Alex contornava a praça quando avistou a velha pick-up de Ashley estacionada em frente ao imponente casarão dos Keller. A curiosidade o levou a parar. Sem pensar muito, resolveu se aproximar. Foi um gesto impulsivo, mas providencial. Assim que atravessou a entrada do jardim, percebeu que a porta principal estava aberta, escancarada como se convidasse a um mistério.
Ao entrar, notou o silêncio inquietante. Chamou por Ashley, mas não houve resposta. No chão liso, viu pegadas pequenas que levavam à escadaria. A visão o deixou em alerta. Seguindo o rastro com cautela, subiu ao andar de cima.
Ao alcançar o corredor, parou de súbito. De um dos cômodos, pernas femininas projetavam-se pela porta entreaberta. O coração disparou. Alex correu até lá e encontrou Ashley caída de bruços no chão de madeira empoeirado. Ao lado dela, um candelabro estava encostado contra a porta, e um pedaço de madeira ensanguentado completava a cena assustadora.
— Ashley? Acorde! Ashley! – Ele sacudia suavemente o corpo inerte, o desespero nublando seus pensamentos.
Notou que a nuca dela sangrava, mas, ao segurar o pulso da jovem, sentiu o alívio do batimento fraco. Ela estava viva. Sem perder tempo, pegou o celular e ligou para uma ambulância. Também acionou Alec, certo de que Ashley fora vítima de um ataque.
No hospital, o médico foi direto ao ponto: apesar do susto, Ashley sofreu apenas uma concussão e precisou de alguns pontos no ferimento na nuca. Enquanto aguardava Alec, Alex permaneceu na sala de espera, inquieto. As perguntas sobre o que havia acontecido não lhe davam trégua, e a imagem da jovem caída continuava a atormentá-lo.
— Como está Ashley? – perguntou Alec, surgindo na sala de espera do hospital com passos apressados e um semblante carregado de preocupação.
— A pancada na cabeça foi forte, mas o médico disse que ela vai ficar bem. Estão terminando de suturar o corte. – respondeu Alex, enquanto passava as mãos nervosamente pelos cabelos castanhos, bagunçando-os ainda mais. Sua expressão era de inquietação. – Quem atacaria Ashley? Ela chegou à cidade há só dois dias.
Alec ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços, como quem pondera algo desconfortável.
— Não poderia ser uma das suas… fervorosas admiradoras? Digamos, Melanie?
Alex deixou escapar uma risada seca e irônica.
— Melanie? Ela não teria coragem nem habilidade para isso. E, além disso, por que diabos ela atacaria Ashley? Não faz o menor sentido.
Alec inclinou ligeiramente a cabeça, olhando Alex com uma expressão cética.
— Não sei… talvez porque Ashley está ocupando o lugar que ela sempre quis? Ou você esqueceu de que já espalhou pela cidade inteira que Ashley é sua noiva?
Alex encarou Alec por um momento, tentando descartar a insinuação. No entanto, sua mente voltou à cena no casarão: as pegadas no corredor. Não eram só de Ashley. Havia também marcas maiores, pesadas. A lembrança o inquietava.
— Não acho que Melanie tenha nada a ver com isso, Alec. Mas… – Alex hesitou, como se ponderasse antes de falar. – Quando entrei na casa, vi pegadas. Além das da Ashley, tinham outras, maiores. Quem quer que tenha feito isso pode ainda estar lá quando ela foi atacada... ou quando eu cheguei.
Alec franziu o cenho, inclinando-se para frente.
— Você seguiu as pegadas?
Alex assentiu.
— Sim, mas elas terminavam no corredor, perto do quarto onde achei Ashley. Depois que a vi caída, minha prioridade foi ajudá-la. Mas agora que penso nisso, aquelas marcas eram recentes. Havia poeira no chão, então ficaram bem nítidas.
— Pegadas grandes, você disse? – Alec perguntou, agora em tom mais sério.
— Sim, como de um homem. – Alex passou a mão pelo queixo, os olhos distantes. De repente, um estalo. – Eddy Thomas!
Alec arqueou uma sobrancelha.
— Eddy Thomas?
— Na noite em que Ashley chegou à cidade, Eddy a assediou no estacionamento. Eu estava na varanda e vi tudo. Ela até se defendeu bem, mas ele a ameaçou antes de ir embora.
O rosto de Alec endureceu. Eddy Thomas e sua gangue de baderneiros eram conhecidos por causar problemas desde os tempos de escola.
— Aqueles desgraçados! Já avisei para ficarem longe de confusões na minha cidade. – Ele pegou o celular e discou rapidamente. – Dominic, vá até a casa de Eddy Thomas. Quero saber onde ele estava hoje por volta das treze horas.
— O que ele fez agora? – Dominic perguntou do outro lado da linha.
— Ainda não sei ao certo, mas ele pode estar envolvido no ataque a Ashley. Leve o Lin com você.
— Lin? – Dominic começou a reclamar, mas Alec a cortou.
— Sem drama, Dom. Se ele te irritar, use-o como escudo. – Alec desligou, abafando uma risada ao ouvir a risada irônica da irmã.
Ele se voltou para Alex, que o observava com curiosidade.
— Dominic está com problemas com Lin desde que ele terminou com ela. – Alec suspirou. – Sabe como Dominic é quando está irritada. Eu tentei transferir o cara, mas não consegui. Nem mesmo Allan conseguiu afastá-lo daqui.
— Essa garota com quem ele está envolvido, é algum tipo de herdeira poderosa? – Alex perguntou, intrigado.
— Não sei, parece que é de fora da cidade. – Alec balançou a cabeça, voltando ao assunto principal. – De qualquer forma, Dominic vai verificar o álibi de Eddy. Enquanto isso, vou falar com Ashley e descobrir o que ela lembra. Também vou mandar uma equipe para averiguar o casarão.
Alex assentiu, então pegou algo no banco ao lado.
— A propósito, trouxe isto. – Ele entregou um saco plástico com um pedaço de madeira ensanguentado. – Encontrei perto de Ashley. Também tirei fotos da cena e mandei para o seu celular.
Alec pegou o saco com uma careta.
— Você sabe que mexer no cenário de um crime não é o protocolo, certo?
— Dadas as circunstâncias, acho que fiz o necessário. – Alex cruzou os braços, com um sorriso zombeteiro.
Alec revirou os olhos, mas não retrucou. Segurando o saco plástico, caminhou até o quarto onde Ashley estava. Atrás dele, Alex sentiu um calafrio. O quebra-cabeça estava só começando, e ele temia o que mais viria à tona.
Alex entrou no quarto com Alec, que se aproximou da cama onde Ashley estava deitada, ainda com a aparência abatida. Uma enfermeira terminava de fazer o curativo na cabeça de Ashley e, ao terminar, saiu rapidamente do quarto.
— Como você está? – Alex perguntou, a expressão de preocupação claramente visível em seu rosto.
Ashley olhou para ele, os olhos ainda turvos, como se estivesse tentando juntar as peças do que havia acontecido.
— Como se tivesse sido chacoalhada. – Ela falou com a voz baixa e um tom confuso. – O que aconteceu?
Alex se aproximou um pouco mais, falando com calma e suavidade para não assustá-la.
— Eu a encontrei caída no chão do casarão. Você estava desacordada. O lugar estava em silêncio e parecia vazio.
Ashley o olhou, surpresa, ainda tentando entender o que estava acontecendo.
— O que você estava fazendo lá? – Ela perguntou, a voz cheia de confusão e desorientação.
Alex hesitou por um momento, procurando as palavras certas, antes de explicar.
— Passei por acaso e vi seu carro estacionado. Então, entrei para ver se precisava de ajuda. Fui eu quem chamou o socorro e te trouxe para o hospital.
Ashley o encarou por um segundo, e um pequeno suspiro de alívio escapou de seus lábios.
— Obrigada… por cuidar de mim, Alex. Eu não sei o que teria acontecido se você não estivesse lá.
Alec, que estava em silêncio ao lado, aproveitou a pausa para fazer uma pergunta.
— Você consegue lembrar de tudo o que aconteceu?
Ashley pareceu refletir por um momento, antes de começar a explicar, ainda um pouco hesitante.
— Fui ao casarão para ver como estava o lugar. Ele estava fechado há quase três anos e eu queria conferir se estava tudo bem. Também queria ver se minha mãe levou algo dali. – Ela fez uma pausa, olhando para os dois. – Ouvi um barulho vindo do andar de cima. Peguei um candelabro para me defender e fui verificar. Quando cheguei na porta de um dos quartos, senti que havia alguém atrás de mim, mas não consegui me virar a tempo. Fui atingida na cabeça e desmaiei.
Alec assentiu, o olhar ficando mais intenso, e fez uma pergunta cuidadosa.
— Alex disse ter visto pegadas, além das suas, no chão. Você reparou nas pegadas no corredor quando subiu?
Ashley balançou a cabeça lentamente, frustrada consigo mesma.
— Não, não reparei. – Ela suspirou, com uma expressão de frustração. – Agora que você mencionou, me sinto uma idiota por não ter olhado para o chão. Se tivesse feito isso, teria percebido que havia mais alguém na casa e não teria subido sozinha.
Alec a tranquilizou com um sorriso reconfortante.
— Você não é uma idiota, Ashley. Agiu conforme o seu instinto. Qualquer um teria feito o mesmo. Seu agressor sabia disso. O importante é que você está segura agora.
— Obrigada! – Ashley sorriu para ele, antes de voltar o olhar para Alex. – Aos dois.
Alex sorriu de volta, o tipo de sorriso tímido e sincero, como o de um herói que acaba de salvar o dia. Naquele momento, o médico entrou na sala, interrompendo a conversa. Ele sorriu ligeiramente para Alex e Alec antes de se dirigir a Ashley.
— Xerife Stella! – Ele cumprimentou Alec. – Alex, sua noiva ficará bem. Ashley sofreu apenas uma concussão, que causou um leve inchaço, além de um corte profundo, mas nada grave. No entanto, sugiro que repouse por alguns dias.
Ashley, ainda um pouco atordoada, olhou para o médico, surpresa.
— Espere! O senhor disse "noiva"? – Ela perguntou, visivelmente confusa.
— Sim, foi assim que Alex se apresentou na recepção. Como seu noivo. – O médico explicou com um sorriso. – Conhecendo o senhor Stella como o conhecemos, devo dizer que deixou algumas jovens bem perplexas com essa notícia.
Alex fez uma careta, enquanto Ashley o encarava com um olhar curioso.
— Eu posso imaginar. – Ela disse, em tom irônico.
— Bem, vou deixá-los a sós e providenciar a sua alta. – O médico disse, antes de apertar a mão de Alec e depois a de Alex. – Meus parabéns, Alex, sua noiva é lindíssima.
— Eu sei disso! – Alex respondeu, sorrindo orgulhoso.
Ashley aguardou o médico sair, ainda atônita com a situação. Ela então encarou Alex, surpresa.
— Você espalhou para a cidade inteira que somos noivos?
Alex a olhou diretamente, o olhar sério, mas sem perder o tom descontraído.
— Claro! Como você acha que nosso plano dará certo se as pessoas não souberem?
Ashley franziu o cenho, confusa.
— Eu pensei que teríamos que fingir apenas na frente de Cordélia?
— Sim, isso era o plano. Mas, conhecendo a Cordélia como eu a conheço, tenho certeza de que ela já está fazendo levantamentos sobre o nosso relacionamento pela cidade.
Ashley suspirou, recostando-se nos travesseiros. Ela estava exausta e ainda processava todas as informações.
De repente, seus olhos se arregalaram.
— Oh, meu Deus! Nosso encontro com o perito! Eu também precisava buscar minha tia na casa da Alma…
Alex sorriu, um sorriso gentil, e a interrompeu.
— Hei, relaxa! Eu já liguei para o perito e remarcamos para amanhã. – Ele sorriu e pegou a mão dela com carinho. – Quanto a Nora, eu posso buscá-la para você assim que a levar para casa.
Ashley olhou para ele, surpresa com o cuidado e atenção que ele estava demonstrando, algo que ela não esperava. Alec, ao lado, também parecia surpreso com o comportamento de Alex, mas preferiu não comentar nada.
— Bem, vou deixá-los! – Alec sorriu para Ashley e fez um gesto de despedida. – Preciso voltar à delegacia e enviar isso para análise. As digitais devem confirmar se são de Eddy ou não.
— Eddy? – Ashley perguntou, confusa.
— Contei ao Alec sobre a ameaça que você recebeu de Eddy Thomas no dia em que chegou a Lone Ridge. – Alex explicou. – Eu vi como o enfrentou. Você foi bem corajosa.
— Por hora, ele é o nosso melhor palpite, já que as pegadas no casarão indicam a presença de um homem. – Alec completou.
Ashley, atordoada e com a cabeça ainda pesada, não sabia o que pensar. Ela apenas assentiu em silêncio. Alec foi embora, deixando Alex com Ashley.
Algum tempo depois, o médico retornou, confirmando a alta de Ashley. Ela se vestiu com a ajuda de uma enfermeira e, embora ainda estivesse cansada, sentiu-se aliviada ao ver Alex esperando por ela.
Alex segurava Ashley com delicadeza, guiando-a pelos corredores do hospital. O silêncio entre eles era quase palpável, enquanto ela se apoiava no braço dele. A expressão de Ashley oscilava entre gratidão e uma leve irritação contida.
— Você está confortável assim? – perguntou Alex, lançando-lhe um olhar rápido e genuinamente preocupado.
— Sim, estou bem. – respondeu ela, embora sua voz não carregasse muita convicção.
Ao atravessarem a recepção, algumas enfermeiras os encararam com curiosidade, e Alex apenas retribuiu com um sorriso descontraído, como se estivesse completamente à vontade com a situação. Ashley, por outro lado, parecia incomodada com a atenção.
Quando chegaram ao carro, Alex abriu a porta do passageiro para ela, ajudando-a a entrar. Ashley suspirou enquanto ele fechava a porta e contornava o veículo. Assim que ele entrou e deu partida, ela quebrou o silêncio.
— Você realmente acha que Eddy Thomas tem algo a ver com isso?
Alex olhou para frente, pensativo, enquanto guiava pelas ruas tranquilas.
— É uma possibilidade. Ele já te ameaçou antes e não é exatamente conhecido pelo bom comportamento. – Ele deu de ombros. – Mas não vou acusar ninguém sem provas.
Ashley assentiu, observando a paisagem passar pela janela. Por um momento, Ashley se calou, absorvendo as palavras dele. Quando finalmente chegaram à sua casa, Alex ajudou-a a sair do carro e a conduziu até a porta.
— Vai descansar agora. – disse ele, com um tom firme, mas gentil. – E nada de se preocupar com o que não pode resolver hoje.
Ashley hesitou, olhando para ele, antes de assentir.
— Obrigada, Alex. – Sua voz soou sincera, mas havia algo nos olhos dela que ele não conseguiu decifrar.
— Não precisa agradecer. Só quero que fique bem. – Ele sorriu de leve, então completou: – Ah, e eu volto mais tarde para ver como você está.
Ashley abriu a boca para protestar, mas Alex já estava descendo os degraus da varanda. Ela o observou entrar no carro e partir, o motor do veículo sumindo ao longe.
Sozinha, Ashley entrou em casa, seus pensamentos ainda girando em torno do que havia acontecido no casarão. Ela não sabia ao certo no que confiar, mas uma coisa era clara: Alex estava diferente, e isso a deixava desconfortável.
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Atualizado até capítulo 40
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