O Príncipe e a Ovelhinha
Elio
A primeira vez que eu vi o príncipe Cassian, ele estava bêbado.
Completamente, perdidamente, escandalosamente bêbado.
Montado num cavalo branco que devia custar mais do que toda a minha vila junta, usando uma capa de veludo vermelho que arrastava no chão como se a terra fosse digna de tocá-la, e gritando — gritando! — para os meus animais:
— Ovelhas! Criaturas magníficas! Tão brancas! Tão fofas! Tão... ovelhais!
Eu estava pastoreando o rebanho na colina leste, aquela que dá vista para o vale onde o rio serpenteia como uma fita prateada, quando ouvi a comoção. No começo, pensei que fosse um lobo. Depois, um bando de salteadores. Quando finalmente avistei a figura cambaleante no lombo do cavalo, já era tarde demais.
— Com licença! — gritei, correndo colina abaixo com meu cajado na mão. — O que o senhor pensa que está fazendo?
O homem — se é que se podia chamar aquilo de homem, parecia mais um deus grego castigado por Dionísio — virou-se para mim com olhos tão verdes que doía olhar. Cabelos negros como asas de corvo caindo em ondas sobre os ombros. Lábios vermelhos e entreabertos num sorriso que era metade deboche, metade promessa.
— Finalmente! — exclamou, abrindo os braços como se eu fosse um velho amigo. — Um nativo! Diga-me, nativo, estas ovelhas são suas?
— São. E eu não sou um nativo. Sou o pastor.
— Pastor! — Ele riu, um som rouco e musical. — Claro que é. Com esse rosto de porcelana e esses cachinhos dourados, só podia ser um pastor. Provavelmente chamado... Elio.
Eu pisquei.
— Como sabe meu nome?
— Porque eu sou mágico. — Ele piscou de volta. — Na verdade, não. Eu li na placa da vila. "Pastor Elio, ovelhas para venda". Muito criativo, aliás.
Senti o sangue subir às faces. Minhas bochechas, traiçoeiras, começaram a arder — a maldição da minha pele clara, que denunciava cada emoção antes mesmo que eu pudesse processá-la.
— O senhor está bêbado.
— Estou. — Ele confirmou, com uma sinceridade desconcertante. — Mas isso não muda o fato de que vou levar uma de suas ovelhas.
— Não vai.
— Vou.
— Não.
— Sim.
— Não!
Ele suspirou, como se eu fosse uma criança difícil.
— Escute, pastor de porcelana. Eu sou o príncipe Cassian de Veridia. Herdeiro do trono. Senhor da Guerra. Defensor do Reino. E atualmente, muito bêbado e com uma vontade inexplicável de ter uma ovelha. Você realmente vai negar ao seu futuro rei uma ovelha?
— Sim.
Ele piscou novamente, surpreso. Devia estar acostumado a conseguir tudo o que queria com um estalar de dedos. Mas eu não era um cortesão bajulador. Eu era um pastor. E pastores não se impressionam com capas de veludo.
— Você é irritante. — declarou ele.
— Obrigado.
— Não era um elogio.
— Eu sei.
Ficamos nos encarando. O vento balançava seus cabelos escuros e os meus cachos dourados. As ovelhas baliam, alheias ao impasse. E então, lentamente, ele sorriu.
Não o sorriso bêbado de antes. Outro sorriso. Um sorriso que me fez sentir como se o chão tivesse se movido sob meus pés.
— Sabe, Elio — ele disse, e meu nome na sua boca soou como mel —, eu gosto de você.
— Não me conhece.
— Mas vou conhecer.
— Não quero.
— Vai querer.
— Duvido.
Ele desceu do cavalo com uma graça que não combinava com seu estado de embriaguez. Aproximou-se de mim, cambaleando apenas um pouco, e parou tão perto que eu podia sentir o cheiro de vinho, cavalo e algo mais — algo almiscarado e perigoso.
— Pastor de porcelana — murmurou, seus olhos verdes faiscando —, eu sempre consigo o que quero. E agora... eu quero você.
— Para quê? — Minha voz saiu mais fina do que eu gostaria. — Para pastorear suas ovelhas?
— Para ser meu.
O mundo parou.
Literalmente.
Até as ovelhas ficaram em silêncio.
— O senhor está bêbado — repeti, mas minha voz tremia.
— Estou. — Ele concordou. — Mas quando estou bêbado, sou honesto. E a verdade, doce Elio, é que eu nunca vi nada tão bonito quanto você nesta colina idiota.
— Isso é... é...
— Insultuoso? Invasivo? Inapropriado?
— Ridículo! — explodi. — O senhor aparece aqui, tenta roubar minha ovelha, e agora está me cantando como se eu fosse uma donzela de taverna?
— Você não é uma donzela de taverna. — Ele inclinou a cabeça. — Donzelas de taverna não usam cajado. Nem têm olhos da cor do céu antes da chuva.
Eu corei. Maldita pele de porcelana.
— Vá embora.
— Levo a ovelha?
— Não!
— Então fico.
E ficou. Sentou-se numa pedra, ainda cambaleante, e ficou olhando as ovelhas como se fossem a coisa mais fascinante do mundo. Eu não sabia o que fazer. Nunca ninguém — NUNCA — tinha me cantado antes. Ainda mais um príncipe. Ainda mais bêbado. Ainda mais lindo daquele jeito insuportável.
— Sabe — ele disse, depois de um longo silêncio —, eu nunca tinha visto ovelhas de perto.
— O quê?
— Ovelhas. São... macias?
— São ovelhas.
— Posso tocar uma?
— Não!
— Você diz muito "não". Já percebeu?
— Alguém precisa dizer, já que o senhor não sabe ouvir.
Ele riu. Uma gargalhada gostosa, que ecoou pela colina e fez meu coração dar um salto traiçoeiro.
— Definitivamente, eu gosto de você.
— Pois eu não gosto do senhor.
— Ainda não. — Ele se levantou, ajeitando a capa. — Mas vai gostar.
E antes que eu pudesse responder, ele se aproximou novamente, segurou meu queixo com dedos surpreendentemente firmes, e beijou minha testa.
Minha. Testa.
Um beijo na testa.
Fiquei paralisado, o rosto em chamas, enquanto ele montava no cavalo com a mesma graça de antes.
— Até amanhã, pastor de porcelana.
— Não volte.
— Voltarei.
— Não!
— Sim.
E partiu. Deixando um rastro de vinho, perfumes caros, e o cheiro de algo perigoso no ar.
Eu fiquei ali, o cajado caindo das minhas mãos, as ovelhas me olhando com aquela expressão de quem diz "você se meteu numa enrascada".
— Que homem insuportável — murmurei.
Mas no fundo — bem no fundo, onde a verdade se esconde —, eu queria que ele voltasse.
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Atualizado até capítulo 70
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