Capítulo 3 - O Perdedor

Era de manhã, por volta das 9h. Um homem assistia ao jornal local, sentado em um sofá espaçoso, que emanava um cheiro de suor e óleo, impregnado no tecido. A campainha tocara, fazendo com que o homem se levantasse contra sua vontade e seguisse em direção à porta.

— Pois não? — disse abrindo somente um vão da porta.

— Bom dia Sr. — disse o garoto de cabelos negros, que tocou a campainha e não pôde evitar de notar a gordura do homem, que transbordava pela sua calça mal apertada.

— Está olhando o que pivete?

— Nada... Por favor, gostaria de saber se o senhor pode me arrumar um pouco de pão e água? — o garoto fez uma expressão comovente. — Não tenho dinheiro, por favor, moço o senhor pode me ajud...

— Eu tenho cara de padeiro? — interrompeu o homem.

— Nã... Não senhor... — balançou as mãos negativamente em resposta, mas que serviu de sinal para alguém do fundo da casa, que ficava próxima ao bosque de Lakehaven.

John espreitava escondido atrás de uma árvore o quintal da casa, que não era cercada conforme as demais do bairro, sendo esta a última da rua pavimentada. O quintal ficava na lateral direita da casa, tendo total visão da rua para o bosque. No varal estavam algumas roupas da família, que ali residia e próximos da grande janela da sala, havia alguns pares de sapatos secando ao sol, em cima de um tambor. O único problema é que se houvesse alguém na sala, teria total visão do terreno. Ao ver o sinal de Allec, John olhou em volta para checar se tinha mais alguém por perto e correu ligeiramente até o varal. Apanhou algumas roupas e depois foi ao tambor, pegando um par de sapatos e retornou para o bosque, sem ninguém notar sua presença.

— Olha aqui moleque! Se você não sair da minha frente agora, eu juro que te tiro a força.

— Cal..Calma... Desculpe-me senhor. — respondeu Allec, que deu alguns passos para trás, com as mãos na altura dos ombros em sinal de defesa.

 

— Vamos! Saía! — gritou furiosamente, fazendo com que Allec desistisse de seu apelo e corresse dali.

— Que merda, a gente não pode nem assistir TV sossegado! — resmungou o homem batendo a porta.

Allec correu para a próxima esquina, cerca de quatro casas depois e olhou para trás, mas o homem já tinha sumido. “Ufa, até que foi fácil...”, pensou distraído e acabou trombando em alguém.

— Hey, cuidado aí! — disse um garoto de uns 15 anos.

— Me desculpe... — respondeu Allec e seguiu em frente a passos largos.

— Espera aí! Eu conheço você!

Allec olhou para trás para ver se o reconhecia.

Ao olhar nos olhos de Allec o garoto lembrou-se de John, devido à mera semelhança. — Você é irmão daquele idiota, não é? — disse e segurou o riso. — Aquele otário da turma C! — afirmou com gosto para atingi-lo psicologicamente, pois menosprezava ambos, mas Allec não demonstrou reação e apenas o encarava.

— Vamos Allec! — John apareceu no final da esquina e já vestia as roupas “emprestadas”, que lhe caíram muito bem. Vestia uma camisa de cor chumbo, junto de uma blusa azul marinho com dois bolsos de zíper. A calça era um moletom preto com uma listra branca na lateral esquerda, que ficara um pouco justa, mas ainda assim confortável e o tênis de modelo All Star preto. John reconhecera o garoto, mas olhara somente para seu irmão, ignorando completamente a existência do valentão, assim como fazia na escola quando o garoto o atormentava.

 

Allec permaneceu em silêncio e seguiu na direção de seu irmão, dando as costas para o valentão.

— Ah! Você está aí! — disse e sorriu maliciosamente. — O que foi perdedor, o gato comeu sua língua?

Conforme Allec se aproximava, John tomou o passo e também deu as costas para o garoto.

O valentão perdia a paciência e seguiu ambos. Ao se aproximar de John notou algo familiar.

— Hey! Estas roupas são minhas! — correu na direção deles com intenção de esmurrá-lo. — Devolva-as agora!

John se virou e segurou o punho do rapaz sem o mínimo de esforço e lançou lhe um olhar frio, estando agora bem próximos.

— Seu... Desgraçado! — tentou se soltar, mas a mão de John parecia estar soldada a sua. Deu um grito de raiva e lançou um chute em direção ao maxilar de John. Já havia derrubado dezenas de idiotas como os Mool’s com aquele golpe, mas foi aí que seu corpo foi simplesmente arrancado do chão. John fizera o menino subir por cerca de um metro, antes que caísse como um boneco pelo chão. Pela primeira vez em sua vida, o menino sentia o verdadeiro medo tocar suas entranhas. John, o perdedor. John, o caipira estranho e inútil que sempre lhe serviu como uma descartável diversão cruel, o tinha chutado com a força de um aríete.

Sentira um peso em seu joelho esquerdo, John pisara nele. Pegou-o pelo cabelo e o levantou numa altura suficiente para sussurrar em seu ouvido.

— Você as quer? Venha pegar! — John riu e afirmou lentamente. — Seu perdedor!

O garoto sentira seus olhos umedecerem contra sua vontade e lágrimas começaram a escorrer, pois algo em John o fazia sentir medo. Enquanto tentava livrar seu cabelo da mão de John, resmungou:

— Seu... Seu monstro!

John farejava o cheiro de medo transbordando do garoto, que fazia o máximo para se libertar, mas sem nenhum sucesso. Sentiu pena, mesmo depois de tudo que ele fizera durante todos esses anos. Era apenas mais uma presa indefesa, igual aos pássaros que apanhara mais cedo. Este pensamento o fez focar nos batimentos cardíacos do garoto. O lobo dentro dele começou a lutar para sair contra sua vontade, porque aquela sensação sobre uma presa indefesa o contagiava. Seu lado animal ficara louco ao ouvir os batimentos de desespero e brotara uma vontade enorme de dilacerar carne e devorar vísceras. Sendo invadido pela sensação de poder, seus olhos começaram a mudar, juntamente com suas presas. Por sorte foi surpreendido por um grito inesperado.

— Paiiiiiiiii... — gritou choramingando.  — OW PAI!

O homem que conversara com Allec surgiu novamente e olhou na direção de seu filho, que encontrava-se caído no chão e com John sobre ele. — O que diabos está acontecendo Jack? — gritou de volta e foi se aproximando dos garotos para apartar a briga. Notou a presença de Allec e perguntou surpreso: — Você de novo? — começou a correr com dificuldade. — Vou dar uma surra em vocês dois!

Os dois olharam para o homem, que corria de maneira desengonçada. John largou com tudo o cabelo de Jack, que o fez bater a cara no chão e os irmãos bateram em retirada.

 

Os irmãos passaram por um bairro de casas populares, que ficavam próximas ao bosque, até a casa dos amigos mais próximos de Allec, o casal de gêmeos Matheus e Bianca. John já os havia visto antes nas vezes em que trouxera seu irmão para brincar na casa deles, mas preferiu manter distância enquanto observava a despedida e também ficara alerta a cada possível movimento na rua. Suspirou fundo ao observar as três crianças se abraçando e sentiu um vazio interior invadir seu peito, por não ter ninguém para se despedir. Tentou ignorar este sentimento resmungando bem baixinho para si:

— Eu não preciso de amigos humanos... Eles não são confiáveis e nunca nos aceitariam se soubessem o que somos.

John focou sua atenção em seu irmão, que correu até ele em um abraço de gratidão e fizera alguns cafunés em Allec. Os dois irmãos se entreolharam em silêncio e apenas assentiram que era hora de partir.

 

Os dois andaram mais uns 20 min até chegarem ao porto de barcos. Adentraram o terminal marítimo de passageiros de Lakehaven e John procurou se informar com um dos atendentes, sobre qual seria o próximo navio a partir. Anteriormente ele cogitara a ideia de ir para o norte, pois há dois anos atrás ouvira boatos entre uma conversa de seus pais e um casal de amigos, de que haveria uma grande alcateia por lá. John não sabia exatamente o nome do local, nem ao menos se a mesma ainda existia, sendo um destino às cegas. Correndo o risco de encontrarem os caçadores onde quer que fossem, John apenas focalizou em irem embora de Lakehaven o mais rápido possível, independente para qual cidade se destinasse. Um navio de cruzeiro com nome Maximum, sairia em duas horas com destino a Merrowmash. Seriam dois dias de viagem e foi o escolhido pelos irmãos. Eles caminharam até as docas e avistaram Maximum sendo preparado pelos tripulantes. O navio possuía três andares e vários botes salva-vidas na cor laranja em suas laterais.

Aguardaram até o horário de embarque dos passageiros e aproveitaram esta distração para darem a volta no navio pela água. John escalou a embarcação com suas garras e Allec em suas costas, até o compartimento dos botes salva-vidas. Era a primeira vez dos irmãos em um navio e ficaram maravilhados com a grandeza de Maximum. John se deixou guiar pelo olfato e calor, que sentia suavemente vindo da sala de motores, no qual consentiu que seria o local mais seguro durante a viagem. Localizou a possível porta que estaria seu objetivo com um aviso: “Apenas pessoal autorizado!” e puxou seu irmão até a mesma, que estava destrancada. Passaram por um corredor com algumas portas, deixando um rastro com pegadas de água, até que chegaram em uma escada de metal verde musgo. John pediu a Allec que o aguardasse ali. Voltou para os rastros que deixaram no corredor e começou a espalhar a água com as mãos, para que não parecessem pegadas e sim alguém desastrado, que derrubara toda aquela água. Do alto da escada, John localizou um duto de ventilação a dois andares abaixo e com Allec em suas costas, saltou em torno de 15 metros de altura e correu até o duto. Segurou a grade e puxou-a para trás com um pequeno impulso, removendo-a com facilidade devido a sua força sobre-humana. Seu irmão entrou primeiro e foi logo atrás, fechando a passagem. John guiou Allec através do olfato e tiveram que engatinhar até que chegassem na sala dos motores. Havia um corredor com grandes cilindros e outros menores nas laterais, com canos de 30 cm de diâmetro interligando todos eles e a passagem para os tripulantes bem estreita. Os irmãos se esconderam entre a parede e os cilindros, com uma distância de uns 60 cm, mas bem próximos ao duto de onde vieram, localizado na parede a 1 metro do chão. John sugeriu que se despissem, para que suas roupas pudessem secar mais rapidamente com o calor do ambiente, que era agradável.

Depois de 24 horas no mar, ambos estavam famintos.

Com o estômago doendo, Allec pediu ao irmão que procura-se por comida, John concordou, porque precisavam se alimentar para recuperarem suas energias. Pediu para que Allec o aguardasse no esconderijo e vestiu apenas a calça moletom já seca e entrou no duto de ar.

 

Depois que engatinhou alguns minutos na ventilação, John passara por um salão de jogos, que cheirava a álcool e tabaco, o deixando enojado. Em seguida passou por cinco quartos vazios, até que no próximo encontrou duas jovens conversando. A que estava sentada na cama possuía cabelos negros, que contrastava com sua pele cor de neve. A outra moça com apenas a roupa de baixo, fitava o espelho segurando dois vestidos, dona de um cabelo cor de fogo e pele levemente morena, que chamara a atenção de John. Ele ficou hipnotizado e corou ao vê-la. A observava através da grade no teto, há 8 metros de altura e sentiu uma vontade imensa de tocá-la, começando a salivar. Seu lobo interior a queria, mas sua consciência o fez soltar um rosnado baixo para si em desaprovação e que chamara a atenção de um chihuahua, que começou a latir para John, o fazendo voltar a realidade e afastou-se da grade.

As moças brigaram com o cão, por causa do barulho e alguns minutos depois saíram do quarto. John observou o cachorro, que o encarava rosnando. Com as duas mãos, puxou a grade para cima e a posicionou logo a frente, ainda dentro do duto e saltou. Encurralara o chihuahua, que choramingava, o pegou no colo e começou a acariciá-lo, demonstrando que não era inimigo. Quando a cadela parara de tremer, John quebrara o pescoço, matando-a de forma indolor e pensou:

“Sinto muito, mas é para um bem maior.”

Ficou observando a cadela por um momento. Quando foi pegar impulso para saltar em direção à ventilação, as vozes das moças se aproximavam do quarto. Seu coração disparou e arrumou o cão na almofada no chão, como se estivesse dormindo e se escondeu embaixo da cama, bem no momento em que abriram a porta.

 

A moça de cabelo cor de fogo foi até a mesa próxima ao espelho e pegou algo. — Sabia que tinha esquecido aqui... — ela olhou ao redor e notou que o cão dormia e sussurrou. — Fifi até dormiu.

— Sim, vamos, estão nos esperando. — disse a outra moça já saindo do quarto.

— Estou indo! — retrucou e trancou a porta do quarto.

John soltara um suspiro de alívio, pegara o cão e mordeu a pele da nuca do animal, como se carregasse um filhote, para que ficasse com as duas mãos livres. Saltou para o duto de ar e fechou a grade, retornando pelo mesmo caminho. Quando se aproximava da sala dos motores, avistou seu irmão, que o esperava ansioso e vestia apenas a calça. Ao remover a grade, surpreendera Allec com o que tinha conseguido.

— Um cachorro? — Allec perguntou receoso.

— É isso ou a fome. — retrucou John com seu olhar e presas de lobo, que surgiram involuntariamente.

Allec fez uma careta enquanto fitava o cachorro nos braços do irmão, mas o ronco de seu estômago foi alto o suficiente para chamar a atenção de ambos. Engoliu em seco e assentiu agradecido, encarando John novamente, sem perceber que estava com os mesmos olhos de lobo, que indicava que sua transformação seria em breve.

John sorriu ao ver os olhos do irmão, que voltaram ao normal, mas permaneceu em silêncio. O instruiu para que retirasse a roupa, para não correr o risco de manchá-las de sangue, já que eram as únicas que possuíam. Após se alimentarem, deixaram os restos mortais do cachorro em um canto mais afastado, atrás de um dos cilindros e adormeceram até o restante da viagem.

Os irmãos só foram acordar, quando sentiram o tranco da parada do navio. Se vestiram e fizeram o mesmo percurso pelos dutos, até saírem na escada de metal verde musgo. Esperaram até que todos saíssem e ao longe escutavam alguns dos tripulantes chamando pelo cão desaparecido. Espreitaram-se até a porta e quando foram correr para o convés, sentiram um puxão nas golas das camisas e notaram que um homem enorme os havia descoberto.

— O que fazem aqui? — perguntou o homem. — Quero ver a passagem dos dois!

— Não estamos com elas senhor. — respondeu John.

— Não? E onde estão seus pais?

— Mas nós nã...

— Hey meninos, vamos! — afirmou uma senhora interrompendo a fala de Allec, aparentando ter seus 50 anos de idade e com os cabelos castanhos encaracolados até os ombros. A mulher usava um vestido branco na altura dos joelhos e um casaco social listrado em cores quentes, que ía um pouco abaixo da cintura. Também utilizava grandes óculos escuros e uma sandália de salto preta. Estava acompanhada de um senhor de mesma idade, com cabelos bem alinhados para trás e levemente grisalhos. O homem vestia uma camisa social esportiva branca, calça jeans e sapatos pretos.

Os dois irmãos se entreolharam, questionando-se em silêncio, se realmente aquela mulher falava com eles.

— A senhora conhece esses dois? — perguntou o tripulante, que soltou os dois meninos.

— Sim! Eles estão conosco. — respondeu calmamente e continuou: — Vamos meninos, não podemos nos atrasar!

Allec e John se entreolharam novamente desconfiados e foram em direção ao casal.

— Me desculpem o engano.

— Tudo bem, tenha uma ótima tarde. — disse a mulher se retirando quando os irmãos se aproximaram e sugeriu baixinho: — Não olhem para trás. — colocou as mãos sobre os ombros dos dois, que obedeceram.

Eles percorreram todo o percurso até o final das docas em silêncio, enquanto observavam a cidade de Merrowmash. Havia alguns prédios no centro e vários bairros residenciais. Não era uma cidade muito grande, mas John focalizou o que mais era de seu interesse, a floresta, que ficava do outro lado da cidade. Já bem distante do navio, John parou e agradeceu:

— Muito obrigado por nos ajudar lá trás!

— Não foi nada, Freddy e eu percebemos que estavam em apuros e decidimos ajudar. Aliás, quais seus nomes?

— Sou Pedro e este é meu irmão Lucas. — afirmou John.

— Olá. — disse Allec timidamente.

— Que gracinha... Como eu já disse meu marido se chama Freddy e meu nome é Esmeralda. — disse sorrindo.

— Prazer em conhecê-los! — responderam os irmãos.

— Agradeço novamente pelo que fizeram por nós, mas precisamos ir... — continuou John.

— Onde estão seus pais? — perguntou Freddy.

John disse a primeira coisa que veio em sua mente.

— Nossos pais estão na Europa, nós viemos visitar um primo.

— Oh meu Deus! Vocês estão sozinhos então? — Esmeralda pegou nas mãos dos dois. — Vocês estão bem?

— Estamos, não se preocupem. — respondeu Allec perdendo a timidez.

— Desculpem perguntar, mas onde mora o primo de vocês? — perguntou Freddy.

— É umas duas horas de caminhada ao sair da cidade.  — respondeu John.

— Hum, entendo... — disse Freddy.

— Mas já está escurecendo, vocês tem algum lugar pra ficar esta noite? — perguntou Esmeralda. — Vocês podem encontrá-lo amanhã durante o dia.

— Não. — respondeu Allec.

— Mas não se preocupem, a gente dá um jeito. — completou John, não querendo tomar mais tempo deles.

O casal se entreolhou e ela acenou com a cabeça.

— Por que vocês não vem conosco esta noite? Moramos há alguns minutos daqui e não me levem a mal, mas é que vocês aparentam estar exaustos. — comentou Esmeralda.

— Agradecemos pela generosa oferta, mas não queremos incomodá-los. — respondeu John. — Precisamos ir, me desculpem e muito obrigado novamente! — afirmou e se retirara, puxando Allec pela mão, que não teve reação e olhava para o casal, que os observava indo embora em silêncio.

Allec acenou para o casal, que retribuiu o aceno e em seguida encarou John, como se quisesse dizer alguma coisa.

— Não Allec... Não são dignos de nossa confiança, mesmo eles tendo nos ajudado.

— Mas... Mas nós nem demos uma oportunidade para isso... — resmungou baixinho, sendo puxado pelo irmão.

— Não importa. — e seguiram rumo à floresta.

 

 

 

O vento dançava com as folhas das árvores e a sensação térmica cairia em breve. John e Allec se infiltraram alguns quilômetros na floresta, antes de pararem para descansar.

 

— John, está frio aqui... — Allec disse enquanto sentava em uma raiz e apertava seus braços.

— Pelo menos é mais seguro que a selva urbana. — respondeu ajeitando-se em um canto próximo da árvore e gesticulou com as mãos, para que seu irmão se aproximasse.

— A gente podia estar numa cama bem quentinha agora… — retrucou descontente, se aproximando do irmão.

— Eu sei Allec, mas nós não podemos simplesmente confiar em qualquer um, pois eles podiam muito bem ser Evis.

— Eles pareciam ser legais, mas pra você qualquer um deles é perigoso. — resmungou deitando-se ao lado do irmão.

— Não confio neles e ponto! — afirmou virando-se e ficando de costas para Allec, preparando-se para dormir e comentou: — Além do mais, quando for mais velho irá entender, porque ninguém oferece a própria casa como abrigo para dois estranhos. Agora durma, porque levantaremos cedo amanhã!

 

01h da madrugada.

John despertou assustado, mas não se moveu. Olhou ao redor e notou a floresta silenciosa. Começou a farejar e se levantou devagar, para que Allec não acordasse. Um cheiro familiar chamou sua atenção. Deu alguns passos em direção do fedor e avistou luzes de lanternas. Abaixou-se imediatamente e se escondeu atrás de uma raiz. Observou por alguns segundos e foi ao encontro de seu irmão.

— Allec, acorda, agora! — sussurrou.

— O q...

John o interrompeu gesticulando em sinal de silêncio e sussurrou: — Venha, mas ande abaixado...

Os irmãos desceram uma ribanceira e correram algumas centenas de metros, até encontrarem uma toca de algum animal, cercada de arbustos. Os dois se espremeram entre as raízes da toca e ficaram em silêncio.

Alguns minutos depois, os irmãos foram surpreendidos pelas luzes intensas nas árvores próximas e escutaram conversas aleatórias. John farejou duas fêmeas, quatro machos e também muita prata junto deles.

Eram Evis, agora John tinha certeza. Começou a rosnar baixinho quando avistou um pé próximo dos arbustos, que cercavam a toca. Ambos os irmãos tremiam, mas respiraram aliviados quando um dos homens chamou o ser próximo à toca e as luzes foram para outra direção.

Esperaram até que o fedor deles se distanciasse. John saiu primeiro e observou o ambiente. Em seguida fez sinal com as mãos, para que seu irmão se juntasse a ele.

John suspirou e começou a se despir.

— O que está fazendo? — perguntou Allec.

— Segure-as pra mim. — disse e entregara suas roupas, não prestando atenção na pergunta de seu irmão e se afastou um pouco.

John esticou seu braço direito, observando seus músculos se modificarem, transformou-se mais rapidamente e se agachou por alguns segundos, enquanto  rosnava. Ficou em sua forma quadrúpede, encarou Allec e disse:

— Suba, precisamos sair do território deles e rápido, porque aqueles humanos eram caçadores! Há muito chão para andarmos, mas nada melhor do que ir correndo! — afirmou se agachando.

— Verdade... Obrigado John.

— Não acostuma não. — John disse após Allec subir em suas costas e começou a andar depois de rir. — Tá ficando difícil te carregar.

— Eu vou emagrecer, prometo! Melhor ainda, vou me transformar em breve, você verá! — respondeu com um breve sorriso e esfregou os pelos do pescoço de John, como se revidasse todos os cafunés que seu irmão lhe dera.

— Pare com isso! Me dá cócegas e não consigo correr assim... — John rosnou e se contorceu ao receber os cafunés. — Vê se segura bem aí! — após o alerta, John respirou fundo e sentiu sua pelagem acima das orelhas serem agarradas de leve. Deu alguns passos e correu para o mais longe possível dos Evis de Merrowmash.

Eles percorreram um longo trajeto da floresta em algumas horas, graças a velocidade sobre-humana. Já amanhecia, quando John sentira outro cheiro familiar, que os levou até uma estrada pavimentada, localizada bem no alto de uma montanha. Da altura em que estavam, enxergavam ao longe, alguns morros menores, várias pequenas luzes e também um grande rio, que passava próximo das luzes, mas com um vasto verde ao redor.

— Allec, olhe!

— Que cidade é essa John?

— Vamos descobrir... — disse caminhando para o meio da estrada e se agachou, para que Allec descesse.

— Vamos correndo?

— Não, me desculpe, estou faminto e exausto. Se continuar nesta forma atacarei o primeiro animal que vier pela frente, também não posso garantir que me controlaria perto de um humano. — respondeu e voltou para sua forma humana.

John pegara suas roupas com o irmão e ainda se vestindo, começou a caminhar rumo à cidade.

Allec o seguiu e comentou olhando para trás por um momento: — Tomara que passe algum carro logo, pra gente pegar carona.

— Eu acho pouco provável, tá na cara que passa um carro aqui a cada um ano.

— Aff John, deixa de ser pessimista, a mamãe brigaria com tu se visse essa sua negatividade.

— Não sou negativo, é a realidade! Apresse o passo, que quando menos perceber nós estaremos lá.

Mesmo cansados, os irmãos caminharam depressa para a nova cidade, ansiando para que desta vez, tenham encontrado um lugar, em que os Evis os deixassem em paz, para que pudessem reerguer suas vidas.

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Comments

Juh Andrade

gostei muito desse livro, eu queria ler mais sobre ele, teria como vc por mais partes? fazendo favor!!

2021-12-03

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