Entre Dois Tempos e Um Destino

Entre Dois Tempos e Um Destino

01

Capítulo 1 — O Último Dia do Século XXI

A chuva caía de maneira constante sobre a cidade, formando uma cortina prateada que encobria os edifícios e transformava as luzes dos semáforos em manchas difusas sobre o asfalto encharcado. O trânsito avançava lentamente, acompanhado pelo som ritmado dos limpadores de para-brisa.

Marina soltou um longo suspiro enquanto observava a fila interminável de veículos à sua frente.

A semana havia sido exaustiva. Reuniões, prazos apertados, ligações incessantes e mensagens acumuladas haviam consumido quase toda a sua energia. Naquele momento, desejava apenas chegar ao apartamento, vestir uma roupa confortável, preparar algo simples para o jantar e passar o restante da noite lendo um livro ou assistindo a um filme.

Não precisava de luxo. Também não sonhava com grandes aventuras.

A paz era suficiente.

Com vinte e seis anos, aprendera que uma vida tranquila era um privilégio raro. Crescera em uma família comum e conquistara sua independência graças ao próprio esforço. Era organizada, prática e possuía uma capacidade admirável de encontrar soluções para problemas que faziam outras pessoas perderem a calma.

Talvez por isso fosse tão valorizada no trabalho.

Enquanto muitos se desesperavam diante de imprevistos, Marina mantinha a serenidade. Planejava, calculava e agia.

Seu telefone vibrou sobre o banco do passageiro.

Ela lançou apenas um rápido olhar para a tela.

Era uma mensagem da melhor amiga.

"Não esqueça do almoço de domingo. Desta vez você não tem desculpa."

Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.

Sem retirar as mãos do volante, acionou o comando de voz do veículo.

— Confirmar presença.

O sistema respondeu imediatamente.

— Mensagem enviada.

Marina voltou a concentrar a atenção na estrada.

A chuva aumentava de intensidade.

As gotas batiam contra o para-brisa com tanta força que pareciam pequenas pedras lançadas pelo vento.

Ela reduziu a velocidade.

Apesar do cansaço, dirigia com cautela. Nunca gostara de correr riscos desnecessários.

O noticiário transmitido pelo rádio interrompeu a música ambiente.

O locutor alertava para a formação de tempestades em diversos pontos da região e recomendava atenção redobrada aos motoristas.

Marina diminuiu ainda mais a velocidade.

— Hoje o trânsito vai demorar uma eternidade... — murmurou.

Não imaginava que aqueles seriam os últimos minutos de sua vida.

Poucos quilômetros adiante, um caminhão surgiu na pista contrária.

No mesmo instante, um automóvel esportivo tentou realizar uma ultrapassagem imprudente.

Tudo aconteceu depressa.

O motorista perdeu o controle.

Os pneus deslizaram sobre o asfalto molhado.

O carro atravessou o canteiro central como um projétil.

Marina apenas teve tempo de erguer os olhos.

Os faróis brancos cresceram diante dela.

Um estrondo ensurdecedor rompeu o silêncio da noite.

Metal retorcido.

Vidros estilhaçados.

O impacto lançou seu veículo para fora da pista.

A dor veio intensa.

Depois...

Nada.

Nem som.

Nem luz.

Nem tempo.

A consciência parecia flutuar em um vazio absoluto.

Marina não sabia quanto tempo permaneceu naquela escuridão.

Segundos.

Horas.

Dias.

Talvez não existisse mais qualquer medida para o tempo.

Estranhamente, não sentia medo.

Apenas uma sensação de profundo descanso.

Então uma claridade começou a romper a escuridão.

Primeiro, um pequeno brilho.

Depois, uma luz cada vez mais intensa.

Ela tentou abrir os olhos.

As pálpebras pareciam pesadas como chumbo.

Quando finalmente conseguiu movê-las, percebeu que a claridade não vinha de lâmpadas nem dos faróis de uma ambulância.

Era diferente.

Suave.

Quente.

Natural.

Um teto de madeira ocupava todo o seu campo de visão.

Ela piscou várias vezes.

Confusa, tentou mover a cabeça.

Uma leve dor percorreu seu corpo.

O ambiente possuía um aroma delicado de ervas e flores secas.

Não havia aparelhos hospitalares.

Nem monitores.

Nem o som característico de equipamentos médicos.

Apenas um silêncio incomum.

Antes que pudesse compreender onde estava, ouviu passos apressados do lado de fora.

Uma voz feminina, carregada de preocupação, atravessou a porta.

— Senhorita... Graças aos céus! A senhorita finalmente despertou!

Marina franziu a testa.

Aquela voz...

A maneira de falar...

As palavras...

Nada fazia sentido.

Seu coração acelerou.

Ela ainda não sabia.

Mas o mundo que conhecera havia desaparecido para sempre.

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Comments

Sofia

Sofia

👏👏

2026-07-28

0

Liz Cumbe

Liz Cumbe

👏👏/Bye-Bye/

2026-07-02

1

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