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MORENO ITALIANO

Intercâmbio

Avisos : Está obra faz parte da minha mais nova coleção. Pra quem não gosta, tenho outros livros de romance mais leve.

O personagem principal narra sua história.

Haverá cenas mais quentes.

Contribuam curtindo, comentando e avaliando a obra.

Sejam muito bem vindos! 🇮🇹

...***...

Sempre me senti uma estranha na casa do meu pai. Não era como se ele ou Valéria, minha madrasta, dissessem algo diretamente, mas eu percebia nos olhares, nos silêncios e na forma como falavam comigo. Talvez fosse porque minha mãe nos deixou quando eu tinha só cinco anos e foi morar no Japão. Talvez porque Valéria nunca quis que eu estivesse aqui. Quem sabe? O fato é que, desde que me lembro, essa casa nunca foi um lar para mim.

Tenho dois irmãos mais novos, Murilo e Miguel, os gêmeos. Eles têm nove anos e, sinceramente, são as únicas pessoas que me fazem sentir um pouquinho de pertencimento. Eles são barulhentos, bagunceiros e adoráveis. Apesar de tudo, Valéria faz questão de deixar claro que eu sou apenas uma sombra na vida deles, algo que ela atura porque meu pai quer.

Mas nada disso importa agora. Eu esperei tempo demais para tomar uma decisão que mudaria tudo. Desde que terminei o ensino médio, fiquei perdida, tentando encontrar algo que realmente me definisse. Experimentei cursos online, trabalhos temporários e até pensei em seguir os passos do meu pai, que é advogado. Nada disso parecia certo. O único sonho que sempre ficou comigo foi a ideia de fazer um intercâmbio na Itália, especificamente em Napoli. Não sei bem de onde veio esse desejo – talvez de algum filme ou livro – mas parecia o único lugar no mundo onde eu poderia me encontrar.

Por meses, juntei cada centavo que consegui. Fiz bicos, vendi coisas que já não usava e até dei aulas de reforço para os amigos dos gêmeos. Não foi fácil, e muitas vezes Valéria fazia comentários venenosos, algo como:

– Vai gastar tudo em uma viagem e depois voltar com as mãos abanando, igual à sua mãe?

Eu sempre respondia com silêncio. Aprendi que discutir com ela só me desgastava. Meu foco era outro. Fiz pesquisas na internet, li tudo o que podia sobre Napoli, procurei cursos acessíveis e até dicas de como economizar no intercâmbio. Quando achei que tinha o suficiente para começar, resolvi falar com meu pai. Ele estava no escritório, como sempre, analisando algum caso importante. Respirei fundo antes de entrar.

– Pai, preciso conversar com você – disse, me esforçando para não parecer nervosa.

Ele levantou os olhos por cima dos óculos. – Claro, Manu. O que foi?

– Quero ir para a Itália. Fazer um intercâmbio. Já juntei uma boa parte do dinheiro, mas preciso da sua ajuda para completar o que falta.

Ele ficou em silêncio por um momento, cruzando os braços e me observando. Sabia que ele analisava cada palavra, como fazia em suas audiências. Finalmente, ele sorriu.

– É um bom plano. Sempre quis que você encontrasse algo que te motivasse. Vou ajudar com o que precisar.

Foi a primeira vez em anos que senti que ele realmente me via, não como um problema ou uma responsabilidade, mas como alguém com sonhos próprios. Claro, Valéria não ficou feliz quando soube, mas naquele momento, nada poderia tirar minha felicidade.

Agora, enquanto olho para as malas no canto do quarto, penso que essa é minha chance de recomeçar. Napoli me espera, e, pela primeira vez em muito tempo, sinto que o mundo também.

Minha prima Sara

Finalmente estava acontecendo. Cada detalhe do planejamento parecia se alinhar perfeitamente, e eu mal conseguia conter a ansiedade de partir para Napoli. O quarto estava uma bagunça, com malas abertas, roupas espalhadas e papéis por todo lado. Sara, minha prima e parceira de vida, estava comigo, e isso tornava tudo ainda mais emocionante.

Ela ajustava os sapatos e cantarolava uma música italiana que tínhamos ouvido tantas vezes enquanto sonhávamos com essa viagem. Desde pequenas, tínhamos esse pacto de nunca deixar nossos sonhos morrerem, e agora íamos viver um deles juntas.

– Manu, não vejo a hora de conhecer outro país pela primeira vez – disse Sara, com um brilho nos olhos.

Eu ri, tentando manter a calma enquanto dobrava algumas roupas. – Mas se prepara, porque podem vir muitos perrengues por aí.

Ela deu de ombros, sorrindo. – Ah, até os perrengues vão ser legais, porque não vou estar sozinha. Vou estar com você. Mas tem certeza de que o lugar é confiável?

Parei por um momento, encontrando seus olhos, e afirmei com convicção: – Claro que sim. Eles têm um programa para estudantes imigrantes. A gente trabalha no restaurante deles, ganha hospedagem, comida, e o governo ainda paga um valor para nos ajudar. É perfeito!

Sara bateu palmas, empolgada. – Então está muito bom, amiga! Vamos ser as melhores garçonetes de Napoli!

Aquela ideia me fez rir alto. – Vou passar mal de tanta ansiedade. Quero que sábado chegue logo!

Sara se levantou da cama de repente, com uma energia contagiante, e começou a pular pelo quarto. – Eu também! Meu Deus, Napoli que nos aguarde!

Assistir à sua empolgação só aumentava minha vontade de embarcar. Tínhamos tudo planejado, mas a sensação de estar prestes a mergulhar no desconhecido me dava um frio na barriga. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava no controle da minha vida, pronta para um recomeço que não incluía a indiferença da casa do meu pai.

Sara era minha rocha, meu apoio. Com ela ao meu lado, sabia que podíamos enfrentar qualquer coisa – até mesmo aprender a equilibrar bandejas no meio do caos de um restaurante italiano.

A energia de Sara era contagiante, e apesar de toda a ansiedade que nos consumia, sabíamos que tínhamos que terminar de arrumar tudo. Eu olhei ao redor do quarto, o caos de malas e papéis espalhados, e sabia que não podíamos deixar para última hora.

– Chegou a hora de você me ajudar a arrumar tudo isso aqui e nos organizar, porque falta muito pouco – disse, com uma mistura de empolgação e urgência na voz.

Sara, sem hesitar, sorriu e levantou as mãos como se estivesse pronta para enfrentar uma missão. – Claro que vou te ajudar! Vamos transformar esse quarto em um espaço organizado e pronto para a viagem.

Com um suspiro de alívio, começamos a trabalhar. Separar as roupas, dobrar com cuidado as que seriam levadas para o intercâmbio, fazer uma lista do que ainda precisávamos comprar, e, claro, revisar toda a documentação. Cada tarefa parecia estar mais próxima do nosso sonho.

Enquanto dobrávamos as roupas e organizávamos tudo nas malas, as conversas fluíam naturalmente, entre risadas e planos para o futuro. A ideia de estarmos prestes a embarcar para um novo país, um novo mundo, era aterrorizante e ao mesmo tempo incrivelmente libertadora.

Sara me olhou com um sorriso travesso. – Lembra quando a gente dizia que íamos para a Itália juntas? Agora está acontecendo de verdade, Manu.

– Eu sei, é surreal! – respondi, sentindo um frio na barriga. – Vamos conquistar esse lugar, Sara. Vai ser o começo de algo incrível para nós.

Enquanto ela continuava a arrumar as coisas, eu pensava em tudo o que estava deixando para trás: a casa do meu pai, a rotina que me sufocava, o desconforto de não me sentir em casa. Napoli me prometia liberdade, novas experiências e, acima de tudo, um novo começo.

Faltavam poucas horas para nossa partida, e o nervosismo dava lugar à excitação. Eu sabia que, apesar dos perrengues que poderíamos enfrentar, essa viagem seria um marco nas nossas vidas. E agora, com Sara ao meu lado, estava mais do que preparada para começar essa aventura.

Chegou o dia

O dia finalmente havia chegado. Eu estava no estilo aeroporto: calça jeans folgada, camiseta branca, boné branco cobrindo meu cabelo e duas malas ao meu lado. Meu coração batia rápido enquanto esperávamos o embarque. Sempre fui metódica, sempre quis controlar cada detalhe, e aquela viagem não era exceção. Estava decidida a economizar ao máximo, mas também a viver cada momento como se fosse o último.

Meu pai estava ao meu lado, como sempre esteve em todos os momentos importantes da minha vida. Os gêmeos estavam na aula de natação, e Valéria… bem, Valéria se despediu de mim em casa com aquele sorriso forçado que ela dava sempre que não queria realmente estar ali.

Sara chegou com seus pais minutos depois. Eles se cumprimentaram com entusiasmo, e eu sorri quando seu pai, tio Fábio, me perguntou:

– E aí, Manu? Pronta pra viagem?

– Preparadíssima – respondi, com um tom confiante que tentava transparecer.

Nosso check-in foi tranquilo. Após entregar as bagagens, a hora do adeus finalmente chegou. Enquanto eu me despedia do meu pai, lágrimas vieram imediatamente aos meus olhos. Era difícil aceitar que passaria dias longe do meu país e dele, que apesar de tudo, nunca me abandonou e fez o melhor que pôde para ser um bom pai para mim.

Abraçamo-nos forte. O peito dele parecia apertado como o meu. – Manu – disse ele, com voz suave e cheia de sentimento –, ainda te enxergo como uma menininha indefesa, mas você precisa voar.

Com a garganta rasgada, consegui apenas sussurrar: – Eu sei disso. Obrigada por tudo.

Ele me deu um último beijo no rosto, os olhos marejados. E enquanto ele se afastava lentamente, senti como se deixasse uma parte de mim para trás.

Sara e seus pais já estavam afastados, prontos para embarcar também. Eles me olharam, tentando me dar força com seus sorrisos calorosos, mas eu sabia que naquele instante só eu sentia o peso da separação.

Respirei fundo, enxugando as lágrimas, e encarei o desconhecido com determinação. Napoli estava à minha frente, e eu sabia que aquele adeus fazia parte de um novo começo. Uma jornada em busca de algo que finalmente me pertencia.

Enquanto o avião subia e a vista do Brasil ia ficando cada vez mais distante, uma sensação estranha tomou conta de mim. Eu estava deixando para trás tudo o que conhecia, tudo o que me era familiar. Olhei pela janela e vi o país se afastando, como se também estivesse me afastando de uma parte de mim.

Sara estava ao meu lado, e eu podia sentir a tensão no ar. Ela me olhou e perguntou, com um sorriso nervoso:

– Você está nervosa?

Eu dei um sorriso forçado, tentando disfarçar o turbilhão que acontecia dentro de mim. – Eu estou uma pilha de nervos, Sara. Não vou mentir.

Ela deu de ombros, tentando ser mais tranquila. – Pelo menos você já foi para outros países. Eu nunca pisei fora do Brasil.

Eu sorri, tentando amenizar o clima. – O único país que eu fui foi para os Estados Unidos, mas nem foi pela minha vontade. Meu sonho sempre foi conhecer a Itália. Eu nunca imaginei que seria assim, com tantas incertezas.

Sara olhou para mim com os olhos brilhando. – Mas você está realizando esse sonho agora, Manu. Vai ser incrível.

Fui tomada por uma onda de confiança, e apertei a mão dela com força, como um lembrete silencioso de que, mesmo nos momentos de incerteza, não estávamos sozinhas.

Algumas horas se passaram, e o cansaço começou a pesar. O avião era confortável, mas a ansiedade ainda estava me consumindo. Olhei para Sara, que já estava com os olhos fechados, o rosto tranquilo, e logo meu corpo cedeu também. O som suave do avião e a quietude ao nosso redor me embalaram para um sono profundo, onde, por um momento, não precisei pensar no futuro.

Enquanto dormíamos, o mundo lá fora se movia, e nossa jornada para Napoli continuava. Era o início de uma nova vida, mas por aquele momento, eu só queria dormir e esquecer um pouco as preocupações que me aguardavam ao aterrissar.

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