Ningen no Kokoro
Capítulo 1 - Explorando a mente humana
Uruma e Kyou estavam sentados diante de uma mesa iluminada por uma lâmpada fraca.
Entre eles, duas pequenas gaiolas de vidro abrigavam dois coelhos—um branco como neve e outro negro como a noite.
Kyou apoiou o queixo na mão, observando Uruma com um olhar entediado, mas curioso.
Kyou
Então, o que isso tem a ver com a mente humana?
Uruma, com sua expressão séria e fria, deslizou o dedo ao longo do vidro da gaiola do coelho branco.
Uruma
A mente humana funciona como esses dois coelhos.
Uruma
Existem duas forças dentro de nós, brigando pelo controle.
Uruma
O branco representa o que é puro, racional, controlado.
Uruma
O preto, o instinto, a irracionalidade, a escuridão.
Kyou ergueu uma sobrancelha
Kyou
Ah, então aquela velha história do lobo bom e do lobo mau?
Uruma abriu um sorriso leve, mas havia algo afiado nele.
Uruma
Não exatamente. Veja bem.
Ele abriu ambas as gaiolas ao mesmo tempo. Os coelhos saltaram para fora e correram pela mesa, em direções opostas.
Uruma
Se você deixar ambos livres, um vai acabar dominando o outro.
Kyou observou enquanto o coelho preto começou a se movimentar com mais agressividade, cutucando e empurrando o branco para um canto da mesa.
Kyou
Então, o que acontece se eu alimentar um mais que o outro?
murmurou Kyou, pegando um pedaço de cenoura e jogando para o coelho preto. Ele devorou rapidamente, enquanto o branco hesitava em avançar.
Uruma
Você já sabe a resposta.
Uruma
A mente humana se fortalece com aquilo que você alimenta.
Uruma
Medo, raiva, vingança… ou paz, racionalidade, compreensão. Você decide qual dos dois vai crescer mais.
Kyou ficou em silêncio por um momento, depois pegou outro pedaço de cenoura e deu ao coelho branco.
Kyou
Mas e se eu quiser que os dois coexistam?
Uruma encarou os coelhos por um instante, então respondeu, sem desviar o olhar:
Uruma
Então você precisa ser forte o bastante para segurá-los na coleira.
Kyou ficou observando os dois coelhos. O preto ainda se movia de forma mais agressiva, tentando pegar a cenoura do branco, que recuava, hesitante.
Kyou
E se um deles for mais forte que o outro desde o começo?
Perguntou Kyou, deslizando os dedos pela mesa.
Uruma se inclinou para trás, cruzando os braços.
Uruma
A mente humana nunca nasce equilibrada. Alguns já começam com a escuridão dominando, outros com a luz em excesso.
Uruma
Mas o equilíbrio não é sobre começar justo, e sim sobre aprender a controlar o que te foi dado.
Kyou soltou um riso curto, quase irônico.
Kyou
Fácil falar. Difícil fazer.
Uruma
E por isso poucos conseguem.
Kyou voltou sua atenção para os coelhos. Ele estalou os dedos, chamando a atenção deles, e quando o branco se moveu, pegou-o com as duas mãos, segurando-o no colo.
Kyou
Se eu quisesse, poderia protegê-lo. Mantê-lo longe do outro, impedir que a escuridão o tocasse.
Uruma arqueou levemente a sobrancelha.
Uruma
Mas então ele nunca aprenderia a se defender sozinho.
Kyou
Se eu quiser equilíbrio, eu deveria deixar os dois brigarem?
Uruma negou com a cabeça.
Uruma
A luta acontece de qualquer jeito.
Uruma
A questão é se você vai deixar um matar o outro ou se vai interferir antes disso.
Kyou soltou um suspiro e colocou o coelho branco de volta na mesa. O preto imediatamente se aproximou, mas dessa vez, Kyou colocou a mão entre eles.
Kyou
Então, no fim, somos sempre nós que decidimos o resultado?
Kyou
Você é um péssimo professor, Uruma. Isso só me deixou com mais perguntas.
Uruma
Se um dia você encontrar todas as respostas, é porque já parou de pensar.
Kyou não respondeu. Apenas ficou ali, encarando os coelhos, enquanto as palavras de Uruma ecoavam em sua mente.
O silêncio entre os dois se prolongou, apenas interrompido pelo som dos coelhos se movendo sobre a mesa.
O branco ainda hesitava, enquanto o preto continuava tomando a dianteira, empurrando, tentando dominar o espaço.
Kyou tamborilou os dedos na madeira.
Kyou
E se o equilíbrio for impossível? Se, no fim, um sempre destruir o outro?
Uruma abriu um pequeno canivete e o colocou sobre a mesa, entre eles. A lâmina brilhou sob a luz fraca.
Uruma
Então você precisa decidir qual deles morre primeiro.
Kyou ficou imóvel, encarando a lâmina, depois os coelhos. O branco ainda se retraía, o preto avançava. A respiração de Kyou ficou mais lenta.
Kyou
Isso não parece justo.
Uruma ergueu uma sobrancelha.
Uruma
Justiça não existe na mente humana. Apenas consequência.
Por um longo momento, nada aconteceu. Então, sem aviso, o coelho preto pulou sobre o branco, cravando os dentes em sua pele.
O branco se debateu, tentando escapar, mas era menor, mais fraco.
Kyou não se moveu. Seu olhar estava preso na cena. O branco lutava, mas seu destino parecia selado.
Uruma
Você não vai fazer nada?
Os olhos de Kyou se estreitaram. Num movimento rápido, ele pegou o canivete e, sem hesitar, cortou a garganta do coelho preto.
O animal se contorceu, o sangue espirrando quente sobre a madeira. O branco, coberto de vermelho, cambaleou para trás, respirando ofegante.
Kyou olhou para Uruma, esperando alguma reação. Mas o outro apenas observou em silêncio, sem expressão.
Então, algo inesperado aconteceu. O coelho branco começou a tremer. Pequenos espasmos tomaram seu corpo, sua respiração acelerou. Seus olhos, antes dóceis, agora estavam arregalados, em puro terror.
Uruma
Ele viu sangue demais
Uruma
Ele nunca foi forte o suficiente para lidar com a escuridão.
Antes que Kyou pudesse reagir, o coelho branco caiu de lado. Seu corpo se convulsionou por alguns segundos… e então parou.
Kyou sentiu a lâmina ainda em sua mão. O coelho preto jazia morto em uma poça escura. O branco, ao seu lado, sem vida.
Kyou
No fim… ambos morreram.
Uruma
Esse é o destino de quem não sabe controlar a própria mente.
Uruma
Se você mata a escuridão sem preparar a luz, tudo desmorona.
Kyou soltou um riso amargo.
Kyou
Então não importa o que eu faça. Sempre há perda.
Uruma pegou o canivete da mão de Kyou e fechou a lâmina.
Uruma
Sempre. Mas a escolha de como lidar com isso ainda é sua.
Kyou olhou para os corpos dos coelhos. Pequenos, frágeis. As metáforas de Uruma haviam se tornado algo real demais.
Capítulo 2 - Explorando a arrogância humana
O ambiente era o mesmo. A mesa de madeira, a luz fraca, a tensão silenciosa entre os dois.
Mas, desta vez, não havia coelhos.
No centro da mesa, um gato siamês os observava com olhos azul-gelo, sua cauda balançando lentamente.
Kyou apoiou o cotovelo na mesa, descansando o queixo sobre a mão.
Kyou
E agora? O que esse gato tem a ver com a mente humana?
Uruma deslizou um pedaço de carne crua na direção do felino. O gato o ignorou por um instante, lambendo a própria pata antes de finalmente se dignar a comer.
Uruma
Diferente dos coelhos, que vivem em medo ou submissão, o gato não se importa com a nossa presença.
Uruma
Ele age conforme sua própria vontade.
Kyou observou o animal com um olhar pensativo.
Kyou
Então ele representa o quê? O instinto?
Uruma negou levemente com a cabeça.
Uruma
Ele representa a arrogância humana.
Uruma
Humanos acreditam que dominam tudo.
Uruma
Criam cidades, leis, tecnologias. Colocam cercas ao redor do que chamam de lar e declaram que pertencem a algum lugar.
Uruma
Mas olhe para esse gato. Ele vive sob o mesmo teto que um humano, mas nunca pertence a ninguém.
Kyou olhou para o animal, que agora os ignorava completamente, focado apenas em lamber a própria pata.
Kyou
Então, você quer dizer que a arrogância humana está em achar que controla tudo?
Uruma pegou um pequeno sininho dourado e o colocou diante do gato. O felino ergueu os olhos por um instante, depois virou o rosto, desinteressado.
Uruma
Humanos acreditam que podem domesticar qualquer coisa.
Uruma
Mas há uma grande diferença entre coexistir e possuir.
Uruma
Esse gato está aqui porque quer, não porque precisa.
Kyou
Mas se nós oferecermos comida, proteção… ele vai depender de nós, não?
Uruma
E essa é a maior ilusão de todas.
Uruma
Você pode alimentá-lo, cuidar dele, dar-lhe um nome.
Uruma
Mas, se abrir a porta, ele pode simplesmente ir embora sem olhar para trás.
Kyou ficou em silêncio por um momento. O gato continuava impassível, soberano em sua indiferença.
Kyou
Então a arrogância humana… está em achar que tudo precisa deles?
Uruma
E, mais do que isso, está em achar que tudo deveria ser moldado à sua vontade.
Kyou olhou para o gato por um longo tempo. Um animal tão pequeno e, ainda assim, carregava uma liberdade que os humanos nunca teriam.
Kyou
No fim, somos nós os que vivem enjaulados, não é?
O silêncio foi interrompido por um rosnado baixo.
Kyou se virou, apenas para ver um vulto na sombra. Um cachorro grande, de olhos famintos, parado na soleira da porta.
O gato, que até então se limpava sem pressa, finalmente ergueu a cabeça. Sua cauda parou de se mover.
Uruma não se moveu. Apenas observava.
Uruma
Agora vamos ver até onde vai o orgulho de quem se acha livre.
Kyou sentiu um nó na garganta. O gato não correu.
Ficou ali, como se desafiasse o cachorro a recuar primeiro. Seu erro foi acreditar que estava no controle.
O gato tentou reagir, desferindo um golpe com as garras no focinho do predador, mas foi tarde demais.
Dentes se fecharam ao redor de seu corpo. Um grito agudo cortou o ar.
Um estalo seco. O corpo do gato se debateu por segundos, então ficou mole.
Kyou assistiu em silêncio, sentindo o peito apertar. O cachorro largou a presa no chão, lambendo os beiços, enquanto o felino jazia ali, o pescoço torcido em um ângulo antinatural.
Uruma fechou os olhos por um instante.
Uruma
A arrogância cobra seu preço.
Kyou
Ele poderia ter corrido… poderia ter se escondido…
Uruma abriu os olhos lentamente, frios como a lâmina de uma faca.
Uruma
Mas ele não aceitou que existia algo maior do que ele.
O cachorro virou-se e sumiu na escuridão, como se nada tivesse acontecido.
O gato ficou para trás. Pequeno. Frágil. Silencioso.
Kyou manteve o olhar fixo nele, como se tentasse encontrar alguma justificativa para o que vira.
Kyou
Por que sempre acaba em morte?
Uruma não respondeu de imediato. Apenas pegou o sininho dourado que antes havia colocado diante do gato e o fez tilintar suavemente entre os dedos.
Uruma
Porque a morte é a única coisa absoluta.
Kyou
Isso não faz sentido. As lições não poderiam terminar de outra forma?
Uruma girou o sininho entre os dedos, o olhar divertido.
Uruma
Poderiam, mas não teriam impacto.
Kyou
Então você está dizendo que a única forma de aprender é perdendo?
Uruma
O ser humano só entende a fragilidade da vida quando a vê desaparecer diante de seus olhos.
Uruma
Enquanto tudo está vivo, acreditamos ser invencíveis.
Uruma
A morte é o único espelho que reflete a verdade sem distorções.
Uruma
O mundo é cruel. Só estou te mostrando o que ele já faz todos os dias.
Kyou apertou os punhos sobre a mesa, sentindo o sangue pulsar em suas têmporas.
O corpo do gato ainda jazia imóvel no chão, e o som do sininho que Uruma largara parecia ecoar em sua mente, repetindo-se como um aviso tardio.
Aquela cena se repetia. Sempre. Primeiro os coelhos, agora o gato. Um ciclo cruel, sem fim.
Ele ergueu os olhos e encarou Uruma. O outro continuava ali, inexpressivo, impassível, como se nada tivesse acontecido.
Como se a morte fosse apenas mais um detalhe, irrelevante e esperado.
Kyou
Você se diverte com isso?
Kyou
Assistindo esses animais morrerem como se fossem apenas… experimentos?
Kyou
Então por que continuar? Por que sempre acabar em morte?
Uruma
Porque a morte não é um experimento. Ela é uma verdade.
Uruma
E o que faço aqui… é apenas remover as ilusões que vocês insistem em criar.
Kyou
Então é isso que você pensa? Que somos todos cegos
Kyou
Que só entendemos algo quando vemos morrer diante de nós?
Uruma não respondeu de imediato. Apenas abaixou o olhar para o gato morto e, depois, voltou a encará-lo.
Uruma
Me diga você. Se o gato não tivesse morrido, você realmente estaria pensando nisso agora?
Kyou abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram em sua garganta.
Porque, no fundo, ele sabia a resposta.
E isso o enfurecia ainda mais.
Capítulo 3 - Explorando a profundidade do Amor
A sala era a mesma. O cheiro de madeira envelhecida, a luz fraca que tremulava nas paredes, como se temesse desaparecer completamente. Mas, desta vez, não havia coelhos, não havia gatos.
Ela estava sentada em uma cadeira de balanço, com as mãos enrugadas repousando no colo.
Seu olhar perdido parecia flutuar entre a vigília e a lembrança, como se estivesse presa em algum ponto distante do tempo.
Kyou não sabia quem ela era. Apenas que Uruma a trouxera ali.
Kyou
Qual é a lição desta vez?
Uruma olhou para a idosa com uma calma quase desconfortável.
Kyou
Depois de tudo, agora vamos falar de amor?
Kyou
Depois de coelhos mortos, de um gato despedaçado, você quer falar sobre amor?
Uruma não respondeu de imediato. Apenas puxou uma segunda cadeira e se sentou ao lado da idosa.
Uruma
O amor não é tão simples quanto acreditam.
Uruma
Não é um instinto, como o medo. Não é um conceito, como a arrogância. O amor… é o que resta quando tudo se vai.
Kyou
E essa mulher? O que ela tem a ver com isso?
A idosa sorriu de leve, mas seus olhos não se moveram. Ainda estavam presos em algum lugar distante.
Uruma apontou para as mãos dela.
Uruma
Veja. Ela já não tem mais juventude. Sua pele carrega a história do tempo.
Uruma
Seus ossos, a lembrança de cada esforço. Ela já perdeu amigos, irmãos, talvez até filhos.
Uruma
Tudo o que poderia ser tomado dela, foi. E, ainda assim, ela sorri.
Kyou olhou para a mulher, agora com um olhar mais atento. Ela realmente parecia… vazia, de alguma forma. Como se fosse feita apenas de lembranças e tempo acumulado.
Kyou
Isso é só… resignação.
Ele então se inclinou levemente para frente e tocou a mão da idosa.
Uruma
Senhora, pode nos contar sobre o que mais amou em sua vida?
Uruma
E o que aconteceu com ele?
Kyou queria dizer algo, mas Uruma foi mais rápido.
Uruma
E mesmo assim você ainda o ama?
Idosa/amor
Como eu poderia não amar?
Uruma virou-se para Kyou.
Uruma
Amor não é posse. Amor não é presença. Se fosse, ele teria morrido junto com aquele que partiu.
Kyou
Então você está dizendo que amor é só… saudade?
Uruma
Saudade é o vazio. Amor é o que o preenche.
Idosa/amor
Eu vivi tanto tempo sem ele… mas nunca sem o amor que sentia por ele.
Idosa/amor
Eu estou perto da morte.
Idosa/amor
Mas não me sinto arrependida.
Kyou a observava, sem saber o que dizer. Era uma resposta que não se encaixava na lógica que ele esperava.
Kyou
Não sente que faltou algo? Que deveria ter feito mais?
Idosa/amor
O medo já passou há muito tempo. O que restou foi a paz de saber que vivi.
Kyou olhou para Uruma, buscando alguma explicação, mas Uruma parecia absorto, observando a mulher com uma atenção calma, como se já soubesse o que ela diria antes mesmo que falasse.
Idosa/amor
Muitos me perguntam se eu me arrependo. Se gostaria de ter feito algo diferente.
Idosa/amor
Mas a verdade é que, em todos esses anos, eu vivi cada momento com a intensidade que pude.
Idosa/amor
Amar alguém é se entregar ao tempo, ao fluxo da vida, sabendo que tudo é efêmero.
Idosa/amor
E eu nunca precisei que o amor fosse eterno. O que importa é o que ele foi, enquanto durou.
Kyou
Então, você não tem arrependimentos?
Kyou
Não tem nada que você faria de outra forma?
Idosa/amor
Não. Eu fiz o que pude, e o que não fiz, ficou para trás. O que importa agora é o que ainda posso viver, mesmo que seja apenas mais um dia.
Idosa/amor
Eu não sou diferente de vocês
Idosa/amor
O amor não significa perfeição. Não significa controle. Ele é, simplesmente, uma escolha. E, no fim, não importa o quanto você ame, ou quanto você perca. O que importa é o que você faz com o tempo que tem.
Uruma
O arrependimento vem do medo de não ter vivido o que se deveria.
Uruma
Mas o que ela nos ensina, Kyou, é que, quando se ama profundamente, não há espaço para arrependimento.
Uruma
O que passou, passou. O que importa é o que se sente agora.
Uruma se levantou lentamente, os movimentos tão precisos e calculados que o som do seu corpo se erguendo parecia ensurdecedor na quietude da sala.
Ele estava tão calmo quanto sempre, mas algo no ar mudara. Ele se aproximou da idosa, os olhos fixos nela, um olhar inexpressivo, mas carregado de uma intenção que Kyou ainda não conseguia decifrar.
A idosa parecia não perceber a mudança na atmosfera, ou talvez, soubesse exatamente o que estava acontecendo, mas nada indicava que ela se importasse. Seu sorriso continuava lá, sereno e silencioso.
Uruma puxou um canivete pequeno da bolsa, a lâmina brilhando à luz suave da sala. Kyou engoliu em seco, um arrepio percorreu sua espinha. O que ele estava fazendo?..
Uruma
Senhora, morreria por amor?
Kyou sentiu um choque percorrer seu corpo. O que estava acontecendo? Ele tentou dizer algo, mas as palavras simplesmente não saíam.
A idosa olhou fixamente para o canivete, mas seu sorriso não vacilou. Seu olhar, profundo e penetrante, parecia não se importar com a lâmina ou com a pergunta.
Idosa/amor
Morrer por amor?
Idosa/amor
Eu não preciso morrer por amor. O amor que vivi já foi suficiente para me preencher. A morte, para mim, não é um sacrifício, mas apenas uma parte do ciclo.
Uruma não se moveu, não retirou a lâmina. Ele parecia esperar, como se a resposta dela fosse parte de um experimento.
Kyou, por outro lado, sentia o pânico se espalhar pelo seu corpo. Ele queria intervir, perguntar se Uruma estava realmente disposto a fazer algo tão extremo.
Mas, antes que ele pudesse reagir, a idosa deu um sorriso mais profundo, como se tivesse compreendido algo que ninguém mais compreendia.
Idosa/amor
A morte não é o fim do amor, jovem
Idosa/amor
O amor transcende isso. Não é a vida ou a morte que determinam o valor do que sentimos.
Finalmente, Uruma guardou o canivete, ainda em silêncio. Não havia necessidade de mais palavras. A idosa tinha falado o suficiente para ele.
Ela não morreria por amor, não porque não fosse capaz de amar, mas porque o amor que ela carregava já era uma eternidade em si mesmo.
A tensão na sala diminuiu, mas Kyou ainda sentia o peso do que acabara de acontecer.
Uruma
O que você acha, Kyou? O amor pode ser um sacrifício? Ou ele transcende até a morte?
Uruma estava calmo, como sempre, mas havia algo nos seus olhos, uma intenção que Kyou nunca havia visto antes. Ele observava a idosa com uma frieza gélida, como se ela fosse apenas um objeto para sua próxima experiência.
Uruma se aproximou dela mais uma vez, seus passos leves e calculados. Ele não falava, não explicava, mas a atmosfera mudava a cada movimento seu.
A lâmina do canivete brilhava em sua mão como se fosse uma extensão de sua própria vontade, e Kyou percebeu, com um calafrio crescente, que Uruma não estava apenas testando as palavras da idosa. Ele estava testando a própria natureza do amor, da vida e da morte.
A idosa olhou para Uruma, ainda com aquele sorriso suave, como se nada no mundo pudesse abalá-la. Ela não temia. A morte, para ela, já havia se tornado algo distante, quase irrelevante. Ela já havia aceitado a vida e o amor que vivera, e agora parecia apenas aguardar a conclusão do ciclo.
Uruma parou diante dela e, sem dizer uma palavra, levantou o canivete. Kyou sentiu seu corpo se mover involuntariamente para frente, tentando evitar o que sabia que estava prestes a acontecer, mas não conseguia. Seus pés estavam como raízes, presos ao chão.
Ele não sabia se era o choque, o medo ou algo mais, mas não conseguia impedir o que estava prestes a acontecer.
Com uma precisão impiedosa, Uruma cravou a lâmina no peito da idosa. Não foi um golpe rápido, como Kyou esperava, mas um movimento deliberado, quase ritualístico, como se estivesse arrancando algo vital e profundo de dentro dela. A idosa não gritou.
Não houve sofrimento visível. Ela simplesmente olhou para Uruma com seus olhos, ainda serenos, e exalou um último suspiro.
A lâmina do canivete ainda estava enterrada no peito dela quando Uruma retirou a mão, limpando o canivete com um gesto simples, sem pressa. Ele não parecia alterado. Não parecia sentir o peso do que havia feito. Apenas observava a idosa com um olhar calculado, como se estivesse analisando os resultados de um experimento.
Kyou
Você... você realmente matou ela?
Uruma
A morte não é um fim, Kyou. É uma consequência. Ela já tinha vivido o suficiente.
Uruma
Ela não tem mais nada a aprender ou a ensinar. Tudo o que restava a ela era uma escolha. Ela escolheu o amor, e a morte foi apenas a próxima parte dessa escolha.
Uruma deu um passo em direção à porta, como se a cena anterior não tivesse qualquer relevância. Ele se virou para Kyou uma última vez, o rosto imutável.
Uruma
Você ainda não entende, Kyou. Não é sobre amar ou matar. É sobre o controle.
Uruma
O controle sobre a vida, sobre a morte, sobre o amor. A verdadeira questão é: quem decide o que é o fim?
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