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Positivo para o Amor

Capítulo 01

Aviso: Bem-vindo(a)! Antes de iniciar a leitura, é importante saber que este livro contém cenas de sexo explícito, linguagem imprópria, uso de drogas e bebidas alcoólicas, além de temas como traumas e conflitos. Tudo nesta obra é puramente fictício — nomes, lugares e eventos não têm qualquer relação com a realidade. Boa leitura!

.........

...Bianca Paganini...

...Arthur De Angelis...

...Luna De Angelis...

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Aeroporto internacional da Alemanha.

Eu deveria estar em um avião agora, não encostada nessa cadeira dura do aeroporto de Frankfurt, ouvindo um anúncio incompreensível em alemão e tentando não surtar.

— Você só pode estar brincando comigo... — murmurei, apertando o celular contra a orelha enquanto esperava a resposta da atendente.

A voz robótica da companhia aérea repetiu pela terceira vez que todos os atendentes estavam ocupados. Meu voo de volta para o Brasil estava atrasado há horas, e a cada novo anúncio, o tempo estimado de embarque parecia se distanciar ainda mais.

Fechei os olhos e respirei fundo, contando até dez. Precisava manter a calma. Tudo que eu queria era sair daquele país, apagar da minha memória os últimos meses e recomeçar. Mas parecia que até o destino estava conspirando contra mim.

— Desculpe, senhorita, mas não temos previsão de embarque no momento — informou a mulher do guichê da companhia aérea, em um inglês impecável e com um sorriso treinado para parecer empático.

— Como assim sem previsão? Meu voo já está atrasado há três horas! — reclamei, tentando manter a compostura, mas sentindo a irritação crescer.

— Estamos aguardando informações da equipe técnica. Houve um problema com a aeronave, mas estamos trabalhando para resolver o mais rápido possível. Podemos oferecer um voucher para alimentação enquanto aguarda.

Ótimo. Porque um sanduíche frio de aeroporto ia mesmo resolver meu problema.

Suspirei e peguei o voucher sem discutir. A última coisa que eu precisava era chamar atenção. Depois de tudo que aconteceu nos últimos meses, meu plano era voltar ao Brasil de forma discreta e começar de novo, bem longe de certas pessoas.

Caminhei pelo terminal em busca de um café decente, puxando minha mala de rodinhas atrás de mim. Olhei as mensagens no celular e ignorei as que não queria responder. Apenas um nome me chamou atenção.

Manu: E aí? Sobreviveu?

Soltei uma risada baixa e digitei rapidamente:

Eu: Mal cheguei e já quero fugir. Meu voo tá um caos.

O celular vibrou quase imediatamente.

Manu: Isso é um sinal. Volta nadando, mas volta logo!

Sorri, balançando a cabeça.

Mal sabia ela que eu também estava considerando essa opção.

Soltei um suspiro longo e joguei o celular dentro da bolsa. Nem precisava responder. Manu sabia que, se dependesse de mim, eu já estaria a milhares de quilômetros daqui.

Parei na fila de um café e olhei o menu sem muito interesse. O cheiro forte de espresso se misturava com o cansaço do dia, e tudo que eu queria era um bilhete dourado que me levasse direto para casa. Mas não, eu estava presa em Frankfurt, sentindo que o universo fazia questão de prolongar meu martírio.

Meus olhos vagaram pelo aeroporto, observando os viajantes apressados indo e vindo, como se suas vidas estivessem perfeitamente organizadas. Um contraste absurdo com o caos que foram os meus últimos meses.

Fechei os olhos por um instante, sentindo aquela raiva amarga voltar a subir. Eu tinha vindo para a Europa cheia de expectativas, achando que seria uma mudança necessária. Que bom, que burra. No final, tudo tinha desmoronado como um castelo de cartas.

Primeiro, o emprego promissor que, na prática, era um pesadelo disfarçado. Um chefe insuportável, colegas competitivos ao extremo e uma pressão sufocante que drenava minha energia um dia após o outro. A única coisa que me fazia esquecer daquilo era ele.

Alessandro.

O nome ainda tinha peso nos meus pensamentos, mas agora não era mais de saudade. Era de raiva. De frustração. De vergonha.

Eu tinha sido ingênua o bastante para acreditar que ele era diferente. Que o charme italiano e as promessas sussurradas ao pé do ouvido eram genuínas. Mas no final, ele era só mais um babaca narcisista, viciado em joguinhos emocionais e no controle absoluto de tudo ao redor.

E eu fui a idiota que caiu.

Por meses, fui arrastada num ciclo tóxico de promessas vazias e manipulação. Sempre com aquela sensação de que algo estava errado, mas incapaz de me libertar completamente. Até que um dia eu vi—com meus próprios olhos—que não era a única na vida dele.

Foi humilhante. Foi o choque que eu precisava. E foi naquele instante que decidi: acabou.

Arrumei minhas malas e voltei para minha dignidade, pronta para deixar essa fase podre para trás. Mas agora, aqui estava eu, presa num aeroporto lotado, como se o universo estivesse me dando tempo extra para refletir sobre todas as minhas péssimas escolhas.

— Senhorita?

A voz impaciente do atendente me tirou dos pensamentos. Eu nem tinha percebido que já era minha vez no balcão.

— Um café grande, por favor — pedi rapidamente, entregando um dos vouchers.

Peguei o copo quente e me afastei, encontrando um canto mais isolado para me sentar. Encostei a cabeça na parede e soltei um longo suspiro.

Não importava o quanto meu voo atrasasse. Assim que pisasse no Brasil, eu ia apagar esse capítulo da minha vida. Para sempre.

E fiz uma promessa silenciosa: nunca mais. Nunca mais iria me permitir confiar em alguém dessa forma. Nunca mais baixaria a guarda para um homem. Eu confiei naquele desgraçado, entreguei a ele o benefício da dúvida, e na primeira oportunidade, ele jogou minha confiança no lixo.

Mas, no fundo, já era de se esperar. Homens são assim. Sempre foram. Meu pai era a prova viva disso.

Eu o amo, claro. Ele é meu pai. Mas se tem uma certeza que carrego comigo, é que não quero um homem como ele na minha vida.

Ele traiu minha mãe, como se o amor dela fosse descartável. Como se sua família fosse um detalhe insignificante diante dos próprios desejos. E não parou por aí—engravidou outra mulher, depois outra, e hoje tem três filhos de casamentos diferentes, todos desfeitos pelo mesmo motivo: traição.

Minha mãe chorou. As outras choraram. Todas foram deixadas para trás enquanto ele seguia em frente, colecionando histórias e justificativas vazias.

E eu? Eu cresci assistindo a esse ciclo se repetir.

Então, talvez o problema tenha sido meu. Talvez eu tenha sido idiota de acreditar, por um instante, que Alessandro poderia ser diferente. Que existiam exceções. Mas agora eu sabia a verdade.

Homens são todos iguais.

O alto-falante ecoou pelo aeroporto, anunciando a liberação do meu voo, e eu soltei um suspiro aliviado. Finalmente.

Levantei da cadeira com pressa, ignorando a dor incômoda nas costas depois de tantas horas esperando. Ajeitei a alça da bolsa no ombro e puxei minha mala de rodinhas em direção ao balcão de check-in.

— Nome? — perguntou a atendente, com um sorriso profissional.

— Bianca Paganini Fernandes.

Ela digitou algumas coisas no sistema e assentiu.

— Tudo certo, senhorita Paganini. Alguma mala para despachar?

— Sim. — Empurrei minha mala maior para o lado dela, sentindo um alívio imediato por me livrar daquele peso.

A atendente colou a etiqueta de identificação na bagagem e me entregou meu bilhete de embarque.

— Aqui está. Seu assento é na primeira classe.

Sorri ao ver a marcação no cartão de embarque. Primeira classe.

Eu nunca tinha sido do tipo que gastava dinheiro com luxos desnecessários, mas hoje… hoje eu merecia. Depois dos últimos meses, depois das horas infernais presa nesse aeroporto, depois de tudo que Alessandro me fez passar, eu precisava de um pouco de paz.

E se isso significava gastar uma quantia absurda para me isolar do resto dos passageiros e tomar uma taça de champanhe a dez mil metros de altura, então que fosse.

Passei pela segurança sem problemas e segui para o portão de embarque. As pessoas ainda se agitavam pelo terminal, algumas reclamando do atraso, outras correndo para não perder o voo. Eu apenas apertei o casaco contra o corpo e continuei andando.

Assim que chamaram a primeira classe para embarque, fui uma das primeiras a entrar no avião.

O comissário de bordo me recebeu com um sorriso simpático, guiando-me até meu assento espaçoso. A poltrona reclinava completamente, tinha um travesseiro confortável e uma manta fofinha me esperando. Já valia cada centavo gasto.

Me acomodei e fechei os olhos por um momento, sentindo o cansaço pesar. Assim que a decolagem terminasse, eu dormiria o resto do voo.

Tudo que eu queria era acordar em casa e esquecer que esses últimos meses sequer aconteceram.

.........

Capítulo 02

Rio de Janeiro.

Aeroportos sempre tinham um cheiro característico. Uma mistura de café, perfume caro e cansaço acumulado. Para a maioria das pessoas, era o cheiro de partidas e chegadas. Para mim, era o cheiro do trabalho.

Caminhei pelo terminal com passos firmes, meu crachá pendurado no pescoço e o olhar atento a qualquer movimentação suspeita. Depois de anos como auditor fiscal da Receita Federal, eu já conhecia bem os padrões. O jeito como certos passageiros evitavam contato visual, o nervosismo ao passarem pela alfândega, os sinais sutis que denunciavam quem tentava esconder alguma coisa.

Ao meu lado, meu parceiro de equipe, Torres, checava as últimas atualizações no tablet.

— Recebemos um alerta sobre um possível carregamento chegando hoje — ele disse, sem tirar os olhos da tela.

— O voo da Europa? — perguntei, já antecipando a dor de cabeça.

Torres assentiu.

— Frankfurt. Chegada prevista para daqui a uma hora. A equipe já está de olho, mas querem que fiquemos atentos a qualquer movimentação estranha.

Passei a mão pelo rosto, sentindo a exaustão se acumular. Trabalhar no combate ao narcotráfico exigia paciência, atenção e um faro apurado para mentiras. Eu já tinha visto de tudo—desde pequenos traficantes tentando passar com drogas escondidas no corpo até esquemas milionários envolvendo bagagens trocadas.

E agora, tudo indicava que mais uma dessas operações estava prestes a cair no nosso colo.

— Alguma informação específica? — perguntei, enquanto pegávamos um café rápido na sala dos agentes.

— Apenas que devemos observar qualquer mala  ou comportamento fora do comum.

Soltei um suspiro. Isso podia significar muita coisa... ou nada.

Peguei meu café e chequei o relógio. Ainda tinha tempo antes da chegada do voo, mas, como sempre, algo me dizia que essa noite estava longe de ser tranquila.

Eu nunca tive um local fixo de trabalho. Uma hora estou em Campinas, outra em São Paulo, depois em Brasília, e assim por diante. Mas, no fim das contas, passo mais tempo no Rio.

Essa rotina instável foi um dos principais motivos pelos quais nunca pude ter a guarda de Luna. Eu não poderia oferecer a ela a estabilidade que uma criança precisa. Por isso, ela mora com a mãe no Canadá, onde tem uma rotina estruturada, escola, amigos e tudo o que precisa.

Mas isso não significa que estamos distantes. Luna vem me visitar pelo menos três vezes por mês, e nos falamos todos os dias. Seja por chamada de vídeo, mensagens ou ligações rápidas entre um voo e outro, faço questão de estar presente na vida dela da melhor forma possível.

Ela é a minha prioridade. Sempre foi. E sempre será.

Poderia ser mais fácil se eu tivesse um trabalho normal, com horários previsíveis e uma rotina estável. Mas minha vida nunca foi assim, e eu aprendi a lidar com isso. O importante era que Luna sabia que podia contar comigo, mesmo à distância.

Quando ela vinha para o Brasil, eu tentava compensar o tempo longe. Fins de semana no parque, idas ao cinema, tardes inteiras montando quebra-cabeças ou cozinhando panquecas que sempre saíam meio tortas, mas que ela insistia que eram as melhores do mundo.

Mas quando ela ia embora… era um vazio difícil de explicar.

— Tá com essa cara de novo, De Angelis? — Torres comentou, me arrancando dos pensamentos.

— Que cara? — resmunguei, levando o café à boca.

— Parece um cachorro abandonado na chuva.

Revirei os olhos.

— Engraçado você.

— Só tô dizendo — ele deu de ombros.

Antes que eu pudesse responder, uma mensagem apareceu no celular. Era da minha ex.

Melissa: Luna quer falar com você antes do voo dela. Pode atender?

Chequei o relógio. Ainda tinha tempo antes do voo de Frankfurt pousar.

Eu: Claro. Liga aí.

Segundos depois, a tela do celular se iluminou com a chamada de vídeo. Atendi no mesmo instante e o rosto sorridente de Luna apareceu.

— Papai! — ela disse animada, os olhos brilhando. — Adivinha? Eu tirei 10 no meu trabalho de ciências!

Sorri, sentindo o peito aquecer.

— Sabia que minha garota ia arrasar! Conta pra mim, como foi?

E, por alguns minutos, todo o resto—trabalho, investigações, aeroportos—simplesmente deixou de existir.

Luna começou a falar empolgada sobre o projeto que tinha feito. Algo sobre o sistema solar e um modelo que ela mesma construiu com isopor e tinta brilhante. Ela gesticulava com as mãos pequenas, os olhos cheios de entusiasmo, e eu não conseguia conter o sorriso.

— Você ia adorar, papai! Meu professor disse que ficou incrível, e a mamãe até ajudou a pintar os anéis de Saturno!

— Claro que ia adorar, minha cientista favorita! — brinquei. — Você precisa me mandar fotos, hein? Quero ver cada detalhe.

— Já mandei! — ela disse orgulhosa. — E da próxima vez que eu for, quero fazer outro com você! A gente pode fazer um modelo da Terra e pintar os oceanos e os continentes, o que acha?

Meu peito apertou. Da próxima vez que eu for. Sempre era assim. Luna contando os dias para nos vermos, e eu tentando ignorar a dor de saber que aqueles momentos nunca eram suficientes.

— Acho uma ideia incrível! Já pode deixar os pincéis preparados.

Ela sorriu ainda mais, mas então a voz de Melissa surgiu ao fundo.

— Luna, amor, precisamos ir pro portão de embarque.

O rostinho dela murchou um pouco, mas assentiu.

— Papai, preciso ir agora…

— Tudo bem, meu amor.

— Te amo muito!

— Também te amo muito, princesa. Manda mensagem quando chegar?

— Prometo!

E com um último aceno animado, a chamada foi encerrada.

Soltei um suspiro e guardei o celular no bolso, tentando afastar aquele aperto familiar no peito. Eu sabia que estava fazendo o melhor que podia, mas, às vezes, a saudade pesava mais do que eu queria admitir.

— Hora de trabalhar, De Angelis. — A voz de Torres me puxou de volta à realidade.

Levantei-me, ajustando o distintivo no pescoço.

— Vamos nessa.

O voo de Frankfurt tinha acabado de pousar, e algo me dizia que a noite estava apenas começando.

— Inspeção de rotina da Receita Federal. Por favor, fiquem desse lado e mantenham o vão central livre.

Ajeitei o distintivo no peito enquanto minha equipe se posicionava. O fluxo de passageiros que desembarcava do voo de Frankfurt começou a diminuir o ritmo, alguns trocando olhares curiosos, outros demonstrando aquele incômodo típico de quem não quer ser incomodado depois de um voo longo.

— Itens de mão, bolsas e mochilas devem ser colocados aqui na frente, por gentileza. O cão de faro vai inspecionar as malas, e nossos agentes farão a inspeção corporal de vocês. Procedimento padrão, sem necessidade de preocupação.

Havia sempre aqueles que reviravam os olhos, como se fosse um absurdo perderem alguns minutos para a fiscalização. Outros ficavam visivelmente tensos, o que nem sempre significava culpa—algumas pessoas simplesmente não sabiam esconder o nervosismo.

Mas eu aprendi a reconhecer a diferença.

E enquanto os agentes começavam a triagem, meu olhar varria os rostos no salão. Foi então que meus olhos encontraram os dela.

E, por um instante, o barulho ao redor pareceu se dissipar.

O cão de faro circulava entre as bagagens, atento a qualquer cheiro suspeito. Então, de repente, ele parou. Sentou-se em frente a uma mala vermelha de rodinhas, sua postura firme indicando o que todos nós já sabíamos: havia algo ilícito ali dentro.

Minha atenção se desviou para a dona da bagagem. Uma mulher loira acabara de adentrar o pequeno vão destinado à inspeção. Ela usava óculos escuros, um blazer elegante sobre um cropped preto e uma calça branca larga que contrastava perfeitamente com seu salto fino. Tinha um porte confiante, mas seu corpo pareceu enrijecer levemente ao notar o cão parado diante da mala.

Sinalizei para Cláudia, que já havia começado a revista corporal nas passageiras, enquanto eu, Torres e mais alguns analistas nos ocupávamos dos homens.

— Senhora, preciso que me acompanhe. — Minha voz saiu firme, mas profissional.

Ela hesitou por um instante antes de tirar os óculos e me encarar diretamente. Olhos claros, intensos. Expressão de desagrado evidente.

— Qual o problema? — a voz dela soou firme, mas havia um leve tom de impaciência.

Apontei para a mala.

— Nosso cão sinalizou algo suspeito. Vamos precisar inspecionar sua bagagem.

Ela franziu o cenho e soltou um suspiro pesado.

— Isso é algum tipo de piada? Eu só quero ir para casa.

Cruzei os braços.

— Então não há com o que se preocupar. Apenas um procedimento de rotina.

Ela me lançou um olhar irritado, mas não discutiu. Apenas assentiu e cruzou os braços, esperando o desenrolar da situação.

Eu já tinha visto muitas reações nesse tipo de abordagem. Algumas pessoas entravam em pânico, outras tentavam argumentar. Mas essa mulher… ela parecia mais furiosa do que assustada.

E isso me dizia duas coisas: ou ela era completamente inocente, ou estava prestes a me dar muito trabalho.

.........

Capítulo 03

Meus pés já estavam doendo do salto, minha paciência estava no limite, e tudo que eu queria era sair daquele aeroporto e ir direto para casa. Mas, claro, o universo adorava testar minha sanidade.

Primeiro, a inspeção. Ok, normal. Eu já esperava por isso. Mas a forma como aquele agente me olhava, como se estivesse pronto para me acusar de um crime, estava me tirando do sério.

— Abra sua bagagem de mão, por favor.

Revirei os olhos, mas fiz o que ele pediu. O agente, um moreno alto, de olhar atento e farda impecável, começou a revirar minhas coisas. Pegou minha necessaire, abriu o zíper e tirou um dos meus pós de maquiagem.

Franziu o cenho.

— Cheiro forte.

— É translúcido com fragrância de baunilha, Sherlock. Quer passar no rosto pra testar?

Ele ergueu uma sobrancelha, claramente sem paciência para minhas ironias, mas não disse nada. Apenas passou o frasco para uma mulher que parecia ser da equipe dele. Ela abriu, analisou e, depois de alguns segundos, balançou a cabeça.

— Somente maquiagem.

Soltei um suspiro, cruzando os braços.

— Podemos acabar com isso agora?

O agente parecia prestes a dizer algo, mas, antes que pudesse, outro funcionário apareceu ao lado dele, segurando um papel e olhando diretamente para mim.

— Temos um problema.

Minha espinha gelou.

— Como assim, problema?

Ele mostrou o papel, que parecia ser um relatório de bagagens inspecionadas.

— Encontramos algo suspeito em uma mala despachada no seu nome.

Meu coração disparou.

— Isso é impossível! Minhas coisas estão todas aqui! — apontei para minha bagagem de mão, mas o agente negou com a cabeça.

— Não essa. A mala despachada, com a etiqueta no nome de Bianca Fernandes.

Paralisei.

— Fernandes? Meu sobrenome é Paganini!

O agente trocou um olhar rápido com o parceiro e depois voltou a me encarar com frieza.

— Então sugiro que venha conosco para esclarecer essa confusão.

Foi aí que eu percebi. Alguém tinha trocado a minha mala.

E, pelo jeito, eu estava prestes a me ferrar bonito.

Minha mente trabalhava freneticamente. Ok, meu nome era Bianca Fernandes Paganini, mas eu lembrava perfeitamente que o comprovante de despacho tinha saído como Bianca Paganini. Eu tinha conferido duas vezes!

O ambiente parecia encolher ao meu redor quando o agente abriu a mala e revelou o conteúdo. Tabletes. Vários deles, embalados em plástico.

Meu coração disparou, e um nó se formou no meu estômago. Isso não podia estar acontecendo.

O agente pegou um pequeno frasco com um líquido transparente e rasgou um dos pacotes, recolhendo uma amostra. Ele mexeu o frasco, o líquido ficou azul imediatamente.

Droga. Literalmente.

— Então, senhora, a partir de agora a senhora está presa pela Receita Federal do Brasil. — a voz dele saiu firme, profissional, mas sem um pingo de paciência. — Tem uma série de direitos, incluindo uma ligação. Vamos levá-la até a autoridade policial e sugiro que ligue para alguém que possa te ajudar, porque o dono dessa porcaria aí não tá mais nem aí pra você.

Minha respiração ficou presa na garganta.

— Isso não é meu! Eu juro!

Ele me lançou um olhar cético.

— A mala está no seu nome.

— Mas eu não despachei essa mala!

Falei já com raiva.

— Essa etiqueta está errada! Eu usei meu sobrenome materno na passagem! Essa mala não é minha! — tentei argumentar, mas ele já pegava meu celular da minha mão.

— A partir de agora, seu celular também está retido como elemento de prova, beleza?

Eu quis gritar, xingar, fazer um escândalo, mas algo me dizia que quanto mais eu me exaltasse, pior ia ficar.

Isso era um pesadelo.

Alguém tinha colocado essa droga no meu nome.

E se eu não provasse que era inocente, meu inferno estava só começando.

O agente à minha frente manteve a postura firme, mas pude ver o brilho de irritação em seu olhar quando dei um passo para trás.

— Vou acompanhar você até a Polícia Federal aqui do aeroporto, ok? — Ele falou com calma, como se estivesse lidando com uma bomba-relógio. — E, por questões de segurança sua, nossa e dos demais passageiros, preciso algemar você.

Minha reação foi instantânea.

— Eu não vou a lugar nenhum! — Me soltei bruscamente, recuando um passo.

No mesmo instante, senti a tensão no ar aumentar. Alguns passageiros que ainda estavam por ali olhavam com curiosidade, outros fingiam que não viam nada.

Uma mulher da equipe cruzou os braços, impaciente.

— A senhora tem o direito de permanecer calada. Quer desacato à autoridade na sua ficha também?

Cerrei os punhos, meu sangue fervendo.

— O que eu quero é que vocês resolvam essa merda direito! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, mas já não me importava. — A porra dessa mala NÃO é minha! Eu tenho o comprovante de despacho! Façam o trabalho de vocês direito e me soltem agora!

Apontei um dedo acusador para o agente alto à minha frente, o verdadeiro armário humano de 1,90m.

— E você! Vou processar cada um de vocês, e o primeiro vai ser você.

Ele não se mexeu, nem piscou. Apenas me encarou com aquele olhar frio e analítico, como se estivesse me estudando.

Então, com uma calma irritante, respondeu:

— Que bom que a senhora sabe dos seus direitos. Vai ter bastante tempo para exercê-los. Agora, vira de costas e estende as mãos.

Engoli em seco.

Eu estava realmente ferrada.

O silêncio pesou por um segundo. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar no peito. Cruzei os braços e firmei os pés no chão, recusando-me a ceder.

— Vocês estão cometendo um erro grotesco. Minha mãe é ex-promotora e meu irmão é policial. — Olhei diretamente para o agente à minha frente, desafiadora. — Vocês acham mesmo que vou aceitar isso calada?

O homem continuou impassível, mas percebi que um dos analistas ao lado dele trocou um olhar rápido com a mulher que havia falado comigo antes.

— Que ótimo, então você sabe exatamente como funciona. — O agente finalmente respondeu, o tom carregado de ironia. — Se é inocente, sua mãe e seu irmão vão te ajudar depois que chegarmos à delegacia. Agora, facilita o trabalho e coopera.

Dei um passo para trás.

— Eu não vou a lugar nenhum.

— Senhora, não complique mais a sua situação.

— Ah, me desculpa se eu não estou colaborando com a minha PRISÃO INJUSTA! — soltei, carregada de sarcasmo.

Ele suspirou, como se já esperasse essa reação.

— Última chance. Se recusar a acompanhar voluntariamente, vamos ter que usar força. E, nesse caso, vai responder por resistência à prisão.

Minha mente gritava em alerta. Se eu cedesse, seria como admitir culpa. Mas se resistisse, poderia piorar ainda mais a minha situação.

Minha garganta secou.

— Eu não vou sair daqui até falarem com meu advogado.

Ele deu um passo à frente, me encarando de cima. Parecia uma parede de concreto prestes a desabar sobre mim.

— Advogado você fala na delegacia. Agora, decide: vai andar ou prefere ser levada?

— Eu não sou criminosa! — soltei, a voz firme, mas sentindo o desespero se infiltrar nas minhas palavras.

O agente não demonstrou nenhuma reação além de erguer uma sobrancelha.

— Então colabora.

— Eu quero meu advogado agora! Vocês não podem simplesmente me arrastar pra lá como se eu fosse culpada!

Ele cruzou os braços, a expressão séria.

— Podemos sim. Você está detida em flagrante, o que significa que será conduzida até a Polícia Federal para os procedimentos. Lá, você poderá ligar para um advogado. Agora, se continuar dificultando, posso te enquadrar por resistência à prisão.

Eu sentia um nó se formando no meu estômago. Minha mãe sempre me alertou sobre esse tipo de situação. "Se um dia algo assim acontecer, mantenha a calma e peça um advogado antes de dizer qualquer coisa."

Mas como manter a calma quando eu estava sendo acusada de tráfico de drogas?

— Essa mala não é minha! Eu já disse mil vezes!

O agente suspirou, claramente sem paciência. Então, sem aviso, ele deu um passo à frente e segurou meu braço com firmeza.

— Eu avisei.

Puxei o braço no reflexo.

— Tira a mão de mim!

— Senhora, colabora. Isso já está ruim o suficiente para você.

Antes que eu pudesse reagir, senti o metal frio das algemas se fechando em torno dos meus pulsos.

Meu estômago despencou.

Eu. Algemada.

Meu rosto queimou de raiva e humilhação enquanto sentia os olhares ao meu redor. Algumas pessoas disfarçavam, outras assistiam sem nem tentar esconder a curiosidade.

Minha visão ficou turva por um segundo, e eu engoli em seco, tentando ignorar o nó que se formava na minha garganta. Eu não ia chorar. Não na frente deles.

Respirei fundo e ergui o queixo, encarando o agente nos olhos.

— Você está cometendo um erro gigantesco.

Ele não piscou.

— Se for o caso, a justiça vai corrigir. Agora, vamos.

E assim, sem ter para onde correr, minha vida virou de cabeça para baixo.

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