de que aquele fosse o último vínculo a ser cortado, Isabella aceitou. Foi o seu maior erro.

O dia do casamento amanheceu cinzento. Isabella chegou cedo, os pés já cansados antes mesmo de o sol atingir o zênite. Ela organizou os arranjos de lírios brancos — que pareciam flores de velório sob aquela luz — e conferiu cada detalhe do buffet.

Perto do horário da cerimônia, Matilda ordenou que Isabella levasse o buquê de orquídeas raras para a suíte da noiva.

Isabella subiu as escadas, o coração estranhamente pesado. Ao se aproximar da porta entreaberta, o som gemidos rítmicos a fez parar. O buquê tremeu em suas mãos. Através da fresta, a cena se desenrolou como um filme de terror em câmera lenta: o vestido de noiva de milhares de euros jogado sobre uma poltrona e, na cama, Alessandra se desfazia em carícias com um homem de costas.

Mas ela reconheceria aquela voz que sussurrava "você é muito melhor que ela" pertencia a Aldo Colombo.

O mundo de Isabella não apenas quebrou; ele se dissolveu. A traição tinha o rosto do seu primeiro amor e da filha de sua madrasta que sempre quisera destruí-la. Em um surto de fúria e dor, ela escancarou a porta.

— Traidores! Monstros! — As flores voaram, atingindo o rosto estupefato de Aldo.

A confusão que se seguiu foi um turbilhão de gritos. Francesco entrou logo depois, mas não trazia consolo para a filha traída. Ele trazia o pavor da morte. Quando a verdade sobre a dívida de jogo e o acordo com a Máfia Ferrari veio à tona, a máscara de "família tradicional" caiu por completo.

— Eu não vou me casar com aquele monstro deformado! — gritava Alessandra, cobrindo-se com o roupão. — Se quer pagar sua dívida, papai, use a Isabella! Ela adora se sacrificar pelos outros!

Matilda foi o mais cruel, Ela olhou para Francesco E ordenou que ele sacrificasse a filha dele, Isabela olhou para o pai esperando ver uma negação imediata, um lampejo do homem que a carregava nos ombros. Mas viu apenas um covarde.

— É a única solução — murmurou Francesco. — Os Ferrari esperam uma noiva Esposito. Eles nunca viram o rosto de Alessandra de perto. No véu, todas as noivas são iguais.

— Eu não vou fazer isso! — Isabella recuou para a porta, mas Francesco foi mais rápido, segurando seu braço com uma força que ela não sabia que ele ainda tinha. — Me solte! Isso é sequestro! É crime!

— Crime é o que os Ferrari farão com a minha cabeça se eu não entregar uma esposa hoje! — Francesco rugiu, arrastando-a de volta para o quarto. — Você vai salvar esta família, Isabella. Pela memória da sua mãe, você vai fazer isso!

— Não ouse usar o nome dela! — ela gritou, as lágrimas escorrendo por seu rosto.

Mas não havia escapatória. Matilda e Alessandra agiram com uma eficiência cruel. Isabella foi jogada em uma cadeira. Enquanto Matilda prendia seus braços, Alessandra, com um sorriso de vitória diabólica, começou a remover a maquiagem de Isabella para refazê-la ao estilo "noiva".

— Pense pelo lado positivo, maninha — sibilou Alessandra no ouvido dela, enquanto apertava o espartilho do vestido de noiva com tanta força que Isabella perdeu o fôlego. — Você sempre quis ser notada. Agora terá um marido que ninguém quer olhar. Dizem que o rosto de Leonardo Ferrari parece carne queimada no asfalto. Ele usa uma máscara para não assustar as crianças. Vocês formam um par perfeito: a garota dos olhos esquisitos e o monstro das sombras.

Isabella tentou lutar, tentou gritar, mas o desespero e a exaustão emocional começaram a cobrar seu preço. Ela se sentia em um pesadelo lúcido. O vestido de seda branca, que deveria ser o símbolo de um sonho, parecia uma mortalha fria e pesada. O véu de renda, colocado sobre sua cabeça por Matilda com um gesto de falso carinho, era a grade de sua cela.

— Se você abrir a boca ou tentar fugir — ameaçou Francesco, parando diante dela antes de saírem —, eu garanto que sua amiga Helena sofrerá as consequências. Os Ferrari têm olhos em todos os lugares.

O nome de Helena foi o golpe final. Isabella paralisou. Sua resistência morreu ali, substituída por um vazio gélido.

Isabella estava sentada no banco de trás do carro, ladeada por Francesco, que segurava sua mão com uma pressão que pretendia ser firme, mas era apenas trêmula.

Ela olhou pela janela, vendo as pessoas comuns caminhando pelas calçadas, vivendo suas vidas normais. Elas não sabiam que, dentro daquele carro preto, uma mulher estava sendo levada para o abate sob as leis não escritas da máfia.

O carro parou diante da imponente catedral de pedra.

As portas da igreja estavam fechadas, guardando o mistério e o perigo que a esperavam lá dentro. Dois homens de terno escuro e óculos escuros — soldados da família Ferrari — montavam guarda na entrada. Eles inclinaram a cabeça levemente quando Francesco desceu, puxando Isabella consigo.

O vento frio da noite agitou o véu de Isabella, revelando por um segundo seu olho castanho cheio de pavor e seu olho verde brilhando com uma centelha de ódio contido.

— Sorria — ordenou Francesco entre dentes. — Você está entrando para a família mais poderosa da Itália.

Isabella não sorriu. Ela sentiu o peso do buquê — o mesmo que ela mesma montou horas antes para sua carrasca — e deu o primeiro passo em direção aos degraus de pedra.

As grandes portas de madeira começaram a se abrir lentamente, revelando um corredor escuro iluminado apenas por velas, e ao fundo, no altar, a silhueta de um homem alto, imóvel, cuja face era ocultada por uma máscara de prata que refletia a luz vacilante.

Isabella parou no limiar. O próximo passo não seria para um casamento, mas para um contrato de sangue do qual ela sabia que jamais sairia viva

Helena Viegas, 24 anos melhor amiga de Isabella

Francesco Esposito 54 anos

Alessandra Esposito, filha de Matilda, 23 anos

Matilda Esposito 50 anos madrasta de Isabela

O Batismo de Sangue e Ouro

Leonardo Ferrari, 30 anos

Leonardo Ferrari tinha trinta anos.

Alto, forte, cabelos loiros e olhos azuis intensos, ele possuía uma presença que fazia qualquer sala ficar em silêncio quando entrava.

Para o mundo, Leonardo era apenas um empresário extremamente bem-sucedido, dono de um império financeiro que se estendia por vários países da Europa.

Mas esse era apenas o lado visível.

Nas sombras, Leonardo Ferrari era algo muito mais poderoso.

Ele era o Dom da Cosa Nera, uma das organizações mafiosas mais antigas e temidas da Itália.

Filho mais velho de Matias Ferrari e Aurora Ferrari, Leonardo nasceu em um mundo onde poder, lealdade e sangue eram as únicas moedas que realmente importavam.Ele tinha dois irmãos mais novos: os gêmeos Lorenzo e Lorena, de vinte e seis anos.

​A infância de Leonardo Ferrari não foi desenhada com cores primárias, mas com os tons sóbrios do mármore de Carrara e o brilho frio do aço. Enquanto outras crianças da elite italiana corriam por parques públicos, Leonardo, aos sete anos, já compreendia que a liberdade era uma ilusão para quem carregava o sobrenome Ferrari.

​Seu pai, Matias, era um gigante de presença magnética. Ele não ensinou Leonardo a ser um bandido; ensinou-o a ser um rei. No escritório revestido de carvalho, entre o cheiro de charutos caros e o tilintar de gelo em copos de cristal, Matias apresentava o mundo ao filho.

​— Olhe para estas mãos, Leonardo — dizia o velho Dom, estendendo as palmas calejadas. — Elas podem construir impérios ou destruir linhagens. A diferença entre um líder e um tirano é o respeito que ele tem pela própria palavra. E a palavra de um homem começa dentro de casa.

​Leonardo observava a forma como o pai tratava sua mãe, Aurora. Era uma devoção quase religiosa. Aurora era a bússola moral de um império construído sobre sombras. Ela não era apenas a esposa do Dom; era sua conselheira mais fiel. Ali, nos jardins da propriedade na Sicília, Leonardo aprendeu o Código: a lealdade à esposa era o alicerce de todo o poder externo. Se um homem não podia governar o próprio coração, como poderia governar a Cosa Nera?

​A Ascensão Precoce

Aos vinte e dois anos, o peso da coroa de espinhos caiu sobre os ombros de Leonardo mais cedo do que o esperado. Matias, o carvalho inabalável, foi derrubado por um ataque cardíaco, tu deixou frágil, a mente lúcida, mas o corpo traidor.

O mundo da máfia, faminto como uma matilha de lobos, sentiu o cheiro de fraqueza. Os "Capos" mais velhos olharam para Leonardo — jovem, loiro, de olhos azuis gélidos e aparência de modelo — e viram uma oportunidade de golpe. Eles não viram a fera que Matias tinha criado nas sombras.

No primeiro mês de seu comando, Leonardo executou três traidores em uma única noite. Ele não usou carrascos; ele mesmo apertou o gatilho, mantendo os olhos fixos nos deles enquanto a vida se esvaía.

​— Eu não sou meu pai — ele sussurrou para o último traidor. — Eu sou o que ele me preparou para ser. O fim de quem duvida de mim.

​Aos vinte e quatro anos, o casamento com Sofia Ricci foi o movimento final em um tabuleiro de xadrez global. Sofia era suave, uma herdeira da aristocracia mafiosa que entendia as regras. Eles construíram um castelo de respeito mútuo. E quando Gael nasceu, o coração de gelo de Leonardo rachou. Ele segurava o filho pequeno e sentia, pela primeira vez, o medo. O medo de perder a pureza que aquele menino representava.

​A Noite do Apocalipse

O destino, porém, detesta a felicidade dos pecadores.

A noite do atentado ficou gravada na alma de Leonardo em flashes de alta voltagem. O riso de Gael no banco de trás, o perfume de jasmim de Sofia e, de repente, o som do mundo se rasgando. O primeiro tiro de fuzil perfurou o vidro blindado, uma falha de segurança imperdoável.

”— Abaixem-se! — gritou Leonardo, sacando sua Beretta personalizada.

Ele saiu do carro sob uma chuva de chumbo. O asfalto gritava. Seus homens caíram ao redor. Leonardo lutou como um demônio, eliminando três atiradores, mas o plano de seus inimigos era maior que uma simples emboscada. Era uma erradicação.

O estalo metálico de um lançador de granadas foi o último som que ele ouviu com clareza.

A explosão não foi apenas um clarão; foi uma onda de pressão que deslocou o ar de seus pulmões e o lançou contra uma mureta de concreto. Enquanto voava, ele viu — em uma fração de segundo que duraria uma eternidade em seus pesadelos — o carro onde sua vida estava virar uma bola de fogo alaranjada. O calor lambeu sua pele, derretendo tecidos e memórias, antes que a escuridão o engolisse.

Leonardo acordou em um mundo de gaze branca e dor líquida.

Cada respiração era como engolir brasas. Por sessenta dias, ele flutuou em um limbo de morfina e cirurgias de emergência. Quando os médicos finalmente retiraram os tubos, ele não perguntou se voltaria a andar.

​— Onde... eles estão? — Sua voz era um raspar de lixa.

O silêncio do seu braço direito, Marco de Luca, foi a sentença de morte de sua alma. Sofia e Gael haviam sido incinerados. Não houve tempo para adeus, apenas cinzas.

Semanas depois, ele exigiu um espelho. As enfermeiras hesitaram, mas ninguém negava um pedido do Dom. Ao olhar para o vidro, viu um monstro. O lado esquerdo de seu rosto era uma paisagem de cicatrizes avermelhadas, a pele repuxada, uma lembrança constante do fogo que o poupara apenas para torturá-lo com a ausência.

Leonardo viajou para a Suíça, para as mãos de um cirurgião que trabalhava para reis e ditadores. Foram meses de agonia física. Enxertos de pele, reconstrução de tecidos, tratamentos a laser que pareciam queimar a carne novamente.

No final do processo, o médico sorriu, satisfeito.

— O senhor está quase como antes, Dom Ferrari. As marcas que restaram são mínimas, quase imperceptíveis sob certa luz. O senhor recuperou sua beleza.

Leonardo tocou o rosto. A pele estava lisa, mas ele ainda sentia o calor das chamas. Ele olhou para o próprio reflexo e não viu o herdeiro loiro de outrora. Viu um homem que tinha voltado do inferno e percebeu que a beleza era uma vulnerabilidade.

​— Não — disse Leonardo, a voz agora profunda e estável. — Eu não quero ser o belo herdeiro novamente. Eu quero que eles tenham medo de olhar para mim.

Ele mandou forjar uma série de máscaras. Algumas de couro fino,

outras de prata escovada, algumas cobrindo apenas metade do rosto, outras imitando feições inexpressivas.

​Ao retornar para a Itália, a lenda já tinha crescido. Diziam que o Dom Ferrari era uma aberração, que sua carne havia derretido e que ele escondia uma face demoníaca por trás do metal. Leonardo não desmentiu. Ele alimentou o mito. Se as pessoas esperavam uma fera, ele lhes daria a Fera.

​A máscara tornou-se seu novo rosto. Por trás dela, ele podia observar o mundo sem ser lido. Ele podia chorar sem ser visto. Ele podia odiar sem que ninguém percebesse o tremor em seu maxilar.

​Os anos se passaram sob o signo do terror. A Cosa Nera prosperou, mas a pressão por um herdeiro e por uma aliança matrimonial crescia. Seu tio Rafaello, um abutre esperando a queda, já movia peças para declarar Leonardo "incapaz" por sua instabilidade emocional e física.

​A proposta de Francesco Esposito veio como uma piada de mau gosto. Um homem que trocava a própria filha por dívidas de jogo.

​Leonardo leu o dossiê sobre Alessandra Esposito. Uma mulher fútil, que desonrava o próprio nome em cada esquina. Ele sentiu nojo. Ela representava tudo o que seu pai ensinara a desprezar.

​— Ela quer uma fera? — Leonardo murmurou sozinho em seu escritório escuro, ajustando a máscara de prata que brilhava sob a luz da lua. — Ela quer o prestígio de ser uma Ferrari? Pois que assim seja.

​Ele aceitou o casamento, não por desejo, mas para calar os oponentes e testar os limites da lealdade dos Esposito. Ele preparou o altar como quem prepara um cadafalso. Se Alessandra era a pecadora que o relatório dizia, ele seria o demônio que aplicaria sua punição.

Naquela noite, diante do espelho, ele não viu o homem que foi operado na Suíça. Ele viu o monstro que a máfia precisava. Ele era a Fera, e estava prestes a reivindicar seu sacrifício no altar da Catedral de Verona.

Matias Ferrari, 54 anos, pai de Leonardo

Aurora Ferrari, 50 anos, mãe de Leonardo

Lorenzo e Lorena Ferrari irmãos de Leonardo, 26 anos

Marco de Luca 30 anos melhor amigo e braço direito de Leonardo

Para mais, baixe o APP de MangaToon!

novel PDF download
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!