Nunca é Tarde...
Capítulo 1
Natalie Moore resmungou consigo mesma pela terceira, quarta ou sei lá quantas vezes naquele dia. Isso por que ainda era só terça-feira e já estava de cabeça quente e estressada. Havia chegado atrasada para trabalhar e para sua sorte seu chefe não notou sua presença, mas os demais colegas já fizeram cara feia por isso. Seria dedurada a qualquer hora e torceu para que isso não acontecesse.
No dia anterior ela ficará até tarde conversando com sua melhor amiga que estava para se casar naquele fim de semana, e como toda noiva desesperada – Tess estava estressada, ansiosa e nervosa com os preparativos – e não pode negar que isso lhe atingia muito.
O que já era difícil, afinal ela era uma das madrinhas do casamento e ajudava no que podia a seu alcance, e claro. Ela era uma mulher muito ocupada, trabalhava quase doze horas por dia – o que era um saco – mas infelizmente tinha que manter suas contas em dia, não era um emprego dos sonhos, mas era melhor que nada.
Já fazia cinco anos em que entrará numa emissora de TV e pegará o jeito nas coisas por ali. Era para ser apenas um emprego temporário para ganhar experiência e meio que se tornou algo importante na sua vida. Havia se formado em publicidade propaganda, a intenção era terminar a faculdade e entrar numa empresa grande onde podia mostrar o seu talento – Não que ali não conseguia mostrar – mas sempre queria mais.
Não podia reclamar, conseguirá entrar naquela emissora com a ajuda de um amigo, e por fim acabou que ficando por todo esse tempo. Estava feliz por estar fazendo o seu trabalho perfeitamente com a ajuda de mais alguns colegas, é claro.
Já se passava das duas da tarde e precisava ir ao banheiro, mas a reunião não acabava nunca, e seu chefe ficava a olhando como se soubesse do seu atraso, para disfarçar o embaraço acabou que sorrindo para a pessoa que fazia seu mundo girar – pelo menos ela achava que sim – mas sua amiga Tess dizia que não, que aquele cara não era o seu mundo nem em outro planeta.
Leonardo Granger era o novo âncora do canal 34 e desde que entrará na emissora tivera uma queda por aquele homem, ele tinha um ar intelectual, jovem com seus trinta anos, bonito, alto e loiro. Léo tinha acabado de conseguir seu cargo tão desejado, há quase dois anos fazendo o roteiro e agora estava como principal.
E foi nesse dois anos atrás em que ambos estavam juntos. Léo era o namorado perfeito que ela desejará em sua vida. Ainda não moravam juntos, mas passavam a maior parte juntos no trabalho, depois saiam para jantar e faziam sexo no apartamento dele. Ele era reservado, e mesmo tentando dar dicas de poderem morar juntos ele vinha com outros assuntos que estava cedo para dar o próximo passo, antes da promoção dele que era ser o âncora do jornal e agora que ele conseguirá o sonho desejado, esperava que ele um dia a levasse ao altar.
Sonhara com isso a sua vida toda e esperava casar -se um dia. Mas pelo jeito que as coisas andavam, isso não iria acontecer. Convidará Léo para ir ao casamento de sua melhor amiga no fim de semana e até agora não obterá resposta do sim e talvez fosse por isso que estivesse tão estressada naquela semana.
Umedeceu os lábios nervosa, Léo simplesmente deu um sorriso de volta e se focou no falatório do chefe. Enquanto ela se ajeitou na cadeira horrível e suspirou totalmente desanimada, só se deu conta que estava de cara amarrada quando começou a enrolar o cabelo nas pontas do dedo – mania feia de tic tic nervoso – Tess odiava quando ela fazia isso, para sua sorte ela não estava ali.
- Ei... – Cindy Ramirez a cutucou com o cotovelo e fez cara de brava.
- Ah... o que foi? – Ela indagou num cochicho.
- Melhora essa cara.
- Ok.
Natalie se ajeitou novamente na cadeira horrível, e sorriu sem saber por que fizera aquilo, sentiu um arrepiou subir por sua nuca – o que também não entendeu – até notar que seu chefe estava atrás de si.
- Você está bem srta. Moore?
Ela hesitou antes de responder toda constrangida.
- Ah... sim, senhor.
- Não parece muito animada para participar da reunião, srta. Moore.
- Me desculpe, senhor. – ela disse e acrescentou logo em seguida. – Só tive um pequeno devaneio.
Ele forçou um sorriso. Seu chefe podia ser chato e egoísta, mas sabia que por todo aquele ar arrogante existia alguém que se importa com as pessoas.
- Quer compartilhar o seu pequeno... devaneio com o pessoal, srta. Moore?
Natalie olhou em volta toda nervosa, e por fim respondeu.
- Ah... não senhor.
- Então, pare de pensar e preste atenção na reunião. Aposto que não quer ir para o RH.
Ela fez careta de desgosto e mais nervosa ainda negou com a cabeça.
- Não, senhor.
- Ótimo. Isso serve para todos... nada de devaneio em minha reunião.
Ela suspirou e passou a prestar atenção na reunião que acabou dez minutos depois. Assim que estava levantando da cadeira, Cindy a fuzilou.
- Anda muito distraída, Natalie. Vai acabar perdendo o emprego por isso.
- Sinto muito.
- Foco, Natalie. – Cindy a alertou e se afastou.
Natalie assentiu e a observou. Não tinha uma reunião em que ela participava que não dava uma mancada, tentava evitar isso para não ter problema, mas era difícil evitar o inevitável.
Ao sair da sala de reunião, andou em passos largos para que ninguém viesse de encontro há ela pela mancada da reunião. Estava alcançado a sua sala quando o seu amigo Alan apareceu todo alegre.
- O que foi que aconteceu com você, garota?
Ela suspirou e sentou em sua cadeira. Sua sala era pequena, só tinha uma mesa com um computador, telefone e papéis que constantemente tentava tirar, mas parecia que procriava todo dia, uma prateleira com algumas coisas e alguns quadros em que ela fazia questão de manter, pois adorava em olhar para cada um. Tess lhe dava aquele mimos, pois sabia que gostava de coisas geek.
- Eu não sei exatamente... Eu estava pensando no casamento.
- Aí sério?
- Sim. A Tess está preocupada, a cerimonialista não está conseguindo fazer o que ela pediu.
Alan sentou na cadeira em frente à mesa e a encarou. Odiava quando ele fazia aquela cara de desgosto. Ele era tão charmoso, sempre bem arrumado, alto, moreno, olhos verdes e musculoso. Só não conseguia entender por que homens como ele ainda se encontravam solteiros.
- Entendo que queira ajuda-la, mas o seu trabalho vem em primeiro. – Ele disse. – Você está se dando bem aqui...
- Eu sei.
- Tem o Leo.
- Eu sei.
- Tem a mim.
Ela sorriu.
- Eu sei.
- Então, tenha mais foco. O chefe liberou você por quatro dias e isso é bom.
- Pior que estou com medo dele mudar de ideia.
- Bobagem. A Tess já escolheu o vestido das madrinhas?
- Sim. Não curti muito a cor, mas não posso reclamar é o sonho dela.
Ele sorriu. Alan tinha um belo sorriso, só se incomodava com o aparelho que usava, era bem estranho para uma pessoa naquela idade ainda usar aparelhos.
- Você vai ficar linda no vestido.
- Você acha? – Ela perguntou levantando e indo até a prateleira onde deixará alguns bilhetes.
- Claro. Não sei por que não acredita quando falo que você é linda. – Ele falou fazendo corar. – Sou seu amigo, Nati.
- Eu sei. Eu não seria nada sem você, Alan.
- Não gosto de competir com a Tess.
Natalie o encarou sorrindo em deboche e o abraçou de um jeito estranho.
- Você e a Tess são tudo para mim.
Ele sorriu fazendo a se sentir boba. Foram interrompidos com uma batida na porta, era Cindy. Ambos se afastaram, mas Cindy não perdeu tempo em olhar para ambos suspeitando de alguma coisa.
- Interrompi alguma coisa?
- Não, de maneira nenhuma. – Ela respondeu. – Aconteceu alguma coisa?
- Não. Mas vim contar a novidade, vamos conseguir uma entrevista exclusiva com a... Callie Space.
- Se está brincando? – Alan indagou chocado ajeitando a roupa, como se a famosa estivesse ali.
- Nossa! Isso é incrível! – Ela tentou não ser irônica.
- Sim.
Natalie sabia que estavam a meses tentando convencer a tal Callie Space lhe fazerem uma entrevista no programa em que Cindy literalmente fazia parte, ela era tipo a redatora do programa. E aquela mulher não era nada legal – Não sei por que o interesse naquela famosa – tudo nela lhe irritava, sempre que a via na televisão, era grossa e egoísta com as pessoas ao redor – as vezes torcia para estar errada – mas nada a iria fazê-la mudar de ideia.
- E quando vai ser essa entrevista exclusiva?
- Semana que vem. Ela está viajando... – Cindy contou revirando os olhos. – Uma mulher muito ocupada.
Grande coisa, eu também era ocupada e não era tão importante assim, pensou com ela.
- Imagino. Bem, já que contou a novidade... preciso voltar ao trabalho.
- Está expulsando a gente?
Ela fez um bico e assentiu, dizendo.
- Foco gente. Preciso me focar no trabalho.
Ambos se entreolharam e sorriam concordando. E não demorou muito para que ambos saíssem de sua pequena sala. Maldita sala minúscula, ainda bem que não ficava tanto tempo por ali.
Aproveitou o tempo livre e ligou para Tess para saber sobre o andamento do casamento.
- E aí, como está amiga? – Ela indagou assim que sentou na sua cadeira e inclinou colocando os pés em cima da mesa.
Ela adorava fazer aquilo, mas era uma pena que se Léo entrasse naquele momento já iria olhar torto para ela.
- Eu estou bem... Mas o meu casamento não anda tão bem assim.
- Ah, Tess gostaria de estar aí... Mas o meu chefe só vai me liberar quinta-feira.
- Ainda bem, estou quase matando a minha cerimonialista. Ela está me deixando louca.
Natalie revirou os olhos.
- Ela tem sorte por eu não estar aí. – Ela disse. – Eu ia arrancar os olhos dela... não, pera aí. Eu ia esfolar ela viva.
Tentou ser mais convincente do mundo, mesmo sabendo que Tess não iria dar ouvido para nenhuma palavra sua, pois a conhecia muito e não iria fazer nada disso se estivesse por lá.
- Sei, você não mata nem uma mosca.
- Você me conhece, hein.
- Sou sua melhor amiga desde que tínhamos dez anos. – Tess falou. – Conheço tudo em você, Na.
Tess era a única que a chamava assim, além dos seus pais – é claro. Nem Léo a chamava daquele jeito, pois até achava melhor pelo menos não teria problemas futuros.
- Ok. Você venceu, eu só precisava saber do meu parceiro.
- O Léo não vem?
- Ele não respondeu o meu convite.
- Sério?
- É... Mas ele não é padrinho, é apenas um convidado.
Tess suspirou.
- Vai vir sozinha?
- Eu vou convencê-lo a ir ao casamento.
- Já disse para você que não gosto desse cara.
- Já sim.
- Ele é cínico... E se acha melhor do que todo mundo. – Tess comentou, quase se afundou na cadeira ao ouvir aquilo. – Só para constar, ele nem chega ao pés do Jared Padalecki loiro.
Natalie quis rir pelo comentário da amiga. Ela era apaixonada por aquele ator e desde que conhecerá Léo, achará semelhanças do ator nele, tirando o cabelo loiro e desde então não parou mais de dizer que ela tinha um Jared só para ela, e quando ele ouviu aquele comentário vindo da amiga começou a se achar mais ainda.
- Eu até concordo que ele não parece com o Jared, mas ele não é cínico.
- Você sofre de visão de ótica minha amiga. Ele não é tudo isso que você acha não. – Tess falou. – Mas, nosso coração é bobo e entendo isso.
Ela sorriu.
- Obrigada.
- E não vou negar que ele é bonito. De todos os seus namorados ele é o mais bonito.
- Ah sério?
- Sim. Amiga eu preciso desligar... tenho que terminar um serviço aqui... beijos.
Natalie se despediu da amiga e ao colocar o celular na mesa, uma batida na porta a assustou, e meio que acabou sorrindo quando viu a cabeça do seu namorado meio que para dentro.
- Oi.
- Oi. Não tem uma gravação para fazer?
- Sim. Mas eu tinha que conversar com você. – Ele disse entrando na sua pequena sala. – Não está ocupada, está?
Ela negou com a cabeça.
- Não.
- Sei que detesta falar sobre a gente aqui no serviço, então... queria te convidar para um jantar.
Natalie franziu cenho. Era ele que não gostava de falar sobre o relacionamento ali, nem todo mundo sabia sobre ambos, eram cautelosos em relação a isso – Léo odiava intimidades fora do limite – e ela odiava ter limites na intimidade. Nunca entendia sobre o que ele queria dizer que o que acontece entre um casal não podia ser exposto para as pessoas.
Hello! Ninguém mantinha relacionamentos escondido se não tivesse alguma coisa aí. As vezes se perguntava se ele tinha outra ou era gay como Alan dizia quase todo santo dia. Mas ele era bom fazendo sexo que até dúvida da sua insanidade.
Ela levantou-se sorrindo e foi até ele. Léo estava tão bonito, usando camisa azul com o colarinho aberto, blazer preto e calça social da mesma cor e o cabelo todo arrumadinho que agora estava curto. Olhando agora para Léo, quase concordou com Alan de que ele fosse gay.
Ohh não! Léo não era gay, era bom demais pra isso.
- Eu vou adorar em ir jantar hoje à noite.
- Ótimo. Marquei hora naquele restaurante que você gosta.
Ela bateu palmas que nem criança, quando ganhava o seu melhor presente, mas parou ao ver que Léo fazia careta. Ok, ela agia que nem criança as vezes e isso não agradava ninguém, nem mesmo seus pais.
- Eu vou adorar.
Léo sorriu e ia fazer menção de sair, mas ela não iria deixar que isso acontecesse. Tinha que saber se ele iria ao casamento com ela.
- Léo... antes que você saia. Você não me respondeu se vai ao casamento comigo?
Ele se voltou encarando-a.
- Hoje à noite a gente fala sobre isso.
- Ok.
- Essa é minha garota. – Ele disse e saiu o mais rápido possível.
Natalie ficou ali parada por um tempo até se dar conta que estava realmente bancando a idiota. Quem iria querer casar com um cara que tratava sua namorada daquele jeito. Léo era estranho, mas não podia julga-lo, ele tivera uma infância horrível, um pai que era viciado em drogas, uma mãe que sonhava com uma carreira de cantora, mas que acabou antes mesmo de começar e ele crescerá tentando ser alguém que seus pais nunca foram, que por fim conseguiu alcançar seus sonhos.
Ao contrário dela que tivera seus pais sempre por perto. Tivera uma ótima infância, uma adolescência para lá de chata e uma vida adulta feliz, quer dizer não era tão feliz assim. Mas tinha uma ótima vida, um apartamento bacana que agora dividia com Alan, depois que Tess saiu teve que arrumar alguém e Alan resolveu se instalar lá só por alguns dias e meio que acabou ficando por lá.
Não podia reclamar, ele ajudava muito com o aluguel e as despesas, só não gostava muito quando ele levava mulheres para lá e passava noites em claro ouvindo os barulhos horríveis que as mulheres produziam por lá. Como era reservada a isso, ia sempre para o apartamento de Léo. Diversas vezes queria dar o troco em Alan por isso, mas Léo nunca quis fazer sexo em seu quarto, pois dizia que não gostava de fazer isso quando se tinha um cara do lado.
Ah era uma desculpa atrás de outra. Aquilo a deixava estressada e irritada demais.
Suspirou e voltou a onde estava sentada, e pós a trabalhar. Por fim, acabou que terminando algumas coisas antes de ir até aonde seu namorado estava gravando. Ficou ali paradinha observando tudo, ele realmente era bom no que fazia, e ficava feliz por saber que seu namorado era alguém que conseguia alcançar seus objetivos e torcia para fazer o mesmo.
- Oi.
Natalie olhou para o lado e viu Layla Rodrigues uma mulher encantadora que estava sempre tentando conquistar Léo, era mais pelo dinheiro do que pelo jeito dele – isso por que Léo não era tão bem sucedido – por enquanto. Mas não tinha medo dela, afinal Layla tinha um jeito que muitos não teriam coragem de chegar perto dela, estava sempre falando sozinha ou até mesmo chegava a ser estranha que todo mundo dizia que ela era uma bruxa.
Ria consigo mesma quando diziam aquilo, mas olhando bem para ela agora, podia sim, dizer que ela podia ser realmente uma bruxa. Mas não seria sensato julgar as pessoas sem ao menos conhecê-las.
- Oi.
Layla forçou um sorriso.
- Quem diria, ele ali... sendo o âncora principal do jornal.
- Ele batalhou para isso.
- Tem certeza disso.
Natalie encarou-a.
- O que quer dizer com isso?
- Acho que você não conhece muito bem o seu... namorado.
Ela franziu o cenho, confusa. Como ela sabia sobre ambos?
- Nós não...
- Ah não venha dizer que não sabemos sobre vocês dois. – Ela sorriu cruzando os braços acima dos seios. – Todo mundo sabe, só disfarçam.
- Nós não...
- Não menti para si mesma, Natalie. – Ela falou. – Sei o que acontece por tudo aqui, até mesmo o que vocês dizem de mim.
- Eu não falo que você é uma bruxa.
Layla sorriu em deboche.
- E se eu disser que sou.
- Você é? – perguntou sem querer, e a viu dar de ombros. – Desculpa, não quis ser...
- Tudo bem. Mas só pra te avisar, aquele homem não é o amor da sua vida.
Natalie a encarou e riu.
- Além de bruxa agora virou vidente.
- Só estou dizendo o que sinto. – Ela argumentou. – Não desperdice sua vida nisso. Tem um mundo lá fora que você deva conhecer...
- Eu não vou jogar tudo o que conquistei só porque você está sentindo isso... – Ela disse. – Sabe de uma coisa, eu sinto que você está com... inveja.
Layla balançou a cabeça.
- Tenho pena de você, sabia. – comentou, olhou para Léo e disse antes de se afastar. – Espero que você aproveite bem o casamento da sua amiga.
Natalie abaixou os ombros, só se deu conta que estava surpresa quando balbuciou alguma coisa que nem ela mesmo soube dizer. Estava chocada em como ela sabia que iria ao casamento de sua melhor amiga.
Aí merda! Ela era mesmo uma bruxa.
Coçou a cabeleira e sentiu todo o seu ser arrepiar-se. Teria que tomar um banho de sal grosso para espantar aquele agouro todo. Aproveitou que estava ali escondida, voltou para a sua sala e ligou para a sua amiga. Precisava conversar com alguém, alguém com uma voz familiar que a acalmava sempre.
Praguejou baixinho ao ouvir a porcaria cair na caixa postal. Estava entrando em transe novamente. Precisava ir para casa, aquela mulherzinha estava jogando a sua bruxaria para cima dela.
Natalie suspirou, pegou suas coisas e saiu dali. Quando alcançou o seu carro ficou ali por um tempo parada até se dar conta que estava deixando se levar para uma conversa besta, uma imaginação sua em pensar que existia bruxaria. Quantas séries e filmes já assistirá e nunca acreditará naquela bobagem.
Mas como ela sabia que iria ao casamento, não contará há ninguém além de Alan e seu chefe, e seu amigo não iria sair contando para todo mundo e seu namoro com Léo era tão discreto que seu chefe nem percebeu que acabou dando um cargo ótimo a Léo.
Droga! Estava num mundo estranho e sombrio e nunca se deu conta.
Entrou no seu carro e dirigiu até a sua casa com toda pressa do mundo. Assim que chegou, seu gato alaranjado veio ao seu encontro e não deixou de dar o carinho que ele precisava, até mesmo ela precisava distrair a cabeça em alguma coisa.
- Olá, Travis... seu gato lindo da mamãe... – Ela disse pegando o bicho no colo e acariciou-o no pescoço, pois sabia que ele adorava aquilo. – A mamãe está doida, sabia.
Natalie colocou o sobre o balcão e foi até o pote dele para ver se não estava sem comida, e tinha só alguns grãos e decidiu repor. Travis adorava comida fresca o tempo todo.
Assim que deu comida ao seu bichinho de estimação que Alan odiava mais que a vida, só por que uma vez Travis fez suas necessidades no quarto dele, ensinará Travis em ser um bichinho correto, mas quando ele não ia muito com a cara de algum indevido ele tinha essas mania de marcar território. Com a Tess era diferente, ele a tratava muito bem e sempre que podia dormia com sua amiga, apesar de Tess sempre trancar o quarto, mas Travis achava um jeito de entrar lá só para receber o carinho.
Natalie lavou as mãos e olhou em volta. Era um apartamento pequeno, mas aconchegante. Tinha dois quartos apenas, uma sala grande que tinha dois sofás, uma estante repleta de livros que ela e Tess vinha juntando juntas por todo esses anos, um aparador com algumas fotos de ambas e havia um tapete cor de rosa bem no meio da sala, Alan odiava aquele tapete também e até aparecerá com outro para fazer a troca, mas ela não deixará pois fazia a lembrar da amiga.
Depois vinha a cozinha pequena, com armário embutido, fogão ao lado da pia e uma geladeira com vários recados na porta. Ela tinha mania de deixar vários recados espalhados pela casa para não ter problema em esquecer de suas coisas. Alan também odiava aquilo e mesmo assim não ia embora. Ela era realmente uma mulher maluca, com seus transtornos mais esquisitos e nem por isso seus amigos deixavam de gostar dela.
Eram quase seis horas da tarde, resolveu ir tomar um banho, logo Alan chegaria e iria querer tomar o seu banho de quase uma hora. Achava um absurdo um homem passar todo esse tempo dentro de um banheiro. Estava quase achando que Alan era gay, mas aí lembrava das mulheres bonitas que ele trazia e deixava esse pensamento de lado. Tess dizia que ele era bissexual, mas também não acreditava nisso do seu amigo.
Entrou no pequeno banheiro levando sua toalha e suas peças íntimas, aproveitou que estava sozinha e colocou o seu celular para tocar, enquanto tomava banho. Adorava cantar embaixo do chuveiro, quando era criança sonhava que iria ser uma cantora, mas quando chegou no ensino médio e teve que fazer uma apresentação na escola ela meio que decidiu que não tinha vocação para isso.
Aquela apresentação foi um fracasso, seus amigos caçoaram dela por uns dois anos dizendo que ela cantava que nem a Britney Spears quando estava bêbada. Poxa, ela só tinha errado a letra no final e nada mais. Qual é o cantor que errara a própria letra um dia?
Deixando aquela bobagem toda desligou o chuveiro, se enrolou na toalha e continuou a cantar. Tocava no seu spotify “ Cheap Thrills” da Sia, adorava aquela música, era tão contagiante e sempre que escutava lembrava do filme A escolha perfeita que gostava de assistir ao lado da sua amiga.
Estava sendo difícil em ficar sozinha, sem uma companhia feminina no apartamento. Alan era um ótimo amigo, mais não era a mesma coisa. Secou o cabelo com o secador que deixava ali e sem deixar de cantar continuou, até se empolgou dançando. Assim que terminou, guardou o secador e saiu do banheiro dançando com o celular na mão e só parou no caminho quando viu que não estava sozinha no apartamento.
Natalie engoliu em seco quando notou que estava sendo observada por seu amigo que segurava um copo com alguma bebida.
Alan sorriu.
- Veio embora cedo?
- Sim.
- Tenho uma novidade. Consegui uma entrevista em San Francisco... naquela emissora que contei que estava tentando faz tempo.
- Serio? Não acredito. – ela gritou eufórica e pulou que nem criança esquecendo que estava de toalha, ajeitou a toalha que quase deslizou e se aproximou do amigo. – Meus parabéns, Alan.
Alan hesitou antes de receber o seu abraço, ela quase enlouqueceu só de sentir o aroma do perfume dele em suas narinas.
- Obrigado.
- Mas me diga como você conseguiu?
Natalie se afastou e ajeitou novamente a toalha que insistia em cair. Observou o amigo encher outro copo com bebida e com certeza estava feliz por saber que ele também estava conseguindo o que desejara, entrara naquela emissora só para ganhar conhecimento e agora que estava se saindo bem, conseguira uma entrevista na tão desejada emissora que ficava em San Francisco.
Ai droga! Ate seu amigo iria deixá-la. Iria acabar ficando sozinha, precisava convencer Leo em vir morar com ela, não conseguiria sobreviver sozinha.
- Mandei alguns currículos e me encontrei com uma pessoa que disse que poderia conseguir uma entrevista.
- Isso é ótimo.
- Vamos comemorar hoje à noite. O que acha?
- Seria ótimo... ah não, Leo marcou um jantar para hoje. – ela contou ao lembrar. – Podemos comemorar agora.
Alan fez cara de desagradável e assentiu meio que decepcionado.
- Sem problema, podemos comemorar depois do seu jantar. – ele falou olhando para a sua toalha e achou aquilo estranho. – Você não vai... se arrumar?
- Claro. Mas posso beber um gole... disso. – ela sorriu e bebeu a bebida, acabou que fazendo careta ao sentir o uísque descer pela garganta. – Ok, isso vai me deixar tão louca quanto me deixou no noivado de Tess.
Alan riu. Com certeza ele lembrava daquilo, o noivado de sua amiga tinha sido na casa do pais dela, e enchera tanto a cara que nem lembrara de como chegara em casa. Mas lembrava de ter vomitado dentro da piscina fazendo com que os que estavam lá saíssem.
Naquele dia Leo fora embora largando-a toda chapada – é claro que não se orgulhava disso – mas estivera tão feliz pela amiga que resolvera se embriagar, mas não imaginara que ficaria tão ruim assim.
- Você é um show, Nati.
- Nem tanto.
- Não deixe aquele idiota lhe magoar.
- Eu não vou...
Natalie sorriu em deboche e sem tirar os olhos do amigo se afastou dançando, até alcançar a porta do seu quarto. Se encostou na porta e suspirou toda sem graça. Achou estranha a atitude do amigo, ele nunca a olhara com outros olhos e isso era realmente esquisito.
Dando de ombros, foi até o seu guarda-roupa e procurou algo que fosse sexy. E quase tirou toda roupa que havia ali, Leo já a vira com quase todas as roupas e não teve outra escolha se não usar o seu segundo vestido que usava nos jantares.
Era em helanca na cor bordô, com alças, decote transpassado, busto duplo, recorte na cintura, saia assimétrica com transpasse frontal. Se sentia sexy dentro daquele vestido, e para sua sorte tinha seios grandes para preenchê-lo.
Assim que ficou pronta, pegou sua bolsa e saiu do quarto. Já era sete e meia, logo Leo chegaria, ele era sempre pontual. Alan estava ali na sala bebendo e sorriu quando a viu.
- Uau! Está uma gata.
Ela sorriu sem graça.
- Até parece que nunca me viu com esse vestido. – ela caçoou se aproximando do balcão onde estava a bebida e aproveitou para beber um gole antes que seu namorado chegasse. – Ele disse que tem algo para me contar.
- Ele sempre tem algo para te contar.
- Mas me pareceu estranho.
- Está com medo dele lhe pedir em casamento?
Natalie forçou um sorriso.
- Se sabe que sonho em me casar um dia.
- Eu sei.
Ela ia dizer alguma coisa quando foram interrompidos pela campainha. Toda feliz, se despediu do amigo com beijinhos no ar e abriu a porta. E lá estava seu namorado, lindo e bem sucedido jornalista de televisão.
Leonardo lhe levou num restaurante que ela realmente gostava chamado Altura, era um lugar maravilhoso, adorava comida italiana e sempre conseguia reserva fácil por ali.
Chegaram e já foram levados para uma mesa, logo um garçom lhe trouxe o cardápio e não demorou muito para fazerem os pedidos, enquanto saboreavam um champanhe – que a propósito ela adorava – Leo a conhecia bem para pedir isso toda vez.
Natalie olhou-o e sorriu.
- Então, o que viemos comemorar?
- Ah ao meu novo cargo.
- Já não comemoramos isso... semana passada?
- Sim. Ficou sabendo que seu amigo também conseguiu algo?
- Ele contou para você?
- Dah, seu amigo é tipo um livro aberto. Todo mundo fica sabendo.
Alan não era um livro aberto. Tinha coisas que ela nem mesma sabia sobre ele. Conhecera Alan na faculdade e a única coisa que sabia sobre ele, era que ele viera de Tacoma, tinha vinte e seis anos, seus pais ainda estavam vivos, e que ele era um excelente amigo, além de um homem bonito.
- Alan não é o que dizem.
- Você sabe o que penso sobre você morar com ele. – Leo argumentou. –É ridículo. Um homem nunca vê uma mulher como amiga.
Natalie bebeu um gole da bebida e balançou a cabeça.
- Ele é uma boa pessoa.
- Pode até ser, mas não existe uma amizade entre homem e mulher.
- Se você diz.
Finalmente a comida foi servida e ela pode se distrair um pouco na comida. Aquele jantar estava ficando chato, nunca virá Leo ficar atacando o seu amigo daquele jeito. Já ouvira muito ele dizer que não gostava de ir ao seu apartamento por causa do amigo, mas nunca vira problema nisso, ainda mais agora que se Alan realmente conseguisse o emprego em San Francisco, ela iria voltar a ficar sozinha no apartamento.
- Sobre o casamento você... já se decidiu? -ela mudou de assunto.
Leo franziu o cenho e respondeu tão natural.
- Acho que não vai dar... desculpa.
- Eu comprei as passagens.
- Eu avisei que iria pensar, Natalie.
- Mas o casamento é importante para mim.
- Ótimo. Então vá sozinha.
Natalie encarou-o perplexa com que acabava de ouvir. Ele estava mesmo lhe mandado ir ao casamento sozinha, desacompanhada. Que namorado em sã consciência fazia isso?
- Está mesmo falando sério?
- Eu tenho uma gravação para fazer na sexta, sou o novo âncora... não posso deixar isso de lado.
- São só quatro dias, Léo.
- Eu sei, mas o trabalho é mais importante que esse... casamento.
- Quer dizer que se nós resolvemos casar você daria mais atenção ao seu trabalho?
- Querida, não é assim que funciona... as coisas.
- Então como é que funcionam as coisas para você, Léo? – ela esbravejou quase chamando atenção dos demais ali do lado. – Eu não te entendo.
Léo olhou em volta e suspirou tentando manter toda calma.
- Você anda esquisita ultimamente. Nem reconheço mais aquela mulher que conheci. – ele comentou. – Estava tudo bem entre a gente até a sua amiga dizer que estava noiva. Aí você ficou estranha.
- Estou do mesmo jeito de sempre, Léo.
- Não. Você fica jogando indiretas sobre casamento. - Ele contou. – Você sabe o que penso sobre casamentos.
Natalie assentiu e umedeceu os lábios.
- Mas podemos viver isso... só por que seus pais não se deram bem, não quer dizer que não...
- Eu não quero me casar com você.
Natalie fixou o olhar para o seu namorado ali na sua frente e a única coisa que sentiu naquele momento foi nojo. Nunca pensou que ouviria isso saindo da boca dele no seu lugar favorito.
- Amor... eu não quis dizer isso. – ele tentou consertar as coisas.
- Acho que é... melhor eu ir embora. – ela fez menção de se levantar e pegou sua bolsa quando sentiu a mão dele na sua. – Não toca em mim.
- Querida, saiu sem querer.
- Cala a sua boca. – ela gritou fazendo todos olharem para ambos. – Eu vou embora e não há nada que me faça fazer ficar nem mais um minuto com você.
Natalie segurou-se para não chorar, estava louca para sair dali o mais rápido possível. Ao alcançar a calçada suspirou e não conteve as lagrimas que continuam a cair sobre o seu rosto. Como pode acreditar que Léo queria casar-se com ela um dia. Como pode confiar nele e entregar todo o seu coração para aquele imbecil.
- Natalie... me desculpa.
Ela fechou os olhos e saiu andando sem saber para onde estava indo, mas com certeza não iria ficar ali escutando Léo pedir desculpas.
- Não queria dizer aquilo... por favor me escuta.
- Quer parar de me seguir, porra. – ela gritou e apertou o passo, mas o salto alto não ajudou muito, ofegante parou e encarou-o com nojo. – Como pode fazer isso comigo, Léo?
Ele hesitou.
- Quando disse que tinha problemas com casamento, eu falei sério. E claro que podemos nos casar um dia..., mas não agora.
- Não foi o que escutei. Eu confie em você, contei tudo sobre mim... e assim que você termina o nosso relacionamento. – ela sorriu em deboche, acrescentou. – Isso não pode se chamar de relacionamento. Você é esquisito, não dormi na minha casa...
- Seu amigo mora lá.
- Eu não terminei. Você não gosta de dormir na minha casa, você não gosta que os nossos colegas de trabalho saibam sobre a gente, e não temos nada em comum. – ela suspirou. – Você que é estranho e não eu.
- Estamos a dois anos juntos, qualquer um pode nos ver na rua. Não estou escondendo o nosso relacionamento.
- Uau! Pelo menos você sabe a quanto tempo estamos juntos. – ela bateu palma sem fazer barulho. – mas não tem ideia de como estou me sentindo agora.
- Será que podemos conversar num lugar...
- Não. Acabou Léo. De todos os homens que me relacionei você foi o único que pensei que iria me dizer sim no altar. – ela fez careta. – Só que depois dessa noite, percebi que andei sendo idiota todo esse tempo. Eu mereço muito mais do que você vem me dando.
- Nati...
- Eu vou indo. Até mais, Léo. – ela simplesmente se virou e caminhou sem rumo.
Chegou em casa por volta das onze horas, Travis veio ao seu encontro, pegou o bicho no colo sem se importar com pelos que ficariam no seu vestido, para só então ouvir o barulho vindo do quarto de Alan. Pelo menos seu amigo estava comemorando com alguém, enquanto ela estava ali agarrada ao seu bichinho que era o único que não lhe abandonava.
Sorriu feliz por saber que agora estava livre para fazer o que bem entendesse, acariciou Travis no colo mesmo e foi para o seu quarto.
Para mais, baixe o APP de MangaToon!