O sinal soou pela sala de aula, anunciando o fim de mais uma aula chata de matemática. O senhor Wolverine – ou melhor, o senhor "Sandes" – começou a arrumar suas pastas com atividades, olhando ao redor em busca de um voluntário (que ele forçaria) para apagar o quadro com suas "obras de arte", várias e várias equações que, só de olhar, me davam dor de cabeça. Ele não era tão velho assim; estava quase na casa dos 30, tinha um corpo atlético, uma voz rouca, um pouco calvo também, mas ele era legal... pelo menos eu achava.
Quando percebeu que ninguém se ofereceria, ele olhou para mim, com um sorriso gentil, e falou:
Aurora? Poderia apagar o quadro para mim?
Rapidamente, eu respondi:
Claro, senhor.
Eu não queria, mas comportamento conta como nota também, então lá fui eu. Aproveitando a deixa, ele saiu para a próxima sala.
Eu já estava quase terminando de apagar o quadro, quando, por mais incrível que pareça, o próximo professor ainda não havia chegado. E, inesperadamente, senti algo acertar minha cabeça. Quando virei, a bolinha de papel estava no chão, e a galera do fundão começou a rir. Pelo meu olhar, perceberam que não gostei nem um pouco da brincadeira.
Quem foi!? – perguntei, já sentindo a raiva crescer.
A sala ficou em silêncio. Ninguém disse uma palavra. Eu poderia deixar para lá, como fazia todas as vezes, mas hoje não! Hoje eles iriam ouvir poucas e boas. Então, abaixei, peguei a bolinha e, levantando-a, dirigi minha atenção aos meus colegas de classe:
Então, vejo que o "corajoso" que jogou essa bolinha aqui não é tão esperto assim, não é? Ou melhor, não tem um pingo de valentia. Vamos lá, estou esperando. Não vão falar nada?
Eu já estava perdendo a paciência, foi quando ele falou:
Me desculpe, eu não sou bom de mira, era para acertar no lixo, não em você. – disse Guilherme, com um sorriso sem graça. Isso não ia ficar assim, pensei para mim mesma, e comecei a andar em sua direção, com a bolinha de papel na mão. Ele percebeu e me encarou, claramente desconfortável. Quando cheguei à sua mesa, peguei a bolinha e joguei diretamente em sua cara. Antes que ele pudesse falar algo, acrescentei palavras "amigáveis":
Bom, como já percebeu, eu não sou o lixeiro! Mas dessa vez você se safou. Da próxima vez, vou enfiar essa bola na sua... Na sua...
Na minha o quê? – disse ele, com um sorriso malandro no rosto.
Se fizer de novo, vai descobrir! – respondi, com um olhar sério, e voltei para o meu lugar.
Justo no momento em que me sentei, a professora de biologia entrou, segurando a mão da minha melhor amiga. Josi, com certeza, estava matando aula novamente. A senhora Rantes, que não se importava de ver alunos perambulando pelos corredores, nos trazia de volta sempre que nos encontrava. Era impressionante, e por azar, Josi havia sido vista. Para sua sorte, ela apenas apontou para a cadeira ao meu lado, já que sempre sentávamos juntas.
O que você estava fazendo lá fora, sua louca? – sussurrei para ela.
Ela me olhou e sorriu.
O que mais seria? – disse, com cara de quem não se importava. – Óbvio que estava matando aula. Mas essa chata me viu e me trouxe de volta para esse inferno! – ela fez uma careta de criança birrenta, e eu dei um leve sorriso, voltando a atenção para a professora.
A aula foi longa. As atividades da professora eram imensas e, para piorar, eu precisava me concentrar ao máximo. Biologia e matemática não eram minhas melhores matérias. Por outro lado, Josi se dava muito bem em biologia, era uma das suas melhores matérias. No meio das questões intermináveis, senti uma cotovelada e, antes que eu falasse algo, Josi, com olhos espantados, me sussurrou:
Miga, não olha agora, mas o Guilherme está olhando para você!!!
Olhei rapidamente ao redor e nossos olhares se encontraram. Ele sorriu. Eu apenas virei o rosto.
Garoto chato, meu Deus!
Como assim "chato"? – perguntou Josi, curiosa. – Espera, o que eu perdi enquanto estava fora? Me conta agora! E é uma ordem, Aurora!
Suspirei fundo, redondei os ombros, sem um pingo de vontade de falar sobre aquilo.
Não aconteceu nada. Eu apenas o ameacei com uma bola de papel, nada demais, e não quero falar sobre isso.
Não brinca! O que esse paspalho fez?
Nada, Josi! Não quero falar sobre isso!
Tá bem! Achei que éramos amigas! – ela fez um biquinho e uma cara de drama.
Quem disse que não somos? Só não quero falar sobre isso, está bem?
Tá! – ela disse, voltando a atenção para a porta da sala e abrindo um sorriso. – Mas que ele é um gato, ele é!
Não vejo nada de gato nele. Na verdade, nem reparei... olhando agora, até que ele é bonitinho. – falei, examinando-o. Ele tinha cabelo castanho, era forte e alto demais para 16 anos, parecia mais velho. Seus olhos eram castanhos e sua pele era bronzeada, mas, sinceramente, não era tão bonito assim.
Bonitinho? Ele é lindo!
Não tô nem aí, vamos focar na atividade? Pode ser?
Pode! – ela respondeu, mas, como sempre, sabia que ela ainda ia tocar nesse assunto. Então, no momento em que ela ia abrir a boca para falar algo, o sinal tocou, anunciando o final da aula. Eu agradeci tanto por isso! Arrumei minha bolsa e já estávamos prontas para sair, quando a senhora Rantes me chamou para ir até sua mesa.
Aurora? Antes de você sair, eu quase esqueço, a diretora quer falar com você sobre um assunto importante.
Assenti com a cabeça e desci pelo corredor, com Josi de mãos dadas, em direção à diretoria.
O que você acha que ela quer? – perguntei a Josi.
Não sei. Talvez seja porque você jogou uma bola de papel no filho dela!
Eu não joguei nada em... Aí, meu Deus! – exclamei. – Ele é filho dela?
E amiga dessa, você tá frita!
E agora? – perguntei, assustada. – O que eu faço?
Calma, não sabemos nada ainda, temos que ter calma, ok?
Assenti com a cabeça.
Então... entre lá e converse numa boa, ok? E qualquer coisa, é só gritar que eu acabo com ela.
Sorri, agradecida. Andamos mais alguns passos até chegar à sala da diretora. Juntei os cacos de coragem e bati levemente na porta. Uma voz soou de dentro da sala:
Pode entrar.
---
---
Respirei fundo, sentindo o cheiro do carpete velho e o som abafado dos meus passos ecoando pelos corredores silenciosos da escola. A pressão no meu peito aumentava a cada segundo, e as paredes pareciam se fechar à minha volta. Quando cheguei à porta da sala da diretora, vi a maçaneta brilhando à minha frente, como se estivesse me desafiando a tocar nela. Com as mãos tremendo, girei a maçaneta e entrei. A sala era ampla, com estantes cheias de livros antigos e uma mesa grande, onde a diretora estava sentada, olhando para mim com um olhar curioso.
Com licença, a senhora mandou me chamar? – perguntei, a voz tremendo mais do que eu gostaria. A diretora me olhou calmamente, seus olhos transmitindo uma serenidade que, de alguma forma, me deixava mais nervosa.
Ela deu um leve sorriso, quase como se estivesse tentando me tranquilizar, mas foi em vão.
Claro! É com você mesma que eu queria falar, Aurora. – disse ela, apontando para uma cadeira à sua frente. Coloquei um sorriso forçado no rosto e fui até a cadeira, tentando ao máximo esconder o nervosismo. Minha mente estava acelerada, e eu repetia para mim mesma, como um mantra: "Não vai acontecer nada. Não vai acontecer nada! Vai ficar tudo bem."
Bom... – começou ela, pausando de forma que meu coração deu um salto no peito. – Você pode se sentar, Aurora. Nossa conversa vai ser rápida. – Ela fez um gesto com a mão, indicando a cadeira em frente a ela. Eu me sentei, tentando manter a postura mais confiante possível, mas meu corpo denunciava o nervosismo. Minhas mãos estavam suadas, e meu coração parecia bater mais forte a cada palavra que ela dizia.
Aurora, eu não sei como te dar essa notícia... – ela fez uma pausa. O silêncio foi como uma lâmina cortando o ar, e a tensão na sala se tornava quase palpável. Eu estava paralisada, minha mente já correndo com pensamentos aterradores. "Será que ela sabe? Será que ela descobriu tudo?" A imagem da minha expulsão começou a se formar na minha mente, mais real a cada segundo.
Ela continuou, e sua voz parecia agora distante, como se estivesse vindo de outro mundo:
Eu fiquei sabendo disso hoje, e como diretora, eu tenho que fazer o que deve ser feito. – Sua expressão mudou, e eu quase pude ouvir o som da minha respiração pesada. Aquelas palavras... Elas eram a sentença. "Ela sabe... ela sabe!" pensei, desesperada.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, eu não consegui me conter e falei, desesperada:
Me desculpe, senhora! Eu juro, mas eu juro que eu não sabia que ele era seu! E... E... Eu prometo que eu não vou enfiar uma bola de papel na boca dele, ou... ou... Eu nem em outro lugar do corpo dele! Eu juro, mais eu juro que isso não vai acontecer! Foi tudo uma brincadeira, foi só o calor do momento, é...
Calma, Aurora! – ela me interrompeu, e eu quase engasguei com as palavras. Ela parecia um pouco confusa, mas também estava tentando entender a situação. A diretora me olhou com uma expressão de quem não estava entendendo nada, e foi aí que percebi que o assunto da nossa conversa não era o que eu pensava.
Então... e o que... e o quê...? – Eu gaguejei, sem saber mais o que dizer.
E o que? – ela disse, arqueando as sobrancelhas, parecendo intrigada. – O que o meu filho fez?
Nada, senhora! Foi só um pequeno desentendimento, mas já está tudo resolvido. – Eu sorri, mas meu sorriso estava nervoso, forçado. Na verdade, eu ri tanto que parecia até que eu tinha ouvido uma piada. "Burra, Aurora. Você só faz besteira!" Eu pensava, me xingando internamente.
Tem certeza? – Ela me perguntou, ainda desconfiada. Eu assenti com a cabeça, tentando parecer calma, mas meu coração estava em um turbilhão de emoções. Ela me observou por mais um momento, como se estivesse me analisando, e então disse:
Tudo bem. Mas, por via das dúvidas, eu irei conversar com o meu filho.
Eu fiquei ali, em choque. Como assim? Ela não parecia brava. Ela parecia... calma. Estranho. Ela acabara de saber que alguém ameaçou o filho dela e não parecia se importar. Em vez disso, ela queria "conversar com ele". Isso era o meu fim. Eu estava ferrada. "Burra! Como você falou antes dela dizer alguma coisa?!" – eu me xingava mentalmente. Mas que culpa eu tinha do filho dela ser um... imbecil?
Aurora? Você está aí? – A voz dela me tirou dos meus pensamentos.
Sim! Claro... Desculpe, estava no mundo da lua – falei rápido demais, e ela pareceu perceber. Ela continuou com um tom mais suave:
Ok, então! Bom, acabamos fugindo do assunto...
É verdade... – eu sorri sem graça, tentando aliviar a tensão.
Bom, antes de tudo, eu queria dizer, em nome de toda a escola, que nunca tivemos uma aluna como você. – Ela me olhou com afeto, e, por um momento, aquilo me pareceu sincero. Confesso que achei fofo, mas a situação estava tão tensa que eu mal conseguia processar o que ela estava dizendo.
Bom, você lembra da prova de línguas estrangeiras que fez no ano passado, não é? – Ela me perguntou, e eu assenti com a cabeça, já começando a sentir uma leve ansiedade.
O resultado saiu hoje pela manhã... e VOCÊ FOI UMA DAS SELECIONADAS! – Ela disse, a alegria em sua voz contrastando com o pânico que se instalava no meu peito.
Eu fiquei em silêncio, absorvendo a informação. Não consegui responder de imediato, minha mente estava em um turbilhão.
Você não gostou da notícia? – Ela perguntou, um pouco chateada, mas sua expressão mostrava que ela estava tentando me entender.
Não... Quer dizer, sim! Eu gostei, mas... Eu estou surpresa. Não sei como meus pais vão reagir... e também...
Não se preocupe com essa parte. Eu já conversei com eles e, para eles, tudo bem. O que resta agora é a sua decisão. – Ela me interrompeu, antes que eu pudesse terminar de falar. Fiquei em choque. Como ela já havia conversado com eles? Isso não fazia sentido! Eu olhei para ela, totalmente confusa, e ela percebeu, pois a expressão em meu rosto era impossível de esconder.
Olha, Aurora, é uma chance única. Você vai ter a oportunidade de conhecer novas pessoas, fazer novos amigos... – Ela falou com um tom encorajador.
Eu sei... É só que essa notícia me deixou... surpresa. – Eu falei no tom mais calmo que consegui, ainda tentando processar tudo.
Tudo bem, isso é normal. Olha, você não precisa me dar a sua resposta agora. Você tem duas semanas para pensar sobre isso... Tudo bem?
Tudo... – Eu murmurei, sentindo que minhas pernas estavam prestes a ceder. – Já posso ir?
Eu sabia que estava pedindo para sair rápido demais, mas não conseguia mais ficar ali. Ela assentiu com a cabeça, e eu percebi que ela notou meu desânimo.
Aurora? – Ela me chamou antes que eu saísse. – Espera. Eu sei que é algo novo, algo que vai mudar a sua vida. Mas só pense com carinho, ok?
Eu vou pensar. – Eu disse, saindo da sala rapidamente, como se o ar fresco do corredor fosse me dar algum alívio.
No corredor, Josi estava andando de um lado para o outro, visivelmente ansiosa. Quando me viu, correu até mim.
E aí? O que ela queria? Que demora foi essa? Eu já estava quase invadindo aquela sala!
Ela percebeu a expressão no meu rosto, e eu suspirei fundo antes de responder:
No caminho eu te explico. Vem, é uma longa história...
Continuamos andando pelo corredor até a saída da escola, e o silêncio entre nós se estendeu. Eu não conseguia mais falar, mas sentia o olhar de Josi queimando em minha pele, cheio de expectativa. Ela parecia ter perdido a paciência, e logo a tensão explodiu.
Então? Vai me falar ou não? – Ela perguntou, a voz tensa, quase ansiosa demais.
Eu olhei para ela, sentindo uma raiva crescente. Já estava saturada de tanto suspense.
Afff, tá bom! Você quer saber mesmo? – falei irritada, sem conseguir segurar mais.
Eu passei em uma prova, e agora eu tenho que escolher se vou ficar aqui ou sair para o exterior! Satisfeita? – As palavras saíram com um tom de exasperação, mas logo notei que a expressão de Josi havia mudado. Seus olhos se arregalaram, e uma rápida felicidade piscou por um momento em seu rosto, antes de desaparecer e dar lugar a uma tristeza profunda. Ela não estava feliz, não da maneira que deveria estar uma amiga.
Não brincaaa... Nossa, isso é... Isso é... Como posso dizer... Legal? Não é? – Ela respondeu, mas as palavras estavam soltas, como se ela estivesse forçando um entusiasmo que não existia. Eu a conhecia bem o suficiente para perceber a frustração, o desconforto e, principalmente, a inveja que começava a transparecer. Josi sempre fora competitiva, e eu sabia que esse tipo de notícia mexia com ela de uma forma difícil de esconder.
E até que é uma boa notícia, sabe... – falei, confusa, tentando entender o que estava acontecendo. – Na verdade, nem sei o que dizer. É algo novo para mim também, e... também não sei se quero ir, pelo menos não agora, é...
Para, Aurora! Eu te conheço! Você vai, não vai? – Ela me interrompeu, seus olhos começando a se encher de lágrimas. Sua voz, embora parecesse preocupada, estava carregada de uma frustração que eu nunca imaginei que sentiria vindo dela.
Eu não sei, Josi... – respondi, tentando encontrar as palavras certas, mas parecia que ela estava mais irritada do que preocupada.
Responde logo, Aurora! Você vai? – Ela insistiu, mais uma vez me interrompendo, e seu tom agora era mais ríspido. As lágrimas estavam prestes a cair, e eu podia ver como a ideia de me deixar ir para longe estava acabando com ela por dentro. Não era só uma amiga preocupada, era uma amiga que se sentia ameaçada.
Eu fiquei em silêncio. Não sabia o que responder, nem eu mesma sabia o que queria. O que eu queria era que as coisas fossem mais fáceis. Eu não queria deixá-la, mas não podia ignorar a oportunidade que surgia na minha frente.
Você vai me deixar? Achei que éramos amigas! Mas, pelo visto, não é o que parece... – A voz dela tremia, e eu percebi que ela estava mais magoada do que qualquer coisa. Suas palavras me cortaram, mas a inveja que eu via nos seus olhos era inegável.
Nós somos sim amigas! – Falei, tentando me defender. – E que surto é esse, Josi? Eu não decidi nada ainda!
Ela me olhou com uma frieza que eu nunca tinha visto antes. Os olhos dela estavam cheios de dor, mas também havia algo mais... Uma raiva disfarçada de mágoa.
Nossa... Achei que, como minha amiga, você iria me apoiar. Ou, sei lá, me parabenizar... talvez. – Ela falou, quase sem conseguir se controlar. Sua voz estava tão baixa e carregada de ressentimento que me fez parar por um momento.
Eu te apoio para tudo! Menos em ir embora e me deixar aqui! – Ela gritou, e, de repente, o ar entre nós ficou pesado. As palavras saíam dela com um rancor evidente, e o olhar de inveja e ciúmes não disfarçava o quanto ela temia perder a amizade para essa nova oportunidade que eu estava recebendo.
Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ela se virou e saiu correndo, indo em direção à rua como se estivesse fugindo de algo. Eu fiquei ali, sem palavras, vendo-a correr em meio aos carros, ignorando totalmente o perigo.
Josi, espera! Por favor, vamos conversar! – Gritei, desesperada, mas ela não olhou para trás. Ela simplesmente foi embora, como uma louca, passando por entre os carros. Eu gritei para ela, mas ela não se importou.
Droga! – Falei, irritada. – Eu só faço besteira!
A Josi era minha melhor amiga desde o fundamental. Ela sempre foi a única que quis brincar comigo, quando os outros não gostavam de mim. Quando os pais dela brigavam, ela subia até a janela do meu quarto, entrava e eu cuidava dela como se fosse minha irmã. Sempre a apoiei, mas hoje parecia que algo tinha mudado. Eu sabia o que estava por trás dessa reação toda... A sensação de abandono. O medo de ficar sozinha, de perder a única pessoa que sempre esteve ali para ela. Mas ela não seria a única a ficar sozinha. Eu também ficaria. Quem iria conversar comigo quando eu estivesse triste? Ela sabia que meus pais não tinham tempo para mim, que não se importariam se eu fosse embora. Acho que é isso que nos conecta, essa dor silenciosa de ter pais ausentes.
Mas agora, o que me deixava confusa era o momento. Por que isso teria que acontecer agora? Por que tudo se precipitou justo quando eu estava mais insegura?
Meus pensamentos foram interrompidos por um barulho alto de moto vindo em minha direção. Um cara todo de preto, pilotando uma moto de luxo, passou por mim a mais de 100km/h, fazendo uma curva brusca e parando bem na minha frente.
Eu congelei, minha respiração parou. O que esse louco está fazendo?! Ele queria me matar? O homem ficou parado, me olhando, e as pessoas ao redor começaram a encarar, a situação ficando cada vez mais constrangedora.
TÁ MALUCO, É?! VOCÊ QUASE ME FEZ VIRAR PARTE DO ASFALTO! SEU BÊBADO! – Gritei, mas ele parecia não se importar, desligou a moto e desceu dela com calma, como se nada tivesse acontecido.
VOCÊ É SURDO?! – perguntei, agora eufórica, sem acreditar na falta de cuidado do cara. Ele só sorriu, retirando o capacete.
Guilherme? – Eu fiquei completamente sem reação. Que loucura era aquela? O cara era um verdadeiro doido.
Olha, kkkkk, você lembra do meu nome! – Ele falou, debochando, e eu revirei os olhos.
Olha, me solta, garoto! Você está maluco? – Falei, puxando a minha mão de volta, mas ele não parecia entender a mensagem.
Calma! – Ele disse, surpreso com a minha reação. – Eu só quero me desculpar e conversar com você... Talvez ser...
Me solta! – Repeti, agora irritada, querendo sair dali. Ele ainda não me deixava em paz.
Calma, só quero me desculpar. – Ele insistiu, mas eu não queria mais nada com ele. Ele tinha sido insensível, e não entendia a mensagem de que eu queria ficar sozinha. Ele se aproximou mais uma vez e parou na minha frente.
Bom, já me desculpei. Agora, e você? – Ele disse com um sorriso, e, apesar da situação, algo nele parecia engraçado de tão irritante.
Eu não aguentei mais. Já estava saturada de tudo.
Tá tudo bem, ok? Agora sai da minha frente, porque eu tenho que ir para casa! – Falei ríspida, mas ele parecia não se importar.
Foi mal... – Ele disse sem graça, mas seu sorriso ainda estava lá. – Mas se quiser, eu te faço companhia. Assim nos conhecemos melhor...
Meu coração... espera, Aurora! Não caia no jogo dele! Foco, foco!
Não, obrigada! Eu prefiro ir sozinha! Além disso, minha casa não é tão longe. – Falei rapidamente, tentando manter a compostura, mas ele não desistia.
Então eu te dou uma carona! – Ele disse, com aquele sorriso.
Não precisa! Eu agradeço, mas... Eu tenho pernas e sei andar! – Tentei me afastar, mas ele continuava atrás de mim, insistente.
Sinceramente, eu não entendo sua implicância comigo... O que você tem contra mim?
Eu não tenho nada contra você, tá legal? Só me deixa em paz! – Falei, já irritada, mas ele insistiu.
Quer saber? Vamos começar de novo? – Ele disse, estendendo a mão para mim, tentando começar uma conversa civilizada. – Oi, prazer, eu sou o Guilherme, e como a senhorita se chama?
Eu não pude evitar. Sorri com a atitude dele. Ele parecia tão... bobo. Apertei a mão dele.
Oi, eu sou a Aurora. Um prazer te conhecer.
Viu? Não é tão difícil conversar civilizadamente. – Ele sorriu, e eu dei um breve sorriso também. Mas meu coração ainda estava em mil.
Bom, agora eu tenho que ir. Já nos conhecemos, e como eu disse, foi um prazer! – Eu falei, tentando soltar minha mão do contato dele, mas ele ainda parecia satisfeito.
Ele assentiu com a cabeça e foi para a moto. Antes
eu o observei ir embora e continuei o meu caminho mas com os pensamentos na atitude da Josi
Para mais, baixe o APP de MangaToon!