A floresta estava calma, o som das folhas balançando suavemente com a brisa era a única companhia de Aery enquanto ela caminhava por entre as árvores altas e antigas. O chão coberto por uma manta de musgo macio fazia com que seus passos fossem quase silenciosos.
Ela sorria, sentindo-se em casa e cheirando cada flor. O mundo parecia vasto e cheio de possibilidades, e ela, com sua energia jovial e brilho no olhar, estava determinada a explorá-lo.
Aery sempre foi vista como uma elfa rara, não apenas por ser uma elfa branca diferente, mas por seus longos e ondulados cabelos ruivos, a cor que os outros raramente viam entre sua raça.
Para muitos, ela era uma visão deslumbrante. Sua pele pálida parecia brilhar à luz do sol filtrada pelas copas das árvores, enquanto seus olhos, de um azul esverdeado quase etéreo, pareciam refletir a essência pura da floresta ao seu redor.
Seu corpo, de curvas e graciosidade, andava com a leveza característica das elfas, mas seu espírito? Ah, esse era uma tempestade, repleto de curiosidade e um toque de travessura.
Ela passava os dedos por uma flor silvestre ao lado do caminho, sentindo a textura das pétalas, quando uma estranha sensação a fez parar.
Algo estava errado.
O ar ao redor dela, normalmente fresco e perfumado, parecia mais denso.
Um arrepio percorreu sua espinha, e, sem hesitar, ela começou a murmurar palavras mágicas.
Sua mão se iluminou com uma aura suave enquanto ela invocava a energia da floresta para se proteger.
Foi então que ela o viu. Não estava sozinha.
Um elfo negro estava parado à frente, com a postura rígida e imponente de um guerreiro.
Seu cabelo negro e longo era como uma obsidiana, e seus olhos dourados brilhavam com um olhar feroz e desconfiado.
Ele a observava de forma intensa, como se ela fosse uma ameaça, embora sua expressão permanecesse indiferente.
— Você... — A voz do elfo negro era grave, cheia de desdém. — Está sozinha na floresta, elfa branca? Você não percebe o perigo que corre?
Aery não recuou. Em vez disso, seus lábios se curvaram em um sorriso travesso.
— Ah, que charme! Um elfo negro tão perto do território dos elfos brancos... Isso não é exatamente uma boa escolha, não é? — Ela deu um passo à frente, seu olhar desafiador.
Leo, o elfo negro, estreitou os olhos, aparentemente irritado com a tranquilidade de Aery. Ela o provocava de maneira desafiadora, sem medo, e isso só aumentava sua raiva.
O que ela achava que estava fazendo, enfrentando-o dessa maneira? Ele, que havia sido treinado para ser um guerreiro implacável, um imã de tensão e poder.
Um sorriso irônico se formou em seu rosto enquanto ele recuava um passo, colocando a mão na espada pesada em suas costas.
— Você parece esquecer sua posição, branquinha. — Ele a chamou com um tom irônico, utilizando o apelido para diminuí—la, um termo que ela achou tão engraçado quanto irritante.
— Branquinha? — Ela riu com a ironia, sem se deixar afetar. — Se você acha que pode me intimidar com essas palavras, talvez precise de mais prática.
Leo olhou para ela com desdém, mas algo mais estava lá, algo que ele não conseguia entender. Essa elfa branca, com sua aparência diferente e postura despreocupada, estava mexendo com sua paciência.
Não deveria, mas estava. E isso o fazia sentir-se inquieto.
Antes que ele pudesse responder, um rugido cortou o ar.
Algo estava se aproximando rapidamente.
Aery arregalou os olhos.
— Tente não atrapalhar! — Leo cuspiu, já colocando-se em posição defensiva, sua espada pesada agora em mãos, pronta para a batalha.
Aery não hesitou. Ela levantou as mãos, sua magia se intensificando, criando uma aura luminosa que a cercava.
Ela sabia que não era apenas a floresta em perigo, mas também ela mesma. E Leo, embora fosse uma presença intimidadora, era mais um aliado agora do que inimigo.
— Vamos ver quem realmente precisa de ajuda aqui, — Aery murmurou, concentrando-se enquanto as criaturas corrompidas surgiam, envolvendo a área com uma aura de magia.
Leo não falou mais nada, mas seu olhar era de pura determinação.
As criaturas mágicas corrompidas surgiram como uma onda turbulenta, suas formas grotescas distorcidas pela magia negra que as controlava.
Aery não teve tempo para pensar. Com um gesto rápido, ela lançou um feitiço de proteção ao redor de si mesma, criando uma barreira luminosa.
Leo, já com sua espada pesada em mãos, se preparou para o combate, seus músculos tensos e prontos para agir.
— Cuidado, branquinha. — Leo gritou com um sorriso sarcástico, girando a espada com destreza enquanto avançava para o primeiro monstro.
Aery revirou os olhos, mas se concentrou, estendendo a mão para frente.
Chamas surgiram em suas palmas, criando uma rajada de energia mágica que atingiu duas das criaturas com uma explosão de luz e fogo.
Leo, observando a força de Aery, usou sua espada para cortar uma criatura que se aproximava por trás dela. O golpe foi preciso e mortal, mas ele não perdeu tempo, já mirando em outro alvo.
— Impressionante para uma elfa branca. — Ele comentou, mas não sem um toque de sarcasmo. Ao mesmo tempo, seu olhar permaneceu alerta, seus reflexos rápidos, protegendo ambos de mais ataques.
Aery, rindo, rapidamente recuou um passo para se afastar de uma das criaturas que tentava pegá-la.
Com um movimento grácil, ela se virou e lançou uma rajada de energia pura, desintegrando o monstro em uma explosão de luz.
— Você está achando que essa simples provocação vai me desestabilizar? — Ela provocou, jogando o cabelo para trás, o brilho em seus olhos desafiador.
— Não subestime o que não entende, — Leo respondeu com um olhar penetrante, desviando de um golpe de uma criatura que atacava de frente. — Você pode até ser rápida, mas não está pronta para a selvageria de uma verdadeira batalha.
Aery estava prestes a responder quando uma horda de criaturas avançou rapidamente em sua direção, empurrando-a para trás.
Ela tentou conjurar outro feitiço de defesa, mas a quantidade de inimigos era demasiada.
Foi então que Leo entrou em ação.
Com um grito de guerra, ele avançou com sua espada, cortando e destruindo as criaturas que cercavam Aery. A espada pesada cortava o ar com facilidade, derrubando monstros um após o outro. Ele estava em seu elemento, e sua força brutal parecia emanar dele como uma tempestade, e uma sombra parecida com magia emanava de sua espada.
Aery se surpreendeu ao vê-lo lutar com tanta habilidade, a maneira como ele controlava a batalha com confiança.
Ela sabia que eles eram famosos por sua luta, mas o impacto de ver um elfo negro tão ferozmente dedicado foi algo que ela não esperava.
Enquanto as criaturas eram derrotadas uma a uma, o campo de batalha começou a se acalmar. O último monstro foi abatido por um golpe certeiro de Leo, e o silêncio tomou conta da floresta novamente.
Aery, ofegante, olhou para Leo, seus olhos azuis brilhando com uma mistura de respeito e curiosidade.
— Aery. — Ela se apresentou com um sorriso, o rosto ainda iluminado pela adrenalina da batalha. — Aery da Floresta Branca. E você?
Leo limpou a lâmina da espada, encarando-a com um olhar sério, mas sem perder seu toque de arrogância.
— Leo. — Ele respondeu, o tom de sua voz carregado de autoridade. — Leo D'Arkam. Elfo negro, como você já deve ter notado.
Aery riu suavemente, sem se deixar intimidar.
— Não é todo dia que se encontra um elfo negro com uma espada tão grande. — Ela brincou, piscando para ele, e seu tom leve contrastava com a violência que ainda pairava no ar.
Leo a observou, uma expressão desafiadora ainda em seu rosto, mas uma ponta de algo que ele não poderia identificar estava ali. Ele estava, de alguma forma, impressionado, mas não ia admitir isso facilmente.
— Não se acostume com isso. Não somos aliados. — Ele disse, mas a maneira como seu olhar se manteve fixo nela revelou que, de alguma forma, ele já começava a aceitar essa parceria temporária.
Aery sorriu com satisfação, percebendo que, embora ele tentasse manter a distância, ele sentiu interesse.
— Claro. Não se preocupe, Leo. Eu não sou tão ingênua assim.
Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas observando o campo de batalha agora tranquilo.
Mas algo, uma energia mútua, começava a surgir ali, algo que nenhum dos dois poderia negar, mesmo que ainda estivessem relutantes em admiti-lo.
As árvores ao redor pareciam respirar com uma energia mais densa, como se a luta tivesse deixado uma marca invisível no ambiente.
Aery olhou para Leo, ainda com a adrenalina da batalha circulando pelo corpo, e sentiu uma mistura de respeito e uma curiosidade crescente.
— Vamos seguir? — Ela perguntou, tentando quebrar o gelo, seu tom mais leve do que o usual, como se tentasse desarmar a tensão que ainda flutuava entre eles.
Leo, ainda com o olhar fixo nas sombras ao redor, deu um aceno curto com a cabeça.
— Temos que ir. As criaturas não apareceram por acaso. Algo mais está acontecendo aqui. — Sua voz estava mais grave agora, e Aery percebeu que ele estava mais cauteloso do que parecia inicialmente.
Aery assentiu, mas não se afastou imediatamente.
Ela ainda estava fascinada com a facilidade com que Leo havia lutado, com a forma como ele parecia ser tão imponente e ao mesmo tempo calculista. Não era um guerreiro qualquer, e ela sabia que havia muito mais nele do que ele queria mostrar.
— Você sempre é tão reservado assim, Leo? — Ela perguntou, com um sorriso travesso, tentando arrancar um pouco mais da sua fachada de indiferença.
Leo olhou para ela, seus olhos dourados brilhando sob a luz fraca da floresta.
— Você fala demais, branquinha. — Ele respondeu seco, mas havia algo mais suave em sua resposta agora.
Aery sorriu, sabendo que ele estava começando a se soltar, mesmo que fosse apenas um pouco.
Ela o acompanhou enquanto ele avançava pelo terreno acidentado, com passos largos e firmes.
O clima estava pesado, e a sensação de que algo mais sombrio se aproximava não saía da cabeça de Leo.
As criaturas que haviam enfrentado não eram comuns, e ela sabia que havia algo mais por trás disso.
Eles seguiram por horas, com Aery usando sua magia para iluminar o caminho em áreas mais escuras e Leo os protegendo de qualquer outra ameaça que surgisse. O silêncio entre eles era confortável agora, como se ambos soubessem que, por mais que fossem diferentes, suas habilidades estavam perfeitamente alinhadas.
Enquanto caminhavam, Aery finalmente falou, quebrando o silêncio.
— Eu não entendo. Por que você não gosta dos elfos brancos? — Sua pergunta veio direta, sem rodeios, mas cheia de curiosidade genuína.
Leo olhou para ela, com um olhar que parecia querer medir a profundidade da pergunta.
Ele não estava pronto para revelar tudo, mas uma parte dele queria. Algo em Aery, talvez sua inocência ou a forma como ela parecia desarmá-lo com a sua ousadia.
— Porque vocês se acham superiores. — Ele respondeu com uma frieza calculada. — Sempre com esse sorriso no rosto, como se nada no mundo pudesse te ferir. Vocês vivem em suas torres douradas enquanto o mundo lá fora queima.
Aery sentiu o peso das palavras, mas não se deixou abalar. Ela sabia que Leo estava sendo impulsivo, repleto de rancor, mas também percebia que sua visão estava distorcida por algo maior.
Ela não ia deixá-lo se esconder por muito tempo.
— Acho que você está errado, Leo. Nem todos os elfos brancos são assim. Eu, por exemplo, só quero ver o mundo. Eu quero mudar as coisas. — Ela disse com um brilho nos olhos, a chama de sua determinação visível.
Leo olhou para ela com uma mistura de surpresa e ceticismo.
— Mudar? — Ele riu baixinho, com desdém. — Acha que uma elfa branca como você vai mudar alguma coisa?
Aery se aproximou dele, decidida.
— Acredite, posso ser mais do que uma "elfa branca". — Ela disse, seu tom firme. — Agora, se não se importar, podemos continuar nossa jornada. Eu não sou fã de monólogos.
Leo a observou por um momento, seu olhar fixo e analisador. Algo no comportamento de Aery o irritava de maneira que ele não sabia explicar.
Ele suspirou, dando um passo à frente.
— Vamos. E fique longe das criaturas... ou você pode acabar se tornando parte delas. — Ele disse, seu tom mais baixo, mas com um toque de preocupação que ele não tentou esconder totalmente.
Aery o seguiu, sorrindo para si mesma, sabendo que, apesar das provocações, havia algo mais entre eles.
A caminhada continuou por mais algumas horas, o som de suas botas se misturando ao leve farfalhar das folhas secas que cobriam o chão da floresta.
O clima, que antes parecia tranquilo, estava agora mais denso. Aery podia sentir uma pressão crescente no ar, algo que fazia seus sentidos ficarem alerta. Leo, sempre em sua postura rígida, parecia tão atento quanto ela, mas não deixava transparecer o que pensava.
De repente, a luz mágica que Aery conjurava para iluminar o caminho começou a enfraquecer. A árvore ao lado dela, com seu tronco coberto de musgo, parecia absorver a energia da floresta de maneira incomum.
— Isso não está certo. — Aery murmurou, com a testa franzida, olhando para Leo.
— Aconteceu alguma coisa com sua magia? — Leo perguntou, seus olhos dourados fixos na floresta à frente, em alerta.
— Não sei... — Aery respondeu, desconfortável com a sensação crescente de que algo os observava. Ela tentou aumentar a intensidade da luz de sua magia, mas não conseguiu. Algo estava bloqueando sua energia. — Alguma coisa está interferindo. Algo... sombrio.
Antes que ela pudesse reagir, uma sombra se moveu rapidamente entre as árvores, e uma risada baixa, quase um sussurro, cortou o ar.
Leo imediatamente sacou sua espada pesada, a lâmina reluzindo à luz da magia de Aery.
— Nosso descanso acabou. — Ele disse com uma voz grave, já preparado para o que quer que fosse se aproximando.
De repente, uma série de formas distorcidas emergiram das sombras, criaturas de aparência alienígena, com peles escuras e olhos brilhando com uma luz maligna. Seus corpos estavam deformados, como se fossem vítimas de algum tipo de magia corrompida.
— Criaturas corrompidas pela magia negra... — Leo grunhiu, reconhecendo a origem das criaturas com um olhar sombrio.
Aery, por sua vez, não hesitou. Suas mãos se elevaram, conjurando uma barreira de luz, mas sentiu a resistência da magia, a dificuldade crescente de controlar seu poder.
As criaturas, no entanto, não pareciam ser afetadas por sua luz como ela esperava.
Elas avançaram, rápidas e implacáveis, com garras afiadas e dentes vorazes.
— Acho que vou precisar de ajuda. — Aery disse, olhando para Leo, sua voz mais tensa do que o habitual.
Leo sorriu em diversão, seus olhos brilharam com uma feroz determinação.
— Eu já estava esperando por isso. — Ele disse, antes de avançar com um movimento rápido, sua espada cortando uma das criaturas com facilidade. — Você cuida das que estão na sua frente, eu cuido das minhas.
Com um aceno de cabeça, Aery se posicionou, focando em sua magia para conter as criaturas que se aproximavam.
Ela tentou usar feitiços de luz e proteção, mas algo parecia anular parte de seu poder. Mesmo assim, ela se manteve firme, conjurando raios de energia para explodir em chamas puras, queimando as criaturas que ousavam se aproximar.
Leo estava imbatível, seu estilo de combate brutal e eficiente. Ele usava sua espada com precisão, cortando as criaturas que surgiam em seu caminho com facilidade, mas Aery sabia que isso não duraria por muito tempo. Eles estavam em desvantagem, o número das criaturas era grande, e a cada momento mais surgiam das sombras.
— Aery, precisamos sair daqui! — Leo gritou, lutando ao lado dela, mas claramente preocupado com a situação.
Aery balançou a cabeça, seu olhar determinado.
— Não podemos. Eu... Não podemos deixar eles aqui. — Ela se concentrou mais uma vez, sua magia agora lutando contra a resistência da escuridão.
Um brilho intenso surgiu de seus dedos, envolvendo as criaturas em uma explosão de luz. Algumas recuaram, mas outras se tornaram mais agressivas, atraídas pela magia da elfa.
Leo, vendo o desgaste da magia de Aery, fez algo inesperado. Ele avançou, se colocando entre ela e as criaturas, usando seu corpo como escudo.
Seu rosto estava impassível, mas Aery podia ver a tensão em seus olhos.
— Você vai me fazer proteger você? — Ele disse, com um leve sorriso de escárnio, embora sua expressão revelasse a seriedade da situação.
Aery, sem perder tempo, conjurou uma poderosa barreira de luz ao redor de Leo e dela, impedindo que mais criaturas se aproximassem. Ela então usou toda sua força para amplificar sua magia, criando um campo luminoso ao redor deles, que fez as criaturas gritarem de dor e recuar, dando tempo para o elfo cortá-las ao meio.
Quando o último grito ecoou na floresta, o silêncio voltou. Aery e Leo estavam exaustos, suados e sujos pela batalha, mas aliviados por estarem vivos.
— Impressionante. — Leo disse, virando—se para Aery com um olhar calculador. — Você não é como pensei.
Aery, ofegante e com um sorriso cansado, respondeu:
— E você, Leo... não é tão ruim assim também.
A jornada deles estava apenas começando, e, apesar das diferenças, ambos sabiam que algo mais estava se formando entre eles — algo mais forte do que a simples rivalidade.
O sol finalmente se pôs, e o céu foi tomado por estrelas que brilhavam intensamente, mas a tensão entre Aery e Leo ainda pairava no ar. Ambos estavam exaustos após a batalha, mas nenhum parecia disposto a baixar completamente a guarda.
Aery sentou-se em uma pedra próxima, respirando fundo enquanto tentava acalmar sua mente. Seus cabelos ruivos caíam em ondas desordenadas, e pequenas faíscas mágicas ainda dançavam em seus dedos. Ela sentia a energia da floresta lentamente voltando ao normal, mas seu coração ainda estava acelerado.
Leo, por sua vez, permaneceu de pé, limpando a lâmina da espada com um pedaço de tecido. Ele observava Aery de soslaio, como se estivesse avaliando-a. Seus olhos dourados brilhavam na escuridão, captando cada movimento dela.
— Você sempre se mete em encrenca assim? — Leo quebrou o silêncio, sua voz carregada de sarcasmo.
Aery ergueu o olhar e deu um sorriso brincalhão.
— Eu poderia perguntar o mesmo para você. Parece que atrair problemas é um talento nosso.
Leo soltou um riso baixo, cruzando os braços.
— Talvez. Mas diferentemente de você, branquinha, eu estou acostumado com isso.
Aery ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça curiosamente.
— E você acha que eu não estou?
Leo se aproximou lentamente, parando a poucos passos dela.
— Não sei... Você parece mais uma dessas elfas que vivem em segurança nas aldeias, protegidas por feitiços e paredes. Esse tipo de aventura não combina com alguém como você.
Aery ficou em silêncio por um momento, mas seus olhos brilharam com determinação.
— Eu escolhi sair da minha aldeia porque quero ver o mundo além das fronteiras seguras. Quero entender o que há lá fora... inclusive pessoas como você.
Leo arqueou uma sobrancelha, surpreso com a sinceridade dela.
— Pessoas como eu?
— Elfos negros. — Aery sorriu suavemente. — Meu povo sempre disse que vocês são perigosos, cruéis... mas você não é só isso, Leo. Eu vejo mais do que isso.
Leo desviou o olhar, seu semblante endurecendo.
— Cuidado com o que você vê, Aery. Às vezes, olhar demais pode te cegar.
Aery se levantou lentamente, ficando na mesma altura que ele.
— Talvez. Mas eu prefiro ver por mim mesma do que acreditar em histórias contadas por outros.
Leo a observou por um longo momento, sua expressão indecifrável. Finalmente, ele deu um leve aceno com a cabeça.
— Você é diferente... Isso é bom. Mas ainda não significa que pode confiar em mim.
Aery deu de ombros, seu sorriso brincalhão voltando.
— Eu gosto de desafios.
Leo soltou outro riso baixo, balançando a cabeça.
— Você é estranha.
— E você, misterioso. Acho que formamos uma boa dupla.
Eles se encararam por mais um momento, e, pela primeira vez, Leo não tentou esconder o leve sorriso que surgiu em seus lábios.
— Talvez.
O silêncio voltou, mas desta vez era um silêncio confortável, quase uma trégua.
Enquanto isso, o som da floresta voltava aos poucos, como se o perigo tivesse se afastado.

Leo empilhou algumas pedras e madeira para acender a fogueira. Aery, sentada próxima a ele, conjurou uma pequena chama mágica na palma da mão e a lançou no monte, acendendo o fogo instantaneamente. As chamas dançavam sob a luz das estrelas, criando um ambiente acolhedor no meio da floresta escura.
Leo a observou de relance, impressionado com a facilidade com que ela manipulava magia.
— Prático. — Ele comentou, enquanto se sentava do outro lado da fogueira.
Aery sorriu e ajeitou seus cabelos.
— Vantagens de ser poderosa.
Leo arqueou uma sobrancelha, desafiador.
— Então você só depende de magia? Não sabe se defender com armas?
— Por que eu precisaria de armas se tenho magia? — Aery cruzou os braços, inclinando-se levemente para frente. — Além disso, se eu precisasse, tenho você para me proteger, não é? — diz com um sorriso travesso.
Leo bufou, mas não conseguiu conter um sorriso sarcástico.
— Eu? Proteger você? Que presunçosa.
Aery riu, sua voz leve como o vento noturno.
— Por que não? Eu te ajudei hoje. Está me devendo, sabia?
Leo balançou a cabeça, divertido.
— Não lembro de ter feito nenhum juramento de proteção.
Aery deu de ombros.
— Ah, mas eu sou persistente. Eventualmente, você vai acabar admitindo que gosta da minha companhia.
Leo ficou em silêncio por alguns segundos, seus olhos dourados fixos nela.
— Você realmente não tem medo de mim?
Aery o encarou com sinceridade.
— Por que eu teria? Você poderia ter me deixado para trás quando as criaturas atacaram. Mas não fez isso.
Leo desviou o olhar para o fogo.
— Talvez eu só precisasse de você viva por um tempo, branquinha.
Aery sorriu com malícia.
— Talvez. Ou talvez você goste da minha companhia tanto quanto eu gosto da sua.
Leo riu, uma risada baixa e rouca que fez o coração de Aery acelerar.
— Você é irritante.
— E você é teimoso.
Eles se encararam por um momento, a tensão entre eles, à luz da fogueira.
— Então, o que vem agora? — Aery perguntou.
Leo deu um leve sorriso, encostando-se em uma árvore atrás dele.
— Descansamos. Amanhã veremos para onde a estrada nos leva.
Aery assentiu e se aconchegou perto da fogueira, seu olhar ainda preso em Leo.
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A fogueira crepitava suavemente, lançando sombras dançantes sobre as árvores ao redor. O silêncio confortável entre Aery e Leo era pontuado apenas pelo som das chamas e dos animais noturnos ao longe. Ambos estavam sentados próximos ao fogo, descansando após o dia agitado, mas sem perceber, suas jornadas já estavam entrelaçadas.
Leo cruzou os braços, observando Aery de soslaio. Seus olhos dourados captaram a luz das chamas enquanto ele estudava cada detalhe dela. Os cabelos ruivos e brilhantes caíam em ondas soltas sobre seus ombros, e sua pele pálida parecia quase etérea sob a luz laranja da fogueira.
— Seus cabelos... — Leo quebrou o silêncio, sua voz rouca e pensativa.
Aery ergueu os olhos, curiosa.
— O que tem eles?
Leo franziu o cenho, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
— Elfas brancas raramente têm cabelos assim. Normalmente, são loiros ou prateados. Nunca vi uma como você.
Aery sorriu, um toque de diversão em seus lábios.
— Está dizendo que sou especial?
Leo bufou, mas havia uma ponta de verdade em sua expressão.
— Estou dizendo que você é... diferente.
— Diferente bom ou diferente ruim? — Aery inclinou a cabeça, provocando.
Leo permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder, seus olhos ainda presos nela.
— Ainda não decidi.
Aery riu suavemente, seus olhos brilhando com malícia.
— Você é um elfo negro cheio de segredos e mistérios. Eu também não sei se deveria confiar em você. Mas, aqui estamos. Sentados juntos, dividindo o calor da fogueira.
Leo arqueou uma sobrancelha.
— Curioso, não é?
— Muito. — Aery apoiou o queixo nos joelhos. — E pensar que, horas atrás, eu não sabia o seu nome. Agora, estamos aqui... como se tivéssemos feito uma aliança sem sequer discutir isso.
Leo deu um leve sorriso, quase imperceptível.
— A vida é cheia de surpresas.
O silêncio recaiu sobre eles.
Leo desviou o olhar por um instante, mas não conseguiu evitar que seus olhos retornassem para Aery.
Havia algo nela que o intrigava profundamente, algo que ele ainda não conseguia compreender.
— Por que saiu da sua aldeia? — Leo perguntou de repente.
Aery deu de ombros, o olhar distante.
— Queria ver o mundo. Eu sabia que havia mais lá fora. Mais do que as histórias que ouvi... mais do que o que nos dizem para temer. Eu queria viver, não apenas existir.
Leo assentiu lentamente.
— Entendo isso.
— E você? Por que está aqui?
Leo ficou em silêncio por um momento, antes de soltar um suspiro pesado.
— Estou procurando algo.
— O quê?
Leo a encarou, seus olhos dourados parecendo mais profundos do que nunca.
— Ainda não sei. Mas talvez você possa me ajudar a encontrar, branquinha.
Aery sorriu, um sorriso suave e cheio de possibilidades.
— Então, estamos juntos nessa.
Leo não respondeu, mas o brilho em seus olhos dizia mais do que qualquer palavra poderia dizer.
A aliança estava formada.
E ambos sentiam que, talvez, o destino preparava algo diferente do que esperavam.
A luz da fogueira iluminava suavemente os rostos de Aery e Leo, criando um contraste entre a pele clara dela e o tom bronzeado dele. O silêncio entre eles era confortável, mas as palavras pareciam querer se formar a qualquer momento.
Ele a olhou mais uma vez, ainda tentando entender por que ela era tão... diferente. Por mais que ele tivesse aprendido a desconfiar de qualquer um — especialmente de elfos brancos —, algo nela o fazia baixar a guarda. Sua personalidade alegre e despretensiosa era desarmante.
— Você parece feliz. — Leo quebrou o silêncio, observando o sorriso suave que não saía dos lábios de Aery.
Aery ergueu os olhos para ele, surpresa.
— Por que não estaria? Eu fiz um amigo hoje.
Leo bufou, a irritação evidente.
— Amigo? É assim que você me vê?
— Sim! Por que não? — Aery deu de ombros. — Você me salvou. Estamos aqui juntos, compartilhando histórias e uma fogueira. Isso não é o que amigos fazem?
Leo riu baixo, balançando a cabeça.
— Você realmente não se importa que eu seja um elfo negro?
Aery o encarou com seriedade por um momento antes de sorrir de novo.
— Não. Eu julgo as pessoas pelo que elas fazem, não pelo que são. Você é mais do que sua aparência ou o que dizem sobre sua raça. Eu vejo isso.
Leo ficou em silêncio, surpreso com a sinceridade dela. Era raro encontrar alguém que não o julgasse pelo que ele representava.
— Você é uma tola, sabia?
Aery riu, balançando a cabeça.
— Já me disseram isso antes. Mas prefiro ser uma tola feliz do que alguém amargurado.
Leo sorriu de canto, seus olhos dourados brilhando com um misto de fascínio e curiosidade.
— Você não tem medo de nada, tem, branquinha?
Aery inclinou a cabeça, pensativa.
— Claro que tenho. Todo mundo tem. Mas... não de você.
O silêncio recaiu novamente, mas desta vez, era cheio de compreensão mútua.
— E você? — Aery perguntou, curiosa. — O que você acha de mim?
Leo a encarou por um longo momento antes de responder.
— Acho que você é irritantemente encantadora.
Aery riu, os olhos brilhando.
— Vou tomar isso como um elogio.
— Não deveria.
A noite avançou enquanto os dois continuavam conversando.
Leo cutucava a fogueira com um galho, observando as faíscas subirem ao céu escuro.
Ele já tinha enfrentado feras mágicas, batalhas mortais e traições de aliados. Nada disso o deixava tão desconfortável quanto o simples fato de estar sentado ali, ao lado de Aery, sentindo algo que ele não queria admitir.
Ela o encarava com aquele olhar curioso e brincalhão, os olhos azuis esverdeados brilhando à luz das chamas.
— Você sempre parece tão sério... — Aery comentou, cruzando as pernas enquanto se aconchegava mais perto do fogo. — Nunca sorri. Nunca relaxa. Vai acabar ficando velho antes do tempo.
Leo bufou.
— É fácil para você falar. Seu mundo é todo flores e risos. O meu é diferente, branquinha.
— Diferente, como? — Aery inclinou a cabeça, curiosa. — Você acha que nunca enfrentamos dificuldades?
Leo desviou o olhar, a mandíbula tensa.
— Não como nós. Vocês vivem em vilarejos protegidos. Nós vivemos nas sombras, lutando por sobrevivência. Não há tempo para sorrisos.
Aery ficou em silêncio por um momento, analisando-o. Então, abriu um sorriso suave.
— Talvez você só precise de alguém para te ensinar.
Leo estreitou os olhos.
— Me ensinar o quê?
— A sorrir. A relaxar. A confiar.
Ele riu, mas sem humor.
— Não sou uma criança que precisa de lições.
— Não disse que era. — Aery deu de ombros. — Mas eu estou aqui, se você quiser aprender.
Leo ficou em silêncio, tentando ignorar o incômodo que subia por seu peito.
Aquela elfa branca o irritava profundamente — não por ser insuportável, mas por fazê-lo sentir coisas que ele preferia enterrar.
— Por que você se importa tanto? — Ele perguntou de repente, a voz mais baixa.
Aery o olhou com doçura.
— Porque eu vejo quem você é, não o que finge ser. Você tenta se fazer de frio e distante, mas eu vejo alguém que se importa. Alguém que quer mais da vida.
Leo desviou o olhar, o maxilar tenso.
— Você está enganada.
— Estou? — Aery sorriu, inclinando-se ligeiramente para ele. — Ou está apenas negando o que sente?
— Você fala demais, branquinha.
Aery riu, adorando o apelido.
— E você, de menos. Talvez seja por isso que combinamos.
Leo fechou os olhos por um instante, tentando se controlar. Ele não podia admitir, nem para si mesmo, que estava gostando da companhia daquela elfa insuportavelmente otimista.
Mas, sentado ali ao lado dela, percebeu que já era tarde demais.
Leo bufou, frustrado, antes de se levantar bruscamente.
— Você fala demais, branquinha. Boa noite.
— Boa noite, Leo. Sonhe comigo! — Aery provocou, rindo enquanto ele se afastava.
Leo apenas balançou a cabeça, ignorando a última farpa dela, deitando-se ao lado de sua espada. Aery o irritava de um jeito que ele não entendia. Ela não tinha medo dele, não se importava com sua origem, e isso o deixava inquieto.
— Você fala demais. — Ele respondeu com um tom baixo e quase rosnado.
Ele sempre tomava precauções, analisando cada movimento, cada som ao redor. A natureza ao seu redor não lhe parecia tão amigável quanto parecia ser para Aery.
Aery se deitou no lado oposto da fogueira, enrolada em sua capa, com os cabelos espalhados ao redor, como um rio flamejante sob as estrelas.
— Você vai ficar aí a noite toda vigiando? — Ela perguntou, virando-se para ele. Seus olhos estavam brilhando suavemente, refletindo a luz da fogueira.
— Sim, alguém precisa garantir que nenhum bicho estranho apareça para te devorar enquanto você dorme tranquila. — Leo respondeu, o sarcasmo sempre presente.
Aery riu, fechando os olhos com um sorriso brincalhão nos lábios.
— Acha que eu não sei me defender? Não precisa se preocupar. Eu sou uma elfa branca e poderosa, lembra? — Ela disse, com um toque de confiança em suas palavras.
Leo olhou para ela com um olhar cético, observando a despreocupação de Aery.
Ela era diferente de tudo o que ele conhecia. Tão pura, tão... ingênua. Enquanto ele pensava em como poderiam ser vulneráveis ali, ela simplesmente se entregava ao sono com a mesma tranquilidade de uma criança.
Por mais que Leo tentasse esconder, uma sensação de desconforto começou a crescer dentro dele. Aery é valente, sem dúvida, mas ele já percebeu que também é muito ingênua. Ela não parecia saber o que o mundo podia fazer com alguém tão desarmado, tão desprotegido.
Ele permaneceu acordado por algum tempo, seus olhos fixos na figura de Aery enquanto ela dormia. Ele não conseguia tirar os olhos dela, embora isso o irritasse. Ela parecia tão... indefesa enquanto dormia. A maneira como se enrolava em seu manto, a expressão suave no rosto.
Parecia uma criança, completamente inconsciente dos perigos que a cercavam. Leo odiava admitir, mas algo dentro dele o incomodava profundamente ao vê-la assim.
Sua mente o levou de volta a todas as batalhas, a todas as perdas que ele havia enfrentado. Ele sabia como o mundo podia ser implacável. Como a morte espreitava em cada sombra, em cada esquina. Aery era, para ele, uma garota boa perdida nesse mundo cruel.
Leo cerrou os dentes, sentindo o peso de suas responsabilidades.
Ela não era sua responsabilidade, não deveria ser. Mas, de algum modo, ele não conseguia ignorar o impulso protetor que surgia dentro dele. Ela parecia tão frágil em sua felicidade ingênua.
Leo queria protegê-la, mas isso o assustava. O que isso significava para ele?
Ele suspirou profundamente, como se tentasse se livrar desse pensamento. Mas era inútil. Aquelas emoções não se dissipavam facilmente.
A noite se arrastou, e com o passar do tempo, Leo finalmente fechou os olhos, mas seus pensamentos estavam longe, vagando entre a preocupação e a resistência a algo que ele sabia que não deveria sentir.
Aery continuava dormindo profundamente, com um sorriso tranquilo nos lábios. Sem saber que, na escuridão da noite, alguém estava vigiando-a de forma silenciosa, protegendo-a sem pedir nada em troca.
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A luz da manhã atravessava as folhas da floresta, criando um jogo de sombras e luzes douradas.
Aery já estava acordada, observando os pássaros que voavam de galho em galho.
— Está cedo demais para tanto entusiasmo. — A voz rouca de Leo soou atrás dela.
— Bom dia pra você também, mal—humorado. — Aery respondeu, sorrindo.
Leo pegou sua espada e a prendeu nas costas, ignorando o comentário.
— Precisamos comer. Vamos procurar algo.
— Eu conheço algumas plantas comestíveis. — Aery sugeriu, se espreguiçando.
Leo arqueou uma sobrancelha.
— Plantas? Você acha que vou sobreviver com folhas?
— Ah, é claro. O grande guerreiro precisa de carne. — Aery revirou os olhos, divertida. — Então vá caçar, e eu vou buscar frutas e raízes. Dividimos o que encontrarmos.
Leo deu de ombros.
Enquanto Leo avançava pela floresta em busca de caça, Aery recolhia frutas vermelhas e algumas ervas que conhecia.
Ela gostava de como o mundo parecia pacífico naquela manhã — mesmo com um elfo negro mal-humorado ao seu lado.
Quando se reuniram novamente, Leo trouxe um coelho selvagem, e Aery exibiu orgulhosamente sua colheita.
— Eu disse que daríamos um bom time. — Aery sorriu enquanto preparava a fogueira.
Leo observou—a em silêncio por um instante antes de sentar-se ao lado dela.
— Ainda acho que você fala demais.
— E você fala de menos. — Ela retrucou, entregando—lhe algumas frutas. — Mas já estou acostumada.
Leo pegou a fruta sem protestar, a olhando desconfiado.
— Por que está tão feliz?
Aery ergueu os ombros.
— Porque, por mais que sejamos diferentes, estamos aqui. Juntos. E o lugar é lindo também.
Leo desviou o olhar, focando na fogueira.
— Você é irritantemente otimista.
Aery sorriu.
— E você, irritantemente adorável.
Leo balançou a cabeça, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso de canto.
Enquanto a fogueira crepitava, Leo focado, trabalhava em silêncio, assando o coelho que havia caçado.
Aery, sentada perto dele, comia algumas frutas enquanto o observava de canto de olho, um sorriso nos lábios.
Ela estava acostumada a ler as emoções das pessoas, e sabia que Leo tentava manter suas defesas levantadas — mas ela via além da máscara.
— Você sempre foi tão carrancudo? — Ela perguntou, rompendo o silêncio.
Leo lançou-lhe um olhar preguiçoso.
— Sempre fui realista.
Aery riu, balançando a cabeça.
— Realista ou pessimista? Há uma diferença.
— Realista. O mundo é duro, branquinha. Quanto mais cedo você entender isso, melhor.
Ela cruzou os braços, desafiadora.
— O mundo pode ser duro, mas também pode ser bonito. Você só precisa saber onde olhar.
Leo suspirou, voltando a atenção para o fogo.
— Bonito, como?
Aery olhou ao redor, como se estivesse procurando as palavras certas.
— Como o céu pela manhã. Como as flores que brotam mesmo em solo seco. Como... — Ela parou, olhando diretamente para ele. — Como encontrar alguém inesperado que faz você querer ver o mundo de um jeito diferente.
Leo a encarou por um instante, sentindo o peso das palavras dela.
Ele sabia que Aery estava falando dele, mas não sabia como responder.
Sentia-se desconfortável com a maneira como ela falava de sentimentos tão facilmente, desarmando suas barreiras sem sequer tentar.
— Você fala de mim? — Ele perguntou, em tom sarcástico, tentando disfarçar o impacto daquilo.
— Talvez. — Aery deu de ombros, brincalhona.
Leo deu uma risada baixa, quase inaudível, enquanto virava o coelho na fogueira.
— Você é uma encrenca, sabia?
— Você já disse isso. Mas eu acho que você gosta de encrenca.
— Não gosto.
— Tem certeza?
Leo a fitou novamente, e dessa vez não desviou o olhar. Algo naquela elfa branca o intrigava profundamente.
— Tenho certeza de que você me irrita.
Aery riu.
— Mas está aqui. Isso diz muito, Leo.
Ele bufou e voltou a olhar para o fogo, mas não pôde deixar de pensar que, talvez, ela tivesse razão. Sem perceber, uma aliança havia sido formada entre eles.
Os pensamentos de Leo vagavam novamente para a elfa sentada ao seu lado. Aery parecia absorvida em organizar as ervas e frutas que havia colhido, ocasionalmente lançando olhares furtivos para ele.
- O que foi? - Leo perguntou sem tirar os olhos do coelho.
- Nada. - Aery respondeu, um sorriso brincalhão surgindo em seus lábios. - Só estava pensando que, talvez, você não seja tão ruim quanto tenta parecer.
Leo soltou um suspiro pesado.
- Você sempre encontra algo para falar, não é?
- E você sempre encontra algo para ignorar. - Aery retrucou com um tom travesso. - Vamos chamar isso de equilíbrio.
Leo riu, sem humor.
- Como consegue ser tão irritante e... intrigante ao mesmo tempo?
- É um talento natural. - Ela respondeu, erguendo o queixo como se fosse um prêmio.
Por um momento, a tensão desapareceu, dando lugar a um clima mais leve. Quando a comida ficou pronta, Leo dividiu o coelho com Aery, enquanto ela lhe oferecia frutas frescas para acompanhar.
- Admito, você não é tão inútil. - Leo provocou, mordendo um pedaço de fruta.
- Uau, isso foi quase um elogio! - Aery fingiu estar chocada, colocando a mão no peito. - Estou impressionada.
Leo revirou os olhos.
Enquanto comiam, o som suave da floresta os envolvia, criando uma bolha de tranquilidade em meio às incertezas da jornada. Por mais que tivessem começado como aliados relutantes, a sensação de parceria entre eles começava a se fortalecer.
Aery olhou para o céu, onde o sol estava alto.
- Então, para onde vamos agora?
Leo limpou as mãos e se levantou, ajustando a espada nas costas.
- Há um vilarejo humano a dois dias daqui. Podemos conseguir suprimentos e informações.
Aery assentiu, pegando suas coisas e se levantando também.
- Tudo bem. Mas enquanto caminhamos, posso fazer algumas perguntas?
Leo ergueu uma sobrancelha.
- Isso depende.
- De quê?
- Do quão irritantes serão.
Aery riu, seguindo ao lado dele enquanto se embrenhavam pela floresta.
- Não se preocupe, Leo. Prometo não ser tão irritante.
Leo bufou, mas, no fundo, sabia que não conseguia mais imaginar aquele caminho sem a presença dela ao seu lado.
Assim, os dois seguiram em direção ao desconhecido, cada passo os aproximando mais do destino - e um do outro.
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O céu de Odeon começava a se tingir com os tons dourados do amanhecer.
Aery, de pé na beira de um penhasco, observava o horizonte com um misto de expectativa e apreensão. A brisa fria trazia consigo o cheiro da floresta abaixo e o sussurro das árvores.
Leo se aproximava em silêncio.
- Sempre tão melancólica de manhã? - Leo perguntou, apoiando a espada no ombro.
- Não é melancolia. Estou pensando no próximo passo. - Aery sorriu de leve, mas não olhou para ele.
- E o que a nossa estrategista-chefe sugere? Invadimos mais um covil de criaturas corrompidas?
Ela finalmente virou para encará-lo, olhos brilhando com determinação.
- Não. Precisamos de informações antes de continuar. Se essas criaturas estão ficando mais fortes, alguém está controlando ou ajudando elas.
Leo arqueou uma sobrancelha, intrigado.
- E onde pretende conseguir essas informações? Não é como se houvesse um mercado negro de "fofocas mágicas".
Aery deu um passo em direção a ele, aproximando-se o suficiente para desafiá-lo com o olhar.
- Precisamos ir até Ark.
O silêncio entre os dois se tornou quase palpável. O sorriso sarcástico de Leo desapareceu, substituído por uma expressão de cautela.
- Você está louca, não é? Meu povo não é exatamente... receptivo a estrangeiros. Ainda mais uma elfa branca como você.
- E você acha que Elinel seria receptiva com um elfo negro como você? - Aery retrucou, firme. - Não estamos em uma disputa de quem é mais odiado, Leo. Precisamos de respostas. - Ela diz, sem mencionar a curiosidade de conhecer o lugar.
Ele a observou por um longo momento, lutando contra o impulso de recusar. Havia algo na maneira como Aery falava que o fazia querer acreditar, mesmo que ele soubesse que a ideia era suicida.
- Tudo bem, Aery. - Ele finalmente cedeu, cruzando os braços. - Mas se eu acabar morto, vou voltar como um espírito só para atormentar você.
Aery soltou uma risada genuína, iluminando a tensão que pairava no ar.
- Combinado. Agora, podemos começar?
Enquanto os dois se aventuravam em direção a Ark, lugar dos elfos negros, a paisagem mudava gradualmente. As árvores de Elinel davam lugar a terrenos mais escuros e hostis, marcados por magia sombria e sinais da guerra antiga.
No caminho, eles cruzaram uma vila abandonada, os sinais de luta ainda visíveis nas paredes enegrecidas e nos campos secos.
- Este lugar... - Aery começou, sua voz carregada de pesar.
- Foi um dos primeiros a cair quando a guerra começou. - Leo explicou, sua voz mais baixa que o normal. - Meu povo tentou resistir, mas os reforços do seu povo nunca chegaram.
Ela olhou para ele, percebendo a dor oculta em suas palavras. Era fácil esquecer que Leo, apesar de seu sarcasmo e dureza, também carregava cicatrizes profundas.
- Você... perdeu alguém aqui? - A pergunta saiu antes que ela pudesse se conter.
Leo parou de andar, encarando as ruínas.
- Perdi muitas pessoas. - Ele finalmente respondeu, sem encará-la. - É por isso que não confio em alianças. Sempre há traição no final.
Aery sentiu o peso daquelas palavras, mas decidiu não insistir. Em vez disso, ela colocou uma mão gentil em seu ombro, um gesto que dizia mais do que qualquer palavra. Ele não a afastou, mas também não reagiu.
A trilha rumo a Ark era um desafio por si só. Árvores retorcidas pareciam cochichar segredos sombrios enquanto Aery e Leo caminhavam por terrenos que alternavam entre lama pegajosa e pedras traiçoeiras. Aery estava determinada, sua postura confiante contrastando com a maneira como ela tropeçava de vez em quando em raízes salientes.
Leo, como sempre, não perdia a chance de provocar.
- Você tem certeza de que é uma elfa? Achei que a graciosidade fosse parte do pacote. - Ele segurou um riso quando Aery tropeçou novamente.
- É claro que sou uma elfa! - Aery respondeu, recompondo-se rapidamente. - Mas diferentemente de você, eu não passo todo o tempo pisoteando tudo como um troll desajeitado.
Leo arqueou uma sobrancelha.
- Trolls têm mais elegância do que você quando anda. E eles nem tentam.
Ela lançou um olhar fulminante para ele, mas não conseguiu conter o riso que escapou logo em seguida.
- Você é insuportável, sabia?
- É por isso que gosta de mim. - Ele deu de ombros, um sorriso ladino no rosto.
- Gosto tanto quanto de um espinho no pé. - Aery devolveu, mas seu sorriso brincalhão desmentia as palavras.
No final da tarde, eles chegaram a um rio largo, de correnteza forte. Não havia ponte ou travessia visível, apenas a promessa de pés molhados e roupas encharcadas.
- Bem, isso é inconveniente. - Leo comentou, examinando o fluxo da água.
- Não se preocupe. Tenho uma ideia. - Aery disse, já começando a concentrar sua magia.
Leo cruzou os braços, curioso.
- Isso deveria me deixar animado ou preocupado?
- Apenas observe. - Aery respondeu com confiança.
Ela levantou as mãos, murmurando palavras, e uma ponte feita de luz começou a se formar, arco após arco, ligando as duas margens. Era linda e sólida.
- Impressionante. - Leo admitiu, caminhando com ela sobre a ponte reluzente. - Mas o que acontece se você perder o foco?
- Então... - Aery começou, sua voz vacilando ligeiramente.
De repente, a ponte tremeluziu, e um pedaço dela desapareceu sob os pés de Leo. Ele teve apenas tempo de gritar:
- AERY!
Em um instante, ele caiu na água gelada, enquanto a ponte se desfazia por completo.
Aery olhou para a cena, atônita, antes de cobrir a boca com as mãos, tentando abafar uma risada.
Leo emergiu, os cabelos negros grudados no rosto e a expressão de puro desgosto.
- Alguma explicação brilhante para isso? - Ele perguntou, cuspindo água.
- Ah, bem... - Aery começou, descendo a margem para ajudar. - Parece que minha concentração foi interrompida... pelo seu grito!
- Pelo meu grito? Eu caí porque você não terminou a maldita ponte! - Ele retrucou, pegando a mão que ela ofereceu e, com um movimento rápido, puxando-a para dentro da água.
O grito de surpresa de Aery ecoou, seguido por gargalhadas quando ela emergiu, agora tão molhada quanto ele.
- Eu mereci isso, não foi? - Ela admitiu entre risos.
- Com certeza. - Leo respondeu, finalmente esboçando um sorriso genuíno.
De volta à estrada, os dois seguiram molhados e encharcados, mas de bom humor. Quando pararam para descansar à noite, Aery tentou acender uma fogueira com magia, mas o fogo saía azul e minúsculo.
- Parece que você ainda está... enferrujada. - Leo observou enquanto esfregava as mãos para se aquecer.
- Talvez. Mas pelo menos estou tentando. - Aery rebateu, soprando no pequeno fogo para tentar aumentá-lo.
- Aqui, deixa comigo. - Leo disse, tomando a frente e acendendo um fogo decente com duas pedras e um pouco de paciência.
- Olha só, o guerreiro tem habilidades de escoteiro. - Aery comentou com um sorriso travesso.
- E você deveria aprender algumas. Magia não resolve tudo, sabe?
Aery revira os olhos, confiante em sua magia.
Quando finalmente chegaram às fronteiras de Ark, o céu estava escuro, e as primeiras luzes da cidade surgiam ao longe. O humor leve que os acompanhara na estrada começou a desaparecer, substituído por uma tensão no ar.
Leo parou e olhou para Aery.
- Está pronta para isso? - Ele perguntou, sua voz mais séria do que de costume.
Ela assentiu, tentando parecer confiante.
- Estou. E você?
Leo respirou fundo, os olhos fixos na cidade à frente.
- Nem um pouco.
A estrada para Ark era longa e silenciosa naquela manhã. O humor leve do dia anterior dera lugar a um ar de cautela. Leo caminhava à frente, seus passos firmes e olhar sempre atento aos arredores. Aery seguia logo atrás, admirando as árvores altas e a vegetação densa, alheia à tensão que ele sentia.
- Sabe, este lugar é tão bonito quanto Elinel. - Aery comentou, quebrando o silêncio.
Leo parou e se virou lentamente, o olhar sério.
- Não confunda beleza com segurança. Ark não é Elinel, e os elfos negros não são como os seus.
Ela inclinou a cabeça, observando-o com um misto de curiosidade e preocupação.
- Por que você me trouxe aqui, então?
Leo hesitou. Ele sabia que era uma má ideia desde o início, mas algo nele queria que ela entendesse. Que ela visse que o mundo não era feito de harmonia e flores, como ela parecia acreditar.
- Porque você precisa aprender. O mundo é cruel, Aery. E eu quero que você veja isso com os próprios olhos.
Aery cruzou os braços, encarando-o.
- Parece mais uma desculpa para me assustar.
Leo bufou e voltou a caminhar.
- Você é impossível.
- E você é um teimoso. - Ela respondeu, seguindo-o com um sorriso travesso.
Quando a paisagem começou a mudar, Aery percebeu a diferença. As árvores ficavam mais retorcidas, as folhas mais escuras, e o ar parecia mais denso. Em pouco tempo, torres negras despontaram no horizonte, imponentes e intimidadoras.
A entrada de Ark era um grande arco de pedra escura, guardado por dois elfos armados. Suas armaduras refletiam a luz pálida do céu, e seus olhos brilhavam em alerta. Assim que avistaram os dois viajantes, suas mãos foram direto às armas.
- Leo, quem é ela? - Um dos guardas perguntou, a voz baixa e perigosa.
Leo ergueu as mãos, em um gesto de calma.
- Uma viajante. Está comigo.
O segundo guarda deu um passo à frente, estreitando os olhos para Aery.
- Uma elfa branca? Aqui? Você sabe o que isso significa, Leo.
- Ela não é uma ameaça. - Leo respondeu, firme, posicionando-se entre Aery e os guardas.
- Não importa. - O primeiro guarda retrucou. - A presença dela aqui é uma afronta.
Aery, que até então estava quieta, deu um passo à frente.
- Eu não vim para causar problemas. Só quero ver o que há além de Elinel.
Os guardas riram, mas o som não tinha humor.
- Isso não é um passeio, garota. - Disse o segundo guarda. - Sua presença aqui é um insulto ao nosso povo.
Leo respirou fundo, os músculos tensos. Ele sabia que isso aconteceria, mas a hostilidade dos guardas ainda o incomodava.
- Basta. - Ele rosnou, sua voz cortando o ar como uma lâmina.
Os guardas hesitaram, mas mantiveram as mãos nas armas.
- Leo, você sabe que isso não vai acabar bem. - O primeiro guarda disse, agora mais calmo. - Leve-a embora antes que alguém veja.
Aery olhou para Leo, confusa e um pouco assustada.
- Leo...
Ele se virou para ela, seus olhos sombrios, mas havia algo mais lá - preocupação.
- Vamos embora. - Ele disse, pegando sua mão.
- Mas... você queria me mostrar...
- E você já viu o suficiente.
Sem esperar por resposta, ele a puxou de volta para a estrada.
Aery estava quieta enquanto eles se afastavam de Ark. O silêncio entre eles era pesado, até que ela finalmente falou:
- Por que você não me deixou entrar?
Leo parou, soltando sua mão, mas não se virou para ela.
- Porque eu não vou deixar que eles te machuquem.
Aery piscou, surpresa.
- Você está me protegendo?
- Não. - Ele respondeu rapidamente. - Eu só... não quero lidar com problemas desnecessários.
- Claro. - Ela disse, mas o sorriso suave em seu rosto mostrava que ela não acreditava em nenhuma palavra dele.
Leo balançou a cabeça e começou a caminhar de novo.
- Vamos. O mundo não vai se explorar sozinho.
Aery o seguiu, o coração mais leve. Mesmo com toda a dureza de Leo, ela sabia que havia mais nele do que ele deixava transparecer.
O sol já estava baixo no horizonte quando Aery finalmente quebrou o silêncio que pairava entre eles desde que deixaram Ark. Sua expressão, normalmente radiante, estava abatida, e ela olhava para o chão enquanto caminhava.
- Leo... - Sua voz era quase um sussurro.
Ele não respondeu de imediato, mas reduziu o passo, deixando que ela o alcançasse.
- O que foi agora? - Ele perguntou, sem se virar.
Aery hesitou antes de continuar, mexendo nos dedos como fazia quando estava nervosa.
- Sinto muito... por ter insistido em ir até Ark.
Leo parou, virando-se para encará-la. Seus olhos estreitaram-se enquanto ele cruzava os braços.
- E só agora percebeu que foi uma ideia idiota?
Ela mordeu o lábio inferior, claramente desconfortável com o tom dele.
- Eu não queria insultar vocês. - Ela admitiu. - Só queria entender... o seu mundo.
Leo suspirou, esfregando a nuca, enquanto pensava em como responder.
- Você acha que o mundo gira em torno das suas intenções, Aery? - Ele começou, a voz firme. - A vida não é uma das suas histórias de contos de fada. Não importa o quanto você seja "bem-intencionada", o mundo real não se importa. Especialmente quando se trata de elfos negros e brancos.
Aery abaixou a cabeça, sentindo o peso das palavras dele.
- Eu só queria... que fosse diferente. Que houvesse menos ódio.
Leo bufou, mas havia menos dureza em sua expressão.
- Esse tipo de pensamento não vai te salvar. Nem a mim. Não é assim que o mundo funciona.
Aery levantou os olhos para ele, e algo em seu olhar fez Leo engolir o que ia dizer em seguida.
- Mas você me salvou. - Ela disse, com um sorriso tímido, mas sincero.
Leo congelou. Ele abriu a boca para responder, mas nada saiu. A suavidade do sorriso dela parecia desarmá-lo de uma maneira que nenhuma lâmina ou magia conseguia.
- Não foi por você. - Ele finalmente resmungou, desviando o olhar. - Foi por mim. Não queria lidar com toda a confusão que sua presença teria causado.
Ela riu suavemente, e o som fez com que Leo fechasse os olhos por um instante, como se quisesse afastar o impacto inesperado que aquilo tinha nele.
- Mesmo assim... obrigada.
Ele suspirou novamente, dessa vez mais longo, como se estivesse tentando aliviar um peso invisível.
- Só não faça mais isso. - Ele disse, olhando para ela de relance. - Não se meta onde não é bem-vinda.
- Prometo tentar. - Aery respondeu, e seu sorriso ficou mais largo.
Leo resmungou algo inaudível e começou a andar novamente, mas dessa vez seu passo era mais lento, como se quisesse permitir que ela o acompanhasse facilmente.
Aery o seguiu, com o coração mais leve, mesmo depois de tudo. Talvez o mundo não fosse feito só de flores, mas pelo menos ela tinha encontrado alguém que, mesmo sem admitir, parecia disposto a protegê-la.
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