A rua estava silenciosa, como sempre, uma tranquilidade que contrastava com o caos interno da minha mente. Caminhei em direção à escola, que não ficava muito distante de casa, e passei pela rua da padaria do Sr. Nelson. Para minha surpresa, a rua estava interditada. Pelo menos, algo de diferente nesta semana. Ri internamente, tentando afastar o peso das minhas preocupações. Decidi seguir por um caminho alternativo, uma rua que raramente utilizava. Ali, durante a noite, boates lotam o espaço, mas pela manhã, a rua parecia deserta, um lugar que, em Glenwood, era quase comum. O ambiente tinha um silêncio pesado, como se algo sempre estivesse à espreita.
À medida que me aproximava da escola, a familiar visão das suas paredes me fez pensar no que me aguardava: Stacey, Amanda e meu namorado Kevin. Eles sempre estavam cheios de energia pela manhã, enquanto eu me sentia uma observadora, alheia ao agito deles, esperando encontrar um momento para me conectar com o mundo ao meu redor. Mas, naquele dia, parecia que o mundo estava prestes a me engolir de uma maneira que eu nunca poderia imaginar.
Foi quando já estava quase na entrada da escola que algo inesperado aconteceu. De repente, senti uma mão firme tapando minha boca e me empurrando para um beco. Não tinha ideia de que aquele lugar existia, uma pequena passagem escondida entre prédios e sombras. Meu corpo reagiu em pânico, mas o homem que me atacava era forte e implacável. Tentei gritar, mas minha voz foi abafada pela força que pressionava minha boca. Meu corpo lutava contra o dele, mas estava claro que ele tinha o controle da situação. A culpa começou a me consumir – por que eu tinha decidido mudar minha rota hoje? Por que não havia ficado na segurança da minha rua habitual? Mas esses pensamentos logo foram abafados pela sensação crescente de impotência.
O homem rasgou minha blusa, e sua mão desceu em direção a lugares onde ninguém jamais deveria tocar sem permissão. A dor e o medo quase me paralisaram, mas foi então que um som – o som de passos rápidos – cortou a tensão do momento. Em um movimento quase sobrenatural, o homem que estava sobre mim foi subitamente derrubado. O som de um impacto pesado ressoou pelo beco, e eu vi apenas uma silhueta, rápida e decisiva, que agiu com uma precisão assustadora. O agressor caiu ao meu lado, sua cabeça visivelmente ferida, e o homem que o havia derrotado se ergueu em pé, com um taco nas mãos, vestindo um moletom azul. Ele permaneceu ali, imóvel, aguardando que eu me levantasse, antes de desaparecer rapidamente na mesma escuridão que havia surgido.
O medo ainda tomava conta de mim, mas também uma sensação de alívio misturada com confusão. Por alguns segundos, fiquei paralisada, sem saber como reagir. O beco parecia mais vazio agora, como se a própria cidade tivesse se afastado. As mãos tremiam incontrolavelmente enquanto eu pegava meu celular e ligava para a polícia, tentando processar o que havia acabado de acontecer. O que eu sabia com certeza era que aquele dia ficaria marcado na história de Glenwood. O primeiro assassinato do misterioso assassino que, a partir daquele momento, seria conhecido apenas como o "Assassino de Glenwood
Prendi meu cabelo cacheado com um broche, empurrando os fios para trás. Não era necessário muito esforço para me sentir bonita, embora minha mente estivesse longe disso. De alguma forma, eu ainda tinha consciência da minha aparência. Eu não passava de mais uma patricinha da escola, com um namorado popular. Não podia reclamar, afinal, isso ajudava a desviar a atenção do que aconteceu no ano passado. Não gostava de recordar aquele momento, então preferia não pensar nisso.
Passei por terapias, investiguei detalhes, tentando lembrar do rosto do homem que me ajudou. “Não vi nada. Foi muito rápido. Me deixem em paz”, eu repetia. Não havia mais nada a acrescentar.
Este ano, decidi deixar o passado para trás. Não mais torturar minha mente tentando lembrar o rosto dele, embora uma parte de mim ainda recordasse o moletom azul e como ele parecia ter a mesma idade que eu. Não falaria sobre isso com ninguém, principalmente depois de descobrir o que ele se tornara. Um justiceiro. Ele matou muitas pessoas no último ano. Agora, sentia que precisava protegê-lo de alguma forma. Ele me ajudou sem esperar nada em troca, e eu jamais conseguiria retribuir de outra maneira. Eu devia minha vida a ele.
Merda! Me prometi que não pensaria mais nisso. Já estava atrasada. Levantei-me rapidamente, peguei os livros da bolsa, ajeitei o cabelo e passei uma maquiagem simples. Agora, sim, estava pronta. Desci as escadas e fui direto para a cozinha, onde minha mãe preparava o café da manhã e meu pai já estava à mesa, comendo.
— Bom dia, mãe. Só vou pegar uma maçã, estou super atrasada — falei enquanto pegava a fruta na mesa.
— Ayara, já falei para não sair tão apressada, especialmente sem se alimentar — ela disse, tensa.
Meu pai, que observava a cena, olhou para nós duas e sorriu.
— Não vão começar a brigar logo cedo, vão? — ele perguntou, mastigando um pedaço de bacon.
Minha mãe, com um sorriso irônico, lhe deu um leve tapa com a colher.
— Está me chamando de ranzinza? — ela retrucou, o tom sério, mas não sem diversão.
Aproveitei a deixa para me escapar. Me deu pena do meu pai, mas minha mãe, de fato, sabia ser difícil.
Do lado de fora, encontrei Kevin me esperando no carro, seu sorriso encantador iluminando a manhã. Ele sempre soubera ser fofo.
— Kevin, você está louco? Vai se atrasar também — disse, dando-lhe um beijo rápido.
— Não poderia deixar você ir sozinha, não, uma princesa como você — ele respondeu, com uma risada baixa enquanto apertava minha cintura.
Dei-lhe um tapinha no ombro e o beijei novamente.
— Agora não é hora para isso, Kevin. Vamos! — falei, abrindo a porta do carro.
Ele entrou, e logo fechamos a porta. Sua mão repousou entre minhas pernas enquanto ele dirigia. Havia uma intimidade entre nós, mas, apesar disso, não havíamos chegado ao ponto final. Não me sentia pronta, e ele respeitava isso, como se nunca imaginássemos nos ver com outra pessoa.
— Ayara, sua mãe vai visitar seus avós no Brasil? — perguntou Kevin, com curiosidade.
— Ah, sim. Ela está se preparando para a viagem. Talvez eu vá com ela. Já faz um tempo que não vou — respondi, pensativa.
Ele me olhou por um momento e voltou sua atenção para a estrada.
— Estava pensando... talvez eu devesse ir com vocês. Quero conhecer as praias do Brasil — disse ele, piscando para mim.
Fiquei corada, um sorriso bobo surgindo em meu rosto. Concordei com a cabeça.
— Está bem, vou falar com minha mãe.
Chegamos à escola e, ao longe, avistamos Stacey e Amanda com seus respectivos namorados, embora Amanda e Matt só estivessem se pegando, eles eram praticamente um casal. Mesmo achando-os imaturos, não podia deixar de tolerá-los, já que eram amigos de Kevin e companheiros das minhas melhores amigas.
— E aí, cachorrão! — disse Otávio, namorado de Stacey, com uma risada sacana.
Kevin fez um barulho de latido, imitando um cachorro. Eles sempre faziam isso, e, embora eu achasse ridículo, havia algo de engraçado na cena.
— Ei, pessoal — disse, olhando rapidamente para o lado.
Amanda e Matt estavam, como sempre, se beijando sem se importar com o mundo ao redor. Stacey e eu até fizemos uma aposta: Amanda provavelmente engravidaria antes de terminar o terceiro ano. Acho que vou ganhar essa aposta.
O sinal tocou e logo todos começaram a se dirigir para suas respectivas salas. Kevin, com a típica confiança que ele tinha, me agarrou pela cintura e me deu um beijo prolongado, de forma tão inesperada e intensa que fez até Amanda e Matt desviarem o olhar, visivelmente constrangidos.
— Meu Deus, Kevin — eu disse, tentando recuperar o fôlego enquanto ele sorria, o olhar de satisfação estampado em seu rosto.
— Só me despedindo, da minha garota — ele respondeu, rindo, como se a situação fosse a mais natural do mundo.
Com um suspiro, eu me afastei lentamente, as bochechas ainda queimando de vergonha. As meninas, ao nosso redor, não demoraram a se despedir, mas as palavras de Amanda logo cortaram o silêncio.
— Você e o Kevin já deviam ter transado, essa tensão sexual de vocês dois é muito evidente — disse Amanda, com uma expressão de quem não estava nem aí para o que os outros pensassem.
O comentário fez meu rosto esquentar ainda mais, e antes que eu pudesse formular uma resposta, Stacey interveio, com um tom de deboche que parecia sair quase que naturalmente dela.
— Deixa eles, Amanda, nem todo mundo precisa sair transando por aí igual a você e o Matt.
Eu não queria me envolver naquilo. Evitei responder, e um nó se formou no meu estômago. A última coisa que eu queria era ter que encarar essa conversa. Eu sabia onde isso ia dar: "O que aconteceu no ano passado não pode afetar sua vida", ou "Mas o cara nem chegou a fazer nada com você". Eu não estava pronta para isso. E, sinceramente, não queria dar espaço para Amanda fazer mais perguntas sobre algo que já estava resolvido na minha cabeça. Portanto, o melhor era me calar.
— O professor já entrou na sala, vou indo. Bora, Stacey — falei, me afastando na direção da sala de aula.
Stacey me seguiu sem hesitar, enquanto Amanda se dirigia para sua própria aula. Agradeci mentalmente por nosso primeiro horário não coincidir. Eu estava aborrecida com ela, e sabia que, se começasse a conversar, Amanda seria insistente até conseguir uma resposta detalhada. Eu estava preparada para dar uma resposta curta e seca, se fosse necessário.
A aula seguiu com meu foco perdido em pensamentos. Eu tentava organizar minha cabeça, pensando na melhor forma de explicar a Kevin e a minhas amigas que a razão pela qual ainda não havia avançado em nosso relacionamento não tinha nada a ver com o que eu havia vivido no passado. Eu já tinha tratado isso na terapia, estava bem resolvida. Eu sabia que o toque de Kevin não me causava medo; na verdade, eu até desejava que ele me tocasse mais. O problema era que, apesar disso, ainda não me sentia preparada. Mas eu não sabia o porquê. Era uma sensação estranha, algo que eu ainda não conseguia entender completamente.
Sem que eu percebesse, a aula havia terminado. Stacey me olhava com aquele olhar atento, quase como se perguntasse: Você tá bem?
— Precisamos encontrar os garotos, vamos indo — eu disse, puxando ela pela mão, tentando dar uma distraída.
Ela riu, mas ainda parecia preocupada com o que eu estava pensando. Dentre todas as minhas amigas, Stacey era a mais sensível aos sentimentos dos outros, e eu sempre me surpreendia com a forma como ela e o Otávio se davam tão bem. Era uma conexão curiosa.
— Você não ficou pensando no que a Amanda disse, né? — ela disse, me cutucando com o braço, quebrando o silêncio.
Eu hesitei em responder, mas então dei um suspiro profundo.
— Eu fiquei, mas não da forma que você pensa. Ou você esqueceu que passei por vários terapeutas? Eu não estaria aqui se estivesse mal sobre o que aconteceu no ano passado — disse, tentando passar uma sensação de calma, oferecendo um sorriso tranquilizador.
Ela me analisou com o olhar, como se quisesse garantir que eu realmente estava bem, e então a pressão sobre seus ombros pareceu se aliviar.
— Eu odiaria se o que a Amanda te disse trouxesse algum trauma do ocorrido, mas vejo que não é o caso — disse, me abraçando de forma calorosa.
Enquanto nós duas nos abraçávamos, Otávio e Kevin chegaram, interrompendo o momento.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Kevin, com um tom de preocupação que estava além do normal.
Eu e Stacey nos afastamos e fomos cumprimentar os meninos, tentando disfarçar a tensão no ar.
— Elas estão se descobrindo, deixa elas — disse Otávio, com um sorriso meio sarcástico.
Esse cara só podia ter algo errado na cabeça. O que me irritava era que, por mais que ele estivesse tentando aliviar a situação, parecia que só piorava as coisas. Soltei um suspiro, e então me aproximei de Kevin, colocando meus braços ao redor de seu pescoço.
— Você não deveria ficar tão preocupado comigo. Eu não vou quebrar, Kevin — disse, tentando tranquilizá-lo.
Mas isso não adiantou. O rosto dele estava ainda mais sério, e a expressão que ele tinha agora parecia mais preocupada do que antes.
— Ayara, eu não sei o que faria se você se machucasse — disse ele, olhando nos meus olhos com uma intensidade que me fez parar por um momento.
Eu me afastei dele, sentindo uma necessidade urgente de mudar de assunto. Eu realmente queria evitar esse tipo de conversa.
— Vamos deixar isso pra lá, ok? — tentei desviar o foco, buscando uma forma de aliviar o clima.
Kevin me olhou por um instante, como se ainda estivesse ponderando o que eu dissera, mas então soltou um suspiro e assentiu, como se finalmente tivesse aceitado o que eu dizia.
— Tudo bem, Ayara — disse ele, a voz mais suave agora, com um sorriso que parecia querer me tranquilizar. — Mas você sabe que, sempre que precisar de algo, pode contar comigo, né?
Eu sorri, sentindo uma onda de calor tomar conta de mim, não apenas pelas palavras dele, mas pela forma como ele me olhava. A preocupação ainda estava lá, mas algo mais doce também havia se instalado em seu olhar.
— Eu sei, Kevin. Você sempre sabe como usar as palavras certas — respondi, minha voz mais suave, enquanto um leve rubor subia às minhas bochechas.
Ele se inclinou levemente, aproximando-se mais, e sussurrou, quase como se fosse um segredo entre nós dois:
— Porque eu me importo com você, Ayara. Mais do que você imagina.
Meu coração deu uma leve aceleração. Eu tentei sorrir de volta, mas as palavras que ele dissera ainda estavam ecoando em minha mente, tornando tudo ao meu redor um pouco mais intenso, mais real.
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