A Segunda Escolha da Imperatriz
Prólogo — A Segunda Chance
A neve caía silenciosamente sobre a capital imperial, cobrindo telhados, jardins e as largas avenidas que conduziam ao majestoso Palácio da Alvorada. A cidade dormia envolta em um manto branco, mas, dentro da residência da família imperial, nenhuma paz existia.
No quarto principal, o cheiro metálico de sangue dominava o ambiente.
Flora Alencar estava caída sobre o piso de mármore.
O vestido de seda, preparado para uma noite de celebração, tingia-se lentamente de vermelho. Cada respiração tornava-se mais difícil que a anterior, enquanto a vida escapava de seu corpo.
Diante dela permanecia a única pessoa em quem jamais imaginara encontrar uma inimiga.
Beck.
Sua irmã mais velha.
O punhal ainda permanecia firme entre seus dedos.
As gotas de sangue escorriam pela lâmina antes de caírem sobre o chão.
Por alguns instantes, nenhuma das duas falou.
Flora tentava compreender.
Beck apenas observava.
Então, um sorriso satisfeito surgiu lentamente em seu rosto.
— Finalmente acabou.
Flora moveu os lábios com dificuldade.
— Irmã... por quê...?
Beck soltou uma breve risada.
— Porque sempre vivi na sua sombra.
Aquelas palavras atingiram Flora com mais força do que a própria lâmina.
Desde pequenas, fizera tudo para proteger Beck. Cedia brinquedos, dividia elogios, escondia seus próprios desejos para que a irmã nunca se sentisse inferior.
Jamais imaginou que cada gesto tivesse alimentado um ressentimento tão profundo.
Beck caminhou lentamente pelo quarto.
Os olhos percorriam as joias, os móveis luxuosos e os vestidos cuidadosamente organizados.
— Enquanto eu suportava um casamento sem amor, todos olhavam para você como a mulher mais invejada do império.
Ela voltou a encarar Flora.
— Agora tudo isso será meu.
Flora fechou os olhos por um instante.
Se ao menos Beck soubesse.
Nenhuma daquelas riquezas lhe pertencera de verdade.
Desde o casamento, sua vida fora cuidadosamente controlada.
O marido decidia cada passo.
A sogra transformava qualquer erro em motivo para humilhação.
Naquela família, sorrisos escondiam interesses, elogios vinham acompanhados de armadilhas e confiança era apenas uma palavra bonita.
Durante anos, Flora suportara tudo em silêncio.
Não por orgulho.
Mas porque acreditava que preservar a felicidade da irmã era mais importante do que dividir sua dor.
Agora, essa escolha parecia cruelmente inútil.
Ela reuniu as últimas forças.
— Eu... só queria... que você fosse feliz...
Por um breve instante, a expressão de Beck vacilou.
Mas a dúvida desapareceu quase imediatamente.
— É tarde para arrependimentos.
A luz nos olhos de Flora começou a desaparecer.
Seu último suspiro rompeu o silêncio do quarto.
Então...
Tudo ficou escuro.
---
Os meses seguintes concederam a Beck exatamente aquilo que ela sempre desejara.
O título.
A fortuna.
A posição de destaque na família.
Mas bastaram poucas semanas para perceber que havia conquistado apenas uma ilusão.
As contas da família escondiam dívidas enormes.
Os aliados desapareciam diante do primeiro escândalo.
Seu novo marido revelava um temperamento frio e cruel.
Cada refeição era uma disputa silenciosa.
Cada reunião familiar escondia uma nova traição.
A casa que antes invejara transformou-se em uma prisão.
Pela primeira vez, Beck compreendeu por que Flora nunca sorria com sinceridade.
A verdade surgiu tarde demais.
A única pessoa que realmente estivera ao seu lado era justamente aquela que ela matara.
O arrependimento passou a acompanhá-la todos os dias.
Mas o destino não costuma devolver aquilo que foi perdido.
Alguns anos depois, cercada pelos mesmos inimigos que ajudara a criar, Beck também encontrou um fim trágico.
Enquanto sua consciência mergulhava na escuridão, duas vozes ecoaram ao seu redor.
— A inveja destruiu duas vidas.
Outra respondeu com serenidade.
— O destino lhes concederá uma segunda oportunidade.
Houve um breve silêncio.
— Não como recompensa.
— Mas como julgamento.
---
Flora despertou com um sobressalto.
Levou imediatamente a mão ao peito.
Nenhuma dor.
Nenhum ferimento.
O perfume suave das flores de primavera entrava pela janela aberta, embalado por uma brisa agradável.
Confusa, ela observou o quarto.
Cada móvel ocupava exatamente o lugar de suas lembranças.
A penteadeira.
As cortinas douradas.
O espelho ornamentado.
Seu olhar parou sobre um calendário.
Ela empalideceu.
Era o mesmo dia.
O dia em que as famílias escolheriam os futuros casamentos.
— Isso... é impossível...
Seu coração acelerou.
Ela realmente voltara.
Antes que pudesse compreender o que acontecia, ouviu passos do lado de fora.
A porta abriu lentamente.
Beck entrou.
As duas permaneceram imóveis.
Os olhares se encontraram.
Naquele instante, nenhuma palavra foi necessária.
Flora percebeu imediatamente.
A surpresa nos olhos da irmã durou apenas um segundo antes de desaparecer, substituída por um sorriso discreto.
Ela também se lembrava.
A vida anterior não fora apagada.
As duas haviam recebido a mesma oportunidade.
Mas carregavam intenções completamente diferentes.
Beck enxergava uma nova chance de conquistar tudo o que perdera.
Flora via uma oportunidade de finalmente assumir o controle do próprio destino.
Desta vez, ela não esconderia a verdade.
Não suportaria humilhações em silêncio.
E jamais permitiria que sua bondade fosse usada contra ela outra vez.
O destino lhes dera uma segunda chance.
Agora, cada escolha teria um preço.
E apenas uma delas chegaria ao fim dessa nova história como vencedora.
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