Lívia cresceu numa fazenda, no interior de Minas, uma vida difícil em meio as lavouras de café e o pequeno curral com quatro vacas leiteiras, de uma família humilde e um pai doente, ela assumiu a responsabilidade de ajudar a sua mãe na criação dos seus dois irmãos; Célio e Viviane.
Com apenas quatorze anos, a casa e o curral, já eram a sua escola, pois tinha a obrigação e o dever de amparar a sua família. A sua mãe dividia o seu tempo entre a máquina de costura e as idas e vindas ao hospital. O seu pai sofria de uma doença autoimune, que inflamava as articulações e lhe trazia muitas dores e dificuldades para o trabalho braçal.
Lívia por ser a mais velha dos filhos, sentiu no coração, que poderia ajudar, assumindo a responsabilidade cedo. O seu irmão, com um ano e oito meses de diferença, logo tratou de acompanhar a irmã no trabalho árduo, o que não aconteceu com a sua irmã mais nova, que já nasceu com espírito de rica, aproveitando da bela aparência de boneca de louça e a desculpa por ter todas as “ites” alérgicas existentes.
Tarde de domingo, único dia em que Lívia tira para descansar e fazer algo que realmente gosta. Ler um livro a sombra de uma mangueira, na beira de um lago, dentro da propriedade vizinha.
Uma longa caminhada por trilhas e canto dos pássaros, o silêncio da natureza é interrompido pelo barulho das aves e dos riachos que cortam as matas. Sozinha nos seus sonhos de adolescente, ela respira fundo e rodopia com os braços erguidos, em agradecimento a natureza e ao seu criador, por tanta beleza que os seus olhos alcançam.
Nessa hora ela se esquece da dor e de todo sofrimento da sua família e sorri com o sol brilhando na sua face e o vento frio que toca a sua pele no outono indeciso, que não sabe se esfria ou se faz calor.
Alguém a vê por trás das árvores e a acompanha de longe, na sua aventura no meio do capim gordura que com os seus pendões arroxeados, balançam com o vento.
A sua pele morena e os seus cabelos negros, soltos e embaraçados pelo vento, encantam o pequeno fazendeiro, filho do dono das terras que ela invade.
Marco Aurélio, é um estudante, filho de um grande fazendeiro e amante da natureza como Lívia. Mas o seu futuro já está traçado por seus pais e principalmente por sua mãe, que sonha com o seu filho médico, doutor na cidade grande e não um homem de terras debaixo das unhas.
Por coincidência, ele saiu de casa um pouco para descansar a cabeça, depois de horas intermináveis em cima dos livros, preparando-se para a faculdade.
Lívia chega ao seu destino e retirando de um embornal, feito de sacaria, uma toalha e um livro, se ajeita ao pé da árvore e respirando fundo, mirando o lago à sua frente, formado pelas águas de um riacho.
Abrindo a página marcada, de onde parou na semana passada, ela passa o dedo pelos parágrafos e continua de onde pausou o seu romance, que para muitos era proibido, mas para ela, apenas um conto de fadas, onde o amor verdadeiro existe e a felicidade é real.
Ela viaja por entre as linhas expressivas de sentimentos, chora, sorri e se encanta com uma história inventada, de uma pessoa tão romântica quanto ela. De repente ela escuta um barulho de galhos quebrando e folhas secas sendo esmagadas. O seu coração dispara e as suas pernas tremem.
Os seus olhos percorrem a margem do lago a procura de um galho, para se defender, mas não encontra nada ao seu alcance. Ficando de pé, ela escora o seu corpo na árvore e pensando rápido, faz como uma gata, subindo na frondosa mangueira e suando feito uma condenada aos últimos minutos da sua vida, fecha os olhos e controla a respiração, para não ter um mal súbito.
__ Oi! Desculpa\, eu não queria te assustar. __ Fala o rapaz\, olhando para o alto\, esticando os braços e acenando com a mão para que se acalme e desça da árvore.
__ Quem é você? O que faz aqui? __ Ela pergunta assustada e temendo por sua segurança.
Aurélio é um rapaz bonito e bem-afeiçoado, seus dezoito anos e o cavanhaque, lhe faz parecer mais velho e o seu porte atlético o faz mais atraente.
__ Sou eu quem lhe pergunto\, o que faz nas minhas terras? __ Ele sorri malicioso e ela fecha o semblante\, constrangida pela invasão.
__ Desculpe-me\, eu não sabia que essas terras eram suas\, venho sempre aqui para ler o meu livro e nunca encontrei ninguém por essas bandas. __ Ela fala\, descendo da árvore e por um descuido\, escorrega e é pega nos braços fortes do rapaz\, que a encara\, sentindo o seu coração bater mais forte.
__ Obrigada! Tenho que ir agora\, minha mãe está me esperando para o jantar. __ Ela fala com a sua inocência de menina moça\, enquanto o jovem se encanta com o seu cheiro de flor do campo.
__ Espera! Qual é o seu nome? __ Ele pergunta\, a vendo colocar a toalha e o livro no pequena sacola de sacaria.
__ Lívia, e o seu?
__ O meu é Marco Aurélio\, é um prazer lhe conhecer e fique á vontade para vir ler o seu livro\, prometo não lhe incomodar novamente. __ Ele está tímido por conta do encantamento que sofreu a instantes. Ela sorri e diz com intrepidez:
__ Eu venho todos os domingos, é o único dia em que tenho tempo para mim, espero que da próxima vez, você traga o seu livro e podemos ler juntos, será um prazer ter sua companhia.
Ele leva um choque, não esperava ser convidado para um novo encontro.
Lívia chega em casa com o coração alegre e inocente, sorri solitária, enquanto prende os bezerros no curral. O seu irmão vendo-a na peleja, corre ao seu encontro e com uma vara, toca o gado até o abrigo e os prendem.
__ Mana\, o pai passou mal novamente e a mãe o carregou sozinha\, da varanda até o quarto. __Célio fala e Lívia sai correndo até a casa\, entrando como uma bala e indo direto ao quarto.
__ O que aconteceu? O senhor está bem? __ Ela pergunta\, debruçando-se por sobre o corpo do seu pai que geme e com um sorriso triste a abraça e responde:
__ Calma\, minha linda! Estou bem\, a sua mãe me deu o remédio e estou melhorando\, por onde andou a tarde toda? __ Francisco pergunta à filha que alegre lhe conta da sua tarde de leitura\, mas não fala a respeito do rapaz que conheceu.
Durante toda a semana ela lembrou do susto e recordando a cena de subir na árvore e o lindo rapaz lhe olhando, o sorriso estampa no seu rosto e fica envergonhada.
__ Está ficando maluca? Pergunta a sua irmã mais nova, sentada na régua do curral, enquanto ela ordenha a vaca.
__ Não gosto que converse comigo quando estou tirando o leite\, mimosa pode se assustar e não consigo dominá-la sozinha. __ Lívia fala baixinho\, para não espantar a vaca que é arisca.
__ Eu contei para a mamãe que você está com cara de boba e fica conversando com os porcos e as galinhas\, agora fica sorrindo para a vaca. Ela disse que você precisa de um namorado e agir mais como uma mocinha. __ Viviane é tagarela e deixa a sua irmã bastante zangada.
__ Eu não preciso de namorado\, nem tenho idade para isso e você é uma pirralha\, aproveite e leve o leite para dentro\, enquanto solto as vacas no pasto. __ Lívia intimida a sua irmã com o olhar de brava\, mas por dentro é uma manteiga derretida.
Viviane recebe o balde das mãos da sua irmã e sai toda melindrosa, anda dois metros e deixa o leite entornar no seu corpo e chorando grita a sua mãe como se algo muito sério tivesse acontecido. Lívia ri do seu desajeito e fechando a porteira, se assusta com uma voz que a surpreende.
__ Bom dia\, Lívia! __ Diz Pedro\, filho do vizinho e padrinho de Lívia.
Ele já é um rapaz e vive de asas quebradas para as meninas mais nova da vila. Lívia não lhe dá confiança, até que ele toca num assunto que lhe interessa.
__ Soube que você conheceu o meu amigo, Marco Aurélio! Ele é um cara bacana e disse que você é muito simpática.
Lívia o encara e ficando séria, pensa se ele lhe contou como foi que se conheceram e não continua o assunto para não ficar envergonhada.
__ Ele me perguntou se eu a conhecia e onde você morava. __ Ele é insistente no assunto e Lívia não responde\, continuando a caminhar até o celeiro\, onde tira as suas botas sujas e calça um chinelo limpo.
__ Eu não falei nada a seu respeito com ele\, pois não sabia se podia\, não quero ser desrespeitoso com a afilhada do meu pai. __ Por fim\, ela solta o ar dos pulmões e com uma respiração forte e precisa o responde:
__ Ele não tem motivo algum para vir por aqui\, o meu pai não está bem e não quero que fique nervoso por conta de besteiras. Estou muito ocupada e não tenho tempo para conversar\, se quer ficar falando na minha cabeça\, pegue a pá e me ajude a limpar o terreiro. __ Lívia é muito esperta e coloca o rapaz metido para ajudá-la com o serviço.
__ Daqui a um mês será o seu aniversário\, já pensou o que fará para comemorarmos os seus quinze anos? __ A conversa continua entre uma limpeza e outra\, o suor escorre no rosto bonito do rapaz e Lívia aproveita para tirar um sarro:
__ Se você estiver vivo até lá\, podíamos fazer um lanche na vila\, não gosto de festas e nem tenho motivos para festejar\, mas\, se estiver a fim\, eu combino com as meninas.__ Ela fala a respeito das suas duas amigas\, dos bons tempos de escola\, pois teve que se afastar das aulas\, para cuidar das obrigações e da família.
__ Porque eu não estaria vivo? Estou muito bem\, para ser sincero. __ Ele fala ofegante e cansado e ela sorri gostoso\, do seu jeito fraco de quem não é acostumado no serviço pesado.
__ Então me entregue esta pá\, antes que caia duro e ainda serei culpada por uma morte. __ Pegando-a da sua mão\, ela continua o serviço e ele toma água e senta-se a sua frente\, num toco de madeira.
__ Eu posso convidar o Aurélio\, ele ficará muito feliz\, o que acha? __ Ele volta ao mesmo assunto e ela o encara fazendo um charme.
__ Se quiser\, eu não ligo! A lanchonete é pública e até cachorro entra se a porta estiver aberta.__ A sua resposta foi para não deixar notório que ela quer a sua presença.
O galo canta cedo no quintal e Lívia logo pula da cama, aproveitando o domingo. Ela tira o leite, solta os bezerros no pasto, trata das galinhas e põe comida para os porcos. Louca para ir ao lago novamente, ajuda a preparar o almoço e depois de um banho refrescante, veste uma calça jeans e uma camiseta e sai para a sua aventura no meio do mato.
Cantarolando ela passa pelo caminho que lhe é de costume e busca por Aurélio, com a esperança que ele esteja por perto. Ela olha por todas as partes, mas ele não é visto, e decepcionada segue na expectativa de que ele ainda apareça, ela retira a toalha e o livro de dentro do embornal e sentando-se debaixo da árvore, começa a sua leitura de onde parou.
Minutos depois ela sente que pequenos galhos começam a cair na sua cabeça, de tempos em tempos, atrapalhando a leitura e lhe deixando desatenta.
__ Droga! Que pássaro é este que resolveu fazer ninho bem em cima da minha cabeça?__ Ela levanta furiosa e olhando para o alto da árvore, avista o belo rapaz que sorrindo diz:
__ Hoje sou eu quem estou aqui em cima, cansei de te esperar a manhã inteira, então resolvi subir para ver em qual direção viria. __ Henrique fala ao descer da imensa mangueira e ficando frente a frente com a jovem, percebe que ela está assustada e em choque.
__ Você passou a manhã inteira aqui? Por quê? __ Ela pergunta sem perceber que ele se interessou por ela e que estava louco para vê-la novamente.
__ Eu não sabia a que horas viria e fiquei com medo de nos desencontrarmos, afinal temos um livro para lermos. __ Ele a desarma com o seu argumento e ela se solta um pouco e o responde:
__ Eu não posso vir antes do almoço, eu tenho algumas obrigações em casa e os meus pais precisam de mim, mas fico feliz que tenha vindo e me esperado. __ O seu rosto está vermelho de vergonha, mas com coragem bastante para dizer o que pensa.
Sentando-se um ao lado do outro, abrem os seus livros e começam a ler com os olhos, temas tão diferentes um do outro, mas que os unem com um pretexto de amizade.
__ Quantos anos você tem? __ Ela pergunta para ele, enquanto vira a página do capítulo que terminou.
__ Farei dezenove, daqui a dois meses e você?
__ Faço quinze no próximo mês, pensei que Pedro lhe havia dito. __ Ela não olha no seu rosto e conversa baixinho, começando o próximo capítulo.
__ Qual livro você está lendo? __ Ele pergunta um pouco tímido e ela fecha o livro e lhe mostra a capa de um romance juvenil.
Ele olha e sorrindo fica admirado, o livro é enorme e o conteúdo nada acrescenta para o seu crescimento profissional, apenas a ilude e a leva a crer num conto de fadas que não existe.
__ E o que você está lendo? __ Ela pergunta e ele lhe mostra um livro enorme de física. Ela sorri e diz com sua voz doce e gentil:
__ Parabéns! Vejo que és um moço dedicado aos estudos, pena que não descansa no domingo e se distrai com coisas mais leves.
__ Verdade! Eu não consigo pensar em outra coisa a não ser nessa bendita prova no final do ano, para mim é muito importante entrar nessa faculdade, é o sonho da minha mãe. Sou filho único, não posso decepcioná-la. __ Ele fala, suspirando e fechando os olhos, recostando a cabeça no tronco da árvore.
__ Eu leio romances para fugir da realidade, não tenho esperança de encontrar alguém e amar o bastante ao ponto de largar tudo e viver uma história. É só uma maneira que encontrei para não enlouquecer e, enquanto lembro do capítulo que li, eu faço as minhas obrigações no sítio, não sinto cheiro de estrume e muito menos sinto que piso neles. Sou como a Cinderela, não percebo o borralho na pele e nem o cansaço no corpo, com a minha mente ocupada com as histórias de amores não existentes.
__ Por que diz isso? Você não acredita no amor entre duas pessoas? __ Aurélio lhe pergunta, fechando o livro que lia e olhando para o rosto da jovem que é tão natural.
__ Acho que existe, mas não para mim. Eu não sou como as meninas da minha idade, trabalho como um homem e tenho preocupações de um chefe de família. Não espero que alguém se agrade do meu cheiro de leite e de curral, também não me iludo que um dia encontrarei alguém que queira dividir comigo as minhas obrigações. __ Ela fala olhando o rio que corre lento, formando o lago quase parado e que leva galhos e folhas para as suas margens.
__ Você é muito nova para pensar desse jeito, o tempo pode te surpreender e encontrar alguém que te ame e queira viver a sua vida ou dividir a vida dele com você. __ O jovem é maduro nas suas palavras e ambos fecham os seus livros e ficam conversando.
Ela fala da doença do pai e da tristeza por ter saído da escola. Ele fala dos seus planos em ser médico e o esforço que faz para agradar a sua mãe em tudo, pois ela não gosta de morar na roça e muito menos do lugar onde vive e aposta todas as suas fichas no jovem promissor, para levá-la para morar na cidade grande, já que o seu pai se nega a fazer as suas vontades.
Sentindo uma brisa fria, ela percebe que demorou tempo demais e que precisa voltar depressa para a casa.
__ Tenho que ir! Domingo eu venho, se tiver um tempo, apareça por aqui, gosto de conversar com você. __ Ela fala e sai correndo pelo caminho de mato e terra.
__ Eu venho! Também gosto de conversar com você! __ Ele grita, vendo-a correr pela trilha.
Durante dois domingos seguidos, eles se encontraram naquele lugar e a amizade foi crescendo com a admiração de ambos.
Faltando duas semanas para o seu aniversário, o seu pai voltou para o hospital e com isso, Lívia não pode ir até o lago. Aurélio foi dois domingos seguidos e a esperou por longas horas. A amizade escondida ficou abalada, pois ele pensou que ela não mais queria vê-lo, enquanto ela entristecida, não tinha como lhe contar o que estava acontecendo.
Na véspera dos seus quinze anos o seu pai volta para casa e ela insiste que não irá ao encontro das suas amigas, esquecendo até do Pedro que fazia questão de encontrá-la.
__ Eu quero que vá e se divirta, leve o seu irmão e aproveite a companhia das suas amigas. __ Fala o seu pai, muito fraco e sofrendo uma dor terrível.
__ O seu pai tem razão! Eu irei levá-los e mais tarde irei buscá-los, vocês precisam se distrair um pouco e o seu presente está no seu quarto. __ Laura, sua mãe, lhe abraça e Lívia emocionada, corre para ver o seu presente.
Entrando no quarto, vê um lindo vestido em cima da cama e uma sandália combinando. Saltitando de alegria ela o coloca a sua frente e se olha no espelho, sorrindo e rodopiando.
Célio ao ver a irmã feliz a abraça e diz:
__ Você ficará a moça mais bonita aqui da vila, com este vestido. Parabéns, minha irmã! Se tem uma pessoa que merece ser feliz, para mim, essa pessoa é você. __ Eles se abraçam e choram muito, pois sabem o peso que está nos seus ombros e a força que um passa para o outro.
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