O que aconteceu primeiro? O estrondo? O clarão? Não... houve algo antes. Um pressentimento. Uma dissonância. E então, o caos.
Sob a sombra de um canto reservado da área VIP, ela observava. Mulher pequena de estatura, mas imponente em presença. Os cabelos ondulados caíam sobre os ombros, emoldurando um rosto onde dois olhos âmbar brilhavam como brasas sob a iluminação trêmula do ambiente.
Lá embaixo, a boate fervilhava. O calor dos corpos misturava-se ao cheiro de álcool e suor, enquanto grupos de pessoas se moviam como um mar inquieto, suas vozes se entrelaçando em um eco caótico. A música, alta e dissonante, cortava o ar como uma lâmina cega - os músicos amadores no palco pareciam incapazes de compreender a harmonia que seus próprios instrumentos deveriam transmitir.
Mas ninguém parecia notar.
Na pista, corpos se moviam como se fossem um só, entregues ao êxtase do momento. Risadas explodiam, brindes ecoavam. O mundo poderia desmoronar, e ainda assim, eles dançariam sobre os escombros.
Todos... exceto ela.
Ela percebia. Ela sentia.
A música ecoava pelo salão, e isso era um tormento. Cada nota desafinada lhe arranhava os ouvidos como unhas em um quadro-negro. O vocalista errava o tom sem a menor cerimônia, e a guitarra, descompassada, soava como um lamento desafortunado.
Ainda assim, ninguém parecia se importar. O álcool e a euforia anestesiavam qualquer senso crítico.
Ela suspirou, sentindo-se deslocada. Seria apenas ela a notar aquele desastre sonoro? Seus ouvidos seletivos eram um fardo em um lugar onde a única melodia que importava era a do prazer instantâneo. Por um instante, desejou poder se entregar àquela despreocupação. Mas, ao ouvir um novo deslize grotesco da banda, cerrou os dentes. Não, definitivamente, não podia.
Então, veio o clarão.
No instante em que um feixe de luz neon atravessou seus olhos, algo mais capturou sua atenção - um pequeno objeto esférico rolando pelo chão. refletindo as luzes em sua superfície metálica. cada batida contra o piso acelerando a inquietação dentro dela.
O movimento no salão parecia não atingir sua concentração. Seus olhos estavam fixos na esfera metálica, que rolava com uma calma inquietante, como se o destino estivesse jogando o que restava de uma escolha para ela. O brilho da luz refletida na esfera parecia como um farol, atraindo seu olhar de forma hipnótica, como se ela soubesse que algo estava prestes a acontecer. Uma leve tremulação passou por seu rosto, um gesto que poderia ser confundido com nervosismo, mas quem a observasse com mais atenção perceberia algo mais: a suavidade no modo como sua mão apertava o punho contra a roupa, como se tentando prender algo que queria escapar.
No fundo de seus olhos, algo se ocultava, uma escuridão familiar, como se ela tivesse sido ensinada a carregar uma culpa que não era sua. O que restava de sua vida, de seus sonhos, tudo se esvaía junto com a metálica esfera, sem que ninguém soubesse que, em seu peito, o peso de um acordo sombrio estava prestes a cobrar seu preço. as dívidas... e... Salvatore, que jamais soubera o quanto ela estava disposta a sacrificar por um fio de esperança, que logo se desvaneceria.
Quando a esfera parou, quase roçando a ponta de sua bota de couro pelica, seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse acompanhar. Ela se levantou num ímpeto. Mas... tarde demais.
Click.
O som seco e metálico rasgou o ar. No instante seguinte, um brilho devorou tudo. A pressão da explosão atingiu seu peito como um soco invisível, atirando-a para trás. O calor queimou sua pele antes que sua mente conseguisse processar o que estava acontecendo.
Então, o chão se abriu em desespero e poeira.
O impacto da explosão foi brutal. Uma luz incandescente devorou o espaço, seguido pelo estrondo ensurdecedor. O grande salão girou em confusão e desespero. Gritos ecoaram. Sangue quente respingava no chão frio da pista de dança.
E então, o horror.
No meio da multidão aterrorizada, uma perna - dilacerada, retorcida - foi lançada ao chão, como um troféu grotesco do que acabara de acontecer. O cheiro de carne queimada e pólvora se misturavam ao perfume barato impregnado no ar. Pessoas entraram em colapso, alguns desmaiando, outros vomitando diante da cena.
Mas... não aqueles olhos.
No epicentro do caos, entre gritos e o cheiro de sangue, uma figura permanecia imóvel. Os olhos, amarelados, não vacilaram. Não se arregalaram diante do terror, não se desviram da carnificina.
Eles estavam fixos, absorvendo cada detalhe, cada fragmento de destruição.
Era como se, naquele instante, a destruição tivesse sido planejada. Como se aquele horror fosse apenas o que se esperava, como se, de alguma forma, tivesse sido antecipado.
Será que ela estava lá para ver o fim... ou para garantir que o começo tivesse sido cumprido?
Quando as sirenes romperam o pavor, trazendo consigo o peso da realidade, a boate já não era um templo de diversão. Tornou-se palco de uma investigação sombria. Repórteres, policiais, peritos. Um mar de gente com uma única pergunta nos lábios: Quem fez isso?
A resposta começou a tomar forma entre relatos desencontrados e testemunhas em choque. As descrições apontavam para um homem baixo, trajando um casaco camuflado de tom azulado. Mas havia algo mais. Um detalhe impossível de ignorar.
Cinco pessoas daquela associação usavam vestimentas idênticas. Mas apenas uma tinha a altura exata.
Coincidência? Ou um jogo calculado?
Do lado de fora, um dos peritos, incapaz de encarar os restos mortais da vítima, virou-se para um colega e murmurou, quase sem voz:
- Existe alguém capaz de enganar essa mulher?
Hazana.
Um nome que inspirava respeito. Temido por criminosos, invejado por detetives. Seu intelecto a tornava lendária. Sua frieza, inabalável. Ela escapou de armadilhas antes. Ela deveria ter escapado desta.
Mas não escapou.
Agora, Hazana foi a vítima.
E a pergunta que ecoava na mente de todos, enquanto o sangue secava sob as luzes piscantes da boate era:
Quem foi o responsável?
Esta obra é uma criação minha, um romance homoafetivo com uma pitada de suspense. Embora o foco principal seja o relacionamento entre os protagonistas, há um mistério que se desenrola ao longo da trama, mantendo você ansioso por cada página. O protagonista, determinado a descobrir o segredo por trás do assassinato de uma detetive, se vê imerso em um jogo perigoso de revelações e descobertas. A busca pela verdade vai prender sua atenção e desafiar suas emoções.
Para tornar a experiência de leitura ainda mais imersiva, costumo ler ouvindo música. Acredito que ela intensifica as emoções e transforma a leitura em algo ainda mais dramático e único. Se você se sentir à vontade, sugiro que explore uma trilha sonora enquanto segue a jornada dos personagens - pode ser uma forma de se envolver ainda mais com o enredo e os sentimentos que ele evoca.
Acesse uma playlist que oferece uma experiência imersiva, complementando a atmosfera do livro.
Quanto a mim, prefiro permanecer anônima. Nasci em 26 de novembro de 1998, e embora não me considere uma escritora impecável, a necessidade de compartilhar essa história com quem quiser ouvi-la me motivou a escrever. Para mim, a escrita é a forma mais pura de expressar as ideias sobre amor, mistério e as complexidades da alma humana. Espero que, ao lê-la, você sinta o mesmo prazer que eu senti ao escrevê-la.
P.S.: Todas as imagens que ilustram esta obra foram criadas por inteligência artificial, com um cuidado especial para retratar os personagens de forma fiel. A capa, por exemplo, traz a representação de Apollo, um dos protagonistas, com traços que refletem a profundidade de sua jornada.
Os protagonistas desta história prometem despertar emoções intensas—você pode amá-los ou odiá-los, e tudo bem! Quero muito saber suas opiniões sinceras a cada capítulo.
Confesso que não tive muita visibilidade em outras plataformas, o que me fez questionar se exagerei no drama ou se o enredo talvez não fosse interessante o suficiente. A história explora diferentes estilos e emoções, e isso pode ser um ponto forte ou um desafio.
Meu objetivo é escrever livros com um toque mais profissional e profundo. Percebo que muitas obras, tanto romances quanto fanfics, costumam focar exclusivamente no romance. Embora não haja nada de errado nisso, muitas vezes sinto falta de uma narrativa mais rica e envolvente, que vá além da superfície. Quero criar histórias que mergulhem nos sentimentos, que construam personagens reais e complexos, e que tragam cenários vívidos e detalhados. Meu propósito não é apenas contar uma história de amor, mas oferecer uma experiência completa, onde cada detalhe enriqueça a trama e cative o leitor do início ao fim. Espero que minha visão não soe exagerada, mas é realmente o que almejo alcançar na minha escrita. Gostaria muito de saber sua opinião sincera sobre o desenvolvimento do meu texto."
Mesmo assim, sigo firme. Tenho muitos capítulos prontos e estou animada para compartilhá-los com vocês. Agradeço de coração pela atenção e pelo apoio!
Agora, convido você a mergulhar na história e a conhecer os personagens principais deste romance. Boa Sorte!
🦅 Capítulo⚔️ 1 🦅
" O mundo ao seu redor parecia se dissolver em sombras opressoras, enquanto seus pequenos olhos acinzentados, turvos pelo choro incessante, refletiam o horror da realidade que se impunha sobre seu corpo frágil. Cada lágrima que escorria era um grito sufocado, uma súplica ignorada pelo silêncio cruel que dominava o ambiente.
Seu peito arfava em desespero, e seus pequenos dedos se cravavam na pele, tentando arrancar a dor imensurável que o consumia. A crueldade alheia esmagava sua inocência, dilacerando sua alma a cada segundo que passava.
A escuridão não vinha apenas da noite, mas do olhar que a fitava, consumindo sua fragilidade. E ali, naquele momento, seus olhos infantis compreenderam que nem sempre os monstros vivem dentro dos contos. Alguns respiram, caminham e vestem a pele de gente."
⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅
O motor do carro roncava baixo, acompanhando o vento que entrava pelas janelas entreabertas. A estrada à sua frente parecia infinita, enquanto o silêncio dentro do veículo era pesado, cheio de pensamentos que ele preferia ignorar.
"Trrrim-trrrim..."
O toque do celular cortou o silêncio. Apollo lançou um olhar rápido para o painel onde a tela do celular estava, ao ver o nome, apertou os lábios. Ele sabia que aquela ligação não traria boas notícias.
Por um momento, pensou em ignorar, mas suspirou e atendeu.
A voz do outro lado veio firme e sem rodeios:
— Você recebeu a minha mensagem, Apollo. Está pronto para encarar isso ou tem mais desculpas para dar?
Era sempre assim com o Major Magnus, seu avô. Direto, exigente, sem paciência para enrolação.
— Já disse, não estou pronto para isso. Não me pressione, Major. Recebi sua mensagem ontem, tenho certeza que te deixei uma resposta.
Apollo manteve a voz controlada, mas a tensão estava lá. Ele sabia que essa conversa não terminaria tão fácil. Enquanto isso, do outro lado da linha, um breve silêncio se fez antes do major abrir a boca novamente.
— Eu recebi sim,mas precisamos resolver isso pessoalmente. Acha mesmo que pode fugir disso? Que se afastar vai apagar o que aconteceu?
A pergunta pesou. Magnus sempre sabia como cutucar suas feridas. Apollo fechou os dedos ao redor do volante e respirou fundo.
— Fugir? Se o senhor soubesse o que passei, entenderia que, às vezes, a única forma de seguir em frente é se afastar.
Do outro lado, Magnus não demonstrou surpresa. Sua resposta veio com o mesmo tom rígido de sempre, mas com uma pitada de ironia.
— Se fosse fácil te convencer, eu começaria a duvidar que somos da mesma família.
Apollo sorriu de canto, sem humor.
— E mesmo sabendo disso, o senhor continua insistindo. Quem é o mais teimoso agora?
— Que neto teimoso! Nem por um segundo me dá motivo para acreditar que tudo isso valeu a pena. O que custaria me dar um pouco de esperança?
A pergunta veio como um golpe, mas Apollo já esperava.
Ele suspirou antes de responder:
— Minha paz. E posso garantir que não vale o preço.
Por um momento, o silêncio se alongou. Então, sem mudar o tom, ele concluiu:
— Amanhã cedo, sigo o mesmo caminho de sempre. Passarei pela cafeteria. Se ainda quiser se despedir...
A ligação caiu.
Apollo manteve os olhos na estrada, mas a conversa ecoava em sua mente, como se cada palavra marcasse a contagem regressiva para algo que ele não podia evitar.
Quando se aproximou de casa, o portão elétrico deslizou lentamente para cima, revelando a garagem escura e silenciosa. Ele guia o carro para dentro com precisão, mas não desliga o motor. Ele Permanece ali, imóvel. Apenas respirando.
O ar, ao invés de trazer paz, parecia uma promessa vazia. Depois de um dia exaustivo, ele deveria merecer tranquilidade, mas não a encontrava.
Suas mãos, firmes no volante, tremem sutilmente. A injustiça pesava sobre seus ombros novamente. E então, como uma lâmina fria perfurando sua mente, um nome se fez presente:
"Hazana Yagner."
Nome que um dia foi sinônimo de respeito e lealdade dentro do grupo dos "Agulhas Negras". Um nome que agora sangrava como uma ferida aberta em sua alma.
Essa era uma das Razões pelas quais o Capitão Apollo decidiu se afastar. Não era apenas cansaço físico-era algo mais profundo, uma exaustão que corroía sua essência. A traição dos que antes chamava de colegas pesava mais do que qualquer fardo que já carregara. No instante em que as acusações foram lançadas, eles não hesitaram. O olhar de incredulidade, a frieza com que o julgaram culpado. aquilo o devastou mais do que gostaria de admitir.
Confiar neles foi seu maior erro. E ele sabia. Sempre soube. Sua personalidade firme, sua frieza calculada-essas eram os motivos que sempre causaram desconforto, desconfiança. E ainda assim...
Ele cerrou os olhos, deixando que a escuridão os envolvesse por um breve instante. O dia desabou sobre ele, como se o próprio tempo quisesse esmagá-lo.
Porque, no mais profundo de seu espírito, uma verdade cruel e indomável pulsava, crescendo como uma tempestade prestes a romper os céus.
Ele não desejava se afastar. Trabalhar ali era sua única fuga da monotonia gélida de sua existência. Naquele ambiente, entre relatórios e missões, encontrava um propósito que lhe dava algum calor, uma distração necessária para não encarar o vazio que o acompanhava fora dali.
Ele sabia que a verdadeira justiça permanecia distante, uma sombra fria, aguardando para ser reivindicada.
⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅
- Como eu a teria matado?! Não vê que fomos todos manipulados?! Toda essa encenação foi planejada para desviar a atenção e abrir caminho para o assassino! Eu sou inocente, e mesmo assim você insiste nessa perseguição cega! Abra os olhos! Em vez de desperdiçar sua energia comigo, busque a verdade.
A voz de Apollo ecoou pelo espaço abandonado, sua respiração pesada denunciando o desespero e a revolta que o consumiam. Ele estava ali, imobilizado, preso contra o pilar de um edifício esquecido pelo tempo, um fantasma de concreto e ferrugem.
- Cale-se! - bradou o capitão, o Rancor ardendo dentro do peito - Eu tenho provas! Imagens que mostram você no exato momento e local onde Hazana foi assassinada! A sua máscara já caiu, Apollo! E se a justiça insiste em fechar os olhos, então eu mesmo tomarei as rédeas dessa história. Porque eu sei! Eu sei exatamente o que você fez.
Xavier não conseguia respirar direito. A raiva queimava dentro dele como um incêndio incontrolável, cada fagulha crescendo até consumir tudo. Sua cabeça latejava. Seus punhos, cerrados, os músculos do corpo tensionados até o limite, como se estivessem à beira de se romper. Ele tentava racionalizar, controlar a ira que se espalhava pelo corpo, mas era inútil.
A dor era insuportável, e Xavier sentia como se fosse ontem, como se ainda pudesse ver Hazana diante dele.
O sorriso de Hazana sempre exerceu um magnetismo inexplicável sobre Xavier, irradiando uma força indomável que parecia resistir a qualquer tempestade. Não importava o peso do mundo sobre seus ombros, ela permanecia firme, como se o medo jamais tivesse ousado tocá-la. Ele se lembrava da maneira como enfrentava os desafios, com a postura de quem nunca recuava, com uma bravura que beirava a insolência.
Havia algo de fascinante na firmeza de sua voz, no olhar penetrante que sempre carregava um traço de determinação feroz. Mas, acima de tudo, Xavier se recordava do raro afeto que encontrava em seus braços — um refúgio inesperado em meio ao caos que ela mesma representava. Hazana era fogo e abrigo ao mesmo tempo, uma chama que o consumia, mas também o único porto seguro onde sua alma inquieta encontrava descanso.
Mas então veio aquele dia.
Ela entrou, trêmula, os olhos marejados. O sorriso que Xavier tanto admirava havia sumido, enterrado sob uma humilhação que ele não entendia. Sua respiração era curta, e quando finalmente encontrou forças para falar...
- Ele me humilhou... o Capitão... - A voz dela falhou, carregada de dor, enquanto as lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto. - Ele me reduziu a nada, Xavier... Nada. Como se eu não existisse... como se eu fosse insignificante.
E foi ali, diante da irmã despedaçada, que Xavier sentiu algo que nunca tinha sentido antes. Uma raiva fria e intensa. Ele não perguntou detalhes. Não precisava. A dor nos olhos de Hazana já dizia tudo.
Ele se lembrava de seus verdadeiros sonhos, dos planos que ela compartilhava nas madrugadas silenciosas, onde o mundo parecia menos cruel. Ela queria mais do que aquilo. Mais do que sombras, mais do que dor.
E agora, ao trazer essa memória à tona, Xavier se perguntava: o que restava da mulher que um dia amou tanto? O que restava do sorriso que um dia parecia inquebrável?
Xavier avançou, e o soco estalou no silêncio do prédio, enviando uma onda de dor por todo o corpo de Apollo. Sua cabeça pendeu para o lado, e o gosto metálico do sangue invadiu sua boca antes que ele pudesse se recuperar. O impacto ressoou em sua mente, mas em meio ao conflito, ele manteve o olhar fixo em Xavier.
- Eu tinha razões, mas a culpa não é minha. Estávamos no mesmo lugar, sim, mas foi pura coincidência. Eu estava atrás de um informante, e acabei sendo manipulado até cair nesse jogo...
Disse, mas o ar lhe faltou. Xavier avançou sem hesitação, reduzindo a distância entre eles em um instante. Seus dedos firmes envolveram a garganta de Apollo, apertando com uma força que refletia o desejo de vingança. Seu olhar, intenso e ardente, exigia uma resposta—uma confissão que Apollo simplesmente não tinha para oferecer.
É uma ironia amarga para alguém que sempre impôs sua presença com autoridade. Agora, ali, ele não passava de um homem à mercê da brutalidade cega de um jovem impetuoso.
Os seus lábios estavam quase roçando o rosto do capitão, enquanto cuspia palavras impregnadas de condenação. Em um movimento brusco e decidido, arrancou-lhe a arma do coldre e pressionou o cano frio contra sua têmpora. Apollo não desviou o olhar. Mesmo com a mente em caos e a sensação de impotência pesando sobre ele, manteve-se com o olhar fixo e prosseguiu:
- Que, após minha morte, você seja condenado como um assassino! - vociferou. - Que o peso da sua consciência esmague você quando finalmente perceber a verdade!
Com dificuldade, Apollo reuniu o que restava de sua força para manter-se lúcido. Sua voz saiu rouca, mas conseguiu falar:
— Eu já disse… Tudo isso não passou de uma farsa construída. Esse caso está prestes a ser arquivado. Mas você insistiu em me perseguir até chegarmos a este ponto!
Apesar das suspeitas, a falta de provas impediu que Apollo fosse formalmente incriminado. A investigação encontrou inconsistências nas acusações e, somado a isso, seu álibi foi confirmado por fontes confiáveis, afastando-o temporariamente do centro das investigações. No entanto, a desconfiança ainda pairava sobre ele. As autoridades, cientes da complexidade do caso, decidiram manter Apollo sob vigilância discreta, aguardando qualquer deslize que pudesse revelar sua verdadeira conexão com o crime. Ou não.
Apollo lutava contra a sombra do desmaio iminente, mas não poderia partir sem afirmar a verdade uma última vez.
- Eu não matei Hazana! Então, me diga Xavier, por que continua agarrado a essa mentira?
A pergunta escapou de seus lábios entre suspiros trêmulos, enquanto sua mente lutava contra a escuridão. O mundo ao seu redor oscilava, e cada segundo parecia um fio prestes a se romper.
Nos lábios de Xavier, um sorriso maldoso se desenhou, frio e impiedoso. O peso da vingança pulsava em seus músculos enquanto apertava ainda mais a garganta do assassino. Aquele homem, cujo nome sequer merecia ser pronunciado, havia tirado Hazana dele. Sob sua jurisdição, aquele monstro espalhara morte, mas agora, o próprio destino cobrava seu preço. E Xavier era a espada afiada da justiça.
Mas o passado nunca se apaga sem luta.
O estrondo de passos apressados rasgou o silêncio, seguido pela voz autoritária do Major Magnus. O olhar do veterano não deixava dúvidas. O sumiço repentino do neto e os rastros deixados pelo capitão Xavier contavam uma história que não precisava ser dita em palavras.
O tempo pareceu congelar quando Xavier hesitou. Seus dedos permaneceram firmes ao redor do pescoço do inimigo, sua mente um turbilhão entre a raiva e a razão. Mas então, com uma relutância amarga, ele cedeu.
Apollo caiu, seus pulmões arfando em busca do ar que quase lhe fora negado. Seu corpo era um retrato da miséria-dias inteiros sem comida, sem água, sem descanso. Apenas a dor constante como companhia. Suas pernas fraquejaram, incapazes de sustentá-lo.
Foi Xavier quem, mesmo consumido pelo rancor, o segurou. Seu braço envolveu a cintura do neto do major, sustentando-o contra si. Cada passo em direção ao carro estacionado do outro lado parecia um peso insuportável.
Ele não queria ajudá-lo. Não queria estar ali.
Mas, por ora, a vingança teria que esperar.
O major estava inquieto, sua emoção mal contida refletia a profunda preocupação que sentia pelos dois capitães. Eles não eram apenas subordinados; eram parte essencial de sua vida, ocupavam um espaço inestimável em seu coração.
- Você iria realmente jogar toda a sua carreira no abismo sem sequer pensar nas consequências!? Como pode se chamar de capitão agindo sem pensar!?
Sua voz ecoou pelo ambiente, carregada de decepção e indignação. Em um impulso furioso, sua mão encontrou o rosto do oficial em um tapa ríspido. Não era apenas raiva - era desespero. O major o considerava como um filho, e justamente por isso, não poderia agir de outra forma, Se não aquela.
- Imbecil inconsequente! Você ao menos percebe o que esteve prestes a fazer!?
⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅
A lembrança do que aconteceu naquele dia ainda queimava na mente de Apollo. A imprudência de um lunático quase o levou à morte. E esse lunático tinha nome: Xavier Yagner.
Desde então, o nome de Yagner tornou-se uma ferida aberta, um fantasma que assombrava cada pensamento de Apollo. Ele não apenas desejava justiça... Ele ansiava por vingança.
Ao emergir desse turbilhão de lembranças, Apollo finalmente desceu do carro. Seus olhos se voltaram para Selene, sua fiel empregada, que se aproximava com passos cuidadosos. Trazia uma bandeja prateada, onde repousava uma xícara de café fumegante. O vento soprou suavemente, fazendo seus cabelos grisalhos dançarem com a brisa gelada. O inverno estava chegando... E com ele, a promessa de que sua sede de vingança jamais esfriaria.
- Como foi o seu dia hoje? - perguntou Selene, com um olhar que misturava sinceridade e carinho, como se estivesse realmente curiosa, querendo saber o que se passava com ele.
Calmo... como um oceano antes da tempestade.
Ele respondeu com uma ironia sutil, o tipo de sarcasmo que fluía naturalmente em sua voz. Seus lábios esboçaram um sorriso brando, mas seus olhos, ainda que ocultos pelo gesto, carregavam um cansaço que ele não queria admitir. Levou a xícara de café a boca, como se o calor da bebida pudesse dissipar a tensão que lhe pesava nos ombros, um esforço quase inútil para conter a tempestade silenciosa dentro de si.
Selene inclinou levemente a cabeça, absorvendo a sutileza da resposta. Seus lábios se curvaram em um sorriso sagaz, entendendo perfeitamente o que ele não dissera em palavras.
Ah, claro... nada mais sereno do que o silêncio antes do mar se revoltar.
Respondeu com graça, retribuindo o sarcasmo com uma elegância que só ela possuía. A leveza de suas palavras e o sorriso em seu rosto mostravam o quanto ela conhecia Apollo, entendia a complexidade por trás de sua fachada e sabia como navegar por ela sem esforço.
Os dois se olharam em silêncio por um momento, e um sorriso cúmplice surgiu nos dois rostos, como se aquele fosse um pequeno segredo compartilhado entre eles. A risada que se seguiu foi suave, despretensiosa, um alívio momentâneo na rotina pesada que costumava seguir Apollo. Ele não sorria assim com facilidade, e Selene sabia disso. Sabia também que ela era uma das poucas pessoas capazes de trazer aquele gesto de leveza aos seus dias, mesmo que fosse por um breve momento.
Minutos depois, já dentro da casa, Selene quebrou o silêncio que havia se estendido.
- A academia está pronta para sua rotina. E como o meu horário está quase no fim... há mais alguma coisa que eu possa fazer pra você?
Havia um tom de esperança na voz dela, como se desejasse que ele precisasse dela um pouco mais.
-Não, você já pode ir. Obrigado pelos seus serviços, Selene.
Ela hesitou por um instante antes de responder, como se quisesse dizer mais.
- Cuidar de você... me faz sentir perto do meu filho. Como se eu ainda pudesse compartilhar suas aventuras e loucuras. Então, o prazer é todo meu.
Seu sorriso era doce, mas escondia um peso no coração. E com um leve aceno, despediu-se.
Já Apollo, treinou por horas na academia. Cada gota de suor escorria como se lavasse algo de dentro para fora. Mas o cansaço se impôs. Seu corpo atingira o limite que sem escolha, cedeu.
O chuveiro frio foi um alívio imediato. A água percorria sua pele como um convite ao descanso. Logo após,com a toalha enrolada na cintura, caminhou até a cozinha, guiado pela sede.
Abriu o refrigerador. Mas antes mesmo de escolher algo, sentiu algo diferente... uma sensação de vazio.
A casa, tão moderna, tão bem decorada, parecia fria, impessoal. Era grande, mas não acolhedora. Porque o que dava vida ao ambiente ia embora com Selene quando seu turno terminava.
Ela era a figura que lhe dava sentido, o alicerce em um mundo desfeito. Sua presença era um farol, um calor que aquecia até os cantos mais frios da alma. Ela o fazia sentir que havia um lugar no mundo onde poderia ser vulnerável, onde a dor poderia ser suavizada, onde o medo se dissolvia em segurança. Mas agora... sem ela, tudo o que restava era o silêncio ensurdecedor. Um vazio que consumia os espaços, que lhe apertava o peito e lhe roubava a respiração.
Apollo suspirou, fechando os olhos por um breve momento. Nada a fazer, exceto se deitar e esperar que o amanhã trouxesse algo diferente. Algo melhor.
Talvez o amanhã traga um novo começo, uma chance de reescrever o que hoje parece impossível.
Continua...
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