Até Você Me Perdoar
Ivan Sokolov -29 anos
Eu já sei o que me espera antes mesmo de estacionar o carro na frente da casa da minha mãe.
O sermão.
O mesmo de sempre.
Desligo o motor, pego os óculos escuros do rosto e encaro a fachada da casa onde cresci.
Eu continuo sendo arrastado para cafés da manhã familiares como se ainda tivesse dezoito.
E o pior?
Eu venho por livre e espontânea vontade.
Aos vinte e nove anos, aparentemente eu já estou velho demais para a paciência da minha mãe.
Segundo ela, eu deveria estar casado, com pelo menos dois filhos e uma terceira criança a caminho.
Segundo eu, ainda tenho muito tempo pela frente.
Saio do carro e caminho até a porta.
— Finalmente apareceu! — minha mãe reclama assim que abre a porta.
Dou um beijo em sua testa.
— Bom dia para você também, mãe.
— São quase oito horas da manhã. Seu pai já foi trabalhar...
— Isso é cedo para mim.
— Esse é exatamente o problema da sua vida.
E começou.
(...)
— Você precisa arrumar uma esposa.
Lá está.
Nem cinco segundos.
(...)
— Você vive trabalhando, ou saindo para festas e aparecendo com uma mulher diferente toda semana. Fora que uma hora Vanessa desiste de você.
— Toda semana é exagero. E eu não tenho nada sério com ela, nosso relacionamento já acabou a muito tempo.
Minha mãe me lança aquele olhar que conheço desde criança.
O olhar de quem está prestes a me dar uma bronca.
— Então pare de iludir essa coitada.
Eu rio, levando a xícara de café aos lábios.
— Eu não iludo ninguém.
— Ivan...
— É verdade. Eu já deixei claro que não quero voltar. Já deixei claro que não quero casar. Já deixei claro que não quero nada sério.
— E mesmo assim ela continua vivendo praticamente dentro do seu apartamento.
Dou de ombros.
— Isso não é problema meu.
— Claro que é.
— Não é, não.
— É uma mulher apaixonada.
— E eu não tenho culpa disso.
Minha mãe suspira, claramente perdendo a paciência.
— Às vezes eu me pergunto onde foi que eu errei com você.
— Ah, pronto.
— Estou falando sério.
— Mãe, sexo casual não é relacionamento. Não posso fazer nada se ela confunde as coisas.
Ela arregala os olhos.
— Ivan!
— O quê? Estou sendo sincero.
— Você fala dessas coisas como se fossem normais.
— Porque são normais.
— Não para mim.
— Graças a Deus, porque seria muito estranho.
Ela pega um guardanapo e o joga na minha direção.
Eu rio enquanto desvio.
— Você é impossível.
— E você é dramática.
— Eu só espero que um dia apareça uma mulher que coloque juízo nessa sua cabeça.
— Boa sorte para ela.
Volto a beber meu café, completamente tranquilo.
Ela revira os olhos.
— Ivan, você tem vinte e nove anos.
— Exatamente. Vinte e nove. Não sessenta.
— Seu primo Viktor é só alguns anos mais velho que você é já deu duas netas para Alina.
— Problema dele.
Pego um pão de queijo e me recosto na cadeira.
— Por que essa obsessão por netos?
— Porque quero estragar crianças sem ter que educá-las.
Não consigo evitar a gargalhada.
— Pelo menos você é sincera.
— Sempre fui.
Ela se senta à minha frente.
Os olhos dela suavizam.
— Eu só quero ver você feliz.
A brincadeira desaparece do ambiente.
Porque eu sei que ela está falando sério.
Minha mãe sempre fala sério quando o assunto sou eu.
— Eu sou feliz.
Ela me observa por alguns segundos.
— Tem certeza?
A pergunta fica pairando entre nós.
E, pela primeira vez naquela manhã, eu não respondo imediatamente.
Porque felicidade sempre foi uma palavra complicada.
Tenho dinheiro.
Tenho sucesso.
Tenho liberdade.
Posso viajar para qualquer lugar do mundo quando quiser.
Posso comprar qualquer coisa que desejar.
Mas ainda assim...
Às vezes a casa parece grande demais.
Silenciosa demais.
Vazia demais.
Balanço a cabeça.
— Está vendo? — ela diz.
— Vendo o quê?
— Demorou para responder.
— Você está analisando demais.
— Sou sua mãe. Fui treinada para isso.
Solto uma risada.
Talvez ela tenha razão.
Talvez não.
Mas uma coisa é certa.
Eu definitivamente não estou pronto para admitir isso.
Ainda não.
Termino meu café e me levanto.
— Já estou indo.
— Nem pense em fugir tão rápido.
Minha mãe também se levanta da cadeira.
— Vou com você.
— Vai para onde?
— Para o meu spa.
— O seu spa fica a quinze minutos daqui.
— Exatamente. Você vai me levar.
Reviro os olhos.
— A senhora tem carro.
— E você tem obrigação moral de carregar sua mãe.
— Desde quando?
— Desde que nasceu.
Eu rio e pego as chaves.
Durante todo o trajeto, ela não para de reclamar.
Mas, para minha surpresa, o alvo da vez não sou eu.
É Yuri.
— Aquele menino é impossível.
— Estou falando sério. O Yuri é mais fechado que um cofre.
— Você gosta dele assim.
— Gosto. Mas isso não impede que ele me irrite.
— O que ele fez agora?
— Nada. Esse é o problema. Nunca faz nada.
Dou risada.
— Que acusação terrível.
— Eu preciso fazer chantagem emocional para ele aparecer na minha casa.
— A senhora exagera.
— Não exagero.
— Exagera sim.
Ela cruza os braços.
— Você, pelo menos, aparece.
— Porque a senhora não me dá escolha.
— Mesmo sendo ordinário desse jeito.
— Obrigado pelo carinho.
— Mas não me abandona.
Sorrio de lado.
— Viu só? Tem qualidades.
— Poucas.
— Ainda assim contam.
Ela resmunga alguma coisa que escolho ignorar.
Alguns minutos depois, estaciono em frente ao spa.
Minha mãe está prestes a abrir a porta quando algo chama minha atenção.
Uma mulher atravessa a calçada apressada.
Ruiva.
Os cabelos longos balançam atrás dela enquanto caminha.
Ela usa roupas simples, mas parece não precisar de esforço algum para chamar atenção.
É linda.
Não.
Linda é pouco.
Ela é absurdamente linda.
Me pego acompanhando seus movimentos por alguns segundos.
— Quem é a beldade?
Minha mãe vira o rosto na direção que estou olhando.
No instante seguinte, ela bate forte no meu braço.
— Ai!
— Nem pense.
— O quê?
— Nem pense.
— Eu só fiz uma pergunta.
— E eu conheço você.
Dou uma risada.
— Então responde.
— Aqui é território proibido, Ivan.
— Território proibido?
— Exatamente.
Ela aponta o dedo para mim.
— Você sabe das regras.
— Não lembro de regra nenhuma.
— Serena é a minha melhor funcionária.
Meu olhar volta imediatamente para a ruiva.
Serena.
Até o nome combina.
— Então é Serena...
— Nem comece.
— Não comecei nada.
— Some daqui.
Minha mãe abre a porta do carro.
— Estou falando sério.
— Mãe...
— Ivan.
— Nem um cafezinho?
— Ivan!
Eu rio.
Ela sai do carro balançando a cabeça, claramente sem confiar em mim.
E com razão.
Observo a mulher desaparecer pela entrada do spa.
Então murmuro para mim mesmo:
— Até o nome é lindo.
Eu deveria ir embora.
Era o que qualquer pessoa sensata faria.
Minha mãe literalmente tinha acabado de me expulsar dali.
Mas eu nunca fui muito bom em seguir regras.
Principalmente quando elas pareciam absurdas.
Desligo o carro novamente.
— Ah, foda-se
Saio e atravesso a entrada do spa.
O ambiente é elegante, tranquilo e perfumado. Algumas clientes conversam baixinho enquanto funcionárias circulam pelo local.
Vou direto ao balcão da recepção.
A atendente sorri profissionalmente.
— Bom dia, senhor. Como posso ajudar?
— A ruiva que entrou agora.
Ela pisca algumas vezes.
— Perdão?
— A ruiva. Linda. Cabelos longos. Entrou há menos de dois minutos.
A moça tenta esconder o sorriso.
— Ah... a Serena?
— Então esse é mesmo o nome dela.
— É.
— O que eu preciso fazer para ser atendido por ela?
A recepcionista fica claramente sem graça.
— Senhor...
— Ivan.
— Senhor Ivan, a Serena só trabalha com maquiagem e limpeza de pele.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Quero uma limpeza de pele.
A mulher me encara como se estivesse tentando decidir se estou falando sério.
— O senhor quer uma limpeza de pele?
— Com urgência.
Ela abre a agenda.
— Certo...
Antes que possa continuar, uma voz conhecida surge atrás de mim.
— Menino Ivan...
Fecho os olhos.
Fui descoberto.
Viro devagar.
Rosângela está parada ali com os braços cruzados.
Ela trabalha para minha mãe há anos e me conhece desde criança.
O sorriso divertido em seu rosto já diz tudo.
— Bom dia, Rosa.
— Se a sua mãe te pegar aqui, eu não vou te defender.
Levo o dedo aos lábios.
— Shhh.
Ela revira os olhos.
Então me aproximo e a abraço.
— Você continua sendo meu preferido, sabia?
— Mentira.
— Talvez.
Rosângela ri.
— O que você está fazendo aqui?
— Cuidando da minha pele...
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Atualizado até capítulo 57
Comments
Chai Rosi
Ivan esse jeito de cafajeste até eu me apaixono 🤣🤣🤣
2026-05-30
51
Eura Tavares Pessoa
Começando a ler hoje dia 12/08/2026 estou achando interessante a história e vou continuar com a leitura quero saber o desfecho dessa história que parece que será muito interessante.
2026-08-13
1
joelma silva
aí só ia começar a ler quando na metade mais n aguento kkkkk 🤦😍
2026-05-31
1