— Anda!
A voz de Ashley rompeu o silêncio dentro do carro parado no cruzamento, enquanto aguardava o sinal abrir. Ela suspirou, observando o asfalto à sua frente, antes de virar-se para o banco do carona e pegar o gloss dentro da bolsa. Mirando-se no espelho, deslizou o aplicador sobre os lábios, retocando o tom rosa-claro. Sorriu para o próprio reflexo. Quase três anos passaram, e, às vezes, nem ela mesma reconhecia a mulher que via no espelho.
Quando deixou Lone Ridge para estudar em Nova York, não imaginava que encontraria tanto apoio na amizade de Mykaella e Sophie, a amiga de Kyera, que foi essencial para ajudá-la a superar sua insegurança. Antes, Ashley mal conseguia falar em público. Agora, não apenas falava, como também enfrentava qualquer pessoa sem hesitar. Duvidava de que alguém em Lone Ridge a reconhecesse de imediato. Exceto, claro, aqueles poucos que sempre a trataram com respeito, dignidade e carinho. Mas esses eram raros.
Ashley fez uma careta ao notar as olheiras profundas ao redor dos olhos azuis. Fazia três dias que deixara Nova York para trás, rumo ao Texas. Apesar de ter descansado razoavelmente em um hotel em Dallas, sua última parada antes do destino final, o cansaço parecia grudado a ela como uma sombra persistente. Ainda assim, não se sentia abalada. Pelo contrário, já havia se acostumado à exaustão de uma rotina intensa.
Quando chegou a Nova York acompanhada de Mykaella, Ashley foi recebida com entusiasmo por Sophie. Sob as orientações de Kyera, com quem falava diariamente por chamada de vídeo, foi acomodada no espaçoso apartamento que dividiria não apenas com Mykaella, mas também com Sophie. Após dois dias de descanso e adaptação, conheceu Phillipe, que, a pedido secreto de Kyera, contratou as duas como garçonetes na boate. Assim, Ashley conseguiu um emprego fixo e bem remunerado logo de início. Já Mykaella, depois de um tempo trabalhando como garçonete, decidiu ingressar nas aulas de dança de Sophie. No começo, apenas para extravasar a raiva e a mágoa que ainda sentia do pai, mas, com o tempo, apaixonou-se tanto pela dança que acabou se juntando ao grupo de dançarinas burlescas da boate. Em pouco tempo, tornou-se tão popular quanto Sophie.
A vida parecia melhor naquela cidade, embora a rotina exaustiva entre trabalho e universidade cobrasse seu preço. Principalmente quando Ashley decidiu expandir seus estudos e começou um curso de farmacologia. Mal tinha tempo para comer ou dormir, e, mais de uma vez, acordou com o rosto sobre cadernos e livros espalhados na mesa. A luz do notebook não era a única a iluminar suas madrugadas… muitas vezes, despertava com os primeiros raios de sol filtrando-se pelas cortinas da janela.
Mas todo aquele esforço valeu a pena. Ela conseguiu se formar tanto em Administração quanto em Farmacologia, acumulou uma boa quantia com as generosas gorjetas, que aplicou em uma poupança e reinventou seu estilo. Agora, era uma mulher segura, confiante e destemida. Mas havia uma coisa da qual não conseguira se livrar: o sentimento que ainda guardava no coração.
Uma paixão platônica que a fazia se perder em pensamentos.
Um amor não correspondido pelo maior sedutor cafajeste de Lone Ridge: Alex Stella.
Só de pensar no nome dele, Ashley sentia as pernas vacilarem. Seu coração disparava sempre que imaginava a possibilidade de encontrá-lo, algo que esperava, do fundo da alma, não acontecer tão cedo. Ainda assim, estava decidida a se manter o mais distante possível. Afinal, sabia que não havia nenhuma chance de um envolvimento entre os dois.
Pelo menos, era o que tentava convencer a si mesma.
O som estridente da buzina do carro atrás a arrancou de seus devaneios e a trouxe de volta ao presente. O sinal já estava verde há alguns segundos, e Ashley rapidamente acelerou. Contornou a rotatória e seguiu pela avenida principal que levava ao centro da cidade.
À medida que avançava, os prédios e comércios familiares surgiam ao longo da estrada. Passou pela Lone Ridge Store, agora fechada, mas ainda com o velho letreiro iluminado pelo poste da calçada. Logo adiante, avistou o Luk’s Bear, o bar mais famoso da cidade, com sua icônica placa de neon piscando em tons alaranjados. Eram pouco mais de dez da noite, e o movimento começava a crescer, ainda que longe da efervescência que dominaria o local nas próximas horas.
Ashley prendeu a respiração por um segundo e fez uma prece silenciosa por uma vaga no estacionamento. Para sua sorte, encontrou uma bem em frente ao cercado de madeira da varanda. Um golpe de sorte.
O Luk’s Bear permanecia imutável. A fachada rústica, feita de toras de madeira maciça, lembrava uma cabana gigantesca. As janelas largas, sempre fechadas, serviam como saídas de emergência, uma precaução adotada depois do incêndio que, anos atrás, forçou uma reforma no local. A grande porta frontal continuava aberta, convidativa, enquanto a saída pelos fundos permanecia discreta para quem conhecia os segredos do bar.
Ashley estacionou a caminhonete e desligou o motor. Por um instante, ficou ali, absorvendo a familiaridade do ambiente. O cheiro amadeirado que o vento carregava, a música abafada que escapava pelas paredes e as risadas ocasionais que ecoavam da varanda a fizeram sorrir.
Por mais que o retorno a Lone Ridge trouxesse um certo receio, uma parte dela se alegrava com a possibilidade de reencontrar seus poucos, mas verdadeiros amigos.
E, acima de tudo, sua tia Nora.
Ashley desceu da caminhonete e, num movimento ágil, tirou a jaqueta, revelando a camiseta branca justa que moldava suas curvas e destacava seus braços bem definidos. Puxando um lenço amarrado a um dos passadores da calça jeans, prendeu os longos cabelos loiros em um rabo de cavalo alto e bagunçado, dando a si mesma um ar mais selvagem e despreocupado.
Com um suspiro, pegou as chaves e as enfiou no bolso da calça. Estava determinada a cumprir a promessa que fizera a Kyera: levar sua caminhonete em segurança até o Texas.
Antes que pudesse dar o primeiro passo em direção ao bar, um gemido abafado ecoou na noite, seguido por uma risada baixa. Ashley franziu a testa e olhou na direção da varanda. Em um canto parcialmente encoberto pela penumbra, uma loira voluptuosa se agarrava a um homem, suas silhuetas se misturando no jogo de sombras.
Ela não conseguiu distinguir o rosto dele, mas também não precisou.
Ashley revirou os olhos e soltou um suspiro impaciente.
— Algumas coisas nunca mudam. — murmurou com sarcasmo, acostumada a presenciar cenas como aquela nos tempos em que trabalhava no bar.
Dois rapazes encostados em um carro próximo riam alto de algo que um deles dissera a uma garota que passava. O som ecoava no ar quente da noite, carregado de presunção e embriaguez. Assim que avistaram Ashley, um deles interrompeu a conversa abruptamente, os olhos avaliando-a com interesse.
— Boa noite! Você está perdida, linda? — perguntou um deles, obrigando-a a encará-lo.
Ashley franziu a testa com sarcasmo ao reconhecer Eddy Thomas e Frederick. Amigos inseparáveis no colegial, eram os maiores responsáveis por tornar sua vida um inferno naquela época. Agora, embora tivessem traços mais maduros, pareciam os mesmos garotos imaturos de antes. Com latas de cerveja nas mãos e um cheiro forte de álcool no ar, nada indicava que tivessem evoluído desde os tempos de escola.
— Na verdade, não. Estou exatamente onde quero estar. — respondeu, sua voz firme e carregada de desdém.
Eddy sorriu, convencido, e deu um passo à frente, o olhar deslizando por ela com um atrevimento repulsivo.
— Então, que tal tomar uma cerveja conosco? — sugeriu, em um tom presunçoso. — Sou Eddy e esse é o Freddy.
Ashley arqueou a sobrancelha e riu.
— Eddy e Freddy? — zombou. — O que vocês são? Uma dupla country?
Frederick soltou uma risada nasalada, mas não tentou desmenti-la. Ashley balançou a cabeça, desinteressada, e seguiu em direção ao bar.
— Ei, espera! — Eddy se colocou à sua frente, bloqueando sua passagem. — Por que não fica e descobre? Tenho certeza de que vai gostar da nossa companhia.
Ashley fez uma careta, deixando um silêncio dramático no ar antes de responder:
— Tentador… mas não.
Eddy franziu o cenho, claramente irritado. Ele não era do tipo que aceitava um não sem resistência.
— E por quê?
Ashley inclinou ligeiramente a cabeça, os olhos cravados nele com puro desprezo.
— Porque você é um idiota, Eddy Thomas — declarou, aproximando-se um passo. — E eu não saio com idiotas.
Eddy piscou, confuso.
— Você me conhece? — perguntou, a testa enrugada. — Porque eu definitivamente me lembraria de um docinho de coco como você.
Ashley riu com incredulidade.
— Docinho de coco? Essa é a sua melhor cantada? Francamente, Eddy, você continua tão patético quanto sempre foi.
Frederick tentou conter o riso, mas não conseguiu. Ashley bufou e, sem perder mais tempo, desviou-se dele para seguir seu caminho.
Mas mal deu dois passos antes de sentir dedos ásperos envolverem seu pulso com força.
— Aonde você pensa que vai? — a voz de Eddy soou carregada de irritação e embriaguez.
O sangue de Ashley ferveu instantaneamente. Ela odiava ser tocada daquela forma. Com um movimento brusco, puxou o braço e se virou, os olhos faiscando raiva.
— Não toque em mim! — sua voz ecoou alta, acompanhada de um empurrão certeiro no peito de Eddy.
Ele tropeçou para trás e caiu sentado no chão, as pernas se enroscando umas nas outras de maneira cômica. Por um instante, o tempo pareceu congelar. E então, Frederick explodiu em gargalhadas.
— Eddy, você viu a sua cara? A garotinha te derrubou! — zombou, segurando a barriga, incapaz de conter o riso.
Ao redor, algumas risadas abafadas ecoaram na varanda e no estacionamento. O rosto de Eddy ficou vermelho como um tomate, seus punhos cerrando-se de raiva. Ele se levantou com um movimento brusco, os olhos faiscando fúria.
— Então, você acha que pode me intimidar? — sua voz carregava um tom de ameaça. — Você sabe quem eu sou?
Ashley cruzou os braços e inclinou a cabeça, lançando-lhe um olhar divertido.
— O maior convencido do mundo?
A resposta fez Eddy rosnar, completamente descontrolado. Ele avançou, pronto para cometer um erro que custaria caro. Ashley, no entanto, estava preparada. Treinada em defesa pessoal sob recomendação de Kyera, sabia exatamente como reagir.
Mas antes que precisasse agir, uma voz sombria emergiu da escuridão, cortante como uma lâmina:
— Deixe a garota em paz.
O silêncio caiu sobre o ambiente como um peso. Um arrepio percorreu a espinha de Ashley, e ela se virou lentamente.
Ali estava ele. Postura confiante, olhar afiado, o corpo atlético sustentando uma arrogância quase ensaiada. Mesmo causando calafrios, a presença de Alex Stella só a fez se lembrar de como ele adorava zombar dela.
— Quem vai me deter? Você, Stella? – Eddy riu, cheio de escárnio. – Não precisamos brigar por causa dela. Podemos dividir.
Ashley arqueou uma sobrancelha, o estômago revirando de nojo.
— Você é um verme, sabia? – disse, a voz carregada de desprezo. – Eu não sou algo para ser dividido, e definitivamente não preciso que ninguém me defenda.
Eddy sorriu, presunçoso.
— Então vem comigo. Tenho certeza de que Alex já tem outra distração para esta noite.
Alex soltou uma risada baixa, carregada de desafio.
— E se ela não quiser ir com você?
— Ah, ela vai – garantiu Eddy, inflando o peito. – Você verá. Aliás, seu tempo nesta cidade está acabando, Stella. As mulheres estão ficando escassas para caírem na sua conversa fiada.
O ar ao redor pareceu carregar eletricidade. Alex cerrou os punhos e deu um passo à frente, os olhos faiscando.
— Acho melhor você calar essa sua boca de latrina – rosnou. – Posso não ser um santo, mas você… você é o lixo rastejante do qual até o inferno teria vergonha.
Ashley bufou.
Eles estavam falando dela como se ela não estivesse ali.
Inspirando fundo, avançou um passo e se enfiou entre os dois, com uma impaciência que beirava o cansaço.
— Ouçam bem, porque eu só vou dizer uma vez! – Sua voz cortou o ambiente como uma faca. – Eu não vou com nenhum de vocês para lugar nenhum. Sou uma mulher adulta, dona da minha própria vida, e não uma moeda para a disputa de quem tem mais testosterona.
O silêncio foi absoluto.
— E agora, se me dão licença, tenho coisas mais importantes para fazer do que assistir a essa competição ridícula.
Ashley virou as costas e caminhou decidida para o bar.
Atrás dela, Alex ainda parecia atônito, um misto de surpresa e admiração nos olhos. Eddy, por outro lado, não estava disposto a aceitar a derrota.
— Espere! Você não vai a lugar algum sem mim! – ele esbravejou, agarrando o pulso dela com força.
Alex deu um passo à frente, mas não teve tempo de agir.
Num piscar de olhos, Eddy estava no chão, o nariz sangrando.
Ashley sacudiu a mão e estreitou os olhos para ele.
— Avisei para não tocar em mim.
— Você quebrou o meu nariz, sua desgraçada!
Ashley cruzou os braços, impassível.
— Se continuar falando comigo desse jeito, vou quebrar os seus dentes também.
Eddy rosnou, tentando se erguer, mas teve que se apoiar no amigo, que se abaixou para ajudá-lo. Com a fúria estampada no rosto, fez menção de avançar contra Ashley, mas Alex se colocou no caminho. O olhar dele deixava claro: ou Eddy continuava no chão, ou dava o fora dali.
Frederick, percebendo que a situação poderia sair do controle, colocou as mãos no peito do amigo, impedindo-o de ir adiante.
— Relaxa, Eddy… – murmurou, desconfortável com a atenção que haviam atraído. – Vamos deixar isso para lá. Tem muitas outras garotas por aí.
Ashley ergueu uma sobrancelha e sorriu com ironia.
— Ouça seu amigo. Parece que pelo menos um de vocês tem um pingo de bom senso.
As palavras dela foram como um fósforo jogado em gasolina. Eddy tentou se desvencilhar de Frederick, mas foi contido de novo.
— Sua cadela insolente! Você vai pagar caro por isso!
Ashley suspirou teatralmente, sem se abalar.
— Sabe o que eu acho? – disse, inclinando a cabeça. – Que você é só mais um riquinho mimado que não sabe lidar com um “não”.
O rosto de Eddy ficou vermelho de fúria.
— Vou matar você, sua vadia!
Antes que ele pudesse dar um passo, Alex o agarrou pela gola da camisa e o puxou para perto, sua voz um rosnado baixo e ameaçador.
— Você não vai fazer nada. Ou prefere que eu refresque sua memória sobre o que aconteceu da última vez que resolveu agir como o idiota que é?
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.
Ashley apenas observou, sem surpresa. Aquilo só confirmava o que ela já sabia: Eddy Thomas continuava sendo o mesmo imbecil de sempre.
Embora relutante, as palavras de Alex tiveram efeito. Eddy recuou, mas ainda lançou um olhar venenoso para Ashley.
— Isso não acaba aqui! Ninguém insulta Edward Thomas e sai impune!
— Ah, por favor… – Ashley revirou os olhos. – Você soa como um vilão barato de novela.
O sangue de Eddy ferveu.
— Você vai pagar por essa afronta, sua…
— Vai para o inferno, Eddy! – Ashley gritou antes que ele terminasse, enquanto Frederick o arrastava em direção ao outro lado da rua, onde um letreiro piscava sobre um clube de strip-tease.
— Idiota! – completou ela, sem o menor interesse em esconder o desprezo.
Ashley balançou a cabeça, ainda mais irritada. O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo eco distante da cidade.
Então, a voz de Alex rompeu a quietude, mais suave desta vez:
— Você está bem?
Ele ergueu as mangas da camisa negra, revelando os antebraços firmes. Sob a luz prateada da lua cheia, o anel prateado brilhou em seu dedo mindinho.
Ashley reconheceu aquele anel de imediato. Era de formatura, um presente do pai de Alex no dia em que ele se formou no colegial. Ela mal podia acreditar que ele ainda o usava. Seus olhos deslizaram instintivamente para o crucifixo, pendendo de um cordão fino ao redor do pescoço dele, contrastando com a pele morena e a parte do peito revelada pelos dois primeiros botões abertos da camisa.
O estalar dos dedos de Alex a trouxe de volta ao momento presente.
— O quê?
Alex sorriu de canto, divertido, mas com um olhar atento.
— Perguntei se você está bem.
Ashley piscou, ainda desconcertada.
— Sim… Claro que estou bem! – respondeu, tentando recuperar a compostura. Mas logo, um sorriso irônico surgiu em seus lábios. – Eles é que deveriam tomar cuidado com quem resolvem mexer.
Alex riu suavemente, admirado pela coragem dela.
— Você realmente tem coragem, sabia? Enfrentar Eddy e Freddy assim… Eles não costumam aceitar um não como resposta, sendo conhecidos por serem agressivos. – Ele fez uma pausa, lançando um olhar reprovador. – Eles têm fama de assediar mulheres nas saídas dos bares.
— Em resumo: continuam dois idiotas sem nenhuma noção. – Ashley o encarou, desafiadora, o brilho em seus olhos visível. – Eles deveriam ter mais cuidado comigo. Não sou mais aquela garota frágil do colegial que eles costumavam infernizar. Aliás, você também.
Alex arqueou uma sobrancelha, curioso.
— Isso foi uma ameaça, pequena?
— Um aviso!
Ele soltou uma risada baixa, sem deixar de observá-la atentamente. Então, seus olhos se fixaram no braço dela, na tatuagem que cobria uma cicatriz profunda.
— Vejo que você tem se reinventado. – Ele apontou para a tatuagem. – Quando saiu da cidade, isso não fazia parte de você.
Ashley olhou para o braço e sorriu, tocando a tatuagem com a ponta dos dedos.
— Lex me deixou uma lembrança, então achei que era hora de transformá-la em algo melhor.
— Escolheu bem. A fênix combina com você.
— É... Ela me representa de uma forma que palavras não conseguem.
Alex desviou o olhar, agora fixando-se no ombro dela, onde uma cicatriz ainda estava visível. Um suspiro pesado escapou de seus lábios.
— Por que não cobriu essa também?
Ashley olhou para ele, surpresa, mas não demonstrou raiva. Era como se uma memória dolorosa tivesse ressurgido, mas ela a encarou sem hesitação.
— Porque essa é a que tenho mais orgulho de carregar. Sei bem como foi feita.
Alex abaixou a cabeça, seu semblante carregado de arrependimento.
— Eu nunca consigo parar de pensar naquele dia. Se houvesse outra maneira…
— A culpa não foi sua! Fui eu quem mandou você atirar. Era o único jeito de salvar minha vida e deter Bryan.
— Mesmo assim, eu sinto muito. – Ele parecia genuinamente preocupado. – Ela ainda dói?
— Não tanto quanto antes, mas, às vezes, dá uma dorzinha. – Ashley tocou o local da cicatriz e sorriu suavemente. – Acho que o tempo tem esse poder, de curar algumas coisas.
Aquelas palavras fizeram Alex parar por um momento, pensativo, mas logo ele mudou de assunto.
— E então, como foi Nova York?
Ashley sorriu, recordando os desafios.
— Foi uma experiência única. No começo, foi difícil, mas muito proveitosa.
Alex assentiu, com uma expressão pensativa.
— Nova York pode ser assustadora no começo. Tudo é imenso, muito rápido… A cidade tem esse… poder, sabe? Ela te engole, mas te faz crescer.
Ashley franziu a testa, curiosa com as palavras dele.
— Você já esteve lá? Fala disso com tanta propriedade…
Alex olhou para ela com uma expressão enigmática, quase como se guardasse um segredo.
— Sim, mais do que você pode imaginar.
Ashley arqueou uma sobrancelha, intrigada, tentando decifrar o que ele queria dizer. Por um instante, seus olhares se encontraram e, naquele instante, um calor estranho tomou conta dela, como se algo os unisse sem palavras.
Alex abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas a voz de Melanie Carmichael interrompeu a cena.
— Alex! Acho que ela não precisa mais de ajuda.
Ashley olhou na direção da voz, vendo Melanie parada com os braços cruzados, os olhos cheios de desprezo. A mulher estava claramente irritada, e Ashley não precisou de mais nada para perceber que, minutos antes, ela estava grudada em Alex na varanda.
Ashley soltou um suspiro, entendendo a situação. Sabia exatamente como a história ia terminar.
— Algumas coisas nunca mudam. – disse, com um tom de desdém. – Bem, eu preciso entregar as chaves da caminhonete para a Kyera. Você pode voltar para o que estava fazendo, Alex. E não se preocupe comigo, posso me virar sozinha.
Antes que ele pudesse responder, Ashley deu as costas e se afastou, indo em direção ao bar, deixando Alex ali, parado, assistindo à partida dela.
Dentro do bar, a energia vibrava no ar. A música country que ecoava da jukebox ditava o ritmo da noite, enquanto homens disputavam partidas acirradas de bilhar entre gargalhadas, casais se balançavam ao som da melodia na pista de dança e grupos animados trocavam histórias no balcão e ao redor das mesas. Ashley, acostumada ao frenesi das boates nova-iorquinas, precisou admitir: aquele ambiente, com sua simplicidade e autenticidade, era infinitamente mais acolhedor do que qualquer pista de dança repleta de luzes estroboscópicas.
Assim que entrou, sentiu os olhares recaírem sobre ela como uma onda inevitável. Curiosidade e desconfiança se misturavam nos rostos à sua volta, sentimentos típicos de uma pequena cidade diante do retorno inesperado de alguém que partiu há muito tempo. Para alguns, Ashley não passava de uma memória distante; para outros, a transformação que o tempo lhe trouxera era quase inacreditável.
Mantendo a cabeça erguida e sustentando a confiança que levou anos para construir, ela atravessou o salão até o balcão. Esperava encontrar Kyera, talvez preparando um coquetel ou se aquecendo para mais uma apresentação, como fazia tão bem. No entanto, quem estava ali era Luck, o dono do bar, ocupado lavando copos com a tranquilidade de sempre. A ausência de Kyera provocou um incômodo sutil, uma pontada de preocupação que Ashley não conseguiu ignorar.
— Boa noite, Luck! — saudou, apoiando-se no balcão.
Luck, um homem de meia-idade, ergueu o olhar, estudando-a com a mesma astúcia de sempre. Magro, com um bigode espesso, cabelos grisalhos e o inconfundível dente de ouro, ele parecia uma figura saída direto do Velho Oeste.
— Ashley Keller! — exclamou, abrindo um sorriso largo que destacou o brilho dourado no meio dos dentes. — Ora, vejam só! Que surpresa te ver em Lone Ridge de novo, menina! Vem cá, me dá um abraço!
Ele saiu de trás do balcão e a envolveu em um abraço apertado, quase esmagador, arrancando dela uma risada sincera.
— Você está mais bonita do que nunca. — disse ele, afastando-se para avaliá-la melhor. — Aposto que deixou um rastro de corações partidos em Nova York.
— Que nada! — respondeu ela, divertida, dando de ombros. — Você sabe que meu coração sempre foi e sempre será seu.
Luck soltou uma gargalhada enquanto Ashley depositava um beijo estalado em sua bochecha rechonchuda. Apesar da aparência rústica, ele sempre foi um homem gentil com ela. Quando Ashley ainda trabalhava fazendo entregas da farmácia, ele lhe oferecia refrigerantes de cortesia e se certificava de que bolinhos fossem deixados para ela na cafeteria ao fim do expediente. Era um gesto de carinho que ela jamais esquecera.
— E Kyera? — perguntou ela, após o abraço. — Combinei de encontrá-la aqui para devolver a caminhonete.
Luck fez uma careta.
— Kyera tirou o dia de folga. Disse que não estava se sentindo bem e resolveu ficar em casa.
— Isso tem acontecido bastante ultimamente… — comentou Allan, aproximando-se com uma garrafa de cerveja na mão.
Ashley ergueu os olhos e abriu um sorriso.
— Allan!
Allan abriu um sorriso caloroso ao vê-la, inclinando a cabeça levemente, como se ainda estivesse absorvendo a surpresa de sua presença ali.
— Ora, ora… se não é a pequena Ashley Keller. — disse ele, aproximando-se mais. — Achei que você nunca mais voltaria para Lone Ridge.
Ela riu, cruzando os braços.
— Pois é, parece que a cidade pequena ainda tem um certo magnetismo.
Allan encostou-se ao balcão ao lado dela, os olhos brilhando com um misto de curiosidade e diversão.
— Engraçado, porque não era isso que você dizia quando conversávamos por vídeo. — provocou. — Toda vez que falávamos, você fazia questão de dizer que Nova York não era fácil, mas que estava tentada a ficar por lá.
Ashley suspirou, balançando a cabeça com um sorriso nostálgico.
— Bom, as coisas mudam, Allan.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Mudam mesmo? E o que mudou para você estar de volta?
Ashley desviou o olhar por um instante, mordendo o lábio inferior.
— Você sabe que a saúde da minha tia não anda nada bem… e piorou depois da última tempestade. — disse ela, suspirando. — Ela me mandou algumas fotos dos estragos nas lojas, mas, por mais que tenham dado uma noção, tenho certeza de que a situação é bem pior do que parece.
Allan assentiu lentamente, seu olhar prateado suavizando com compreensão.
— Sim, eu soube que a doença da Nora se agravou um pouco… e que ela precisou fechar os estabelecimentos que eram sua principal fonte de renda. — disse ele, apoiando os antebraços no balcão. — A tempestade causou um estrago e tanto.
Ashley soltou um suspiro, passando a mão pelos cabelos.
— Pois é. Estou me preparando psicologicamente para o que quer que venha pela frente.
Ela fez uma pausa quando Luck deslizou uma cerveja para ela sobre o balcão, surpreendendo Allan ao pedir também uma dose de tequila.
— Kyera disse que minha tia tem melhorado, mas ainda está fraca devido à medicação, que precisou ter a dose aumentada.
— Kyera tem se saído uma excelente enfermeira.
Ashley assentiu.
— Sim, e sou muito grata a ela… e também ao Alec, por tudo que fizeram enquanto estive fora. Mas sou eu quem deve cuidar da minha tia. Está na hora de reassumir essa responsabilidade.
Allan ergueu a garrafa de cerveja num pequeno brinde.
— Justo!
A conversa entre Ashley e Allan foi interrompida pelo som firme de botas contra o piso de madeira.
— Ora, ora… Se não é Ashley Keller. — A voz feminina carregava um tom de provocação e familiaridade. — Nossa mais nova encrenqueira está de volta, enfim.
Ashley virou-se e encontrou Dominic Stella encostada no balcão, os braços cruzados sobre o peito. O cabelo escuro, preso em um rabo de cavalo, destacava seus olhos afiados, e a estrela de delegada brilhava em sua camisa azul-escura.
— Dominic. — Ashley sorriu, inclinando a cabeça. — Quanto tempo!
A delegada sorriu de canto, pegando sua garrafa de cerveja no balcão.
— Vejo que alguém criou coragem. — comentou, fazendo um sinal para que Luck servisse uma dose de tequila. — Que tal um brinde?
— Claro! Por que não? — Ashley pegou o shot, brindando com Allan e Dominic antes de levar a bebida aos lábios.
— Então, o que a trouxe de volta à cidade? — perguntou Dominic, apoiando-se no balcão.
— A saúde da Nora, as lojas… e o irresistível ar do campo texano. — respondeu Allan, lançando um olhar divertido para Ashley.
Dominic fez uma careta.
— Ah, eu vi como ficaram as lojas depois daquele último temporal. Você vai ter um pouco de trabalho se quiser restaurá-las.
— Estou otimista quanto a isso. — disse Ashley, dando de ombros. — Guardei algum dinheiro. Acho que será o suficiente. Afinal, deve precisar apenas de uma pintura e alguns reparos.
— Acredito que sim. — concordou Allan. — Pelo que vi da fachada, os danos na parte interna não devem ser tão graves. Nada comparado ao que aconteceu no haras. Tivemos que trocar boa parte do telhado do estábulo e de alguns galpões.
— Espero que seja mais simples do que isso, porque, se os estragos forem maiores, vou precisar vender o casarão que herdei da minha avó. — disse Ashley, girando o copo entre os dedos antes de beber o restante da tequila. — Tenho planos para aquele lugar.
— Pretende morar lá? — perguntou Allan.
— Deus me livre! — Ashley fez uma careta. — Quero transformá-lo em uma pousada ou hotel.
Dominic ergueu a garrafa de cerveja e tocou a de Ashley num pequeno brinde.
— Bem, nesse caso, boa sorte na sua empreitada! — disse ela, piscando. — E, antes que eu me esqueça… bem-vinda de volta!
Eles ainda conversaram por um tempo até serem interrompidos por risadas altas. Ashley virou-se na direção do som e encontrou Alex no meio do salão, envolvido em uma brincadeira com um dos homens, chamando a atenção de todos ao redor.
— Por que ele sempre precisa ser o centro das atenções? — resmungou ela.
Alex, percebendo o grupo reunido junto ao balcão, lançou um sorriso presunçoso. Com um tapa nas costas do amigo, dirigiu-se até onde Ashley estava. Ele se aproximava com aquele ar travesso de quem adorava provocar, vestindo a mesma camisa negra com alguns botões abertos, calça jeans justa e botas.
— Ah, não… — murmurou Ashley, já prevendo a encrenca.
— Nos encontramos de novo, pequena! — disse Alex, parando à sua frente. — Pensei que já tivesse corrido para casa. Afinal, esse não é um horário para criancinhas estarem na rua.
Ashley bufou diante da provocação.
— Engraçado você dizer isso… — ela retrucou, com um sorriso zombeteiro. — Justamente quando eu estava aqui pensando na Barbie Malibu que estava com você lá fora. Será que ela sabe o caminho de casa ou precisou deixar pedacinhos do cérebro pelo caminho, tipo migalhas?
Dominic soltou uma gargalhada.
— Espera aí! De quem você está falando? — perguntou Allan, curioso.
— Da segunda loira mais sem noção que conheço nesta cidade: Melanie Carmichael. — respondeu Ashley, analisando Alex de cima a baixo. — Pensando bem, o cérebro minúsculo dela combina perfeitamente com a sua personalidade.
Alex riu e se inclinou ainda mais para perto dela.
— Cuidado, Keller… ou vou achar que está com ciúmes.
Ashley soltou uma risada irônica.
— Eu? Ciúmes de você com aquele projeto de androide biônico? Francamente, Stella… só nos seus sonhos.
Ela segurou o queixo de Alex entre os dedos e estalou a língua.
— Só tome cuidado para não cair da cama e acordar com a cabeça mais inchada do que já é.
No instante em que terminou a frase, percebeu o brilho divertido nos olhos prateados de Alex. Maldição. Ela já sabia exatamente o que estava passando pela mente dele.
— Nem se atreva a dizer o que está pensando! — avisou, empurrando o queixo dele para trás.
— Você nem sabe o que estou pensando.
— Conheço você bem o suficiente para saber que a resposta seria tão suja quanto aquilo que o gato enterra.
Allan e Dominic riram e brindaram com suas garrafas de cerveja.
— Alex, você não disse que estava de saco cheio da Mel? Que ela estava grudenta demais? — perguntou Allan.
— Pois é! Achei que você fosse terminar com ela. — acrescentou Dominic.
— E eu terminei! — disse Alex, dando de ombros. — Mas, antes disso, aproveitei bem os… digamos, atributos dela.
Ashley soltou uma risada sarcástica.
— Que cavalheiro exemplar você é, Alex. — arqueou a sobrancelha. — Realmente um príncipe encantado.
— Sempre fui. — Ele abriu um sorriso convencido. — O problema é que algumas pessoas não sabem a hora de desistir.
— Você é realmente repugnante, sabia? — retrucou Ashley, antes de tomar mais um gole de cerveja.
Alex inclinou a cabeça e, com um sorriso arrogante, apontou para o próprio corpo.
— Isso porque você ainda não se divertiu nesse playground, pequena.
Ashley estreitou os olhos, soltando um sorriso debochado.
— Prefiro engolir sabão com uma pedra de sal.
— Sério?
— Ah, sim. A morte parece uma companhia mais agradável.
Allan e Dominic caíram na risada, enquanto Alex ficava sem palavras por um instante. Ashley sabia que não duraria muito, ele sempre encontrava um jeito de retrucar. Para evitar prolongar aquela troca de farpas, chamou Luck e pediu mais uma dose de tequila.
— Se é a morte que você deseja, ela chegará a galope. — disse Alex, apontando para os shots vazios de tequila sobre o balcão. — Do jeito que está bebendo, não vai demorar para entrar em coma alcoólico.
Ashley olhou para os pequenos copos e soltou uma risada. Mal sabia ele que nem todos eram dela.
— Ah, Alex… Que ingenuidade achar que eu, depois de quase três anos trabalhando como garçonete em uma boate no centro de Manhattan, seria fraca para bebidas. — Ela deu de ombros, sem se abalar. — Principalmente quando recusar drinks oferecidos pelos clientes nunca foi uma opção.
Allan sorriu, arqueando as sobrancelhas.
— E como você conseguia se manter de pé até o fim da noite?
Ashley lançou um olhar enigmático e respondeu com um sorriso convencido:
— Tenho meus truques. — Ashley respondeu e Allan piscou como se soubesse do que ela falava.
Alex cruzou os braços, analisando-a com diversão.
— É mesmo? Então, por que não mostra? Fiquei curioso.
Ashley riu, balançando a cabeça.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Por quê?
— Porque, como dizem no show business, um mágico nunca revela seus truques.
Alex gargalhou.
— Sabe o que acho, Keller? Que não há truque algum. Você só está tentando nos convencer do óbvio, usando uma desculpa qualquer.
Ashley ergueu uma sobrancelha.
— E por que eu faria isso?
— E por que não faria? — Alex se levantou da banqueta, enfiou a mão no bolso e puxou a carteira. — Que tal fazermos o seguinte…? Aposto cem dólares que posso te vencer em um jogo de vira-vira. Você pode até escolher as regras, se quiser. O que me diz?
Ashley analisou a proposta por um instante antes de balançar a cabeça.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Vai fugir, Keller? — Alex provocou, um sorriso desafiador no rosto. — Não me diga que está com medo.
Diante do tom arrogante, Ashley estreitou os olhos e puxou outra nota de cem dólares, colocando-a sobre a de Alex com um estalo seco.
— Dobro a aposta.
— O que você está fazendo? Ficou louca? — Dominic exclamou, atônita. — Alex é bom nesse jogo. Não tem a mínima chance de você vencer.
Ashley sorriu, os olhos brilhando de determinação.
— Por isso mesmo que vou ganhar.
Allan, já prevendo o desastre, tentou intervir.
— Isso não é uma boa ideia, Alex. — disse, lançando um olhar cauteloso ao irmão.
Alex sorriu, presunçoso.
— Por que não? Você ouviu Dominic. Sou bom nesse jogo. — Ele lançou um olhar sarcástico para Ashley. — Além disso, a pequena tem seus truques.
Allan ergueu as mãos, como quem se rende, e se afastou. Alex, triunfante, fez um gesto teatral com as mãos.
— Muito bem, Keller… quais são as regras?
— Vinte doses de tequila. Quem terminar primeiro, sem desmaiar ou vomitar, vence.
Luck, que já começava a encher os copos de shot, olhou para Ashley com preocupação.
— Tem certeza disso, menina?
Ashley sorriu, sem hesitar.
— Não se preocupe, Luck. Vou ficar bem. — Então se voltou para Alex. — Se importa se eu intercalar com uma cerveja?
Alex soltou uma risada confiante.
— O funeral é seu, gatinha. — Ele deu de ombros, o tom carregado de arrogância.
A petulância dele não a incomodava; pelo contrário, era exatamente no excesso de confiança de Alex que ela apostava. Naquela noite, ele pagaria por todas às vezes que fez pouco dela. E Ashley se certificaria de que ele se lembrasse disso.
Dominic, animada, aproveitou a oportunidade para organizar apostas entre os clientes do bar, e logo o ambiente se encheu de expectativa.
— Prontos? — perguntou Dominic.
Ashley e Alex assentiram.
— Comecem!
Alex foi o primeiro a agir. Engoliu as doses com a facilidade de um veterano, enquanto a plateia vibrava, incentivando-o com gritos e aplausos. Ashley, por outro lado, bebia em um ritmo mais controlado, sem nunca desviar o olhar desafiador de Alex. Entre cada duas doses, levava a garrafa de cerveja aos lábios num gesto calculado, que começou a intrigar os observadores.
A competição avançava. Dose após dose, o álcool começava a cobrar seu preço. Na décima terceira rodada, Alex perdeu momentaneamente o equilíbrio, cambaleando visivelmente. Olhou para Ashley, que permanecia impassível, firme na banqueta, um sorriso frio nos lábios. O mundo girava ao seu redor, e uma pergunta se formou em sua mente: como diabos ela conseguia se manter tão estável?
Ashley ergueu o penúltimo copo, mantendo os olhos fixos em Alex. Quando engoliu o líquido de uma só vez, ouviu um baque seco. Ao virar-se, viu Alex desabar contra o balcão antes de cair no chão.
Calmamente, terminou sua última dose e desceu da banqueta com um salto ágil.
— Abram espaço! — pediu, abrindo caminho entre as pessoas. Ela se ajoelhou ao lado de Alex e deu leves tapas em seu rosto. — Alex, você está bem?
Ele abriu os olhos, confuso e grogue.
— O que… o que aconteceu? — balbuciou.
Uma marca avermelhada já se formava em sua testa, resultado do impacto contra o balcão.
— Você perdeu! — declarou Ashley, franzindo o nariz ao observar o machucado na testa dele. — Isso vai ficar feio amanhã.
— A culpa é sua, sua pequena trapaceira!
Alex tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram, e ele caiu de volta no chão. Allan se aproximou, tentando conter o riso.
— Avisei que você estava brincando com fogo.
— Eu não brinquei com nada! Foi ela quem trapaceou!
— Essa é a desculpa clássica dos perdedores. — ironizou Ashley, cruzando os braços. — Não foi você mesmo quem disse ser imbatível nesse jogo? Sempre há uma primeira vez para a derrota.
— Eu não perdi coisa nenhuma! — rebateu Alex, a voz arrastada, enquanto se apoiava no balcão para finalmente ficar de pé. — Você trapaceou! Não sei como, mas trapaceou! Ninguém bebe tanto e sai ileso!
A indignação dele era tão cômica que Ashley soltou uma gargalhada.
— Ah, claro. Só você tem esse talento especial. — debochou, arrancando risadas da plateia ao redor.
— Vou descobrir como você fez isso… e vou fazer você pagar! — rosnou Alex, ainda vacilante.
Ashley apenas sorriu, indiferente à ameaça.
— Vou adorar ver você tentar.
— Venha, idiota! Vou te levar para casa. — disse Allan, observando o estado deplorável do irmão. Ele o segurou de um lado e se virou para Dominic. — Me dá uma mão?
— Claro! Vou adorar tirar umas boas selfies. — respondeu ela, sarcástica, segurando Alex do outro lado. — Também vou aproveitar para uma pequena vingança.
Ashley arqueou as sobrancelhas, percebendo que Dominic também não era exatamente fã das provocações de Alex. Enquanto eles se despediam de Luck e seguiam para a saída, Allan lançou um sorriso zombeteiro para Ashley.
— Você é realmente muito esperta, Keller. — disse ele, piscando como se soubesse o segredo dela. — Tenha uma boa noite!
Ashley apenas sorriu, observando Allan e Dominic arrastarem Alex para fora do bar, rindo da situação.
— Bem, acho que essa é minha deixa! — disse ela, virando-se para Luck. — Essa noite já me rendeu mais do que eu esperava.
Ela ergueu as notas que ganhou com a aposta e as guardou no bolso.
— Te vejo amanhã, Luck!
— Boa noite, garota!
Já no estacionamento, a brisa quente do Texas soprou entre os cabelos loiros de Ashley. Ela desfez o lenço que os prendia, sentindo-se revigorada pela vitória. Ao entrar na Ranger de Kyera, lançou um último sorriso ao próprio reflexo no retrovisor.
A apreensão que sentira no início da noite havia desaparecido por completo.
— Que belo retorno. — murmurou, antes de dar partida no carro e seguir para casa.
Enquanto dirigia para o endereço onde morava com a tia, ironicamente, vizinha do apartamento de Alex, Ashley não conseguia conter o sorriso.
O jogo havia sido dela. A noite também.
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