O silêncio no apartamento era ensurdecedor.
Vitória se sentou no chão da cozinha, os joelhos dobrados contra o peito, as unhas cravadas na própria pele. As luzes estavam apagadas, mas ela não precisava enxergar para saber que o mundo ao seu redor desmoronava. Tudo o que ela conhecia, o que ela amava, estava se desintegrando em pedaços irreparáveis.
O telefone ainda estava ao seu lado. A tela quebrada refletia a última mensagem de Jorel. Ela havia visto aquela mensagem uma vez, mas parecia que a dor naquelas palavras se tornava mais forte cada vez que ela as olhava. "Mana, me ajuda, por favor. A tia saiu de novo e tem um cara estranho aqui em casa. Eu tô com medo."
A ligação veio logo depois.
Curta e brutal. O som do vidro se estilhaçando. Um barulho seco, como algo pesado caindo no chão. Depois, o silêncio. Um silêncio tão profundo e vazio que fazia o coração de Vitória afundar ainda mais.
O mundo inteiro parou.
Vitória não sabia quanto tempo ficou ali, encarando o vazio, com os ouvidos zunindo e o peito apertado. A dor era sufocante, esmagadora, como se algo dentro dela tivesse sido arrancado e não restasse nada além de um buraco frio e sem fundo. O tipo de vazio que não pode ser preenchido por nada ou ninguém.
Ela tentou se levantar, mas os passos vacilantes quase a derrubaram de volta ao chão. Era como se o próprio ar tivesse se tornado denso, impossível de atravessar. Sem pensar, ela saiu do apartamento, sem casaco, sem telefone, sem rumo. O frio da noite mordia sua pele exposta, mas ela mal sentia. Tudo parecia distante, irreal, como se estivesse flutuando fora do próprio corpo, uma espectadora do próprio sofrimento.
As ruas passavam por ela em borrões de luzes e sombras. Não havia mais um caminho definido, nem uma direção. Ela não sabia para onde estava indo, mas a ideia de parar, de ficar imóvel, a apavorava. Cada passo parecia afastá-la de algo, ou talvez fosse uma tentativa de se afastar da realidade que a consumia. Um passo após o outro, sem olhar para trás.
E então, a luz.
Um farol cortando a escuridão da noite. O som estridente de pneus derrapando, vindo de algum lugar distante. Tudo parecia se desenrolar em câmera lenta enquanto ela percebia que não havia mais controle. O impacto foi brutal, a dor lancinante e, então… escuridão.
Quando Vitória acordou, não estava mais na cidade que conhecia. O frio e a dor estavam ausentes, mas algo estava errado. Ela não estava mais sozinha, mas não sabia dizer se aquele novo lugar ao seu redor era uma realidade alternativa ou um pesadelo do qual ela não podia escapar. O que a aguardava, ela não sabia. Mas, naquele momento, uma única certeza permanecia: sua vida estava longe de ser como antes. O fim do mundo que ela conhecia parecia ter sido apenas o começo de algo maior, algo que ela não poderia entender… pelo menos, não ainda.
Eu me chamo Vitória, sou brasileira e atualmente estou fazendo intercâmbio na Coreia. Não tenho uma aparência exuberante nem nada do tipo: sou morena, meu cabelo é cacheado e médio-longo, meus olhos são castanhos escuros, quase pretos. E acabo de ler o pior livro da minha vida.
Essas novels são bem populares por aqui, e por recomendação, resolvi tentar ler uma. Mas sério, que merda é essa? Nunca li algo tão ruim. Foi tão estressante... A protagonista poderia facilmente dar uma surra nesse desgraçado, então por que ela não bate naquele maldito bastardo que acha que pode tudo? Só pode ter fetiches estranhos pra não fazer nada quanto a isso e, pior ainda, se apaixonar depois de um sequestro.
Não acredito que perdi meu fim de semana com isso. Meu único tempo de paz são esses dois dias... E eu trabalho em cinco empregos de meio período pra pagar meu apartamento, necessidades básicas e a escola do meu irmão. Preciso trazer o Jorel pra cá logo. Jorel tem só seis anos e ficou no Brasil com nossa tia, que está sempre levando vários homens pra casa. Pelo menos sei que ela não vai deixar ele ver nada repugnante... Ela com certeza é melhor que o resto da família.
Se me perguntassem sobre minha última memória feliz... Bom, acho que foi aos quatro anos, no meu aniversário, quando minha mãe ainda era viva e meu pai não tinha perdido a cabeça.
Eu ainda me lembro com clareza desse dia. O clima estava fresco, mas o sol brilhava forte. Eu queria comer pizza, então minha mãe me colocou no carro, sentou-se no banco da frente e meu pai assumiu o volante. Ele dirigiu até a pizzaria Mackeli, e tudo parecia normal — até que, de repente, um homem bêbado tentou atravessar a rua sem olhar para os lados. Meu pai conseguiu frear no último segundo, evitando um atropelamento. Mas, em vez de simplesmente seguir seu caminho, o bêbado começou a esbravejar e esmurrar o capô do carro. Seus olhos errantes passearam pelo vidro, e foi então que ele viu minha mãe. Cidade pequena... Ele a reconheceu na mesma hora e começou a pedir certos serviços, se é que me entende.
E não, minha mãe nunca foi prostituta. Mas todas as mulheres da família eram.
Tudo começou com meu bisavô. Um viciado em jogos de azar e bebida, que pegou dinheiro com um agiota poderoso e acabou morto, deixando para trás uma dívida de cem milhões. O débito caiu sobre a família como uma maldição, e, sem saída, as mulheres foram forçadas a saldá-lo da única maneira que podiam.
Minhas quatorze tias maternas fizeram de tudo para que a décima quinta irmã — minha mãe, a mais nova — não tivesse o mesmo destino. Para poupá-la, as privaram de muitas coisas. Sei que ela cresceu passando fome e sempre estava doente, mas, no final, funcionou.
Ela conheceu meu pai no hospital. Ele havia se ferido em um acidente, e, por coincidência, foram internados no mesmo quarto. Durante a recuperação, se tornaram amigos. Mesmo depois de receber alta, ele continuou visitando minha mãe. Não demorou muito para que se apaixonassem. Aos dezoito anos, casaram-se no cartório e ela foi morar com ele — finalmente livre daquele passado.
Mesmo assim, os comentários sujos a perseguiam. O que aquele bêbado dizia agora não era novidade, e, como sempre, meu pai saiu em sua defesa.
Ele abriu a porta do carro e desceu furioso.
— O que foi que tu falou, seu filho da puta?
O homem riu, balançando o corpo de um lado para o outro.
— Perguntei quanto custa a hora da vagabunda que tu chama de esposa. Me pergunto pra quantos ela já de-!
Ele nem teve tempo de terminar a frase. O punho do meu pai encontrou seu rosto com força, o estalo seco da pancada ecoando na rua.
Minha mãe, aflita, me entregou um brinquedo e abriu a porta para tentar separar a briga.
Foi quando aconteceu...
Um carro preto, em alta velocidade e na contramão, atingiu o nosso carro com tudo. O impacto foi brutal. Eu, sentada no banco de trás, não fui muito machucada. Mas o que vi... aquilo jamais saiu da minha cabeça.
Minha mãe foi comprimida contra o metal retorcido. O sangue escorria, o último grito abafado escapando de sua boca. O som seco do pescoço se quebrando.
E, ao fundo, os gritos desesperados do meu pai.
Depois disso, não me lembro de mais nada. Tudo que me restou foi uma vaga lembrança da minha mãe e a única herança que ela deixou para mim: um pequeno colar dourado, em formato oval, com o desenho de uma rosa azul na frente.
Com o tempo, meu pai se entregou à bebida e às drogas. Não demorou para que enlouquecesse de vez. Era difícil vê-lo naquele estado... Mas pior ainda era sentir.
Cada vez que, de alguma forma, eu o fazia lembrar de minha mãe, ele me batia. Seu nome virou um tabu dentro de casa. Não podíamos pronunciá-lo. Era como se fingir que ela nunca existiu fizesse a dor desaparecer.
Então, veio aquele dia.
Eu tinha dezesseis anos quando alguém bateu à nossa porta.
Ao abrir, me deparei com uma mulher segurando um bebê nos braços. Ela tinha cabelos loiros médios, desbotados e sem brilho. Seu rosto não era exatamente bonito, mas o corpo, sem dúvida, compensava. Seus olhos franzidos e a expressão carrancuda tornavam sua aparência ainda mais rígida.
Sem aviso, ela me jogou a criança nos braços e, empurrando a porta, entrou sem pedir permissão.
— JEREMY! VOCÊ TÁ AQUI? APAREÇA LOGO, EU VI SUA LATA-VELHA LÁ FORA! — gritou, sua voz irritada ecoando pela casa.
— Senhora! — tentei chamar sua atenção, mas ela simplesmente me ignorou.
Meu pai saiu do quarto. Ao vê-la, sua expressão endureceu. Ele então olhou para mim e, em seguida, para a criança que eu segurava. Seu rosto empalideceu.
Eles foram para o quarto, onde conversaram — ou melhor, discutiram — por cerca de duas horas. Enquanto isso, fiquei na cozinha, segurando o bebê nos braços. Era um garotinho de olhos castanhos claros... Os mesmos olhos do meu pai.
Eu não conseguia parar de encará-lo.
Do outro cômodo, os gritos da discussão vinham em ondas, abafados pela parede. O tempo passou, até que, finalmente, a mulher saiu bufando, bateu a porta com força e se foi.
Deixando o bebê para trás.
Levantei da cadeira e caminhei até a porta com ele nos braços, mas a voz do meu pai me deteve.
— Não vá.
Virei para encará-lo. Ele suspirou, esfregando o rosto cansado. Então, me explicou.
Meu pai engravidou aquela mulher quando os dois se conheceram. Agora, depois de ter o bebê, decidiu que não queria ser mãe. Estava de partida para outro país e não queria carregar aquele "peso".
Parei por um momento, encarando a criança em meus braços.
Um pai sem estabilidade mental ou financeira.
Uma mãe que simplesmente o abandonou.
Como alguém pode deixar para trás algo tão pequeno? Tão frágil?
Tão adorável?
Eu o abracei forte, simpatizando com meu meio-irmão recém descoberto. Eu cuidaria dele.
— Jorel.
Meu pai ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Esse é o nome dele. Jorel.
E, a partir daquele momento, ele não era mais só um bebê abandonado.
Ele era meu irmão.
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