Brennda jamais imaginou que atravessaria a porta de um lugar como aquele. O clube, um santuário de elegância e mistério, parecia existir em uma realidade paralela, distante do caos do mundo exterior. As luzes suaves acariciavam as paredes de veludo escuro, enquanto murmúrios discretos e uma música suave preenchiam o ar com uma promessa implícita de segredos compartilhados.
Ao entrar, seu coração batia mais rápido do que ela gostaria de admitir. Apesar de sua habitual autoconfiança, havia algo naquele lugar que a fazia questionar se pertencia ali. Mas ela tinha chegado até ali porque algo dentro dela exigia isso, um desejo que nem sequer ousava nomear.
Então, ela o viu.
Sentado em um canto estratégico, Victor parecia observar tudo com uma calma quase predatória. Vestia um impecável terno preto que acentuava seu porte magnético, e seus dedos descansavam sobre uma taça de vinho tinto, como se fosse um símbolo de controle absoluto. Brennda sentiu o ar ao seu redor mudar quando seus olhares se cruzaram. Foi um momento breve, quase imperceptível, mas carregado de eletricidade.
Ela tentou desviar o olhar, mas não conseguiu. Havia algo nele, na forma como irradiava confiança sem esforço, que a mantinha presa. Victor esboçou um leve sorriso, quase uma sombra de interesse, antes de se levantar com uma calma que parecia projetada para provocar.
Quando ele chegou ao seu lado, Brennda teve que se lembrar de respirar.
—Você não é daqui —ele disse, com uma voz grave e segura, como se não fosse uma pergunta, mas uma afirmação.
Ela ergueu o queixo, tentando recuperar sua postura habitual.
—O que te faz pensar isso?
Victor inclinou levemente a cabeça, estudando-a como se já soubesse todas as respostas.
—Porque uma mulher como você não entra em um lugar como este sem um propósito.
Brennda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo perturbador na forma como ele parecia vê-la além do óbvio, como se pudesse ler os pensamentos que ela mesma ainda não havia decifrado.
—Talvez eu esteja apenas explorando.
Victor sorriu, desta vez com um toque de desafio.
—Ou talvez você esteja procurando algo que ainda não sabe que precisa.
Ela não respondeu. Pela primeira vez em muito tempo, Brennda sentiu-se exposta, como se as camadas de segurança que havia construído ao seu redor começassem a desmoronar.
—Venha —ele disse suavemente, estendendo a mão para ela—. Deixe-me te mostrar algo.
Brennda não sabia o que a impulsionava, mas aceitou. Naquele momento, compreendeu que acabara de cruzar um limiar sem volta.
Victor a conduziu por um corredor que parecia se perder na penumbra. As luzes tênues mal iluminavam os rostos das poucas pessoas que passavam por eles, todas envoltas em um ar de mistério. Brennda caminhava um passo atrás dele, tentando processar o que acabara de fazer. Aceitar a mão de um homem que mal conhecia não era algo que estivesse em sua lista de decisões racionais, mas havia algo nele que a atraía de um modo inexplicável.
Ao chegar a uma porta discreta, Victor parou e a olhou por cima do ombro.
—Antes de entrar, preciso que confie em mim. O que você verá aqui não é para julgar, mas para entender.
Brennda assentiu, embora seu coração batesse acelerado. Não estava acostumada a ceder o controle, muito menos a confiar em alguém que mal conhecia. Mas a curiosidade, combinada com a intensidade do olhar dele, a empurrou a seguir adiante.
Victor abriu a porta, revelando um salão privado que parecia saído de uma fantasia. Era um espaço amplo, iluminado por candelabros que projetavam sombras dançantes nas paredes. No centro, um casal estava imerso em uma dança silenciosa de poder e entrega. Não havia vulgaridade no que via, apenas uma conexão palpável que preenchia o ar de eletricidade.
Brennda sentiu um nó na garganta. Não sabia se era pela intimidade da cena ou porque, de algum modo, se via refletida naquele momento. Havia algo na forma como a mulher se entregava, com confiança absoluta, que despertou nela um desejo que desconhecia.
Victor, como se lesse seus pensamentos, inclinou-se em sua direção, sua voz mal sendo um sussurro.
—Isso não é sobre controle, Brennda. É sobre confiança. Sobre liberdade através da entrega.
Ela o olhou, sentindo-se vulnerável e desafiada ao mesmo tempo.
—Você acha que é isso que estou buscando?
Victor sorriu, aquele sorriso enigmático que parecia conter todas as respostas.
—Acho que nem você sabe. Mas você está aqui. E isso significa que está disposta a descobrir.
O silêncio entre eles era pesado, cheio de perguntas sem resposta. Victor a guiou até uma mesa no fundo do salão, onde duas taças de vinho já os aguardavam. Ele se sentou primeiro, observando-a enquanto ela tomava assento à sua frente.
—Diga-me, Brennda —disse ele, girando suavemente a taça entre os dedos—, o que você realmente está buscando?
A pergunta a pegou de surpresa. Não era uma questão superficial; Victor estava convidando-a a olhar para dentro de si mesma, a enfrentar algo que evitara por muito tempo.
—Não sei —admitiu finalmente, sua voz mais suave do que esperava.
Victor assentiu, como se essa fosse a resposta que esperava.
—Então, vamos começar por isso.
E, naquele instante, Brennda soube que sua vida estava prestes a mudar de uma forma que nunca poderia imaginar.
O som do vinho enchendo as taças quebrou o silêncio entre eles. Brennda observou Victor servir a bebida com precisão, como se cada movimento fosse coreografado. Haviam passado horas em conversas que oscilavam entre o superficial e o profundamente inquietante. Victor tinha uma habilidade única de explorar aquilo que ela tentava esconder, fazendo-a sentir-se, ao mesmo tempo, desconfortável e fascinada.
Finalmente, ele colocou a garrafa de lado e a encarou com aquela intensidade que Brennda já começava a reconhecer como sua marca registrada.
—Há algo que quero te propor.
Brennda arqueou uma sobrancelha, tentando disfarçar o nó que se formou em seu estômago.
—Que tipo de proposta?
Victor inclinou levemente a cabeça, como se escolhesse cuidadosamente as palavras.
—Um acordo. Um contrato, se preferir chamar assim.
Ela se enrijeceu, seus instintos de advogada despertando instantaneamente.
—Um contrato?
—Sim —ele confirmou, pousando sua taça na mesa—. Nada nesse tipo de relação deve ser deixado ao acaso. Tudo precisa estar claro, negociado e consensuado.
Brennda cruzou os braços, tentando recuperar o controle da conversa.
—E o que exatamente esse contrato implicaria?
Victor apoiou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou os dedos, inclinando-se o suficiente para que sua voz soasse mais íntima.
—Confiança absoluta. Limites definidos. Você decide onde começa e onde termina. Eu só assumo o controle que você estiver disposta a ceder.
A palavra “controle” ecoou em sua mente. Brennda sempre havia comandado sua vida: na carreira, nos relacionamentos, em cada aspecto de sua existência. Mas agora, diante da possibilidade de ceder isso de forma deliberada, ela sentia uma mistura de pânico e curiosidade.
—E se eu não concordar? —perguntou, desafiadora.
Victor sorriu calmamente, sem qualquer traço de pressão em sua expressão.
—Então seguimos em frente como duas pessoas que se conheceram em um clube exclusivo. Mas, se decidir aceitar, prometo que não farei nada sem o seu consentimento.
Brennda baixou o olhar para sua taça de vinho, observando como as luzes do salão se refletiam no líquido escuro. Algo na segurança das palavras de Victor, na estrutura meticulosa que ele propunha, trazia-lhe uma estranha sensação de calma.
—Submissão não é fraqueza —ele continuou, sua voz grave, mas gentil—. É um ato de coragem. É confiar tanto em alguém que você pode se permitir soltar, sabendo que essa pessoa cuidará de você.
A vulnerabilidade implícita em suas palavras a deixou sem fôlego. Ela havia passado toda a sua vida construindo muros, certificando-se de que ninguém tivesse poder sobre ela. Poderia sequer considerar derrubar essas defesas?
—Vou pensar nisso —respondeu finalmente, com uma voz que traía sua insegurança.
Victor assentiu, como se esperasse essa resposta.
—Tome seu tempo. Mas lembre-se, Brennda: isso não é apenas um jogo. É uma escolha.
Com essas palavras, Victor se levantou, deixando um pequeno cartão preto sobre a mesa.
—Quando estiver pronta, me ligue.
Brennda observou enquanto ele se afastava, sua figura desaparecendo na penumbra do clube. Pegou o cartão entre os dedos, lendo o nome e o número impressos em dourado. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que o controle de sua vida estava por um fio.
Levou a taça aos lábios, permitindo que o vinho acalmasse o turbilhão dentro de si. Apesar das dúvidas, uma centelha de curiosidade ardia em seu peito. O que seria capaz de descobrir se decidisse aceitar?
Brennda sentou-se na beirada da cama, o cartão preto entre os dedos, enquanto sua mente lutava para encontrar clareza. Haviam se passado três dias desde o encontro com Victor, mas sua voz ainda ecoava em sua cabeça, especialmente aquela frase que parecia ter sido feita para desmontá-la: "Submissão não é fraqueza, é coragem."
Palavras como essas não eram fáceis de ignorar, especialmente vindas de um homem que parecia ler seus pensamentos antes mesmo que ela pudesse articulá-los. Contudo, aceitar o que Victor havia oferecido significava mais do que entrar em um acordo: significava abrir-se, deixar-se ver e, o mais assustador de tudo, confiar.
Com um suspiro, Brennda colocou o cartão sobre a mesa de cabeceira e levantou-se. Passara o dia inteiro distraída no trabalho, revisando contratos de forma automática enquanto sua mente vagava incessantemente para o clube, Victor e aquela conexão inexplicável que sentira. "Isso não é apenas um jogo", ele dissera. E se não fosse?
Ela sabia que sua vida era perfeitamente organizada. Tinha sucesso, independência e uma reputação impecável. Mas também sabia, embora fosse difícil admitir, que algo estava faltando. Aquela noite no clube havia revelado uma verdade que ela evitara por muito tempo: queria mais.
Decidida a não se deixar consumir pelos próprios pensamentos, pegou o telefone, digitou o número de Victor e, com uma mistura de antecipação e receio, apertou "ligar".
O telefone tocou apenas uma vez antes de ele atender.
—Victor.
Sua voz profunda e segura fez com que Brennda se enrijecesse imediatamente. Era como se sua presença atravessasse o telefone e a envolvesse.
—Sou eu... Brennda.
—Eu sabia que você ligaria.
Ela franziu o cenho diante da confiança dele, mas, ao mesmo tempo, sentiu um estranho alívio.
—Quero... falar mais sobre sua proposta.
—Perfeito. Está livre esta noite?
Brennda hesitou. Esperava que a conversa se limitasse ao telefone, mas Victor nunca fazia nada de forma casual.
—Sim.
—Vou lhe enviar um endereço. Esteja lá às oito.
A ligação terminou antes que ela pudesse responder. Brennda olhou para o telefone, sentindo-se presa entre a curiosidade e a inquietação. Não havia mais volta.
- - -
Pontualmente às oito, Brennda estacionou em frente a um prédio discreto, mas que exalava exclusividade. O endereço enviado por Victor não era sua casa, nem o clube: era um lugar completamente novo. Com o coração acelerado, saiu do carro e dirigiu-se à entrada.
Um homem de terno a recebeu com um leve aceno de cabeça, como se já a esperasse. Sem dizer uma palavra, conduziu-a a um elevador privado que parou no último andar. As portas se abriram, revelando um loft amplo com uma vista impressionante da cidade iluminada.
Victor estava ao lado de uma mesa de vidro, revisando alguns documentos. Quando levantou o olhar e a viu, sorriu, mas não se aproximou imediatamente. Em vez disso, apontou para a cadeira à sua frente.
—Brennda. Pontual, como sempre.
Ela se sentou, tentando não parecer nervosa, embora sua postura rígida a traísse.
—Isso é... mais formal do que eu esperava.
Victor colocou os documentos de lado e recostou-se na cadeira.
—Tudo na minha vida é formal. Especialmente algo tão importante quanto isso.
De baixo da mesa, ele retirou uma pasta de couro preta e a colocou diante dela. Brennda olhou com cautela antes de abri-la. O que encontrou não era o que esperava: um contrato detalhado, escrito com precisão, como se tivesse sido elaborado por um advogado tão meticuloso quanto ela.
—Isso é sério? —perguntou, analisando as páginas.
—Totalmente. Quero que entenda que isso não é improvisado. Aqui estão todas as regras, limites e expectativas. Nada acontece sem o seu consentimento.
Brennda começou a ler o contrato. Havia cláusulas sobre comunicação, segurança, encontros e até uma lista de palavras de segurança que ela poderia usar para interromper qualquer atividade se se sentisse desconfortável. Era surpreendentemente... profissional.
—Isso parece excessivamente... estruturado —comentou, arqueando uma sobrancelha.
Victor sorriu.
—Porque é. Esse tipo de relação não pode ser deixado ao acaso. Estrutura cria confiança, e confiança é tudo.
—E você? O que ganha com isso?
Victor inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
—Ganho o mesmo que você. Uma conexão que vai além do superficial. Mas isso só funciona se ambos concordarmos.
Brennda deixou o contrato sobre a mesa e olhou diretamente para ele.
—E se eu não gostar?
Victor assentiu, aceitando o desafio.
—Então não assine. Mas, se decidir assinar, prometo que será algo que você jamais esquecerá.
O silêncio que se seguiu foi intenso. Brennda sabia que estava diante de uma encruzilhada, e cada fibra de seu ser lhe dizia para ter cuidado. Mas também sabia que algo dentro dela ansiava por cruzar aquela linha.
Finalmente, pegou a caneta que Victor lhe oferecia.
—Onde eu assino?
Victor sorriu, satisfeito, e apontou o espaço no final da última página.
—Aqui.
Quando Brennda escreveu seu nome, sentiu como se estivesse saltando no vazio. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não temia a queda.
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