Esse livro contém gatilhos: Sexo explícito, palavras de baixo calão, piadas de cunho sexual, bebidas Alcoólicas, menção ao aborto, casamento em crise.
...Júlia Borges...
...Anderson Borges ...
...
Júlia:
Eu tinha 24 anos quando conheci Anderson. Ele estava começando sua própria empresa de arquitetura e engenharia na cidade, enquanto eu era apenas uma estudante cheia de sonhos, cursando arquitetura. Comecei a estagiar na empresa dele, e o que era para ser apenas trabalho acabou se transformando em algo muito maior. Foi aquele clichê de chefe e funcionária: nos apaixonamos perdidamente. Em apenas um ano de namoro, nos casamos.
Juntos, viajamos o mundo. Enfrentamos desafios lado a lado, sempre sonhando grande. Entre nossos muitos planos, um deles era claro: quando minha carreira estivesse estabilizada, formaríamos nossa família. Esse momento chegou. Eu me tornei sócia da empresa do meu marido, uma arquiteta reconhecida e respeitada no mercado. Ele, um engenheiro renomado. Nossa empresa alcançou o topo do mercado, reconhecida como a melhor da categoria. Tudo parecia perfeito. Pelo menos, por fora.
Dentro de casa, porém, só nós sabíamos o peso que carregávamos. Nosso sonho de ter filhos começou a se tornar um pesadelo quando a primeira gravidez chegou. Ficamos radiantes, comemoramos, fizemos planos. Anderson esteve ao meu lado em cada consulta, segurando minha mão, compartilhando a alegria de esperar nosso primeiro filho. Até que, no quarto mês, o pior aconteceu.
— Meu Deus... – vi o sangue em minha mão e o pânico tomou conta de mim. – Amor? Amor? ANDERSON?!
Ele veio correndo. Parou, olhando para o chão. A quantidade de sangue fez seu rosto empalidecer.
— Porra! – ele exclamou, desesperado, enquanto corria até mim.
Naquele momento, senti que tudo o que havia de mais feliz em mim estava indo embora junto com nosso filho. Aquilo que mais desejávamos escapou por entre nossos dedos.
Mas isso foi no passado. E agora, aqui estamos nós, tentando sobreviver ao que restou...
— Meu bem, tem mais alguma bagagem? — Anderson perguntou enquanto colocava uma das malas no porta-malas do carro.
— Não... mas — franzi o cenho, olhando para as malas. — Acha que três malas serão o suficiente?
— Será apenas um final de semana, minha linda, não um mês inteiro — respondeu com um sorriso, me dando um selinho antes de voltar para dentro de casa.
Eu suspirei, olhando para Flora, nossa Golden Retriever, que esperava pacientemente ao meu lado. Abri a porta de trás para que ela subisse, e ela entrou no carro animada, abanando o rabo. Fechei a porta e me encaminhei para o banco do passageiro, mas um som de buzina me fez virar a cabeça.
Elizeu estava no teto panorâmico de um carro, segurando uma latinha de cerveja, gritando algo que não consegui entender. Paulo saiu do banco do motorista rindo, e Daniele, do passageiro, correu até mim, abrindo os braços para me abraçar.
— Oi, Ju! — disse Daniele, me apertando calorosamente. — Você está tão linda.
— Obrigada, Dani! Você também está maravilhosa — respondi com um sorriso sincero, admirando o vestido dela, que sempre tinha um jeito de se destacar.
Daniele, Paulo e Elizeu eram amigos de Anderson desde a faculdade. Faziam parte de um grupo inseparável que, ao longo dos anos, se tornou parte essencial da nossa vida. Além deles, havia Jaqueline e Roberto, que conheci na faculdade e que agora eram pais de Victor e Maria. Mariana, irmã de Anderson, também fazia parte do grupo, junto com sua filha Carolina, nossa afilhada.
Quando Anderson voltou, cumprimentou os amigos com aquela familiaridade descontraída que sempre admirei. Logo, todos começaram a conversar e rir, mas, enquanto eles trocavam histórias e brincadeiras, senti uma pontada de desconforto crescer dentro de mim.
— Está tudo bem? — Anderson perguntou ao me ver um pouco afastada, ao lado do carro.
— Está, claro — menti, forçando um sorriso.
Entramos no carro minutos depois, despedindo-nos do grupo para pegar a estrada. Anderson ligou o motor e colocou a mão sobre a minha perna, um gesto que normalmente me confortava, mas que agora só fez meu estômago revirar.
A viagem começou silenciosa, até que ele quebrou o gelo:
— Ju, eu sei que você ainda está pensando na última conversa que tivemos...
Eu suspirei, olhando pela janela. Não queria discutir, mas as palavras estavam presas na garganta, prontas para sair.
— Não é só isso, Anderson. Você age como se esse final de semana fosse resolver tudo — falei, com a voz mais firme do que eu pretendia.
— Não estou dizendo que vai resolver tudo, mas é um começo. Não podemos continuar como estamos. Precisamos disso, você sabe.
— Precisamos? Ou você acha que fingir que está tudo bem durante dois dias vai consertar o que está quebrado? — rebati, sentindo a emoção começar a transbordar.
— Meu amor, pelo amor de Deus, não estou tentando fingir nada. Eu só quero... quero que a gente se conecte de novo. Que a gente lembre de como era antes.
— Antes? Antes de tudo isso? Antes de eu me sentir culpada o tempo todo? Antes de cada tentativa parecer um fracasso? — minha voz falhou, mas eu continuei. — Você pode querer fingir que estamos bem, Anderson, mas eu não consigo.
Ele apertou o volante com força, a mandíbula tensa.
— Não é isso, Ju. Eu só... eu também estou tentando. Mas você me afasta o tempo todo. Você acha que só você está sofrendo?
O silêncio pesado encheu o carro. Olhei para Flora no banco de trás, que agora estava deitada, alheia à tensão entre nós. Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas, mas tudo o que eu conseguia sentir era o peso de tudo que estava nos esmagando.
— Eu não quero te afastar — sussurrei, finalmente. — Só não sei mais como lidar com isso.
Anderson me olhou de relance, seus olhos suavizando.
— Talvez a gente não saiba agora, mas podemos descobrir. Juntos.
Eu queria acreditar. Queria muito. Mas, pela primeira vez, não sabia se o "juntos" ainda era suficiente.
.........
Júlia:
Chegamos à casa de praia duas horas depois. Havíamos comprado essa casa junto com nossos amigos para termos um lugar onde pudéssemos relaxar e nos desconectar das pressões do dia a dia. Mas, mesmo esse refúgio parecia incapaz de aliviar a tensão que pairava entre mim e Anderson.
Após nossa pequena discussão no carro, só trocamos palavras básicas: "Preciso ir ao banheiro", "Tá com fome?" ou "Quer água?". Tudo o que estava além disso ficava preso, sufocado pelo silêncio desconfortável.
Eu nunca tive — e ainda não tenho — dúvidas sobre o quanto amo Anderson. Amo ele com tudo o que sou. Ele é o amor da minha vida. Mas desde que perdemos nosso bebê e todas as nossas tentativas de engravidar falharam, algo no nosso relacionamento se quebrou.
É nosso sonho.
É o meu sonho.
Saí do carro e abri a porta de trás para Flora. Ela desceu imediatamente, animada, como sempre. Flora já conhecia o lugar, então a deixei correr solta pelo quintal, livre e alheia à carga emocional que eu carregava. Enquanto isso, ouvi o som de buzinas e risadas ecoando na entrada da casa. Os carros dos nossos amigos estavam chegando.
Anderson tirou nossas malas do porta-malas: duas pequenas de rodinhas e uma mochila com os produtos de higiene. Sem dizer nada, ele levou tudo para o quarto que dividíamos. Observei-o desaparecer pela porta e soltei um longo suspiro.
Eu não aguentava mais essa situação. Esse peso, essas discussões que, embora parecessem pequenas, consumiam nossa energia. Não eram saudáveis, eu sabia disso. Mas também sabia que, uma vez iniciadas, eram inevitáveis.
Minutos depois, ele voltou para fora, caminhando em direção aos amigos que já haviam estacionado seus carros. Olhei para ele de longe, desejando com todas as minhas forças que encontrássemos uma forma de resolver tudo isso. Nossos amigos estavam aqui. Precisávamos fingir que estava tudo bem — pelo menos por agora.
Respirei fundo e fui me juntar a eles, decidida a, pelo menos, aproveitar o momento e tentar me reconectar com Anderson. O tempo que tínhamos nessa casa precisava significar alguma coisa.
— Dinda?
Peguei Carolina no colo com um sorriso, seus cabelos ruivos brilhando ao sol.
— Oi, meu amorzinho! — falei, enchendo-a de beijos. — Que saudades de você.
— Eu também senti saudades, dinda! Vamos pra praia?
— Mais tarde, prometo. — Beijei sua testa e a coloquei no chão com cuidado. Ela correu animada até Anderson, que a pegou no colo sem hesitar.
— Minha princesa! — disse ele, enchendo-a de beijinhos na bochecha antes de jogá-la para cima, arrancando gargalhadas altas e contagiantes.
Aquela cena aqueceu meu coração, mas também trouxe um nó na garganta. Anderson seria um pai maravilhoso. Não havia dúvidas disso.
Victor, o filho mais velho de Jaqueline e Roberto, apareceu com sua energia de sempre, trazendo um sorriso genuíno para meu rosto. Beijei seus cachinhos carinhosamente.
— Oi, Victor! Que saudades do meu jogador de UNO preferido.
Logo, Maria, a bebê de um ano e três meses, balbuciava palavras incompreensíveis, segurando uma boneca de pano com suas mãozinhas pequenas. Sorri ao vê-la.
— E essa princesa? Tá ficando cada vez mais linda, hein? — comentei, me abaixando para fazer carinho em sua cabecinha.
Mesmo em meio à alegria das crianças, eu não conseguia afastar o peso que carregava. Depois de um tempo brincando com elas, me afastei discretamente e fui até a cozinha, onde encontrei Daniele e Mariana preparando algo para as crianças.
— Ju, tá tudo bem? — Mariana perguntou, me observando atentamente enquanto eu pegava um copo d’água.
Soltei um suspiro longo antes de responder:
— Não exatamente. Eu e Anderson tivemos outra discussão no carro.
Daniele levantou os olhos do que estava cortando na bancada e veio até mim.
— Sobre o quê?
— Sobre... tudo, Dani. Sobre as coisas de sempre. A gente mal consegue conversar sem acabar discutindo. É como se estivéssemos presos em um ciclo que não termina.
Mariana cruzou os braços, preocupada.
— Isso tem que parar, Ju. Não é bom pra nenhum de vocês.
— Eu sei, Mari. Mas às vezes parece que estamos tão distantes... Não sei como consertar isso.
Daniele colocou a mão no meu ombro.
— Vocês precisam conversar de verdade. Não adianta empurrar as coisas pra debaixo do tapete só porque estamos aqui.
— E se a conversa só piorar tudo? — perguntei, quase num sussurro.
Mariana se aproximou e me abraçou.
— Se você não tentar, nunca vai saber, Ju. Vocês se amam, dá pra ver isso de longe. Mas precisam enfrentar isso juntos.
Engoli em seco e assenti, sabendo que elas estavam certas. Mas a verdade é que meu medo de falhar mais uma vez era quase insuportável.
O cheiro de carne assando na churrasqueira se misturava ao som das risadas das crianças brincando no gramado e das conversas descontraídas dos adultos. A área da piscina estava cheia de vida, como sempre acontecia quando nosso grupo se reunia.
Anderson estava dentro da piscina com Roberto, Paulo e Elizeu, brincando de passar a bola de um lado para o outro enquanto as mulheres terminavam de organizar o almoço na mesa próxima.
Eu observava Anderson de longe, tentando ignorar o aperto no peito. Ele parecia tão leve e descontraído, como se nada estivesse errado entre nós.
— Júlia, vem ajudar aqui! — Daniele chamou, me tirando dos meus pensamentos.
— Já vou! — respondi, me aproximando da mesa onde ela e Mariana terminavam de colocar os acompanhamentos.
Logo o almoço estava servido. Uma grande mesa foi montada perto da churrasqueira, à sombra de uma área coberta. As crianças se sentaram primeiro, e logo todos estavam acomodados. Anderson saiu da piscina, secando o cabelo rapidamente com uma toalha, antes de se juntar a nós.
— Com licença. — Ele passou por trás de mim, apoiando a mão suavemente no meu ombro enquanto pegava o prato. Meu corpo ficou tenso com o toque, mas tentei não demonstrar.
Pouco depois, ele voltou com o prato cheio e, para minha surpresa, se sentou ao meu lado. Não disse nada, mas pegou a faca e começou a cortar a carne no meu prato com calma, como fazia desde o início do nosso relacionamento.
— Aqui, meu bem. — Ele disse baixo, colocando os pedaços cortados de volta no meu prato e empurrando-o levemente na minha direção.
Senti meus olhos arderem, mas pisquei rápido, tentando disfarçar.
— Obrigada. — Murmurei, com um pequeno sorriso antes de dar uma garfada.
Anderson parecia alheio às conversas ao redor. Ele comia em silêncio, mas de vez em quando seus olhos encontravam os meus, como se buscasse algo que nem ele conseguia expressar em palavras.
Roberto, que estava sentado do outro lado da mesa, interrompeu o momento:
— Anderson, você ainda tem aquela ideia de expandir a empresa para fora da cidade?
Anderson desviou os olhos de mim e começou a falar sobre trabalho, animado. Fiquei ouvindo em silêncio, sem conseguir tirar da cabeça o gesto simples de ele cortar minha carne. Às vezes, são essas pequenas coisas que lembram por que vale a pena lutar por um relacionamento.
Mas enquanto todos conversavam e riam, eu me perguntava se o que tínhamos era forte o suficiente para superar tudo o que enfrentávamos.
Eu iria recuperar meu casamento.
Anderson:
Júlia é o amor da minha vida, disso eu nunca tive dúvidas. Trabalho todos os dias cercado por mulheres incríveis, mas nenhuma jamais chamou minha atenção. Para mim, sempre foi ela. Sempre será. Assim como prometi no altar, é com Júlia que quero construir minha história, meu presente e meu futuro.
Nos conhecemos em um dos momentos mais marcantes da minha vida: a fundação da minha empresa. A Borges's não é apenas um negócio; é o legado que construímos juntos. Eu e ela colocamos nossa alma ali, cada projeto, cada conquista, cada cliente satisfeito. Eu amo ser engenheiro, e ela ama ser arquiteta. E o fato de trabalharmos lado a lado tornou tudo ainda mais especial. Nossos sócios nos respeitam, nossos clientes confiam em nós, e tudo parecia perfeito.
Mas nossos problemas nunca estiveram no profissional. Sempre conseguimos separar as coisas, deixar as tensões do trabalho fora de casa. Até que perdemos nosso bebê.
Aquela dor quebrou algo em nós, algo que ainda não conseguimos consertar. Tentamos seguir em frente, tentamos engravidar novamente, mas cada tentativa fracassada só abria mais feridas. Nossa intimidade, que antes era leve e cheia de paixão, se tornou um ritual pesado, um calendário de períodos férteis e obrigações. Transávamos porque precisávamos, porque era o momento "certo", e não mais porque desejávamos um ao outro como antes.
O sonho de construir nossa família virou uma obsessão. E, com ela, vieram as brigas. Aquelas pequenas discussões que antes eram resolvidas com um beijo ou um abraço agora se transformavam em silêncios dolorosos e palavras afiadas. Sei que Júlia se culpa. E, de certa forma, eu também.
Mas a verdade é que, por mais que tentemos, algo parece fora do nosso alcance. É como se estivéssemos presos em um ciclo que não conseguimos romper. Ela é tudo para mim, mas tenho medo de que essa dor acabe nos afastando para sempre.
— Coma tudinho, garotona. — Coloquei a ração de Flora na vasilha, acariciando suas orelhas douradas enquanto ela balançava o rabo animadamente antes de mergulhar na comida.
O relógio marcava uma da tarde. As crianças tinham ido dormir, e eu suspeitava que os pais estavam aproveitando o silêncio de outras maneiras, com toda a certeza. Júlia estava na varanda, deitada na rede, balançando suavemente. A brisa leve bagunçava os fios do cabelo dela, que brilhavam sob a luz do sol.
Fui até lá e me aproximei em silêncio. Sem pedir permissão, subi na rede e a puxei delicadamente para o meu colo. Júlia não resistiu, apenas ajustou seu corpo e encostou a cabeça no meu peito, como se aquele fosse o único lugar em que ela se sentia segura.
— Me desculpa, meu amor. — murmurei, minha voz carregada de arrependimento.
Ela fungou, escondendo o rosto contra mim.
— Não... você não tem culpa. Eu sou a culpada. É por minha causa que estamos nessa. — A voz dela estava embargada, quase inaudível.
— Ei, não vamos apontar culpados, está bem? — Passei a mão pelos cabelos dela, sentindo-a relaxar aos poucos. — Vamos superar isso juntos. É o nosso sonho, Júlia. E nada disso é culpa sua.
Ela apenas assentiu, apertando os dedos na minha camisa como se estivesse se segurando para não desabar.
— Eu te amo. — sussurrei, beijando sua têmpora.
Ela levantou os olhos para mim, com lágrimas escorrendo silenciosas pelas bochechas.
— Eu também te amo. Muito. — Sua voz era um fio, mas carregava toda a sinceridade que eu sabia que ainda existia entre nós.
Ficamos ali, embalados pelo movimento suave da rede, em um silêncio que, pela primeira vez em muito tempo, parecia menos pesado. Havia tanto que ainda precisava ser dito, mas naquele momento, tudo o que importava era que, apesar de tudo, ainda estávamos juntos.
...(...)...
Era noite, e decidimos aproveitar o momento para fazer uma fogueira na praia, exatamente como nos velhos tempos. O cheiro doce de marshmallows assando no fogo misturava-se com o som das risadas e das ondas quebrando suavemente ao longe. Entre histórias nostálgicas do passado e brincadeiras que só os adultos entendiam, havia também muita cumplicidade. Até mesmo um toque de pegação discreta, longe dos olhares curiosos das crianças.
Júlia estava sentada um pouco afastada, com Maria no colo, fazendo a pequena rir enquanto brincava com os dedinhos dela. A cena parecia tirada de um quadro, de tão perfeita. Ver Júlia com uma criança no colo despertava algo profundo dentro de mim, um misto de esperança e saudade. Mas também trazia à tona a maior dor que eu carregava: a perda que mudou tudo.
Perder um bebê que nunca tivemos a chance de conhecer é um vazio impossível de descrever. É dilacerante. Fico imaginando, às vezes, como ele seria. Será que teria os olhos da Júlia ou os meus? Será que seria tão sorridente quanto ela ou mais introspectivo como eu? Será que ele ou ela amaria jogos de tabuleiro como eu ou preferiria explorar a vida ao ar livre como ela? São perguntas que me atormentam, pensamentos que não me deixam, mesmo quando tento afastá-los.
A dor não passa. Não importa quanto tempo se vá, a ausência continua presente. É como uma sombra que me acompanha, mesmo nos momentos mais felizes. Enquanto Júlia fazia Maria rir, eu só conseguia imaginar como seria ouvir a risada do nosso próprio filho. E, ao mesmo tempo, me odiava por deixar essa tristeza se infiltrar num momento que deveria ser de pura alegria.
Sacudi a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Não queria que Júlia percebesse. Ela já carregava culpa demais, mesmo sem motivos para isso. Tudo o que eu queria era poder aliviar o peso que ambos sentíamos, mas não sabia como.
— Vocês ainda estão brigados? — A voz da minha irmã, Mariana, soou suave ao meu lado, enquanto ela se sentava na areia comigo.
— Não... nos desculpamos. — respondi, mantendo os olhos na fogueira, onde as chamas dançavam contra o vento.
— Que bom. — Ela sorriu, mas seu tom ainda carregava preocupação. — Ainda estão brigando por causa do assunto proibido?
Suspirei, passando a mão pelos cabelos.
— Mais ou menos. O assunto proibido está vindo à tona mais do que gostaríamos.
— Ainda estão tentando engravidar?
Fiz que sim com a cabeça, meu olhar pesado refletindo o cansaço emocional que vinha carregando.
— Sim. Mas é complicado, Mari. Já fomos a vários médicos, fizemos todos os exames possíveis, e mesmo assim... nada. Acho que o problema não está só no físico. Acho que é psicológico.
Mariana franziu a testa, claramente preocupada.
— Psicológico?
— Júlia tem medo. — pausei, escolhendo as palavras com cuidado. — Medo de... você sabe.
Ela assentiu, compreendendo sem que eu precisasse dizer mais nada.
— Medo de perder outro bebê?
— Exatamente. — Senti um nó na garganta, mas continuei. — Talvez esse medo seja tão grande que está bloqueando tudo. Eu entendo ela, sabe? Não foi fácil pra nenhum de nós. Mas pra Júlia... acho que foi ainda mais difícil.
Mariana colocou a mão no meu ombro, apertando de leve.
— Vocês dois passaram por algo devastador, Anderson. Mas vocês também têm um ao outro. Isso já é uma força enorme. Talvez o caminho seja mais longo do que imaginavam, mas vocês vão conseguir. Só precisam lembrar que estão juntos nessa, sempre.
Eu assenti, sentindo um pouco do peso aliviar ao ouvir as palavras dela. Mariana sempre soube como trazer clareza para as situações mais difíceis.
Olhei para Júlia, que ainda brincava com Maria, seu sorriso iluminado pelo brilho da fogueira. Ela era tudo pra mim, e eu faria o impossível para ajudá-la a superar esse medo e encontrar esperança novamente.
— Obrigado, Mari. De verdade. — murmurei.
Ela sorriu de volta, dando um tapinha no meu ombro.
— Sempre que precisar. Afinal, é pra isso que as irmãs servem.
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