Escócia, Séc. 13
---- Mandem buscar a senhora de Norvell imediatamente! ---- Ian caminhava com passos bruscos e pesados ao adentrar no Castelo de Silverstone.
O Castelo estava visivelmente em ruínas e era quase difícil acreditar que um clã realmente morasse ali. No entanto, Ian conhecia Lorde Duncan bem o suficiente para saber que o calhorda era capaz de deixar sua própria família vivendo na penúria e na miséria, enquanto fugia com todos os recursos de suas terras.
---- A senhora já vem, milord! ---- disse uma jovem criada ainda tremendo.
As terras Norvell e o Castelo de Silverstone haviam acabado de sofrer uma invasão rápida e brutal orquestrada por Ian e pelo seu implacável exército.
Ian MacAllister era o senhor de um dos maiores Clans das Terras Altas e também servia a Coroa como um general impiedoso e violento. Sua missão era exterminar qualquer insurgência contra o rei recém-coroado, Alexander II da Escócia.
Estava em uma campanha feroz há meses para aniquilar todo e qualquer apoiador de James, o blasfemo, ao trono.
Nunca havia simpatizado com seu tio James. Ele sempre lhe pareceu um parasita inútil e imprestável.
Como o filho bastardo favorito do rei, Ian MacAllister pode frequentar a vida na corte, mesmo que detestasse. Foi apresentado aos nobres e ladys e educado da melhor maneira possivel. No entanto, ele preferia estar na natureza selvagem de suas próprias terras nas Terras Altas, uma herança de seu avô materno. Seu pai, o falecido rei, havia aumentado significativamente a extensão de sua propriedade, bem como de seus bens e títulos, lhe conferindo, inclusive, a patente de General da Coroa escocesa.
Quando o rei faleceu, seu tio James começou a maquinar uma conspiração para depor Alexander II, filho legítimo do rei, do trono.
Apesar de ser um bastardo, Ian e Alexander sempre se consideraram irmãos um do outro. O respeito e afeto que sentiam mutuamente fazia com que Ian dedicasse sua vida para proteger o direito de nascença do irmão. Já Alexander fazia tudo ao seu alcance para que o irmão gozasse de cada vez mais status e prestígio.
Era imprescindível que as insurreições contra a Coroa fossem banidas o mais rápido possível. Alexander era muito jovem e havia acabado de ser coroado, seus inimigos deveriam ser aniquilados para que James ou qualquer outro jamais ameaçassem, ou duvidassem do verdadeiro rei.
---- Será que devo ir busca-la eu mesmo? ---- gritou Ian enquanto se sentava na enorme cadeira de ferro da sala principal. A Cadeira do Chefe do Clan Norvell.
As duas criadas deixadas para atender ao bruto general e ao seu exército tremeram novamente ao ouvir a voz cruel que ecoou pelas paredes do Castelo.
---- Nã... não, Senhor. Eu irei imediatamente! ---- disse a jovem criada sendo motivo de risos para todo o batalhão que entrava atrás de Ian.
---- Tenham modos, homens... ---- gritou Ian com seus homens ---- .... não esqueçam que eu não tolero estupros ou crueldades contra mulheres e crianças. Espero que se lembrem do que ocorreu com o último que desafiou as minhas regras!
O batalhão se lembrava, pois, certamente não haveria como esquecer os gritos agonizantes do homem durante dias e dias.
---- Sentem-se homens... vamos pedir a essa gentil senhora que nos traga o que comer e o que beber! ---- disse Ian olhando para a criada idosa na sua frente.
Animados com a expectativa de encher suas barrigas e tomar um bom uísque, os homens de Ian se sentaram nas mesas ao redor da cadeira do Grande líder.
---- Eu farei o melhor que eu conseguir, Senhor... ---- disse a velha criada virando as costas e correndo para a cozinha.
---- McKay!!! ---- gritou Ian para um de seus homens de confiança, que se levantou em um pulo.
---- Sim, Senhor MacAllister!!! ---- disse o jovem soldado.
---- Escreva ao rei... diga que finalmente conquistamos a última casa rebelde nas Terras Baixas... diga a ele que os corvos fizeram seu novo ninho!!! ---- sorriu Ian enquanto seus homens , entusiasmados, gralhavam como corvos lunáticos.
----- Senhor, meu nome é Lorna Douglas, filha de Laird (Lorde) Duncan Norvell e esposa de Peter Douglas. ---- a jovem na frente de Ian não tinha sequer vinte anos. Seus cabelos eram laranjas como um pôr do sol no verão, seu rosto era coberto por sardas e os seus olhos verdes de fada faiscavam de ódio por ele.
---- Finalmente a Senhora Norvell se dignou a aparecer... ---- disse Ian enquanto se levantava do gigantesco trono de ferro fundido. Era possível ouvir a respiração tensa da moça enquanto ele se aproximava dela. ---- Me diga, milady, não é possível ser verdade o que ouvi dos idosos, das mulheres e das crianças que encontramos em seu vilarejo. Seu pai e seu marido realmente fugiram levando todos os recursos desta terra maldita?
Ian estava a poucos metros da jovem com rosto infantil e corpo curvilíneo. Notou que o seu vestido de veludo verde era gasto e remendado. Pelas vestes que usava jamais seria possível descobrir que era a Lady da casa.
---- Sinto muito lhe decepcionar com a notícia, milord, mas é a verdade! ---- Ao dizer essas palavras sua voz carregava o peso da melancolia e do rancor ---- Ao saber de sua iminente chegada, meu pai reuniu seus melhores homens e partiu levando muitos de nossos recursos... O ouro em nossos cofres já não existe, e mesmo o alimento em nossas dispensas é escasso! Agora mesmo nossas mulheres lutam para preparar algo que o seu exército possa comer, mesmo que isso signifique que nós mesmos passaremos fome, senhor!
Ian MacAllister estava verdadeiramente intrigado com a moça na sua frente!
---- Me diga, quantos anos você tem? ---- disse ele olhando para o rosto da moça que corava. Certamente ela falava com muita determinação para alguém tão jovem!
---- Eu... ---- disse ela abaixando a cabeça ---- ... eu tenho 18 anos, milord!
Se Lorna Douglas tivesse dito que tinha 15 anos, mesmo assim Ian teria acreditado. Seus cabelos ruivos e cacheados estavam revoltosos, mesmo presos em uma longa trança. Seus traços infantis lembravam ainda uma criança.
---- McKay!!! ---- Gritou Ian e um embasbacado Tobias McKay surgiu rapidamente ao seu lado.
---- Você sabe quem é esse homem, minha jovem? ---- Tobias era outro dos filhos bastardos do falecido rei e havia sido posto desde a tenra idade sob a proteção dos MacAllisters.
---- Eu não sei, milord! ---- disse ela olhando brevemente para os olhos acinzentados do jovem Tobias.
---- Pois, muito bem... ----- disse ele caminhando ao redor dela ---- Esse é Tobias McKay, filho
bastardo do falecido rei...tal qual como eu!
Os olhos da bela Lorna se abriram mostrando a intensidade de sua cor verde água. Ela sabia que Ian MacAllister, o Corvo de Inverness, era filho bastardo do rei e irmão de Alexandre II, porém não podia imaginar que o jovem em sua frente fosse "Tobias McKay", o homem que jurou matar seu marido.
---- Vejo que reconheceu o nome, apesar de não ter reconhecido o rosto! ---- Ian colocou-se ao lado do amigo, que estava deslumbrado com a beleza da jovem. ----- Como deve saber, seu marido era casado com a irmã mais velha de McKay... nossa amável Annabel... Infelizmente nossa Annabel morreu misteriosamente... A quanto tempo, Tobias?
---- 3 anos, milord! ---- Os olhos de Tobias já não guardavam qualquer admiração pela jovem na sua frente! Quando o amigo mencionou sua adorada irmã, ele lembrou-se instantaneamente o que foi fazer naquela terra maldita : Matar qualquer Douglas ou Norvell que encontra-se.
---- E me diga minha jovem, a quanto tempo está casada com aquele homem nefasto? ---- disse Ian já sabendo a resposta.
---- 3 anos, senhores! ---- Lorna baixou a cabeça envergonhada. Ela própria amava e admirava Annabel McKay, mas quando o seu pai, de maneira sórdida, ofereceu a sucessão do clã ao pérfido Peter Douglas, o destino de Annabel foi traçado. Todos nas Terras Norvell sabiam o que havia ocorrido com a esposa do cruel guerreiro. Ele a havia matado com as próprias mãos.
Depois do injusto assassinato, Peter escolheu Lorna para desposar. Há 3 anos , aquela jovem de cachos bagunçados e rosto redondo e infantil sofria os horrores de ser casada com tamanho monstro.
---- Senhor McKay... ---- Lorna virou-se para o moço de cabelos castanhos e olhos acinzentados á sua direita ---- ... eu tive a felicidade de conhecer sua irmã... Era uma mulher maravilhosa que trazia luz e alegria em um lugar com tamanha escuridão como o Castelo SilverStone. Fui abençoada com sua amizade e afeto e jamais poderei compensar o mal que minha família fez a ela.
Com as vestes puídas, ela ajoelhou-se perante os seus algozes.
---- Não sou capaz de medir os crimes cruéis de meu pai e de meu marido, porém perante todos vocês, eu os confesso. Meu marido assassinou sua primeira esposa, a amável Annabel McKay, para que pudesse se casar com uma das filhas de Laird Duncan e herdar o clã. Como os senhores sabem, meu pai não teve filhos e o destino de minha mãe foi semelhante ao destino da doce Annabel. Meu pai não a perdoou por dar-lhe duas filhas mulheres e fez com que partisse dessa vida abandonando á minha irmã e á mim!
Havia um silêncio sepulcral no salão principal da Casa Norvell. Apenas a doce voz da jovem ecoava pelas paredes de pedras úmidas.
---- Ofereço minha vida em troca da vida de Annabel! O que peço é apenas para que poupem minha irmã e o resto do vilarejo! Eles serão úteis e leais, como foram a mim! Meu pai e meu marido jamais mereceram o povo que governam! O Clã Norvell termina comigo, senhores, e assim podem dizer ao rei que a última Casa inimiga foi derrubada!
Lorna Norvell continuava de joelhos e olhava para os senhores na sua frente com lágrimas nos olhos! Morrer não seria nada para ela, ela ansiava e desejava por isso nos últimos 3 anos em que esteve viva!
---- Você não nega o assassinato de Annabel e a traição de seu pai... ---- disse Ian em voz alta para que todos na sala ouvisse ----.... agora você espera que nós a matemos e simplesmente esqueçamos o golpe traiçoeiro de seu pai e de seu marido?
---- Milord, o senhor me compreende mal! ---- disse Lorna levantando a cabeça para olhar os olhos castanhos avermelhados de Ian ---- Eu não espero perdão ou clemência para meu pai e meu marido! Desejo do fundo de meu coração que os encontrem e que acabem com eles da pior maneira que encontrarem! Nada me dará mais satisfação! Se me permitem o pedido, espero que os homens que os acompanham, aqueles que roubaram os alimentos das próprias esposas e filhos, também encontrem o mesmo destino!
Enquanto faíscavam de ódio, os olhos verdes de Lorna ganhavam uma coloração ainda mais clara.
---- Não há lealdade da Senhora de Norvell para com seu pai e seu marido! ---- Gritou Ian, testando a atitude da jovem ousada.
---- Não há, senhor! ---- disse ela de maneira indiferente ---- Meu pai sempre tratou a mim e a minha irmã tal qual dois cães mortos de fome! Nossa mãe foi assassinada por ele e ele sempre deixou claro o desprezo que sentia por suas duas filhas! Meu marido... ---- Lorna olhou para baixo para que os homens não vissem uma lágrima que caiu pela sua bochecha ---- ... como bem sabem, monstro é uma palavra gentil para descrevê-lo!
---- Levante-se, Senhora de Norvell! ---- Gritou Ian ---- não haverá mais assassinatos por aqui... hoje. Reconheço que seu povo se rendeu á nós com facilidade e recusou a luta. Um homem digno jamais mata alguém que se rende!
Ao levantar-se, Lorna teve a ajuda inesperada do jovem Tobias. Segundo as histórias contadas por Annabel, Tobias não deveria ter mais que vinte e um anos. Era um bonito moço de traços firmes e nobres, com olhos azuis acinzentados, tal qual um lobo.
Lorna Norvell avistou, pela janela do quarto da irmã, os homens do General MacAllister voltando ao povoado enquanto traziam diversas carroças com mantimentos:
---- É apenas o segundo dia em que estão aqui e já fizeram mais pelo povo do que nosso pai fez em anos! ---- disse ela para Leana.
---- Então deveríamos ficar felizes, Lorna! ---- disse Leana sentada na simples e pequena cama que ocupava quase todo o quarto ---- Se eles querem as terras, talvez nos deixem ir, irmã.
Trancafiada em seu quarto durante quase toda a vida, Leana Norvell sonhava com a liberdade de campos verdes e com o ar puro das Terras Altas.
---- Quem sabe nos aceitem como criadas nas Terras Altas... ---- disse ela esperançosa.
---- Meu doce anjo, não nutra esperanças vãs... ---- Apesar de ser a caçula, Lorna era a mais bruta e realista das duas. Não podia permitir que a irmã sonhasse sonhos que não se realizariam. Leana já havia sofrido demais em uma vida tão curta. ---- ... não acho que desejem nos manter vivas. Eu vi o ódio e a mágoa nos olhos de Tobias McKay e não o julgo por isso. Eu certamente faria o mesmo se fosse você a ter um destino tão cruel como o de Annabel...
---- Annabel era tão boa e gentil... Certamente seu irmão não poderia ser tão diferente. Ela foi como nossa mãe durante os anos em que cuidou de nós...
---- E mesmo assim nosso pai e Peter foram capazes de matá-la!!! ---- Lorna sonhava com o dia em que se banharia no sangue de Peter Douglas, seu marido. Os 3 anos de abusos intensos que sofreu em suas mãos tinham adoecido sua alma e corpo. ---- Espero que eles os achem e os esfolem vivos! Seria gratificante saber disso antes de partir para a outra vida!
Leana também detestava o pai e Peter mas não conseguia ser tão sincera quanto Lorna sobre seus sentimentos.No fundo, sempre esperou que o pai lhe desse um único afago ou uma singela palavra de carinho durante todos os anos em que permaneceu praticamente presa naquela torre.
Aos 21 anos de idade, Leana Norvell jamais tinha visto sequer o rosto da irmã. Havia nascido cega e com a saúde frágil. Foi considerada pelo pai uma anomalia, uma maldição que recaia sobre a cabeça de todos. Seu pai foi tão convincente em espalhar que a menina era uma aberração que até mesmo algumas criadas não lhe dirigiam a palavra.
Foi então confinada a um pequenino quarto na torre do Castelo, para que ninguém pudesse vê-la ou ouvi-lá. Só saia de sua prisão quando o pai e seus homens não estavam nas redondezas. Sua irmã mais nova era sua única amiga e companheira.
---- Senhora Norvell... ---- A jovem criada Muria apareceu na estreita porta que não estava completamente fechada ---- O Senhor MacAllister está lhe chamando para o jantar!
Muria era muito jovem e ainda estava assustada com tudo que estava ocorrendo no Castelo nos últimos dois dias. A invasão foi tão rápida que quando os criados se deram conta, o batalhão das Terras Altas já ocupava cada centímetro do decadente Castelo SilverStone.
---- Como estão os ânimos, Muria? ---- Lorna perguntou franzindo a testa.
---- Os homens trouxeram mantimentos durante todo o dia... o povo está feliz, ouso dizer... há tempos não viam tanta comida! ---- disse ela dando passos suaves e entrando no pequeno cubículo.
---- Creio que sejam boas notícias, não é, Muria? ---- Leana sorriu para ela de maneira ingênua. Muria ainda ficava desconfortável com os olhos extremamente claros de Lady Leana. Eram como duas lagoas congeladas no inverno.
---- A Sra. Smith está dando pulos na cozinha... promete um jantar excelente para esta noite! ---- Muria tentou sorrir de volta antes de se lembrar que a jovem Lady não podia perceber seu sorriso.
---- Leana, Muria está sorrindo para você! ---- disse Lorna ao perceber as intenções da criada.
---- Obrigada pela gentileza, Muria! ---- disse Leana abrindo ainda mais o sorriso.
---- Devo descer, meu anjo. Você ficará bem?
---- Claro que sim, Lorna, ficarei como sempre! Já passa da minha hora de dormir, de qualquer maneira! ---- Lorna temia que em breve o temível Ian MacAllister desse por falta da mais velha das filhas da Casa Norvell. Ela certamente não permitiria que a inocente irmã passasse por qualquer humilhação.
----- Não se preocupe, Lady Leana, eu irei trazer o seu jantar aqui no quarto... dizem que hoje tem torta de cordeiro! ---- disse Muria.
---- Oh, eu nunca comi! ---- Leana ficou empolgada ---- certamente estará deliciosa.
Lorna olhou com carinho para a irmã mais velha. Os abusos e sofrimentos pelos quais passou não ofuscaram o coração terno e o temperamento gentil da menina. Certamente ela era um anjo em um corpo de mulher.
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