...***...
A noite ainda dominava Solaria quando Kiran despertou de repente, arrancado dos braços do sono. O silêncio ao redor era denso, preenchendo cada canto do aposento. Apenas o farfalhar das cortinas rompia a quietude, movendo-se suavemente com a brisa fria da madrugada que entrava pela janela aberta. O ar trazia consigo o cheiro seco da areia sob o céu noturno, misturado a um leve aroma salgado da maresia, um perfume distante que nunca chegava de fato àquelas terras áridas.
Por um momento, Kiran permaneceu imóvel, deitado de costas, os olhos fixos no teto abobadado. Seu peito subia e descia em um ritmo controlado, mas algo dentro dele pulsava inquieto, como um presságio sussurrado ao ouvido por uma força invisível.
Com um suspiro profundo, ele afastou as cobertas e se levantou, os pés tocando o chão frio. Movendo-se sem pressa, caminhou até a janela, onde apoiou os antebraços no parapeito. Seu olhar se perdeu no horizonte, onde as sombras da noite começavam a ceder à luz nascente da aurora.
O céu, tingido de azul profundo, sustentava as últimas estrelas que se apagavam uma a uma, como lanternas sufocadas pelo nascer do sol. O primeiro brilho da alvorada riscava a linha do horizonte, tingindo as nuvens distantes com nuances de âmbar e escarlate. As dunas douradas, antes ocultas na penumbra, se revelavam aos poucos, como se despertassem junto com o dia. Suas cristas ondulantes capturavam a luz nascente, moldando sombras que se alongavam e se encurtavam em um jogo silencioso com o tempo. Entre as ondulações do deserto, falésias de arenito se erguiam imponentes, como sentinelas esculpidas pelo vento e pelos séculos. Suas superfícies rugosas contavam histórias que ninguém mais se lembrava de ouvir.
Abaixo, no vale protegido por essas muralhas naturais, Uruz começava a despertar. Do alto do palácio, Kiran observava a cidade emergir do torpor noturno. As construções de madeira e pedra revelavam-se à luz dourada, suas sombras se dissolvendo à medida que os primeiros habitantes ganhavam as ruas.
Lá embaixo, o velho mercador varria a entrada de sua loja, a aba do chapéu oscilando a cada movimento meticuloso. Crianças corriam descalças pelos becos estreitos, empurrando-se entre risadas enquanto seguiam para a escola. No mercado, carroças rangiam sobre as pedras irregulares, transportando víveres recém-chegados das fazendas ao redor. Homens e mulheres emergiam de suas casas, prontos para enfrentar mais um dia sob o sol impiedoso.
No saloon da esquina, os últimos jogadores da noite empilhavam fichas e moedas sobre a mesa, os rostos marcados pelo cansaço e pelo brilho incerto da esperança. O tilintar dos copos misturava-se ao barulho ritmado de um martelo golpeando ferro quente na oficina do ferreiro, um som que sempre anunciava o início de um novo dia.
Kiran inspirou fundo, absorvendo o cenário com um olhar atento. Tudo aquilo lhe era familiar, e ainda assim havia algo diferente naquela manhã. Uma inquietação persistente, um peso que não se dissipava. Seu olhar varreu o horizonte, buscando respostas nas cores da alvorada, mas encontrou apenas a inevitável ascensão do astro-rei, tingindo o mundo com sua luz incandescente.
O dever chamava.
Com um último olhar para a cidade, Kiran afastou-se da janela, sentindo o peso familiar da responsabilidade pousar sobre seus ombros. Era um fardo constante, tão presente quanto o sol que iluminava aquelas terras todos os dias. Sua gente precisava dele. Precisava de alguém que mantivesse a esperança viva, mesmo quando ele próprio não tinha todas as respostas.
Virou-se e atravessou o aposento com passos decididos. O chão de pedra fria rangia sob suas botas enquanto ele ajustava a gola da camisa. Com gestos precisos, apertou o cinto ao redor da cintura, sentindo o peso reconfortante da lâmina presa ao couro. Por fim, estendeu a mão até a mesa e pegou o chapéu de couro e com um movimento fluido, colocou-o sobre os cabelos rebeldes, sombreando ligeiramente o olhar.
Kiran fechou a porta de seus aposentos e seguiu pelo longo corredor iluminado pelos primeiros raios da manhã. O eco de seus passos se espalhava pelo palácio ainda silencioso, onde apenas alguns criados começavam suas tarefas diárias. O ar carregava um leve frescor matinal, contrastando com o calor iminente que logo tomaria Solaria.
Ao descer os degraus que levavam ao salão de entrada, sua atenção foi imediatamente capturada por uma figura já à sua espera. Encostada em uma das colunas douradas, com os braços cruzados e a postura relaxada, Ut, a Estrela da Manhã, aguardava-o com a paciência de quem já sabia que ele viria. Seus olhos afiados o estudaram por um instante antes que um leve sorriso surgisse em seus lábios.
— Kiran — saudou, inclinando levemente a cabeça. — Não é meu dever repreendê-lo, Vossa Alteza, mas está atrasado. Um minuto, para ser exata. Os outros já foram antes de você.
O tom era neutro, sem traço de censura, mas a pontualidade sempre fora uma marca de Kiran, e mesmo um atraso insignificante soava como um desalinho em sua própria disciplina. Ele exalou suavemente, passando a mão pela nuca.
— Que bom que já foram. Assim pouparam o tempo de ver a vergonha que sou.
Ut arqueou uma sobrancelha, divertida, mas nada respondeu. Em vez disso, deu um passo adiante e ajustou a insígnia dourada presa à jaqueta dele.
— Tem andado desleixado.
— Talvez eu realmente não esteja bem. Vamos antes que esse atraso se torne um hábito.
Ut não disse nada. Apenas assentiu e avançou primeiro.
Seu visual era uma mescla de imponência e elegância. O chapéu de couro inclinava-se levemente sobre a testa, conferindo-lhe um ar de forasteira do Velho Oeste. Sobre os ombros, a blusa esvoaçante dava-lhe um aspecto gracioso, enquanto as pistolas bem presas à cintura lembravam a todos que sua habilidade como atiradora era incomparável.
Com gestos experientes, Ut deslizou os dedos sobre a maçaneta dourada, sentindo a textura familiar sob o toque. A porta se abriu sem esforço, como se saudasse a guardiã matutina.
O sol já dominava os céus, espalhando seus raios pelo vale que ainda despertava. Kiran cerrou os olhos por um instante, permitindo que a luz quente beijasse sua pele. O calor suave dissipava parte do cansaço acumulado pela insônia da noite anterior, como se o próprio astro lhe concedesse um novo alento. Respirou fundo, absorvendo o aroma do deserto misturado com o frescor da manhã, antes de dar seu primeiro passo para fora.
Com um leve aceno de cabeça, despediu-se de Ut e atravessou as imponentes portas. Kiran parou no topo da escadaria, permitindo-se um instante para observar a capital estendendo-se abaixo de si.
Dali de cima, Uruz parecia pequena, quase pacífica. Mas Kiran sabia que, entre aquelas vielas, histórias se desenrolavam, esperança e desespero se cruzavam, promessas eram feitas e quebradas, e a luta pela sobrevivência nunca cessava.
Inspirou fundo. Depois, sem mais hesitar, desceu os largos degraus da escadaria. Era hora de enfrentar o que quer que o destino reservasse.
Seu dever como Guardião de Solaria ia muito além da lâmina e do gatilho, era preciso liderar, decidir, carregar nos ombros o peso de uma paz conquistada por uma Era de gerações mantida à custa de vigilância constante. Mas, à medida que avançava pela capital, Kiran sentia esse peso mudar de forma, transformar-se em algo sufocante. Não era mais apenas uma responsabilidade, era um fardo invisível, uma sombra agarrada à sua alma, como um parasita silencioso que se alimentava de cada pensamento seu.
O dia se desenrolava num ciclo previsível, uma rotina que ele já conhecia de cor. Em cada vilarejo que passava, parava para ouvir as queixas dos moradores, reclamações sobre colheitas castigadas pela seca, disputas por terras, dificuldades na distribuição de mantimentos. Ele ouvia. Respondia. Prometia soluções. Mas, a cada conversa, sentia sua paciência escoar como areia fina entre os dedos.
O que antes lhe parecera um propósito agora soava como um eco distante.
A guerra havia terminado, e com ela, a adrenalina dos combates, a urgência das decisões, a brutalidade do campo de batalha. Antes, cada dia era uma luta para sobreviver, cada escolha carregava o peso da vida e da morte. Agora, a paz que ele ajudara a construir o deixava preso em um ciclo morno e imutável.
Solaria continuava bela, dourada sob a luz escaldante do meio-dia. Mas, aos olhos de Kiran, tornava-se cada vez mais uma miragem, intocável, etérea, incapaz de preencher o vazio crescente dentro dele.
Por quanto tempo mais ele poderia suportar aquela rotina?
Ou, pior ainda...
Por quanto tempo ainda conseguiria ser um guardião?
A pergunta pairou no ar, sem resposta.
Mas, no fundo, ele já sabia.
O vento quente serpenteava entre as rochas, levantando redemoinhos dourados que dançavam por um breve instante antes de se dissiparem no ar seco. O único som além do próprio vento era o ritmo cadenciado dos cascos de Ouro, seu corcel dourado, golpeando o solo rachado. Esse som era sua âncora na realidade, até que, de repente, cessou por um instante.
Ouro bufou, as narinas dilatando enquanto farejava algo invisível. Suas orelhas apontaram para frente, rígidas como lâminas recém-forjadas, e todo o seu corpo enrijeceu sob a sela. Não era um medo comum, mas um alerta instintivo, treinado por anos ao lado de seu cavaleiro.
Kiran imediatamente esticou a coluna, os olhos varreram o horizonte com precisão. O deserto sempre fora silencioso, mas naquele momento, o silêncio carregava algo diferente, uma promessa velada, uma tensão crescente, como se o próprio mundo prendesse a respiração.
O primeiro aviso veio como um arrepio na espinha, um sinal que não podia ser ignorado. Algo estava errado.
O céu, límpido até instantes atrás, começou a se obscurecer de forma estranha. Não era o avanço natural de nuvens de tempestade, e sim uma escuridão espessa que se espalhava como tinta dissolvida na água, engolindo a luz do sol pouco a pouco. O calor sufocante do deserto deu lugar a um frio cortante e sem origem. O vento, antes uma carícia morna sobre sua pele, tornou-se um uivo feroz, carregado de sussurros indistintos, como se algo antigo despertasse nas entranhas da terra.
Ouro relinchou, inquieto, os músculos retesando-se como cordas esticadas. Kiran não precisou de mais sinais, ele já tinha visto aquilo antes. E sabia o que viria a seguir.
Com um puxão firme nas rédeas, fez Ouro girar sobre as patas traseiras.
— Vamos!
O corcel obedeceu sem hesitar, disparando em meio à areia solta, suas patas levantando nuvens de poeira conforme tentavam escapar. O vento se intensificou, trazendo consigo um zumbido profundo, quase sobrenatural, que vibrava no ar como um trovão distante.
Kiran mirou o vilarejo mais próximo no horizonte, forçando Ouro a ir mais rápido, a cortar o deserto com a velocidade de um raio. Mas, mesmo que voassem sobre a areia, ele sabia que não seriam rápidos o bastante.
A escuridão já os alcançava.
Um rugido profundo rasgou o ar, reverberando pelo solo como um trovão sufocado O chão tremeu sob os cascos de Ouro, e Kiran ouviu os gritos dos aldeões enquanto corriam, buscando abrigo onde pudessem. Portas se fechavam às pressas, crianças eram puxadas para dentro de casas, e os soldados de Solaria já se posicionavam, armas erguidas, prontos para enfrentar o que quer que estivesse vindo.
Então, ele os viu.
Do solo seco e rachado, formas distorcidas começaram a emergir, como sombras se desprendendo da própria terra. Eram criaturas humanoides na silhueta, mas inumanas em cada detalhe. A pele negra reluzia à luz do dia como carvão polido, os olhos amarelos brilhavam como brasas vivas, e seus corpos pareciam se dissolver e se recompor na penumbra da tempestade que se aproximava. As garras eram longas, afiadas como lâminas, e os dentes irregulares lembravam os de feras selvagens. Sobre as costas, asas membranosas se estendiam, tremulando contra o vento carregado de areia. Suas presenças traziam um frio impossível ao ar quente do deserto, como se a luz do astro rei fosse devorada por sua existência. Eram pesadelos feitos carne e sombra.
Ouro relinchou em pânico, empinando-se com força. Kiran agarrou as rédeas, controlando o animal enquanto seus próprios instintos gritavam alerta. A adrenalina disparou em suas veias. Não havia tempo para hesitação.
Com um movimento preciso, sacou a pistola do coldre. O metal brilhou, refletindo um lampejo dourado antes que o primeiro disparo cortasse o ar.
O tiro ressoou, e um projétil de energia dourada atravessou a névoa negra que envolvia as criaturas. O impacto atingiu o peito de um dos monstros, e, por um instante, sua forma se contorceu em meio à luz antes de explodir em um turbilhão de faíscas.
Mas a vitória durou apenas um segundo.
Mais sombras emergiram do solo, multiplicando-se como um enxame.
Kiran girou a pistola e disparou em rápida sucessão. Cada tiro encontrava um alvo, e cada monstro atingido se desfez em clarões dourados. Mas não importava quantos caíam, outros tomavam seus lugares, avançando cada vez mais rápido, cada vez mais vorazes.
Um rugido ensurdecedor ecoou quando uma das criaturas disparou das sombras, garras estendidas. Kiran puxou o gatilho, mas a besta se moveu rápido demais, desviando-se no último instante. Um golpe certeiro rasgou a manga de sua jaqueta, um ardor quente marcou sua pele por baixo do tecido. Ele puxou as rédeas com força, fazendo Ouro girar sobre as patas traseiras para evitar um ataque fatal.
O vilarejo mergulhara no caos.
Entre as vielas estreitas, mais soldados de Solaria surgiram, suas armas crepitando com rajadas luminosas que cortavam a escuridão. Os disparos iluminavam as ruas com lampejos dourados, mas os inimigos eram uma maré incessante. Para cada criatura abatida, outras duas se erguiam das sombras, e cada vitória parecia uma ilusão passageira diante da ameaça crescente.
Kiran não podia se dar ao luxo de lutar do alto de sua montaria. Com um movimento ágil, saltou de Ouro e aterrissou com firmeza sobre o solo arenoso. Guardou a pistola no coldre e sacou a lâmina curta presa ao cinturão.
Uma das criaturas avançou contra ele. Suas asas bateram com violência, impulsionando seu corpo esguio e mortal pelo ar. Kiran esperou até o último segundo e então girou sobre os calcanhares, desviando-se do golpe. O vento do ataque roçou sua pele como navalhas, mas ele já estava em movimento, a lâmina descrevendo um arco reluzente.
O corte abriu um sulco profundo na lateral da criatura, e um brilho dourado irrompeu de seu interior. A besta soltou um grito cortante, e sua forma se desfez em cinzas brilhantes que o vento rapidamente levou.
O cheiro espesso de poeira e enxofre impregnava o ar, misturando-se ao frio cortante da noite passageira. O estampido das pistolas de luz ecoava ao longe, pulsando em um ritmo caótico, como um tambor de guerra.
Kiran não tinha tempo para respirar. Seus olhos se moviam de um lado para o outro, analisando os arredores com precisão calculada. Foi então que ele sentiu. Aquela mesma inquietação.
— Príncipe? — a voz soou perto.
Seus olhos varreram o horizonte, e uma silhueta surgiu à distância.
A figura avançava com passos rápidos e firmes, cortando a penumbra como uma lâmina. Mesmo antes de enxergar o rosto, Kiran reconheceu a postura, o modo de andar.
Hamal.
O conselheiro surgiu do breu com a expressão tensa, os olhos fixos nele. A camisa branca, manchada de areia e suor, estava desabotoada no colarinho, e os suspensórios escuros contrastavam com o couro surrado da calça. Os cabelos claros, antes bem presos, agora se soltavam em fios desalinhados pelo vento, e duas mechas caíam sobre seu rosto marcado pela poeira. A barba rala acentuava o cansaço em seu semblante, mas o olhar continuava afiado, atento a qualquer ameaça.
Hamal parou a poucos passos, os ombros rígidos como se esperasse ser atacado a qualquer momento.
— Hamal? — Kiran franziu o cenho. — Você não devia estar na capital?
A respiração do conselheiro era curta, ofegante. Sua mão pousou instintivamente sobre o cabo da pistola presa ao cinto antes de responder.
— Quando a escuridão cai, estou em todo lugar. — Ele sorriu de canto, fazendo uma reverência exagerada.
Mas Kiran não se distraiu com a leveza no tom. Hamal sempre encontrava humor, mesmo nos momentos mais sombrios, mas algo na rigidez de seus ombros denunciava urgência.
— Eu estava indo reforçar a segurança no Portal.
O nome caiu sobre Kiran como um trovão. O Portal. A passagem entre Solaria e o resto do mundo mortal. O aperto em seu peito foi imediato.
— O que aconteceu? Onde estão os outros soldados?
Hamal abriu a boca para responder, mas o destino não lhes deu tempo.
Um vento frio cortou o espaço entre eles. No segundo seguinte, disparos explodiram à distância, feixes dourados cortando a escuridão como lâminas incandescentes. As sombras se agitaram por um instante, revelando os contornos disformes das criaturas que assolavam o vilarejo. O rugido dos monstros se misturou aos gritos dos aldeões e ao estampido das armas, transformando-se em uma única sinfonia de caos.
Kiran apertou os punhos.
— Fique e ajude quem puder. Eu cuido do Portal.
Hamal arregalou os olhos, prestes a protestar, mas Kiran já se movia.
Com um salto ágil, montou em Ouro, que relinchou impaciente. Antes que o conselheiro pudesse insistir, Kiran puxou as rédeas, e o corcel disparou pelas ruas de terra batida, levantando poeira em seu rastro.
Atrás dele, Hamal gritou algo. Mas o vento nos ouvidos de Kiran levou suas palavras para longe.
O Portal de Solaria não era apenas uma passagem entre reinos. Era o elo entre mundos, sustentado pelo coração fragmentado de uma estrela. Sua luz pulsava entre os dois pilares colossais de pedra vermelha, uma energia dourada fluindo como se o próprio sol respirasse dentro daquela estrutura. As inscrições ancestrais, entalhadas na base, brilhavam com um fulgor inquieto, vibrando com o fluxo instável de poder. Sem o Portal, Solaria estaria isolada. E era exatamente isso que seus inimigos queriam.
Quando Kiran finalmente chegou ao local, um frio cortante subiu por sua espinha.
A batalha já estava perdida antes mesmo que ele chegasse.
Corpos de soldados solarianos jaziam espalhados pela areia, alguns ainda agarrando suas armas, outros tombados sobre a poeira que rapidamente os engolia. Os que restavam resistiam com tudo o que tinham, disparando contra as criaturas das sombras que escalavam os pilares com garras afiadas e movimentos rápidos como serpentes. Seus olhos, de um amarelo flamejante, brilhavam com um ódio primitivo, famintos por destruição.
A estrutura sagrada tremia. Cada golpe das garras nas inscrições ancestrais fazia a luz do Portal vacilar. Pequenas fissuras se espalhavam pela pedra, e Kiran soube, num relance, que estavam perdendo tempo. Se aquelas criaturas quebrassem o selo de energia, não haveria como consertar.
Ele puxou as rédeas com força e saltou da sela antes mesmo de Ouro parar. O cavalo relinchou, seus olhos refletindo o fogo da batalha, mas Kiran já estava em movimento.
A pistola saiu do coldre em um movimento fluido.
O primeiro tiro explodiu no peito de uma das criaturas, abrindo uma fenda de luz em seu corpo sombrio antes de reduzi-la a cinzas. A segunda mal teve tempo de virar os olhos amarelos na direção dele antes que outro disparo perfurasse seu crânio, desintegrando-a no ar.
Mas elas não paravam.
A escuridão se contorcia ao redor do Portal, se multiplicando, se alimentando do próprio medo que semeavam. Mais delas emergiram das sombras, deslizando pela areia como feras que haviam acabado de farejar uma presa fácil.
Kiran avançou sem hesitar.
— Recuem! — Sua voz cortou o caos como um comando inegável. — Eu cuido disso aqui!
Os soldados hesitaram, alguns ainda segurando suas armas com mãos trêmulas, os olhos arregalados pelo horror da batalha. Mas a voz do guardião não deixava espaço para dúvidas. Um a um, os feridos começaram a recuar, buscando abrigo atrás das ruínas espalhadas pela areia. Os que ainda podiam lutar mantiveram-se prontos, mas era evidente que esperavam que ele resolvesse aquilo.
Kiran avançou, posicionando-se entre o Portal de Solaria e as criaturas sombrias. Seu corpo estava tenso, vibrando com a adrenalina que antecedia o combate. Seus dedos se ajustaram ao gatilho, firmes, e sua respiração tornou-se medida, calculada. O farfalhar da areia e o uivo do vento se misturavam aos ruídos do campo de batalha, mas ele ouvia apenas o silêncio que precedia o primeiro disparo.
E então, atirou.
O estampido ecoou entre os pilares. A bala de luz cortou o ar e se alojou no peito da criatura mais próxima, reduzindo-a a um punhado de cinzas reluzentes. Kiran girou sobre os calcanhares, desviando das garras que tentavam agarrá-lo, e disparou novamente. Outro monstro tombou, o brilho amarelado de seus olhos se apagando.
Mas eles não paravam. Eram muitos. Cada um que caía dava lugar a outro, surgindo das sombras como se fossem parte do próprio deserto. Eles rosnavam, cercando-o, movendo-se com rapidez e fome. Seus olhos flamejantes refletiam a luz do Portal, e Kiran viu neles não apenas fúria, mas propósito.
Eles estavam ali para destruir. Para cortar Solaria de seus aliados.
Uma fera saltou em sua direção. Kiran se abaixou no último instante, sentindo o vento frio das garras passando rente ao seu rosto. Rolou pela areia, disparando de costas para atingir o inimigo antes que ele pudesse reagir. O corpo da criatura explodiu em poeira dourada. Ele se ergueu de imediato, recarregando a pistola com um movimento ágil e automático.
Um rugido ecoou pelo vale, profundo e feroz como o estouro de uma guerra. A tempestade de areia pareceu vacilar por um instante, como se algo maior estivesse prestes a emergir de seu núcleo.
E então ele apareceu. Uma criatura colossal, negra como obsidiana polida, os olhos brilhando como fogo líquido. Suas garras eram lâminas curvas, prontas para despedaçar qualquer coisa em seu caminho. Mas o que fez o estômago de Kiran se revirar não foi seu tamanho, nem a aura opressora que emanava de seu corpo.
Foi a forma como ignorou tudo ao redor. Os soldados. As batalhas. Os mortos. A fera fixou seus olhos ardentes no Portal e avançou.
Kiran não hesitou e disparou contra ela.
A bala riscou o ar, brilhando como um fragmento de estrela. Mas, no último instante, a criatura girou, desviando com uma agilidade impossível para seu tamanho. Em um único movimento, girou sobre as patas traseiras e atacou.
Kiran não teve tempo de reagir.
As garras da criatura atingiram seu peito com uma força brutal. O impacto lançou-o para trás, o ar escapando de seus pulmões em um baque seco. O mundo girou ao seu redor. O céu e a areia se misturaram em um borrão dourado.
Ele atingiu o chão com força. A dor explodiu por seu corpo, mas a batalha ainda não havia acabado.
Forçou-se a rolar para o lado, escapando por um fio de um segundo golpe que teria atravessado sua carne. A areia ao seu lado foi rasgada como seda, criando uma fenda onde antes estava seu corpo.
Kiran se ergueu num salto, engolindo a dor. Seus olhos fixaram-se na fera, que agora o encarava diretamente.
Inteligente. Rápida. Mortal.
Ele mirou com precisão. Esperou. Contou os segundos entre um movimento e outro. Quando a criatura flexionou os músculos para atacar de novo, Kiran atirou.
A bala de luz voou certeira, atingindo a lateral de sua cabeça. Cambaleou para trás, balançando a cabeça como se tentasse se livrar da dor. Mas não caiu. Nem recuou. Pelo contrário, avançou com mais fúria.
Kiran tentou esquivar-se, mas foi lento demais.
As garras escuras atingiram seu peito mais uma vez, desta vez o agarrando com força. Ele sentiu o aperto esmagador contra seu corpo, os dedos da fera se fechando como ganchos ao redor de seus ombros. A dor irradiou por sua espinha, mas não houve tempo para processá-la.
Porque, no instante seguinte, a criatura saltou e Kiran foi arrastado junto. O Portal brilhou em um clarão intenso, engolindo os dois. A última coisa que viu foi o desespero nos olhos dos soldados, seus gritos se dissolvendo no vórtice de luz.
...***...
Atravessar o Portal foi como ser arremessado para dentro de uma tempestade sem vento.
Kiran sentiu o corpo ser puxado e torcido, como se múltiplas forças invisíveis lutassem para despedaçá-lo. A gravidade oscilava, ora o prendendo, ora o lançando para um vazio onde não havia cima nem baixo, apenas um clarão sufocante que queimava por trás de suas pálpebras fechadas.
Então, tudo colapsou.
O impacto veio como um raio.
O choque brutal contra uma superfície dura arrancou-lhe o ar dos pulmões. A dor explodiu por seus ossos, como se tivesse despencado do alto de um penhasco. Ele ficou ali, deitado, o peito arfando, tentando desesperadamente puxar o fôlego de volta. O mundo girava ao seu redor em um turbilhão nauseante.
Por um momento, não soube se ainda estava vivo. Mas então, o rugido veio. A fera também havia atravessado.
O instinto agiu antes da razão. Kiran se forçou a se mover, puxando a pistola com dedos trêmulos. Ainda caído, ergueu a arma e disparou.
O tiro cortou o ar, um raio dourado rompendo a penumbra do novo mundo. A bala desta vez atingiu o peito da criatura.
O monstro recuou, seu corpo convulsionando quando a luz o consumiu de dentro para fora. Suas formas grotescas se despedaçaram em cinzas, dissolvendo-se no ar como névoa ao amanhecer.
E então, o silêncio caiu. Um silêncio opressivo, tão repentino que pareceu ensurdecedor.
Kiran permaneceu imóvel, sentindo o próprio coração martelar contra as costelas. Sua respiração veio curta, irregular, como se cada fôlego fosse arrancado à força.
Lentamente, apoiou-se nos cotovelos e ergueu o olhar. O Portal havia sumido. O deserto de Solaria, o calor abrasador, a areia varrida pelo vento… tudo havia desaparecido.
No lugar onde antes havia terra seca e rochosa, agora se estendia um mar vasto e silencioso diante de si. Suas águas eram tão calmas que pareciam um espelho líquido, refletindo um céu cinzento e imóvel, sem sol, sem nuvens, sem vento.
Era como estar preso dentro de um quadro esquecido.
Movimentos sutis sob a superfície chamaram sua atenção. Pequenos peixes nadavam lentamente, seus corpos quase translúcidos, como se pertencessem a um mundo fora do tempo.
Kiran se forçou a se levantar.
As pernas vacilaram, o corpo ainda sentindo o impacto da travessia, mas ele se manteve de pé. Precisava entender onde estava.
Atrás de si, erguiam-se os restos de uma ponte colossal. Sua estrutura quebrada desaparecia no horizonte enevoado, conectando-se a um continente distante. Além da névoa espessa, conseguiu distinguir uma praia de areia branca e, mais adiante, um porto silencioso, onde embarcações antigas balançavam suavemente, vazias e esquecidas.
Um calafrio percorreu sua espinha.
— Onde diabos eu estou?
Com um suspiro tenso, guardou a pistola no coldre. O peso familiar da arma contra seu corpo era uma das poucas certezas que ainda restavam.
Ele olhou ao redor mais uma vez, como se na segunda ou terceira tentativa o cenário fosse fazer mais sentido. Mas tudo continuava estranho demais, quieto demais. O mar se estendia à sua frente como uma planície líquida, imóvel sob um céu sem sol.
Atrás dele, os restos de uma ponte colapsada avançavam até desaparecer na névoa. A estrutura de pedra parecia ter pertencido a uma era perdida, como se ninguém a atravessasse havia séculos. Talvez milênios. A única direção possível era a praia à frente.
Ele apertou os punhos, sentindo o corpo ainda dolorido da queda, e deu o primeiro passo. Seja lá onde estivesse, não pretendia ficar parado para descobrir da pior forma.
A cidade parecia sussurrar histórias esquecidas. O som dos passos de Kiran ecoava pelas ruas desertas, um ruído solitário que contrastava com o silêncio opressivo ao seu redor. O chão era feito de pedras salientes, gastas pelo tempo, e cada uma rangia sob o peso de suas botas.
As construções ao redor eram sombras do passado, cascas vazias de uma era há muito enterrada. Casarões desmoronados espreitavam-no com janelas escuras, como órbitas vazias de crânios antigos. Algumas portas, já sem vida, pendiam de dobradiças enferrujadas, balançando ao menor sopro do vento. Mas não havia vento. O ar era denso, parado. Não havia sinais de vida. Nenhuma pegada na poeira. Nenhum vestígio de que alguém tivesse passado por ali em muito tempo.
Kiran apertou o passo, seus sentidos aguçados para qualquer movimento. Cada sombra parecia esconder algo à espreita, e seu instinto gritava para que não baixasse a guarda.
O caminho o levou até uma praça circular. No centro, um chafariz de mármore negro jorrava água límpida, um detalhe vivo em meio à decadência. A superfície do líquido ondulava suavemente, refletindo um céu pesado e sem cor.
Kiran se aproximou, espiando o próprio reflexo distorcido no espelho prateado da fonte. Seu rosto parecia mais cansado do que se lembrava, a poeira da batalha ainda impregnada em sua pele. Seus olhos estavam mais fundos, mais sombrios.
Então, algo chamou sua atenção. Além das construções destruídas, erguia-se um castelo. Imponente. Solitário.
Suas torres perfuravam o céu como lanças erguidas contra os deuses. Suas muralhas de pedra resistiam ao tempo, cobertas por trepadeiras que escalavam suas superfícies como serpentes adormecidas. As incontáveis janelas pareciam observar Kiran de volta, escuras e vazias, como olhos sem alma.
O sol afundava no horizonte, lançando sombras longas e traiçoeiras sobre as ruas. Um arrepio percorreu sua espinha. Ele estava sozinho em um território desconhecido, sem pistas de como retornar a Solaria. E a noite estava chegando. Aquilo certamente seria um grande problema.
O coração de Kiran batia descompassado quando ouviu, incerto se era real, o som de vozes distantes. Baixas. Murmúrios entrelaçados com o vento inexistente.
Kiran se virou, os sentidos em alerta.
No início, pensou que fosse um truque da mente. Mas então as sombras começaram a se mover.
Nos becos, nas esquinas das ruas, nos vãos das portas abandonadas… as trevas ganharam forma. Figuras humanoides se erguiam do chão, seus corpos primeiro indefinidos, como neblina sólida. Mas conforme a noite caía sobre a cidade, suas formas se tornavam mais nítidas. Eram seres de todo tipo. Alguns vagamente humanos, outros deformados além da compreensão. Alguns deslizavam sobre o chão, seus pés nunca tocando a pedra. Outros cambaleavam, corpos retorcidos e membros alongados, movendo-se como marionetes cujas cordas haviam sido cortadas.
E todos murmuravam.
Sussurros em línguas esquecidas, palavras que não deveriam ser pronunciadas. O som se misturava no ar, formando um coral dissonante que fazia os pelos da nuca de Kiran se arrepiarem.
Ele recuou um passo, a mão instintivamente pousando sobre o cabo da pistola.
Mas os espectros não pareciam notá-lo.
Eles se reuniam na praça, deslizando até o centro da praça como se estivessem presos a uma dança ritualística. O que antes era apenas um cenário morto agora pulsava com uma energia estranha, algo entre o real e o delírio.
Mais e mais figuras emergiam. Seres translúcidos, almas penadas envoltas em um halo cinzento, flutuavam pelas vielas. Algumas ainda tinham rostos humanos, recém-arrancados da mortalidade. Outras eram apenas fragmentos de ossos e carne apodrecida, levados pelo vento da noite. Havia também aqueles que não eram nem homens, nem feras. Criaturas híbridas, amaldiçoadas, cujos olhos ardiam como brasas no vazio crescente da cidade.
Kiran sentiu o pânico crescer em seu peito. Ele não deveria estar ali.
A multidão se fechava ao redor dele, empurrando-o sem que percebesse. Ele tentou se mover, mas foi arrastado. E então, colidiu com algo sólido. Ele se virou e congelou por um instante.
Diante dele, um esqueleto colossal se erguia. Os ossos eram negros como carvão, desgastados pelo tempo. O crânio imenso se curvou para observá-lo, e, quando Kiran encontrou suas órbitas vazias, dois brilhos avermelhados se acenderam, como brasas recém-alimentadas.
— Olha por onde anda, miserável! — a criatura rosnou, seus ossos rangendo como correntes enferrujadas.
Kiran não conseguiu responder.
O gigante se inclinou mais perto, estreitando os olhos brilhantes. Um lampejo de surpresa substituiu a raiva inicial.
— Espere um momento…Quem é você?
Kiran sentiu o coração disparar.
Aos poucos, o murmúrio da multidão cessava. Criaturas de todas as formas e tamanhos voltavam seus rostos disformes para ele, olhos vazios cheios de uma atenção perigosa.
Então, uma voz rompeu o silêncio:
— Ele é um solariano!
O efeito foi instantâneo.
Um rugido selvagem explodiu da horda, um som de ódio, de fúria. As sombras avançaram, cerrando-se ao seu redor como um mar revolto. Kiran não esperou para ver o que aconteceria.
Sacou a pistola e disparou para o alto. O estrondo ecoou pela praça, fazendo os espectros hesitarem por um breve segundo. Mas não por muito tempo. A horda investiu. Kiran girou nos calcanhares e correu. Atrás de si, o som da perseguição crescia. Gritos bestiais, o farfalhar de asas e o arrastar de corpos se misturavam em um coro de pesadelos.
Seu coração martelava. Seus pulmões queimavam. Mas ele não podia parar.
A cidade era um labirinto, um emaranhado de becos sem saída e edifícios tombados. Kiran não tinha tempo para planejar uma rota. Apenas corria, desviando-se de sombras que se esticavam para agarrá-lo. A cada esquina, sentia que a perseguição se tornava mais feroz. E sabia que, se parasse, seria o fim.
...***...
O lago cintilava sob o abraço morno do crepúsculo. As águas, serenas como um espelho, refletiam os últimos raios dourados do sol poente, mesclando-se ao azul profundo que anunciava a chegada da noite. Uma leve brisa serpenteava sobre a superfície, fazendo as ondas suspirarem suavemente contra a margem. O ar era fresco, carregado com o cheiro terroso das árvores próximas e o perfume úmido da vegetação aquática.
Entre os juncos, Munihr observava o lago em silêncio. Seus olhos vagavam pelo reflexo distorcido do céu, mas sua mente estava distante, perdida em pensamentos que iam e vinham como as ondulações na água. Havia algo de reconfortante naquela quietude, uma paz rara, intocada pelas preocupações do mundo.
Então, a tranquilidade se rompeu. Uma vibração sutil percorreu a água, um distúrbio invisível que quebrou a harmonia perfeita do lago. Munihr sentiu o impacto antes mesmo de vê-lo, como um presságio murmurando em seus ossos. Seu olhar afiado endureceu. Algo estava errado.
Antes que pudesse decifrar o que era, um movimento entre as árvores anunciou a chegada de alguém. Folhas secas se agitaram, e passos calculados pisaram sobre o solo macio. Um dos servos emergiu da vegetação, movendo-se com cautela, como se temesse interromper a contemplação de seu senhor.
Mas a tensão em seu semblante já entregava a gravidade da mensagem que trazia.
— Senhor…Um intruso está causando tumulto na cidade.
Munihr virou-se lentamente.
— Um intruso?
— Um solariano.
O nome caiu como uma pedra na água, enviando ondas invisíveis através da mente de Munihr.
— Os habitantes o descobriram… — continuou o servo, hesitante. — E querem matá-lo.
Um silêncio pairou entre eles.
Munihr ergueu uma sobrancelha, intrigado.
— Um solariano? Faz muito tempo desde que um dos seus veio parar aqui…
Se um solariano cruzara o limite entre os mundos, havia algo maior em jogo. O equilíbrio estava mudando, forças estavam em movimento. E agora, uma cidade inteira clamava por sangue.
Munihr permaneceu quieto por um momento, absorvendo a notícia. A noite se adensava ao seu redor, e o tempo para agir diminuía. Por fim, ele tomou sua decisão.
— Eu mesmo irei recebê-lo.
O servo hesitou.
— Tem certeza, senhor? Ele pode ser perigoso.
Munihir sorriu.
— Perigoso sou eu, meu amigo. E creio que nosso visitante terá pouco tempo para se preocupar comigo…
Com isso, ele se ergueu sem pressa, deu as costas para o lago, caminhando para longe da tranquilidade daquele refúgio. A noite já caíra. E com ela, o destino de Kiran estava selado.
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