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Proibido Sentir

Capítulo 1

Eu corria pelo Parque da Cidade, um dos hábitos mais comuns entre os candangos que moram em Brasília. O sertanejo universitário tocava alto nos meus fones, embalando meus pensamentos sobre o futuro. Agora que tinha sido aprovada na OAB, precisava decidir meu próximo passo. Trabalharia com meu pai no escritório de advocacia da família ou continuaria estudando para um concurso?

O calor seco de Brasília tornava a corrida ainda mais desafiadora. O céu, no entanto, compensava o desconforto do clima. A imensidão azul se estendia sobre mim, com algumas nuvens brancas espalhadas como pinceladas suaves. O sol começava a se inclinar para o fim da tarde, tingindo o horizonte com tons dourados e alaranjados. A luz refletia no Lago Paranoá, criando um brilho cintilante que contrastava com o verde vibrante do parque.

O Parque da Cidade estava cheio, como de costume. Famílias faziam piqueniques nas áreas gramadas, crianças corriam atrás de pipas coloridas, e casais caminhavam de mãos dadas sob as árvores frondosas que ofereciam uma sombra refrescante. O cheiro de churrasco vindo das churrasqueiras coletivas se misturava ao aroma das árvores de eucalipto, espalhando uma sensação familiar de fim de semana.

Pelo caminho, ciclistas passavam apressados pela ciclovia bem demarcada, enquanto outros corredores, assim como eu, seguiam o trajeto ao redor do parque. Alguns levavam cachorros, e os animais corriam empolgados, puxando as coleiras com alegria. O som de risadas e conversas misturava-se ao canto dos pássaros e ao barulho distante de um avião cortando o céu azul.

O vento quente soprava suavemente quando decidi atravessar a pista para beber água em um dos bebedouros públicos. Passei perto de um grupo de homens que conversavam ao lado do caminho, e então aconteceu.

Nem sei ao certo como foi. Só percebi quando já estava no chão, sentindo o impacto nas palmas das mãos e nos joelhos.

— Ei, você tá bem?

A voz masculina soou próxima, grave e preocupada.

Ergui os olhos e, por um momento, esqueci até da dor. Diante de mim, ajoelhado, estava um verdadeiro colírio. Alto, forte, vestindo uma camisa esportiva preta e bermuda de corrida. O suor desenhava discretos traços em sua testa, destacando ainda mais sua aparência máscula. Os cabelos grisalhos davam um charme absurdo, combinando com os olhos castanhos claros e as marcas de expressão que o tornavam ainda mais atraente.

O céu azul vibrante, que minutos antes eu admirava, parecia perder o brilho diante dele.

Meu Deus do céu. Eu morri e fui direto pro paraíso?

— Moça, me escuta... Você tá bem?

Pisquei algumas vezes, tentando reorganizar meus pensamentos.

— O quê? Ah, sim! Tô bem... — Fui me levantando, constrangida. — Obrigada por me ajudar. Eu sou uma estabanada mesmo.

Minha mãe vivia dizendo isso.

Ele sorriu de leve.

— Não foi sua culpa. Esse piso tá péssimo, você tropeçou em uma elevação. Tem certeza que não torceu nada?

Balancei a cabeça, torcendo para que meu rosto não entregasse o quanto eu estava sem graça. Algumas pessoas nos olhavam de longe, curiosas.

— Não, tô bem, de verdade.

— Que bom. — Ele estendeu a mão. — Gustavo.

— Carolina. Ou Carol, tanto faz.

— Prazer, Carol.

O sorriso dele era algo perigoso. Confiante, charmoso e... Meu Deus, o que estava acontecendo comigo?

— Bom, se precisar de alguma coisa, estarei por aí. — Ele indicou o grupo de amigos mais à frente. — Se cuida, hein.

Assenti e o observei se afastar, voltando à corrida. Antes de sumir do meu campo de visão, ele olhou para trás, como se quisesse checar se eu estava mesmo bem.

Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo.

Fui até um lavabo próximo e lavei as mãos, constatando alguns arranhões nas palmas. Pelo menos nada sério. Ainda assim, achei melhor encerrar minha corrida por hoje. Peguei meu caminho de volta ao estacionamento, onde meu Jeep Renegade verde musgo me esperava. Presente do meu pai pela aprovação na OAB.

Encostei na porta do carro e respirei fundo.

— O que foi isso, Carol? Você é muito estabanada. Ou será que não foi apenas isso que lhe atormentou ali naquele momento.

Capítulo 2

O céu de Brasília era uma verdadeira pintura ao entardecer, com tons vibrantes de laranja, rosa e lilás se misturando em um espetáculo único. O sol, já baixo no horizonte, lançava sombras longas pelas ruas largas e bem planejadas da cidade. As copas das árvores do Parque da Cidade balançavam suavemente com a brisa fresca que começava a soprar, amenizando o calor escaldante do dia.

Dirigir por Brasília ao anoitecer sempre me trazia uma sensação de pertencimento. O concreto moderno se misturava às cores dos ipês, e o Lago Paranoá refletia as luzes douradas dos primeiros postes que se acendiam. Mas, naquela noite, eu estava longe de me sentir em paz.

Minha mente estava presa nele.

**Gustavo.**

A forma como sua voz grave soou preocupada, como sua mão firme segurou meu braço para me ajudar a levantar, os olhos castanho-claros que pareceram me analisar por inteiro. Um estranho e, ainda assim, me afetou como se já fizesse parte da minha vida.

Sacudi a cabeça, tentando afastar esses pensamentos enquanto estacionava diante do prédio onde morava. Meu apartamento ficava em uma região privilegiada de Brasília, um presente dos meus pais quando entrei na faculdade. O edifício era imponente, de arquitetura moderna, e o hall de entrada exalava sofisticação, com piso de mármore e uma iluminação aconchegante.

Assim que entrei em casa, joguei as chaves sobre a bancada da cozinha e soltei um longo suspiro. Precisava de um banho, de um tempo para organizar minha mente. Subi as escadas para o segundo andar, onde ficavam os quartos, e segui direto para o banheiro.

A água morna caiu sobre minha pele, relaxando meus músculos tensos da corrida – e da queda. Mas não conseguia relaxar completamente. Minha mente insistia em voltar para aqueles minutos no parque. O jeito que ele sorriu de canto ao dizer **"Apenas Gustavo"**, como se soubesse o efeito que causava. A forma como olhou para trás para conferir se eu realmente estava bem.

O que eu podia fazer? Eu tinha esse jeito de me apaixonar à primeira vista, mesmo sem saber nada sobre a pessoa. Apenas pela troca de olhares e um sorriso, lá estava eu criando fanfics. **Não me julguem.**

Mas eu era uma jovem de 24 anos e me permitia me apaixonar. Apesar de ter namorado o mesmo cara por longos seis anos... Quem eu queria enganar? Eu estava carente desde que Ruy me deixou. Ele tinha os sonhos dele, e casar não fazia parte desses planos a princípio.

Saí do banho, vesti um short soltinho e uma blusa larga, e fui até a cozinha preparar um chá. Eu tentava me convencer de que aquilo era besteira, apenas um encontro passageiro, mas não pude evitar.

Peguei meu notebook, me acomodei no sofá e abri o navegador.

A princípio, eu pesquisava sobre concursos. Afinal, se não fosse trabalhar com meu pai no escritório de advocacia, precisava de um novo plano. Meu objetivo era a **AGU**, e, para isso, um cursinho preparatório parecia essencial.

Foi quando a curiosidade falou mais alto.

Abri o Instagram e digitei: **Gustavo**.

Qual era a chance de encontrá-lo? Zero.

Mas Brasília era um quadradinho de quase três milhões de habitantes. Não custava procurar, já que eu estava de bobeira.

Várias sugestões apareceram, mas um perfil chamou minha atenção de imediato. @gustavofmelo.

A foto de perfil mostrava um homem sério, vestindo um terno escuro, o olhar confiante. A bio era simples, objetiva:

🔹 **Procurador Federal**

🔹 **Professor de Direito Constitucional**

🔹 **Apaixonado por Corrida**

Meu coração acelerou. Então ele era professor? Isso explicava a postura segura, a articulação ao falar.

Rolei pelo feed. A maioria das postagens era formal, com fotos de eventos jurídicos e palestras. Algumas mostravam ele correndo pelo Eixão nos fins de semana, vestindo roupas esportivas. Outras eram mais descontraídas, segurando uma xícara de café com legendas que misturavam humor e reflexões sobre a profissão.

Mas foi nos **stories** que encontrei algo que não esperava.

A primeira imagem era recente: ele estava em casa, sentado no sofá, com um livro aberto sobre Direito Constitucional e um copo de whisky ao lado. A legenda dizia:

**"Finalmente um tempo pra mim."**

Meu estômago revirou. Algo naquela cena era íntimo demais, pessoal demais.

Deslizei para o próximo story.

Uma foto do pé de uma mulher, unhas vermelhas impecáveis, descansando sobre suas pernas.

Minha respiração falhou por um segundo.

Ele era **casado**.

A realidade me atingiu com força, como se alguém tivesse jogado um balde de água fria sobre mim.

O que eu estava fazendo? Por que diabos eu estava bisbilhotando a vida de um homem que, além de tudo, era comprometido?

Fechei o aplicativo e respirei fundo.

Era só um estranho. Alguém que me ajudou por acaso no parque.

Mas, por algum motivo, não parecia tão simples assim.

Levantei do sofá e fui até a sacada do apartamento. Brasília brilhava à noite, as luzes dos prédios refletindo no Lago Paranoá ao fundo. Eu precisava tirar Gustavo da cabeça.

Ele era um homem comprometido, e eu sabia exatamente o que isso significava.

Só não sabia se conseguiria seguir essa regra.

Capítulo 3

A manhã seguinte chegou com o céu de Brasília em seu tom mais azul, sem nuvens à vista. O sol brilhava forte, mas a brisa fresca que entrava pela janela suavizava o calor típico da cidade. Eu me espreguicei, ainda sentindo os resquícios da inquietação da noite anterior.

Levantei-me, vesti um short de linho e uma blusa leve e desci para tomar café com meus pais. O apartamento deles ficava no mesmo prédio que o meu, um andar acima. Desde que decidi morar sozinha, minha mãe fez questão de manter essa proximidade, como se isso amenizasse sua preocupação constante comigo.

Ao entrar na sala de jantar, encontrei minha mãe já servindo café na xícara do meu pai, enquanto ele lia as manchetes do jornal no tablet. A mesa estava impecável, como sempre: frutas frescas, pães variados, sucos naturais e o café preto fumegante que era indispensável para meu pai.

— Bom dia, filha! — minha mãe sorriu, sempre animada pelas manhãs.

— Bom dia, mãe. Bom dia, pai. — Dei um beijo na bochecha de cada um antes de me servir de café e uma fatia de pão com queijo.

— Você dormiu bem? — perguntou minha mãe, olhando-me com atenção.

Pensei em Gustavo por um segundo, na confusão que ele causou em minha mente, mas dei de ombros e sorri.

— Sim, dormi bem. Só acordei com muitas coisas na cabeça.

Meu pai levantou os olhos do tablet e arqueou uma sobrancelha.

— E que tipo de coisas são essas?

Respirei fundo e decidi ir direto ao ponto.

— Eu estava pensando em começar a trabalhar meio período no escritório. Quero me envolver mais, aprender com os processos, entender a rotina real da advocacia.

Meu pai largou o tablet na mesa e cruzou os braços, avaliando-me com atenção.

— Isso é uma surpresa. Achei que ainda estava decidindo o que fazer depois da OAB.

— E estou. Mas acho que o escritório pode me dar uma experiência prática, enquanto eu me preparo para os concursos.

Minha mãe sorriu, satisfeita.

— Acho uma ótima ideia. Você sempre foi dedicada, e experiência nunca é demais.

Meu pai assentiu, parecendo considerar a proposta com cuidado.

— Se for algo que você realmente quer, podemos organizar sua carga horária. Algumas tardes no escritório para ajudar com processos e acompanhamento de clientes. O que acha?

Sorri, sentindo um alívio por ele ter aceitado tão bem.

— Perfeito. Quero conciliar isso com os estudos, então pensei em fazer um cursinho preparatório à noite e usar as tardes livres para revisar o conteúdo.

— Disciplina sempre foi seu ponto forte. Se acha que consegue equilibrar tudo, apoio totalmente — disse meu pai.

Minha mãe tocou minha mão de leve sobre a mesa.

— Só não se sobrecarregue, querida. Você acabou de sair da faculdade. Pode dar um tempo para respirar.

— Eu sei, mãe. Mas preciso traçar um caminho agora.

O café da manhã seguiu tranquilo, e, depois de um tempo, voltei para o meu apartamento.

Tarde de estudos e academia

Após organizar algumas anotações e fazer a matrícula no cursinho preparatório, reservei algumas horas para estudar. Peguei meus livros de Direito Constitucional, marquei trechos importantes e fiz resumos no meu caderno. A aprovação na AGU não seria fácil, mas eu estava disposta a me dedicar.

Mesmo sabendo que a parte mais difícil nem sempre é o conteúdo que vemos na faculdade mas os que vem além.

No fim da tarde, coloquei um conjunto de treino e fui para a academia do prédio. Eu costumava correr no Parque da Cidade, mas naquele dia decidi optar pela esteira, acompanhada pela música nos fones de ouvido.

O exercício sempre ajudava a organizar minha mente. Mas, mesmo concentrada no treino, minha mente teimava em vagar para a noite anterior. Para o Instagram. Para Gustavo.

Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento. Ele era apenas um desconhecido que cruzou meu caminho.

E, acima de tudo, um homem comprometido.

Eu precisava me concentrar no que realmente importava.

E, naquele momento, o que importava era o futuro que eu estava construindo.

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