capítulo- 1

Eu fui embora porque fiquei com medo de morrer ali dentro

Você já teve medo de acordar todos os dias ao lado de alguém que você amou?

Medo de respirar, medo de falar alguma coisa errada, medo de simplesmente existir?

Eu tive.

E quer saber? Eu fugi.

Fugi de São Paulo, da minha casa, dos meus vizinhos que fingiam não ouvir os gritos.

Fugi da lembrança do meu bebê, que eu nunca segurei nos braços.

Fugi de Fernando.

Do homem que eu achei que fosse meu amor, mas virou meu pesadelo.

Agora tô aqui.

Dentro de um carro qualquer, subindo um morro que eu só tinha visto na televisão.

rocinha! Rio de Janeiro. Um mundo completamente novo, desconhecido, e — pra ser sincera — um pouco assustador.

"Vai dar merda", dizia a voz da minha mãe, lá no fundo da minha cabeça.

Mas sabe? Ficar também dava.

— Tá indo trabalhar aí no alto? — perguntou o motorista, jogando o olho pra mim pelo retrovisor.

— Tô, sim. Começo amanhã no postinho.

Ele soltou um risinho de canto de boca.

— Coragem. Mas vai se dar bem. O morro assusta quem não conhece. mais depois virar seu lar

Lar.

Engraçado como essa palavra ficou distante de mim.

Nos últimos meses, eu só soube o que era sobreviver.

Acordar e fingir que tava tudo bem.

Passar maquiagem pra esconder os hematomas.

Inventar desculpas pras amigas.

Sorrir. Sempre sorrir. Porque mulher tem que aguentar, né?

Mentira.

A gente não tem que aguentar nada.

Agora tô aqui. Com medo, sim.

Mas também com um tipo de esperança que eu achei que tinha morrido em mim.

Aqui, nesse lugar que dizem ser perigoso, violento, sujo...

Eu encontrei gente de verdade.

Gente que me olhou nos olhos e viu mais do que as minhas cicatrizes.

Gente que me chamou de irmã, de vizinha, de amiga — sem nem saber meu nome direito.

Não sei como essa história vai terminar.

Talvez o passado me ache. Talvez eu me apaixone de novo.

Talvez eu descubra que a mulher que eu era ficou lá atrás...

E que a que tá nascendo agora, aqui nesse morro, é mais forte do que eu imaginava.

Mas antes de qualquer coisa... deixa eu te contar tudo desde o começo.

Porque essa história não é só minha.

É de toda mulher que já amou errado.

E que um dia — mesmo tremendo, mesmo ferida — decidiu ir embora.

Cheguei no Rio num sábado de manhã, com duas malas e o coração apertado.

O ônibus ainda nem tinha parado na rodoviária e meu peito já tava embrulhado. A cabeça rodava entre medo e alívio, e eu só pensava: "É isso, Roberta. Agora é você por você."

Desci, peguei o celular e mandei mensagem pra mulher do posto, a Dona Zefa, que tinha me indicado a vaga. Ela era amiga de uma técnica que trabalhou comigo em São Paulo.

Trocando favores e salvando vidas desde sempre, né?

> "Oi, Zefa. Cheguei. Tô pegando um Uber pro ponto de encontro que você falou."

A corrida até a rocinha foi silenciosa. O motorista até tentou puxar assunto, mas eu não tava com cabeça pra conversa. Só olhava a paisagem passando pela janela, tentando entender como que eu, uma mulher que já tinha perdido tanto, ainda encontrava força pra recomeçar.

O carro parou num lugar cheio de gente indo e vindo, vendedor de mate, criançada correndo descalça, som alto vindo de alguma laje próxima. O calor batia forte, mas era outro tipo de calor também…

Parecia mais... humano. Mais quente por dentro, sabe?

Aí veio o mototáxi que a Zefa mandou. O rapaz era magrelo, simpático, com o boné torto e um sorriso que faltava dois dentes.

— É a enfermeira nova, né? — ele falou já rindo. — Pode subir, princesa. No morro todo mundo se conhece.

Não discuti. Subi. E a cada curva da moto, meu estômago subia junto.

As vielas eram estreitas, coloridas, vivas. Eu tentava prestar atenção em tudo, absorver aquele novo mundo que ia me acolher... ou me engolir.

O posto era no alto. Uma casinha de paredes desbotadas, com uma placa torta que dizia "Saúde da Família – Unidade rocinha".

Tinha uma senhora sentada na mureta, cabelo preso num lenço florido e um olhar que atravessava a alma.

— Você que é a Roberta? — ela perguntou antes mesmo de eu responder.

Assenti com a cabeça.

— Sou a Zefa. Anda, minha filha. Entra. Tá na hora de botar a mão na massa.

Respirei fundo e entrei.

Era pequeno. Duas salas, um armário com poucos insumos, uma pia barulhenta, uma maca manchada. Mas o que me chamou atenção foi o quadro na parede com várias fotos. Crianças, idosos, gente sorrindo com o jaleco branco.

Ali, entendi que o posto era mais que um lugar pra curar corpo. Era um pedaço do coração da comunidade.

— Aqui o buraco é mais embaixo, minha filha — disse Zefa, me entregando um crachá com meu nome escrito de caneta. — Tem gente aqui que só tem a gente. Então se for pra fazer de qualquer jeito, melhor nem ficar.

Olhei pra ela com firmeza.

— Tô aqui pra somar. Vim com o que tenho. E o que tenho… é vontade de fazer diferente.

Zefa me encarou por alguns segundos. Depois sorriu de canto.

— Então vamos ver do que você é feita, Roberta.

E foi assim que começou.

No meio de um morro desconhecido, com cheiro de café requentado, calor batendo na nuca e um coração cheio de cicatriz, eu comecei a me reconstruir.

Mas o que eu ainda não sabia…

É que meu passado não ia me deixar em paz tão fácil.

E que meu futuro… tava prestes a trombar de frente com um homem que só atendia por um nome:

Pesadelo.

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Comments

ibds

ibds

com um sorriso faltando dois dentes kakakakakaka, morri

2025-08-24

0

Anonymous

Anonymous

Moto táxi? E as duas malas?

2025-08-27

0

Liliane Moreira

Liliane Moreira

🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣

2025-08-24

0

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