A metrópole de Nova Aurora pulsava como um coração inquieto. A cidade, com seus arranha-céus reluzentes e becos sombrios, era um contraste vivo entre luz e trevas, opulência e miséria. Em meio ao caos, duas vidas tão diferentes quanto o dia e a noite estavam prestes a colidir.
Ana Clara, 24 anos, caminhava apressada pela avenida principal. Seus cabelos castanhos cacheados dançavam com o vento enquanto sua mochila surrada balançava em suas costas. Ela estava atrasada para a aula de psicologia do 7º período, mas, como sempre, não resistiu a fazer uma parada rápida para ajudar um senhor de idade que carregava sacolas pesadas na calçada. Seu sorriso caloroso e sua maneira de conversar com estranhos faziam dela uma presença impossível de ignorar.
Nascida em Santa Luzia, uma pequena cidade do interior, foi estudar na cidade cheia de sonhos e ambições, os pais tinham uma pequena fazendo de repolhos e com muito amor e sacrifício conseguiam pagar pelos seus estudos. Ana Clara não era como os habitantes da metrópole. Onde muitos viam perigo e desconfiança, ela enxergava oportunidades de conexão, sempre acreditando que as pessoas podem ser melhores, basta acreditar e ter oportunidades. Esse otimismo era sua força, mas também sua fraqueza. Apesar de alguns amigos insistirem que ela deveria ser mais cuidadosa, ela acreditava que, no fundo, todas as pessoas tinham algo de bom.
Na outra ponta da cidade, num bar escuro escondido em um beco, Leonardo, 28 anos, conhecido como Léo "Sombra", estava sentado no canto mais sombrio do estabelecimento. Ele observava tudo com olhos atentos, como um predador calculando seus movimentos. O apelido "Sombra" não era à toa. Ele cresceu nos becos e ruas de Nova Aurora, invisível para a sociedade, mas temido por aqueles que o conheciam. Alto, magro, com ombros largos e uma cicatriz que cruzava sua sobrancelha direita, Léo era uma figura intimidadora.
Com um QI excepcionalmente alto, Léo sempre foi diferente. Na escola, ele se destacava em matemática e ciências, mas sua mente afiada rapidamente se cansava do currículo repetitivo. Quando o tédio se tornava insuportável, ele se metia em brigas, batendo em alunos mais velhos e sempre tentando mostrar o quanto era superior aos outros, tanto em intelecto e músculos o que sempre resultava em expulsões e algumas paradas na delegacia. Aos 15 anos, enfrentou trinta homens de uma gangue local para proteger um garoto mais novo. Ele saiu vitorioso — e chamou a atenção do chefe da maior organização criminosa da cidade, Rogério "O Rei", que o recrutou imediatamente, maravilhado com a tenacidade e força daquele jovem rapaz.
Agora, aos 28 anos, Léo era o segundo no comando da gangue junto com o filho do "Rei" conhecida como Os Dragões Negros. Seu intelecto e sua habilidade em combate o tornaram indispensável. Ele tinha tudo o que poderia desejar: respeito, dinheiro, e poder. Mas, no fundo, algo faltava. Sua vida era um ciclo vazio de violência e estratégias; ele sabia que, apesar de todo o seu intelecto, estava preso em um jogo que não controlava.
Era o início da noite de uma sexta-feira, e o céu de Nova Aurora estava tingido de tons alaranjados, anunciando que as luzes da metrópole logo tomariam conta. A cidade começava a ganhar vida, com buzinas ecoando pelas avenidas e risadas espalhadas pelas calçadas movimentadas. Para muitos, a sexta-feira significava o início de um fim de semana de diversão, mas, para Ana Clara, era apenas mais uma noite cercada por livros e anotações de seu curso de psicologia.
No pequeno quarto da república estudantil, ela estava sentada à sua escrivaninha, caneta em mãos e olhos fixos no caderno. Sua rotina era sempre essa: estudar até tarde, imersa em teorias e análises de casos clínicos. Gostava da sensação de aprender algo novo, mas, ultimamente, começava a sentir que sua vida se resumia a isso.
Seu devaneio foi interrompido por batidas insistentes na porta. Antes que pudesse responder, a porta foi escancarada e suas colegas de república, Marcela e Lívia, entraram como um furacão, falando alto e gesticulando.
— Clara, você vai com a gente hoje! — anunciou Marcela, cruzando os braços com um sorriso determinado.
— E nem adianta inventar desculpas, hein! Hoje é sexta-feira e nós estamos saindo para a balada. Você vem junto! — completou Lívia, já puxando um vestido do armário de Ana, analisando se seria uma boa escolha.
Ana suspirou, largando a caneta sobre a mesa e girando na cadeira para encará-las.
— Meninas, sério, eu tenho um monte de coisa para revisar. A prova de neurociência é semana que vem, e vocês sabem como aquele professor é exigente.
Marcela revirou os olhos dramaticamente.
— Ah, qual é! Você vive trancada nesse quarto. Uma noite fora não vai te matar.
— Talvez me mate de cansaço, brincou Ana, forçando um sorriso.
Mas, no fundo, sabia que as amigas estavam certas. Fazia semanas que não saía para se divertir. Na verdade, nem se lembrava da última vez que havia pisado em uma festa ou feito algo espontâneo. Desde que começara a faculdade, sua dedicação aos estudos tinha se tornado quase uma obsessão.
Lívia se sentou na cama de Ana e cruzou as pernas, inclinando a cabeça de lado.
— Olha, você precisa respirar um pouco. Sair, dançar, esquecer os livros por algumas horas. Além disso, nunca se sabe quem você pode conhecer.
Ana arqueou uma sobrancelha.
— Eu já conheço vocês. Não preciso de mais do que isso.
— Você precisa de um pouco mais de emoção na sua vida, isso sim! — Marcela riu.
Depois de mais alguns minutos de insistência — e até um leve ataque de cócegas feito por Lívia para desestabilizá-la — Ana finalmente cedeu.
— Tá bom, tá bom! Eu vou. Mas só por algumas horas, ok?
As duas comemoraram como se fosse uma vitória épica.
— É assim que se fala! Agora, vamos te arrumar. Você não pode sair com essa roupa de "estudante exemplar".
— Ei! Eu gosto da minha roupa!
— Sim, mas hoje você vai usar algo mais… apropriado para uma balada.
Marcela e Lívia começaram a vasculhar o guarda-roupa de Ana, separando opções. Depois de muita discussão e algumas tentativas frustradas, ela acabou escolhendo algo que a deixava confortável e bonita ao mesmo tempo: uma saia jeans, uma blusa leve e confortável. Prendeu os cabelos cacheados com um elástico, como sempre fazia, e se olhou no espelho.
Para sua surpresa, um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
Talvez sair realmente fosse uma boa ideia.
Do outro lado da cidade, **Léo** ainda estava dormindo profundamente em seu pequeno apartamento. Ele tinha o hábito de trocar o dia pela noite, e o som constante da cidade não o incomodava. Mas dessa vez, o toque estridente do celular o despertou com um sobressalto.
— Que foi? — resmungou, a voz rouca, ao atender.
— Você ainda tá dormindo? — a voz de **Vitor**, seu parceiro de gangue, soou impaciente. — O carregamento já tá no porto, e você tá atrasado! O Rogério tá perguntando por você.
Léo suspirou e passou a mão pelos cabelos bagunçados. Ele sabia que não podia demorar. Esse carregamento era importante, algo que eles esperavam há meses.
— Tô indo, calma.
Desligou o telefone e vestiu a primeira roupa que encontrou: uma camiseta preta, jeans escuros e botas gastas. Antes de sair, pegou as chaves da sua moto de alta cilindrada, seu xodó. Assim que girou a chave na ignição, o rugido do motor cortou o silêncio da garagem. Ele acelerou pelas ruas estreitas do Setor Vermelho, ganhando velocidade à medida que se aproximava do centro da cidade.
Enquanto isso, Ana e suas amigas já estavam a caminho da balada. Elas caminhavam animadas pela avenida principal, rindo e conversando. Ana, sempre distraída, soltou o elástico que prendia seu cabelo e começou a brincar com ele entre os dedos.
Foi então que aconteceu. Enquanto atravessava a rua, o elástico escapou de sua mão e caiu no asfalto. Ela parou instantaneamente para pegá-lo, sem perceber que um farol vinha dobrando a esquina em alta velocidade.
Léo surgiu na curva. Ele viu Ana no meio da rua e, mesmo com seus reflexos rápidos, não conseguiu evitar o impacto completamente. Ele freou bruscamente, mas sua moto ainda a atingiu de leve, fazendo-a cair no chão.
Ana sentiu o impacto nas mãos e no cotovelo, que ficaram ralados, mas não parecia nada grave. Assim que levantou os olhos para encarar o responsável, viu um homem alto, musculoso, com tatuagens nos braços e olhos intensos que a encaravam com uma mistura de irritação e preocupação.
Léo, por sua vez, estava pronto para soltar uma enxurrada de reclamações, mas as palavras morreram em sua garganta quando viu os olhos de Ana. Eles eram de um tom verde profundo, e as lágrimas que começavam a se acumular neles fizeram algo dentro de Léo pulsar de um jeito que ele não entendia.
— Você tá bem? — perguntou ele, a voz mais suave do que pretendia.
Ana não respondeu de imediato. Estava atordoada, tanto pelo acidente quanto pela presença dele. Ele era lindo, de uma forma quase intimidadora, e sua postura confiante só o tornava mais fascinante.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, suas amigas, **Marcela** e **Lívia**, correram até ela, preocupadas.
— Clara, você tá bem? Meu Deus, olha o seu braço! — exclamou Lívia.
— Foi esse maluco que fez isso? — perguntou Marcela, encarando Léo com desconfiança.
Léo tentou falar, mas as amigas de Ana começaram a falar todas ao mesmo tempo, criando uma confusão. Ele sabia que estava atrasado para o encontro no porto, e o celular em seu bolso começou a vibrar novamente.
Sem outra opção, ele puxou um cartão de dentro da carteira e o entregou a Ana.
— Aqui. Se precisar de alguma coisa... remédios, hospital, qualquer coisa, me liga.
Ana pegou o cartão, ainda meio sem palavras. Léo subiu na moto e saiu sem olhar para trás, acelerando na direção oposta.
Por um longo momento, Ana ficou ali, encarando o cartão em suas mãos. O papel era simples, com apenas um nome e um número de telefone: **Leonardo S.**.
As amigas ainda falavam, mas Ana mal ouvia. Sua mente estava presa à figura daquele homem misterioso que a havia atropelado e, de alguma forma, deixado seu coração acelerado.
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