Merida Sana
Desligo o telemóvel e suspiro mais uma vez. Ainda não há nenhuma notificação e volto a concentrar-me no trabalho.
Aguardo ansiosa para saber se consegue ou não uma bolsa de estudos. Estudei por tantos anos e me dediquei muito para conseguir essa bolsa e assim mudar a vida da minha família.
— Limpeza na receção. -A minha chefe Alice fala com aquela cara de brava de sempre.— Um hóspede deixou um copo com bebida quebrar e tens que ir limpar o mais rápido possível, porque o dono do hotel irá chegar logo. - Ela fala e eu ia reclamar de que eu estava na minha pausa. Mais decide ir para evitar qualquer problema.
— Sim, chefe. - falo e pego os materiais necessários e sigo para a receção que fica logo na entrada do hotel.
Enquanto limpo os catos de vidro do copo, vários funcionários se posicionarem na entrada do hotel, todos em duas filas organizados e com a cabeça baixa. Logo depois uma figura masculina entrou acompanhado de muitos seguranças e seguiu para o elevador VIP.
Deve ser alguém muito rico e eu não pude ver o seu rosto, porque estava muitas pessoas na frente. A única coisa que eu percebi é que ele deve ser árabe devido à roupa que usava.
Todos voltaram ao trabalho depois daquele homem entrar no elevador. Alguns dos seus seguranças ficaram aqui e eu decidi focar no trabalho. Terminei na receção e voltei para limpar os banheiros do terceiro piso.
Após terminar, a minha chefe aparece de novo.
— Já terminou o terceiro piso?
— Sim, chefe. - Falo calma e olho para o relógio na parede do corredor.
— Eu vou sair mais cedo e você vai limpar os quartos do segundo piso, tem que ser apenas os quarto da parte direita. - Ela fala como se não fosse nada demais, são 7 quartos e falta apenas uma hora para bater o meu horário. Estou exausta e quero ir logo para casa. — E também, amanhã a sua colega de trabalho Lúcia irá faltar, então você vai cobrir o seu turno.- Fala prestes a ir embora
— Espera chefe, amanhã é o meu dia de folga. -Ela revira os olhos e me encara séria.
— Se não quer trabalhar, se demita logo. Tem muitas pessoas por aí querendo esse trabalho e você vem reclamar por trabalhar em seu dia de folga. - Eu ia falar, mais ela não deixa. — Eu te fiz um grande favor por te contratar, já que não tinhas nenhuma experiência, então seja agradecida por essa oportunidade. Aqui é o hotel mais luxuoso do país e olha a grande sorte que tens.
Ela foi embora. Fiquei triste, mais o que eu poderia fazer? Ela tem razão sobre o que disse e eu não vou perder esse emprego ainda. Eu preciso muito dele para ajudar com as despesas da família.
Foi difícil conseguir um trabalho sem experiência e o salário não é tão ruim.
Termino o mais breve possível, limpo cada quarto e deixo tudo impecável. Quando dou por mim já são às 21 horas. Me apresso e vou trocar de roupa para ir para casa.
Depois que sai do hotel fui para casa a pé como sempre. Mais desda vez fiquei com aquela sensação estranha de ser observada.
— Cheguei mãe. - Falo entrando em casa, mais não vi ninguém. Achei muito estranho. Então resolvi ir procurar todo muito na loja da minha mãe.
Ela tem uma pequena loja de vestuários tradicionais da Arábia Saudita, que conquistou com muito esforço após dez anos a trabalhar como empregada em vários lugares.
A minha mãe veio da Arábia e ela sempre me contou que fugiu do meu pai, porque a vida de lá para ela era muito limitada. Ela sempre teve o seu sonho, mais foi obrigada pela família a se casar com o meu pai. Ela contava-me que detestou viver daquela forma, sendo tão submissa e pior ainda com uma sogra que a detesta e faz questão de a humilhar na frente de todos.
Ela me disse que após ficar grávida, teve um tratamento melhor por parte da família, mais após se saber que era uma menina, tudo piorou e ela tomou coragem para fugir.
Pegou em tudo que tinha, as jóias que recebeu de presente de casamento e fugiu de país. Até então tem sido uma luta, mais ela se sente feliz com a sua vida apesar dos desafios que enfrentamos.
Cheguei na loja que fica perto da nossa pequena casa e estava fechado. Isso deixou-me preocupada, pois apesar do horário, ela muitas vezes fica lá até tarde para terminar algumas peças. Resolvi ligar para ela.
— Mãe onde estão? - Pergunto assim que ela atendeu e ela ficou em silêncio por um momento e só então falou
— Merida, a sua irmã desmaiou e a trouxemos as pressas ao hospital, mais agora ela perece estar melhor.
— Eu vou já para aí
— Não filha, você teve um dia cansativo de trabalho. Então vai descansar. Eu estou aqui com o Orlando e aguardamos os resultados dos exames que pode demorar. - O Orlando é o meu padrasto. Eles se casaram quanto eu tinha 4 anos eu acho e ele me trata como a sua filha também.
— Mais eu quero ir ver a minha irmã
— Não se preocupe, qualquer novidade eu te ligo. Fica em casa e logo voltamos. - Ela desliga e resolvo ir para casa novamente.
Estou muito preocupada com a minha irmã. Ela ficou doente a dois anos atrás e desde então tem sido uma grande luta para ela melhorar. Mais quando ela melhora, pouco tempo depois a situação piora de novo.
Resolvo jantar e tomar um banho para ir dormir. Amanhã tenho que chegar cedo no trabalho e será muito puxado.
Visto o meu pijama, dou uma ajeitada bem rápido na casa e vou para cama. Vejo se há alguma notificação importante e até agora nada. Suspiro e coloco o meu telemóvel para carregar.
Amanhã será um novo dia, penso comigo mesma. Apago a luz e deito na hora deixando o cansaço me vencer.
Foto de Merida Sana (Tirada do pinterest)
Acordo cedo e preparo-me para ir trabalhar. Ainda não chegaram em casa com a minha irmã. É sempre assim, então não penso muito nisso e após terminar saio para o trabalho.
O tempo todo tenho a mesma sensação de ontem, mais decido ignorar já que não vejo ninguém suspeito na rua.
A minha irmã Hala sempre fica doente e isso preocupa-me imenso. Todos tentamos ser fortes para a apoiar e dar-lhe forças.
Mais isso tem sido difícil ultimamente e não saber ao certo qual é o problema me deixa angustiada.
A Hala sempre foi uma criança feliz e brincalhona. E de repente esse sorriso some, ela fica fraca e mal consigue correr. Fazer algo que era para ela tão simples quando dar poucos passos em casa se tornou um trabalho difícil. Pois ela perde o fôlego rapidamente e fica muito cansada.
Quero que a minha irmã fique bem logo e que volte a ser a criança feliz e animada que sempre foi e sou capaz de tudo para isso.
O meu dia foi corrido e cheio de coisas para fazer, mal tive tempo para fazer uma pausa.
Recebo uma ligação da minha mãe por volta do meio dia e vou para uma parte mais reservada do corredor e atendo a ligação.
— Oi mãe, tudo bem? - Atendo e falo baixo para não ser notada por ninguém.
— Sim, Merida. Está no trabalho? - ela fala com uma voz cansada. Acho que teve uma noite difícil
— Estou sim, como está a Hala? - Pergunto ansiosa por sua resposta
— Ela está melhor depois de ter recebido a medicação. Já fizeram vários exames e o médico falou que logo irá conversar connosco. O Orlando já foi trabalhar e eu fico aqui por enquanto com a Hala. Ela está a dormir agora, mais depois podem conversar.
— Muito bonito isso. Está no telemóvel em vez de fazer o ser trabalho. - Alice, a minha chefe aparece do nada e me dá um grande justo.
— Mãe, depois eu ligo-te. - Ela se despedi e eu desligo a chamada e guardo o telemóvel no meu bolso. — Desculpa chefe, vou evitar fazer isso no trabalho. - Falo-me virando para ficar de cara com ela, que me olha feio.
— Sabes que não é para ficar a se distrair no horário de trabalho. Há muita coisa para fazer e tudo tem que ficar impecável e perfeito. O dono do hotel está hospedado aqui e ele não tolera nem um erro. Se você fizer algo, a equipe toda poderá ser punida.
— Sim, chefe.
— Espero bem que isso não volte a acontecer ou podes dizer adeus ao seu trabalho. - Aceno com a cabeça e ela retira-se. Ela está sempre no pé de todo mundo e isso chega a ser irritante.
Após terminar de limpar o último quarto de hoje, sinto o meu telemóvel vibrar no bolsa do meu uniforme. Dou uma olhada nele e mau consigo acreditar no que eu acabei de ler.
Finalmente mandaram a mensagem falando que consegue a bolsa. Às aulas se iniciam em dois meses e mal posso esperar. Queria gritar de tão feliz que eu estava, mais eu não podia porque eu estava no hotel e posso até ser demitida por causa disso. Aqui são bem rigorosos e não quero correr esse risco.
Assim que saio do trabalho, ligo de novo para a minha mãe para contar a grande novidade. Ela demora um pouco para atender.
— Mãe, você não vai acreditar. - Falo muito empolgada e ela ainda não disse uma única palavra. — Eu consegui a bolsa de estudos, acabei de receber finalmente o email a confirmar isso. - Falo ainda mais animada, depois de lembrar das horas e mais horas de estudo que eu tive e agora ganhar essa bolsa, fez todo o meu esforço valer a pena.
Ela mantém-se em silêncio e não falou nada. Isso é muito estranho
— Mãe estais ai? - Pergunto
— Sim, desculpa-me. Estais de parabéns, isso é muito bom para ti.- Ela fala sem nenhuma emoção e parece até que está triste.
— Aconteceu alguma coisa com a Hala? - eu pergunto e o meu peito dói e fica cada vez mais ansioso por uma resposta por causa da demora toda dela responder.
— O médico falou a pouco da sua real situação e o melhor é você vir para casa e conversamos lá.
— Está bem, a Hala está sozinha no hospital?
— Não, o Orlando vai ficar um pouco com ela e depois eu vou de novo para ele vir descansar em casa.
Terminamos a conversa pela chamada. Saio a correr para chegar o mais depressa possível a casa. Tendo não pensar no que será que a minha irmã tem e prefiro ouvir de uma vez pela minha mãe. Em vez de me torturar com as várias possibilidades que infelizmente existe.
Chego em casa, encontro a minha mãe na sala, sentada no sofá com o olhar perdido e o rosto parece abatido. A situação sem dúvida é muito séria para a ver assim. A minha mãe Zayna é a mulher mais linda que eu conheço. Tem a pele clara, os olhos castanhos mais bonitos que eu já vi e o cabelo preto. E eu sou a cara dela, contudo uso os meus óculos de lente, porque não vejo nada sem eles.
A minha irmã Hala é parecida com ela, mais tem os traços do seu pai Orlando. Tem os cabelos morenas e os olhos pretos.
— Mãe, o que foi? - Pergunto e chego perto dela, que me encara perdida nos seus pensamentos e depois ela levanta-se e abraça-me. Fico sem entender e logo depois ela começa a chorar e o meu coração se aperta com medo do que ela vai dizer.
— A Hala está com um problema sério no coração, o médico falou que não tem mais o que fazer e que a única solução é um transplante.
Eu olho para ela surpresa e sem acreditar.
— E agora? - Pergunto e ela suspira e senta de novo no sofá e eu faço o mesmo
— Vai ser difícil ela conseguir um transplante e mesmo se aparecer um coração compatível com ela, existe uma grande lista de espera de outros pacientes na mesma situação que a Hala ou até mesmo pior. Agora só resta ter fé e esperança.
Não falo nada e fico queita perdida em meus pensamentos ao seu lado.
Merida Sana
Três dias passou-se desde que eu soube pela minha mãe da situação da minha irmã. Saber que a solução é algo fora do nosso alcance faz-me sentir inútil. Por mim eu iria tirar o meu próprio coração para lhe dar.
— Come devagar Hala. - Falo e ela me faz uma careta engraçada, enquanto coloca mais uma colherada de sopa na boca. Ver ela aqui no hospital, tão doente e mesmo assim ela se esforça para mostrar que está bem e que pode lutar, me motiva a lutar por ela até não poder mais.
— Está ótima irmã. Não aguento mais comer a comida daqui. - Eu ri da cara de nojo que ela fez ao lembrar da comida. Hoje eu fiquei com ela no hospital, já que é final de semana. Ficarei com ela até o Orlando vir para cá. Estamos nos revisando os três para fazer companhia a Hala e assim ninguém fica tão exausto.
Será um desafio enorme ultrapassar tudo isso. A Hala entrou na lista de espera de transplante e eu não sei se fico feliz com isso ou não. É algo muito necessário para a sua situação, mais no final alguém teria que morrer para isso.
Eu não sei se vamos conseguir dar conta de tudo. O médico teve de mudar os tratamentos, já que o antigo não funciona mais e os medicamentos também mudaram e têm um custo mais elevado.
Eu terei que fazer horas extras por enquanto e pondero realmente em termos do meu curso, se vou começar ou não. A minha irmã precisa dos tratamentos e dos medicamentos, pelo menos até conseguir um transplante. E isso pode acontecer como também há hipóteses de não acontecer.
Então eu não sei o que fazer. Por agora eu vou concentrar no meu trabalho e ajudar nas despesas. E tomo a minha decisão dependendo de como as coisas correrem.
— Oi meninas. - O Orlando entra no quarto do hospital e nos dá um selinho na bochecha e depois se senta na cadeira. — Merida pode ir para casa. A Zayna recebeu um pedido de encomenda especial e ela está cheio de coisas para fazer na loja e precisa da sua ajuda.
— Tudo bem. Irmã eu já vou. - Falo a abraçando com cuidado, pego a minha bolsa me preparando para sair. — Fiquem bem, logo eu volto. - Nos despedimos e eu volto para casa a andar, pois não é tão longe e também estamos um pouco apertados e quero economizar o máximo de dinheiro que eu puder.
Chego em casa, resolvo trocar de roupa e comer algo. Resolvo ir até à loja da minha mãe para saber das novidades.
Ela trabalha na loja sozinha e praticamente faz tudo e esses dias com a minha irmã no hospital, a sua loja ficou fechada. Então estou bastante curiosa para saber o que a fez voltar, pois achei que isso ia demorar.
— Oi mãe. - Falo assim que entro e a vejo andando de um lado para o outro apressada.
— Pega aquele tecido ali e esse cesto atrás de você. - Mal entro e ela já me manda fazer algo. Pego as coisas que ela pediu e levo até ela que carrega uma pilha de roupas.
— Porquê tudo isso? - pergunto e coloco as coisas em cima da mesa
— Recebi uma grande encomenda de peças de roupas para uma festa de luxo
— Que legal. - Falo já contagiada por sua animação
— Ele vai pagar-me dez vezes do valor normal
— Sério? - Falo sem acreditar. Quem faria uma coisas desta? Eu não conheço ninguém que seja tão rico nesse ponto.
— Eu também fiquei assim e até tentei recusar a oferta, porque não achei justo receber a mais. Contudo aquele senhor insistiu e falou que ia cancelar o negócio se eu não aceitar. - Ela sempre foi muito certinha com as coisas. — E depois de pensar um pouco eu resolvi aceitar, pois temos muita coisa para resolver e esse dinheiro vai dar para comprar os medicamentos e pagar os tratamentos da Hala por alguns meses.
— Verdade. - Digo e a ajudo com tudo
— E sabe? O mais curioso é que a festa que vão fazer será no hotel em que você trabalha
— É mesmo? - Pergunto e penso um pouco. — Tem uma festa para a semana do dono do hotel. Provavelmente deve ser esta. Estamos muito atarefados por causa disso. Tudo tem que sair perfeito
— Deve ser então. Eu tenho que levar essas roupas no dia da festa. Já fiz as medidas em todos e gostaram imenso da roupa. - Ela fala animada. — Eu só tenho essa loja pequena e mesmo com tanto dinheiro, eles escolheram a minha loja e eu só posso ser grata por isso.
— Você tem as melhores peças, não duvide do potencial do seu negócio. O tamanho não importa. Falo e ela olha-me com um sorriso meigo.
— No dia da festa, eu também tenho que estar lá para o caso de dar algum problema com as roupas. Espero que corra tudo bem. - Ela fala com uma cara mais preocupada e distante. Deve estar a pensar em tudo que se passa nesse momento e todos nós queremos ajudar e fazer a nossa parte. Não importa o esforço ou o sacrifício a ser feito. A única coisa importante é a minha irmã estar bem e estar a correr por aí e brincar normalmente como qualquer criança. Ela só tem 8 anos e tenho esperança de que ela poderá viver uma vida normal e feliz.
Tento me concentrar em ajudar a minha mãe, mais é estranho que mesmo dentro da loja tenho aquela sensação de estar a ser observada.
Tem sido assim diariamente e eu estou farta de sentir isso e penso que estou a ficar maluca ou o cansaço do trabalho está a acabar comigo.
A minha chefe Alice está mais terrível do que nunca e nem uma pausa para comer direito temos. Tudo devido à tal festa, que se cometermos um erro pode custar o nosso trabalho.
Depois de ajudar a minha mãe por algumas horas, resolvo ir para casa descansar.
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