O Despertar da Rainha Rejeitada
A neve da floresta Sangue Negro não perdoava os fracos.
Eu sentia cada cristal de gelo sob meus pés descalços, um lembrete constante de que eu era a única ali que ainda precisava de roupas e fogo para não morrer.
Ao meu redor, vultos gigantescos de pelos escuros e olhos brilhantes passavam como sombras.
Meus irmãos de alcateia.
Criaturas que, aos dezoito anos, já haviam clamado suas formas animais.
Eu estava prestes a completar dezenove e o silêncio dentro de mim era absoluto.
— Lyra! — O chamado não veio pela mente, mas pela voz, suave e cansada.
Virei-me para ver Mara, a loba Ômega que me acolheu quando eu não era nada além de um fardo abandonado na fronteira.
Ela estava em sua forma humana, enrolada em uma manta gasta, os olhos cheios de uma preocupação que me cortava o peito.
Ela era a base da pirâmide, a que limpava e servia, e por me criar, ela carregava o dobro do desprezo da alcateia.
— Volte para a cabana, querida. O Alfa está vindo para a contagem da caça. Você sabe que ele não gosta de... imperfeições no caminho.
Eu sabia. O Alfa Vane. Um tirano que acreditava que a Sangue Negro deveria ser puramente poder. Para ele, uma loba que não desperta é um defeito. Uma adotada por uma Ômega é um erro geológico.
— Eu não sou uma imperfeição, Mara. Só sou... lenta — menti, tentando esconder o tremor nas mãos. No fundo, eu já tinha aceitado que morreria sem uma loba.
Antes que Mara pudesse responder, o ar ficou pesado. O cheiro de carvalho e tempestade elétrica atingiu meus pulmões como um soco. Ele estava perto.
Um lobo colossal, com pelagem marrom como o abismo e ombros largos como um carvalho antigo, surgiu entre as árvores.
Era Vane.
Seus olhos dourados escanearam a clareira com autoridade absoluta, parando em mim.
O desprezo em seu olhar era físico, uma pressão que me fazia querer dobrar os joelhos.
— Ainda aqui, lobinha? — A voz dele invadiu minha mente, gélida e autoritária. — Dezenove anos e nem um rosnado? Mara deveria ter deixado você para os corvos quando a encontrou. Você está sujando o meu solo.
Eu sustentei o olhar, mesmo com o coração martelando contra as costelas.
Eu não sentia minha loba, mas sentia um calor estranho subindo pelo meu pescoço. Uma raiva que não parecia minha.
— Eu pertenço a esta alcateia tanto quanto você, Alfa — desafiei em voz alta.
O rosnado que escapou dele fez os pássaros voarem das árvores.
Ele avançou, parando a centímetros do meu rosto, o hálito quente de predador batendo na minha pele.
— Você não pertence a lugar nenhum, Lyra. Se no seu próximo aniversário seu sangue não ferver... eu mesmo a arrastarei para fora das minhas fronteiras. Com ou sem vida.
Ele se afastou com um movimento brusco, liderando a corrida da alcateia.
Eu fiquei para trás, tremendo, mas não era apenas de frio.
Pela primeira vez, senti uma pontada profunda na base da minha coluna.
Uma dor aguda, como se algo estivesse tentando quebrar o lacre do meu próprio DNA.
Eu não sabia, e ninguém ali poderia imaginar, que o meu relógio biológico não estava atrasado.
Ele estava apenas sintonizado com uma linhagem que eles nem ousavam pronunciar o nome.
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Atualizado até capítulo 79
Comments
marciamattos mattos
a Lyra tá certa ela não é um erro
2026-05-03
2
Vane Brito
aí sim, nada de baixar a cabeça 👏👏👏
2026-04-24
1
Ana Regina Fernandes Raposo
🥰🥰🥰🥰🥰🥰👏👏👏👏👏 muito bom, e só está no começo.
2026-05-20
0