Ethan sempre teve controle sobre seu corpo. Desde que experimentou seu primeiro cio, aprendeu a prever os sinais e a se preparar para eles com antecedência. Nunca foi pego de surpresa. Nunca perdeu o controle. Mas naquela manhã, algo estava terrivelmente errado.
O calor começou como um leve incômodo no fundo da sua mente, um ardor sutil que ele tentou ignorar, acreditando ser apenas um desconforto passageiro. No entanto, conforme os minutos avançavam, a sensação se intensificava de maneira alarmante. Seu corpo parecia febril, seus sentidos estavam aguçados a um nível quase doloroso, e cada cheiro ao seu redor se tornava insuportavelmente forte. O perfume do café recém-passado, o leve aroma de canela das tortas na vitrine, o cheiro de tinta dos jornais sobre o balcão — tudo se misturava e girava ao seu redor em uma espiral sufocante.
Ele piscou algumas vezes, tentando focar no pedido do cliente à sua frente, mas sua visão começou a ficar turva. Seu estômago revirou e um suor frio escorreu pela nuca.
Não pode ser...
Seu cio nunca tinha sido adiantado antes.
A ideia de perder o controle ali, no meio do expediente, cercado por clientes e funcionários, era aterrorizante. Ethan agarrou o balcão com força, os dedos tremendo levemente, tentando encontrar alguma estabilidade. Respirou fundo, mas em vez de se acalmar, o ar que encheu seus pulmões trouxe consigo um aroma penetrante, dominante, que sobrepujou todos os outros.
Um cheiro amadeirado, cítrico, quente.
Damian.
O impacto do reconhecimento fez seu coração acelerar violentamente. Seu pânico aumentou. Se Damian estava ali, isso significava que ele também sentiu.
— Ethan?
A voz grave e profunda o chamou, cortando seus pensamentos. Ele ergueu os olhos e encontrou o olhar cinzento do alfa fixo nele. Havia algo afiado na expressão de Damian, como se estivesse avaliando cada detalhe da situação, como se já soubesse.
Ethan tentou se afastar, mas suas pernas cederam. Um tremor percorreu seu corpo, e antes que pudesse cair, braços fortes o envolveram, segurando-o firme. O contato foi um choque. Um estalo elétrico que disparou por sua pele, acendendo cada nervo com uma urgência enlouquecedora. O cheiro de Damian o envolveu, denso e irresistível, como uma brasa sendo atirada no meio de uma fogueira prestes a explodir.
Não. Não agora. Não aqui.
Ele tentou resistir, tentou afastar o alfa, mas seu corpo já não respondia como deveria. Seu peito subia e descia rapidamente, sua respiração estava irregular e a consciência de sua própria vulnerabilidade o fez se contorcer internamente.
— Você está… — Damian começou a falar, mas interrompeu a frase no meio. Seus olhos escureceram ligeiramente, e Ethan viu o exato momento em que o alfa compreendeu a gravidade da situação.
O olhar de Damian se tornou mais intenso, quase predatório, mas ao mesmo tempo contido. Como se estivesse segurando a si mesmo com todas as forças.
O coração de Ethan martelava contra suas costelas. Ele precisava sair dali. Agora.
— Me solta… — murmurou, mas sua voz saiu fraca, trêmula, quase suplicante.
Damian não se moveu de imediato. Seu aperto continuava firme, sustentando Ethan sem esforço, mas havia algo na maneira como ele hesitou. Como se estivesse lutando consigo mesmo, decidindo qual seria o próximo passo.
Mas então, ao invés de puxá-lo para mais perto — como Ethan temia e, ao mesmo tempo, desejava em um nível irracional —, Damian tomou uma decisão diferente.
Com um gesto cuidadoso, mas irrefutável, ele ajustou a posição de Ethan, apoiando-o melhor contra seu próprio corpo, e sussurrou em seu ouvido:
— Eu vou te levar para um lugar seguro.
As palavras foram ditas com uma firmeza inabalável, mas havia algo mais ali. Um tom de preocupação, talvez? De promessa?
Ethan quis protestar. Quis dizer que não precisava da ajuda de um alfa. Quis reafirmar o controle que estava escorregando por entre seus dedos. Mas a verdade era cruel: naquele momento, seu corpo não lhe dava escolha.
A última coisa que viu antes de sua visão escurecer foi Damian carregando-o para fora da cafeteria, enquanto o mundo ao seu redor se tornava um borrão indistinto.
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Atualizado até capítulo 23
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