"Você sempre acaba indo embora, Sam..."
A mensagem ficou ali na tela, repetindo-se na minha mente. Eu a li e reli, me perguntando o que de errado havia em mim, porque, quando se tratava dos meus sentimentos, as coisas nunca eram tão claras.
- Obrigada, eu realmente precisava desse banho, você é maravilhosa. - Jane disse ao sair do banheiro. - Espera, ainda está pensando nisso? Ele foi um idiota, Sam. Ele fez aquela bagunça toda antes de você ir embora e decidir finalmente deixá-lo.
Mas, sinceramente, nada do que ela dizia conseguia tirar a sensação de arrependimento que me consumia. Eu sabia, no fundo, que mesmo com tudo o que aconteceu, jamais deveria ter me envolvido com o Mário.
Nos conhecemos no ensino médio, quando minha vida estava um caos. Mãe alcoólatra, problemas em casa, um trabalho onde ninguém me valorizava... até que, de repente, ele apareceu. Mário me levantou, me fez acreditar que eu poderia ser mais do que o que estava vivendo. Quando eu era mais nova, parecia mágico demais para ser real. Eu achava que não podia simplesmente deixar aquilo para trás.
- Ele me fez ser quem eu sou hoje, mas, sabe, eu poderia ter feito isso sozinha. - Me sentei na cama, esticando os braços e relaxando. - Mas não é hoje que vamos falar sobre isso. Temos algo mais importante, gata!
Aquela noite, eu iria ganhar R$500,00 por hora. Era uma despedida de solteiro de um cara de meia idade, obcecado por mulheres mais jovens, aquelas capazes de tornar sua noite mais agitada. E sim, a famosa pílula azul ajudaria.
- Vamos nessa! - Jane me lançou um sorriso pelo reflexo do espelho enquanto passava um batom vermelho marsala.
Eu já vivia essa rotina de acompanhante há cerca de três anos. Não era exatamente a vida dos meus sonhos, mas também não era de todo ruim, especialmente pelo dinheiro que me trazia.
- Sei que você disse que não quer mais falar sobre isso, mas... Ele disse para onde foi? Eu só não quero que ele volte com alguma ideia errada, trazendo tudo de volta. - Jane disse, sentando ao meu lado com um olhar preocupado e sério.
- Eu respirei fundo antes de responder, sabendo que as chances de Mário voltar para bagunçar tudo eram altas, mas tentando manter a calma. - Está tudo bem! - Segurei seu rosto gentilmente, olhando em seus olhos. - Ele não tem mais poder sobre mim. Eu sou outra pessoa agora, e você sabe disso.
- Eu sei, amiga, mas... Eu ainda me preocupo. Você se machucou tanto, e a ideia de ele voltar te machuca. Eu sei. - Ela me abraçou com força. - Eu te amo, amiga. De verdade. Eu só não quero ver você sofrendo de novo.
Eu e Jane sabíamos exatamente o que estava por trás daquela preocupação. O que vivi com Mário foi turbulento e destrutivo. Me afundei nas drogas e em tudo o que não fazia bem, tudo para manter a fachada de uma vida perfeita que ele queria mostrar ao mundo.
Mas agora era diferente. Eu já não era mais a mesma. Não era mais aquela garota manipulada, à mercê dos outros.
Na manhã seguinte acordei desesperada com o despertador tocando alto.
- Aí, droga droga droga! - Levantei da cama indo para o banheiro tomar um banho e me trocar.
Toda aquela agitação acordou Ana que dormia toda torta no sofá da sala.
- Mas que porra tá acontecendo? - Escutei ela gritar com voz de sono.
- PERDI O HORÁRIO!!! - Respondi inquieta tirando as roupas e entrando no chuveiro.
Meu banho não durou mais que dez minutos, e acredite, embora para alguns isso seja tempo suficiente, meus banhos costumam durar quase uma hora.
- Sabe que a Helena vai te matar não sabe? - Ana pergunta ao me servir com um pouco de café. - Já é o seu terceiro atraso em menos de um mês.
Embora fosse completamente maçante toda aquela história que Ana contava pela milésima vez como se eu não soubesse, ela tinha razão.
Helena era minha chefe, que cá entre nós era chata pra caralho, e eu não estou forçando a barra quando digo isso.
- Tem razão, essa coisa dos programas a noite e pegar esses freelances na lanchonete ainda vão me matar, não consigo manter o ritmo. - Dei dois goles no café, o que foi o suficiente para me despertar. - Hm! Estou indo gostosa, tenha um bom dia, eu te amo! - Disse beijando sua testa e fechando a porta da cozinha.
Meu carro estava com sérios problemas no motor, então teria que me contentar com a ida de ônibus até o trabalho, e não me entenda mal, eu posso estar numa vida bem mais confortável agora, porém já fui pobre o suficiente para não ter dinheiro nem para uma passagem de ônibus.
- GA RO TA, HELENA TÁ UMA FERA COM VOCÊ HEIN, melhor se preparar. - Murilo dispensou os cumprimentos ao me ver e gritou. - Se atrasou por? Hm, deixa eu adivinhar, a noite ontem foi agitada? - Sorriu malicioso.
Murilo era meu único amigo ali naquela lanchonete, me acolheu quando cheguei e embora fosse virgem amava escutar minhas histórias da noite, era um amor.
- Rum, e como! Depois eu te conto. - Sorri.
- Mais uma vez? Samantha, trabalho é compromisso! - Revirei os olhos por ouvir aquela voz estridente e insuportável da mais velha.
Desculpe Helena, não vai mais se repetir. - Ditei vestindo meu avental e pondo a touca.
- Fala sério que mulher chata do caralho. - Cochichei para Murilo que ria da situação.
Helena me olhou dos pés a cabeça e riu de forma desdenhosa.
- Parece que se esqueceu de sua maquiagem na correria de hoje não é mesmo Samantinha? Que pena.
- AH! Mas o que ? - Murilo apertou minha mão com a intenção de que eu me acalmasse. - É... É eu me esqueci sim! Mas graças a Deus eu sou jovem e além de jovem, bonita, não é como se eu dependesse de maquiagem toda manhã, você entende né chefinha? - Sorri saindo de perto com uma bandeja na mão, em direção a mesa seis.
A tarde na lanchonete passava lenta e tortuosa, mas os papos com o menor que dividia o expediente comigo sempre me animavam.
- Não, EU JURO PRA VOCÊ! - Ditei rindo alto.
- Ele não aguentou o sexo por dois minutos, e parecia ter desmaiado. - Coloquei a mão na barriga enquanto gargalhava alto.
Enquanto ria, uma mulher entrou na lanchonete mexendo no celular, séria e silenciosa.
- Hm... Eu atendo pode deixar. - Disse me recompondo.
Caminhei até sua mesa tirando o bloco de notas e uma caneta do bolso do avental.
- Boa tarde, o que vai querer? - Sorri sútil.
Ela levantou seu olhar até meu rosto, deixando o celular sobre a mesa e disse. - Bom! O que sugere? Me disseram que os donuts daqui são ótimos.
Apesar de ser muito profissional, não podia deixar de reparar no olhar daquela mulher, era misterioso e magnético, sua pele negra parecia brilhar e seus cabelos eram muito lindos, era tatuada e cheia de estilo.
- Ah... Moça? - Ela indagou me trazendo a realidade.
- Hm, sim! Desculpe. - Abaixei a cabeça. - Sim sim, os donuts são ótimos, também temos lanches naturais, saladas refrescantes, e diversas massas, mas sendo bem sincera te recomendo o bolinho de carne e batata, é o mais pedido por aqui. - Sorri aguardando sua resposta.
- Hm, certo então, senhora? - Me fitou os olhos com curiosidade.
- Samantha, é Samantha. - Eu estava realmente atrapalhada na presença daquela cliente, coisa que nunca me ocorria.
- Samantha! Ok, quero dois donuts de chocolate com frutas vermelhas, uma porção de bolinhos por favor, e uma água com limão. - Piscou de forma amigável e calorosa enquanto me via anotar seu pedido.
- Ok! Logo estará pronto. - Saí dali olhando Murilo pela cabine da cozinha com os olhos arregalados e vermelha. -Que mulher é aquela? Caralho...
- Do que tá falando? Da sapatão?
- Ela não é sapatão amigo, você nem a viu direito.
- Querida? Eu sou gay, e olha bem aqueles braços tatuados, a cara fechada, e sério? Undercut no cabelo? - Riu.
- Aí! Não me importa, essa é a comanda, prepara que vou ao banheiro. - Saí atrapalhada.
Fui ao banheiro lavar meu rosto e assim que saí Murilo me encarava com estranheza.
- Que foi? Desculpa... Eu fui grossa né?
- Amiga. - Ele olhou para a mesa.
- Ué, mas eu nem levei o pedido... - A garota "misteriosa" da mesa oito havia ido embora.
Mas o que?
Caminhei até a mesa onde não via nada, quase deixando passar um papel sobre o banco, tomei o mesmo em minhas mãos e estranhei, um número de telefone estava anotado no verso.
TEMPO MAIS TARDE -
- Nem fodendo que a Samantha, porra louca, ficou desnorteada perto de outra mulher. - Jane ria da minha cara.
- Não fiquei desnorteada, eu só... - Olhei a tal que me encarava com os braços cruzados. - Tá tá... Fiquei um pouco! Mas porra, ela era tão diferente e interessante, confesso que minha buceta piscou só quando ela me olhou.
- Hmmm - Murmurou inquieta. - Nem vou falar nada, mas! Mudando de assunto, VAI POR A DROGA DOS SAPATOS, A LIMOUSINE TÁ CHEGANDO.
- Limousine? Que? - Ri incrédula.
- Aquele magnata do 205 quer duas acompanhantes numa festa de inauguração da empresa. - Piscou.
- FALA SÉRIO!!!? - Eu confesso que trabalhar na noite como acompanhante não era lá uma das melhores profissões e por muitas vezes tentei sair daquilo, mas depois que saí com alguns caras ricos, eu não tinha que fazer muita coisa (sexo) pra ser mais exata, as vezes só precisava acompanha-los e pousar em algumas fotos, boa parte deles eram bem solitários.
E naquela noite, Jane iria junto comigo, como nos velhos tempos.
Por que velhos tempos? Bom, posso dizer que ela está a mais tempo nessa vida do que eu.
Continua..
Era um formigueiro, e quando digo isso, não estou exagerando. Aquela noite de inauguração prometia muita coisa.
— Eu não faço ideia de como vamos nos encontrar se você não for comigo. — Jane insistia pela milésima vez, com a ideia de que deveríamos ir ao bar. — Vamos, ele não vai se importar.
Revirei os olhos e me levantei, pegando a mão dela.
— Vê se não demora. Se ele perceber que sumimos, podemos perder o trabalho.
— Ok, relaxa um pouco.
Caminhamos lado a lado pela multidão. A mistura de perfumes, bebidas e outras coisas fazia meu nariz se contorcer.
— Dois gin tônicas, por favor! — Jane gritou, fazendo sua voz disputar com o som ao fundo.
Com toda aquela barulheira, era impossível não ficar animado, mas, por algum motivo, naquela noite eu não me sentia assim.
— Que porra deu em você? — Jane perguntou, oferecendo o drink. — Você estava tão animada com tudo isso. Fala sério, olha esse lugar! — Ela ergueu os braços.
— Há quem diga que, para os mais sérios, festas movimentadas são um desafio. — A voz era familiar. Eu não sabia de onde, mas...
Petrifiquei ao reconhecer a mulher de mais cedo. Fala sério, ela estava ali também? Isso só pode ser um teste.
— O quê? A Samantha, séria? — Jane começou a caçoar, rindo desesperadamente. — Ela é muita coisa, mas...
Pisei no pé de Jane, um pedido silencioso para que se calasse.
— É... Oi. — Disse, constrangida com a situação, tentando encontrar uma maneira de não piorar tudo.
— Olá, Samantha. — A mulher disse serenamente, sua voz tão firme que me fez questionar meus limites sobre atração. — Você e eu, no mesmo lugar, duas vezes? Qual a possibilidade?
Olhei para Jane, que me encarava com os olhos cheios de interrogações. Era até engraçado.
— Se conhecem? — Ela perguntou.
— Bom, posso dizer que sim, mas não como você imagina, acredito eu. — A mulher sorriu. — Samantha me atendeu mais cedo na lanchonete.
Jane olhou para baixo, tentando conter o riso. A situação estava ficando deveras constrangedora, e eu tentava encontrar palavras para seguir a conversa.
— É, você nem comeu... — Eu me repreendi automaticamente. — Digo, não esperou o pedido.
A mulher me olhou e sorriu, por Deus, que sorriso lindo, tanta simpatia.
— Sim, assuntos de trabalho. Eu precisei ir embora, mas volto para provar a comida de lá.
— Hmmm, a "comida" de lá, Samantha. — Jane cochichou em meu ouvido, com um tom malicioso.
— Cala a boca! — Olhei para o lado, onde a mulher me encarava com um semblante de dúvida. — Não, não você! — E quanto mais eu me explicava, pior ficava.
— O que você acha que está fazendo conversando com minhas garotas? — Como se as coisas não pudessem piorar, Gregório, o magnata do 205, apareceu em nossa busca.
— Desculpa? — A mulher perguntou, confusa.
— É, não é nada, não, benzinho. Vamos pra mesa, hm? Vamos lá. — Jane parecia ler a situação, e notando meu nervosismo, entretinha Gregório.
— Eu nunca passei tanta vergonha. — Murmurei, enquanto minha amiga paparicava Gregório, já bêbado.
— Relaxa, garota, ela nem deve ter percebido.
— Não deve ter percebido você fazendo piadinhas, o surto do outro aí... — Falei baixo, já que Gregório estava sentado ao nosso lado. — O quê, hm?
— Amiga, desculpa. Como eu ia saber que ela era a mesma mulher que você atendeu mais cedo?
Joguei a cabeça para trás, fechando os olhos e tentando esquecer toda aquela cena.
A noite passou lentamente. Cheguei em casa exausta e cheia de sono, mas sem conseguir parar de pensar no nome dela e no que ela devia estar pensando sobre mim naquela altura do campeonato.
Continua...
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