Fim do Contrato de Casamento
Lucas: Traga um terno. Tenho uma reunião importante. E o remédio para o estômago.
O celular vibrou sobre a bancada da cozinha, e Camille olhou para a tela por alguns segundos antes de pegar o aparelho. A mensagem era curta, fria e direta, exatamente como Lucas Durand costumava ser com ela nos últimos cinco anos. Ela já tinha aprendido que existia uma enorme diferença entre ser procurada porque alguém sente sua falta e ser procurada apenas porque é útil. No caso dela, quase sempre que necessário.
Eram oito e quarenta da noite, e Lucas estava na Durand Group resolvendo a assinatura de um contrato importante ligada ao retorno de Nicole Bernard ao país. Só de pensar naquele nome, Camille sentia um aperto estranho no peito. Depois de tanto tempo, ainda doía, e isso a irritava mais do que deveria.
Ela levantou devagar e foi até o quarto do marido. Durante anos aquilo pareceu normal: separar roupas, lembrar horários, separar medicamentos, mandar mensagens perguntando se ele tinha comido ou descansado. Pequenos cuidados que uma esposa oferecia naturalmente. O problema era saber que ela sempre fez tudo isso por ele, que nunca fez nada da mesma forma por ela.
Abriu o closet enorme e pegou o terno cinza escuro de três peças que Lucas costumava usar em reuniões importantes. Depois abriu a gaveta dos medicamentos e pegou o remédio para gastrite. Lucas vivia de café, reuniões intermináveis e poucas horas de sono. Ela conhecia seus hábitos, seus horários, suas dores no estômago e até o jeito como ele ficava irritado quando estava cansado. Conhecia tanto aquele homem que às vezes parecia absurdo perceber o quanto ele sabia pouco ou nada sobre ela.
Sem perceber, seus olhos foram até o cronômetro ativado no celular.
28 dias.
Faltavam vinte e oito dias para o fim do contrato de casamento.
Vinte e oito dias para deixar oficialmente de ser esposa de Lucas Durand.
Cinco anos esperando.
Cinco anos acreditando que paciência e amor mudariam alguma coisa. Mas algumas pessoas nunca mudam, por mais tempo que você ofereça. No fim, ela simplesmente cansou.
Cansou de amar sozinha, de esperar e de acreditar. Camille soltou o ar lentamente, pegou as coisas e pediu um Uber.
Durante o caminho, abriu novamente uma mensagem recebida naquela manhã.
Número desconhecido. Mas ela sabia perfeitamente quem era.
Nicole: Camille, ainda se lembra da sua irmã? Aqui é a Nick. Voltei. Estou tão feliz em poder te ver de novo. Mesmo você tendo ficado com o Lucas, ainda somos irmãs, não é? Vamos jantar qualquer dia.
Irmãs.
Um sorriso sem humor apareceu nos lábios dela.
A família Bernard acolheu Camille depois da morte dos pais dela, e durante anos Nicole foi tudo, menos amiga, mas foi confidente e quase, quase uma irmã realmente. Até deixar de ser. Porque algumas pessoas nunca mudam de verdade, apenas param de fingir.
Quando começaram as fofocas no colégio, Camille acreditou que fossem apenas brincadeiras cruéis da adolescência. Depois vieram as humilhações, o afastamento dos colegas e o isolamento. Muito tempo depois descobriu que Nicole, a que se dizia sua " irmã " estava por trás de boa parte daquilo.
Foi Arthur Durand quem separou Nicole e Lucas anos atrás. Nicole aceitou dinheiro, aceitou cair fora, aceitou desaparecer da vida de Lucas, por uma boa grana. Então, olhando para outro lado, quem abandonou quem?
Mas Camille também nunca foi completamente boba e permissiva. Ela aceitou a proposta, o contrato. Aceitou ocupar o espaço vazio na vida de Lucas. Que ela fosse uma garota ambiciosa, talvez. Talvez apenas fosse uma garota desesperada tentando ser amada pelo seu amado.
O carro parou diante da Durand Group.
Ela respirou fundo antes de descer.
Era ridículo sentir nervosismo para entregar um terno ao próprio marido, mas talvez soubesse exatamente quem encontraria lá dentro.
Quando chegou ao último andar, bateu na porta do escritório, alguns segundos se passaram antes que alguém abrisse.
Mas não era Lucas, e sim Nicole, com um vestido vermelho impecável, maquiagem perfeita e o mesmo sorriso doce que enganava todo mundo, menos Camille.
— Mille, que bom te ver. Estávamos falando de você.
Camille não respondeu imediatamente. Seus olhos desceram involuntariamente até o pescoço dela olhando para o colar. Ela reconheceu na mesma hora. Dias atrás tinha visto Lucas analisando aquela joia em um catálogo de leilão. Então era isso. Um presente de boas vindas para Nicole.
Seu peito apertou, mas a sensação passou rápido. Já não tinha direito de esperar e muito menos sentir nada.
— Só vim trazer o terno e o remédio que Lucas pediu.
Nicole inclinou levemente a cabeça e sorriu.
— Ainda está brava comigo depois de todos esses anos? Eu já disse que nunca guardei mágoa por você ter ficado com o Lucas.
Aquela frase já estava ficando cansativa e repetitiva.
Camille tentou entrar para deixar as coisas sobre a mesa, mas Nicole bloqueou sua passagem.
Naquele instante, uma funcionária passou carregando uma bandeja com chá quente, caldo e torradas para servir na reunião.
Nicole pegou a bandeja naturalmente.
— Bom, se não quer entrar, eu mesma entrego isso para ele.
Foi uma atitude estranha.
Mas Camille estava cansada demais para pensar. Então entregou o cabide e a bolsinha de remédios. Tudo aconteceu rápido.
O braço de Nicole bateu na bandeja. A panela virou. O líquido fervendo caiu diretamente sobre o pé de Camille. A dor veio imediatamente, forte o suficiente para fazê-la perder o ar. Mas antes que reagisse, Nicole gritou primeiro. Alto. Desesperada.
Como uma vítima. A porta abriu quase imediatamente. Lucas apareceu.
Os olhos foram direto para Nicole.
— O que aconteceu?
Ele já estava ajoelhado ao lado dela.
Nicole chorava enquanto segurava a própria perna.
— Lucas, a culpa foi minha, eu não segurei direito a bandeja.
Mentira. Camille viu. Naquele olhar rápido entre lágrimas. Lucas virou para ela. Frio.
— Como conseguiu deixar isso acontecer?
Ela sentiu a dor subir pelo tornozelo enquanto tentava responder.
— Eu não…
— Nem isso você consegue fazer direito?
Cada palavra atingiu mais do que a queimadura.
Ela tentou explicar outra vez, mas Lucas já observava a cena.
— A bandeja estava estável. Isso não teria acontecido sem alguém provocar.
— Foi um acidente…
A voz dela saiu baixa.
Lucas ergueu os olhos.
— Ou fez de propósito?
Ela ficou imóvel.
Cinco anos ao lado daquele homem. E ainda assim ele nunca escolhia acreditar nela. Nunca. Lucas notou a queimadura em seu pé. Era pior do que qualquer marca em Nicole.
Ele hesitou por um segundo. Só um. Depois a hesitação desapareceu. Porque no fim pouco importava. Lucas segurou Nicole nos braços, e ela imediatamente se agarrou ao pescoço dele.
— Lucas a Mille também se machucou!
Ele sequer olhou para trás.
— Ela não vai morrer. Se precisar, vai sozinha ao hospital.
Depois completou:
— Você é modelo. Uma cicatriz pode acabar com sua carreira.
E foi embora, carregando Nicole.
Deixando Camille parada naquele corredor, olhando para a própria queimadura enquanto entendia dolorosamente que a pele queimaria, doeria, mas depois cicatrizaria. Mas algumas dores deixavam a ferida viva dentro da gente.
E talvez naquela noite tenha morrido a última parte dela que ainda esperava ser escolhida por Lucas Durand.
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Com carinho,
Sila Reis
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Atualizado até capítulo 124
Comments
Elenice Martins
olha pelo que entendi foi um casamento de contrato, ela aceitou por que quis e não tem o direito de reclamar de nada, sabia que não era por amor , então aguenta as consequências , eu não iria ficar se lamentando, sabendo disso, e já assisti vários doramas do mesmo jeito , a mesma coisa , casamento por contrato, mulher achando que o marido vai amar um dia , sabendo que é por contrato
2026-07-05
12
Nazaré Mendes Santos
é já que alguém acha que só ela é errada porque pra mim os dois cometeram o mesmo erro então que ela junte suas coisas e deixe ele ser destruído pela irmã cobra e que ele pague bem caro por ter humilhado ela e desprezado ela porque se vc homem de verdade não teria deixado isso seguir em frente
2026-07-06
1
Fatima Pinheiro
Ja Esperando Ele Cair Do Cavalo . Inicio Ja Deu Raiva Desse Cego 😠
2026-07-03
2