Na manhã seguinte, Ashley buscou refúgio em tarefas práticas, tentando encontrar um pouco de ordem no meio do caos emocional que a cercava. Após o episódio com Nora na noite anterior, decidira cancelar o encontro com Kyera no bar de Luck. Sua prioridade era cuidar da tia e se preparar para os desafios que se acumulavam.
Sentada à mesa da cozinha, com um bloco de notas e uma caneta em mãos, começou a listar os materiais necessários para a reforma: tinta, trinchas, rolos, pincéis… Cada item anotado trazia uma breve pausa para pensamentos dispersos. Estava tão absorta que demorou a perceber o som insistente do celular vibrando sobre a mesa.
Ashley franziu o cenho ao desbloquear a tela e ver o nome de Alex Stella brilhando no aplicativo de mensagens. Suspirou, revirando os olhos. Ótimo, o que será agora? Conhecendo Alex, era quase garantido que as mensagens estariam recheadas de provocações. Relutante, abriu a conversa, já preparando a paciência.
— “Bom dia, docinho. Espero que tenha dormido bem 😏.”
Ashley bufou ao ler a mensagem e digitou rapidamente:
— “Melhor do que você, com certeza.”
A resposta de Alex veio quase instantaneamente:
— “Duvido muito 😏.”
Ashley revirou os olhos novamente, os dedos voando sobre o teclado:
— “Já começou o dia irritando? E, por favor, pare com esses emojis ridículos!”
— “Como ela é nervosa 🙃.”
— “Quer saber? Tenho mais o que fazer. Vou bloquear você.”
— “Calma, docinho. Não faça isso!”
Antes que ela pudesse ignorá-lo, outra mensagem apareceu.
— “Kyera me disse que você desmarcou ontem. Aconteceu algo? Esperei por você no Luk’s.”
Ashley hesitou. Havia um tom de preocupação nas palavras dele que a pegou desprevenida. Respondeu, mais branda:
— “Minha tia se sentiu mal. Preferi ficar em casa.”
— “Ela está melhor agora? Precisa de algo?”
A preocupação genuína de Alex mexeu com ela, mas Ashley manteve o tom neutro:
— “Sim, está bem. Foi só uma queda de pressão. Nada grave.”
— “Que bom saber. Cuide bem dela, OK?”
Mas a seriedade não durou muito. Logo, Alex voltou ao tom habitual:
— “Mudando de assunto, marquei com um perito para avaliar os imóveis. Ele estará lá às 15h. Espero que não se atrase.”
— “Tão cedo? Achei que demoraria dias para conseguir alguém.”
— “Tenho meus contatos.” Alex parecia se divertir com o próprio talento. “Além disso, você se saiu... formidavelmente ontem. Fez por merecer 😉.”
Ashley congelou, o rosto esquentando ao lembrar do beijo que haviam trocado. Sua mente correu para apagar a imagem, mas foi interrompida por outra mensagem:
— “Pequena, ainda está aí? Ficou muda de repente.”
Digitou uma desculpa apressada:
— “Minha tia me chamou.”
— “Entendi. De qualquer forma, estarei lá às 15h. Até mais.”
— “Quinze minutos antes.”
Encerrando a conversa, Ashley suspirou, sentindo-se exausta com a capacidade de Alex de ser simultaneamente irritante e charmoso. Era uma combinação perigosa, mas não tinha tempo para se perder em pensamentos. Havia coisas mais urgentes a fazer.
Deixando o celular de lado, Ashley foi verificar como Nora estava. Para seu alívio, a tia parecia bem melhor naquela manhã. O rosto já não exibia o tom pálido do dia anterior, e o sorriso familiar havia retornado, aquecendo o coração de Ashley. A tensão causada pelo episódio recente, quando Nora havia se mostrado frágil e abatida devido a um erro na dosagem de seus medicamentos, começava a dissipar-se.
— Tia, como está se sentindo hoje? – perguntou Ashley, aproximando-se com um sorriso suave.
Nora, sentada em sua poltrona favorita, distraída com o tricô, ergueu os olhos e respondeu com um sorriso tranquilo:
— Oh, minha querida, não precisa se preocupar tanto. – Ela estendeu a mão para um breve carinho no braço de Ashley. – Já estou muito melhor. Prometo que tomarei mais cuidado com os remédios.
O diagnóstico de problemas cardíacos acompanhava Nora havia anos, mas isso nunca a impediu de manter uma energia admirável. Mesmo enquanto cuidava da casa, gerenciava dois negócios e criava Ashley como uma mãe substituta, ela era o alicerce da família. Foi estranho perceber que a tia tomara a medicação errada, mesmo após anos realizando o mesmo processo.
— Fico tão aliviada em ouvir isso. – Ashley relaxou os ombros, finalmente respirando um pouco mais tranquila. – Alex conseguiu um perito para avaliar os imóveis. Ele marcou para esta tarde. Antes disso, pensei em passar no casarão. Está tudo bem para a senhora?
— Claro, querida! Vá cuidar dos seus compromissos. – Nora arqueou as sobrancelhas com um sorriso travesso. – Na verdade, acho que aproveitarei o dia para visitar Alma e levar aquele bolo que ela tanto gosta.
— A senhora tem certeza de que está disposta? – Ashley perguntou, hesitante.
— Tenho, sim. Não se preocupe comigo. Prometo que ligo se precisar de algo.
Após um instante de dúvida, Ashley cedeu.
— Está bem, então. Vou preparar o bolo para a senhora levar.
— Não precisa, minha querida. Posso fazer isso.
— Insisto, tia. Não vou demorar nem dez minutos.
Nora deu de ombros, rendendo-se com um sorriso.
— Certo. Só não esqueça de caprichar na canela. Alma é apaixonada por canela.
Enquanto se dirigia à cozinha, Ashley foi interrompida pela voz de Nora, agora com um tom mais intrigado:
— Querida, você mexeu no camafeu que fica no meu criado-mudo?
Ashley franziu a testa.
— Aquele com o entalhe de Nossa Senhora? O que o vovô deu para a senhora?
— Esse mesmo. – Nora confirmou. – Hoje, ao acordar, percebi que ele estava do outro lado da cama. Achei estranho, já que sempre o deixo ao meu lado.
O camafeu do qual Nora falava foi um presente de seu avô. Ela costumava deixá-lo ao lado de sua cama e sempre fazia uma prece a Nossa Senhora antes de dormir. Fazia anos que ele estava no mesmo lugar.
— Não mexi nele. Ontem, só entrei no quarto para deixar um copo d’água.
Nora suspirou, parecendo reflexiva, mas logo brincou:
— Talvez eu mesma tenha movido e esqueci… Ou quem sabe o espírito do seu avô resolveu me pregar uma peça.
Ashley estremeceu e fez o sinal da cruz, visivelmente desconfortável.
— Credo, tia! Sabe que não gosto dessas histórias de fantasmas.
A risada de Nora ecoou leve pela sala enquanto Ashley sacudia a cabeça, dividida entre irritação e humor. Na cozinha, ela se concentrou em preparar o bolo, tentando afastar as palavras da tia de sua mente. Afinal, a visita ao velho casarão de sua família já seria desafiadora o suficiente sem a ideia de fantasmas rondando seus pensamentos.
As horas passaram rapidamente, e, antes que percebesse, já era hora do almoço. Durante a refeição, Ashley aproveitou para compartilhar com Nora mais detalhes sobre seus planos para o casarão: transformá-lo em uma pequena pousada. Usaria apenas alguns dos móveis já existentes, enquanto leiloaria os demais, assim como alguns objetos.
Após o almoço, Ashley acompanhou Nora até a casa da vizinha, Alma, assegurando-se de que a tia estava bem acomodada antes de partir para o casarão. Apesar das insistências de Nora de que voltaria caminhando, Ashley prometeu buscá-la assim que terminasse seus compromissos.
Ao estacionar diante da imponente residência de dois andares, construída em estilo vitoriano por seu tataravô e passada de geração em geração, Ashley não pôde evitar uma sensação de nostalgia entrelaçada à melancolia. Herdada de sua avó, a casa agora era sua, mas os anos de convivência naquele lugar haviam sido, na maioria das vezes, sombrios e sufocantes.
A fachada ainda guardava vestígios de sua antiga elegância, mas o jardim da entrada, agora seco e abandonado, refletia as memórias que oscilavam entre o doce e o amargo. Ali, entre a grama ressequida e as flores mortas, restavam poucas lembranças felizes da infância. Já o interior da casa era um arquivo vivo de traumas: foi o palco onde Ashley enfrentou os abusos emocionais de sua mãe narcisista, as manipulações do pai inescrupuloso e a constante sombra dos irmãos, sempre exaltados como exemplos de perfeição. Em contraste, Ashley era tratada como um fardo, esmagada pelos padrões inalcançáveis que a mãe impunha.
O colapso da família veio anos depois. Quando os crimes dos irmãos e de seu pai foram descobertos, culminando na prisão de Bryan, Lex e na morte de Josh, o prestígio da família ruiu, arrastando consigo o que restava de seu poder na cidade. Na tentativa de salvar algo, a mãe de Ashley tentou reivindicar o casarão, mas descobriu, com amarga surpresa, que ele havia sido deixado exclusivamente para Ashley no testamento de sua avó e apropriado por seu pai, inadvertidamente. Aproveitando o momento de poder, Ashley expulsou a mãe da propriedade, proibindo-a de levar qualquer objeto que não fosse pessoal. Ela ficou furiosa, e jurou vingança.
Suspirando, Ashley caminhou pelo jardim, os passos lentos entre a vegetação morta. Apenas a velha macieira, um símbolo de resistência, permanecia verde e carregada de frutos. Aproximando-se de um galho baixo, ela colheu uma maçã verde e segurou-a, como se o gesto simples fosse um elo com algo mais puro em meio ao caos.
Subindo os degraus da varanda, Ashley fez uma pausa para observar o ambiente envidraçado. O piso de madeira rangeu sob seus pés, trazendo de volta fragmentos de memórias. Um jogo de mesa com cadeiras de vime descansava junto à janela, enquanto o velho balanço ainda pendia no canto oposto, com vista para a praça. Quantas tardes passara ali, lendo ou sonhando com uma vida diferente?
Ela sacudiu a cabeça, afastando os pensamentos, e destrancou finalmente a porta. O amplo salão de visitas revelou-se diante dela, os móveis antigos ainda cobertos por lençóis brancos, como fantasmas do passado. Apesar do abandono, o espaço ainda emanava a grandiosidade de outros tempos. Entre tantas relíquias, o piano no canto da sala chamou sua atenção.
Com passos hesitantes, Ashley se aproximou do instrumento. Puxou o lençol que o protegia, revelando a superfície brilhante e polida. A peça fora um presente para sua avó aos quinze anos e era um dos poucos itens que sua mãe realmente valorizava. O piano também representava um dos raros momentos de aprovação que Ashley experimentara, já que a música era uma das poucas atividades em que a mãe a incentivara. Mas seu verdadeiro amor pela música foi cultivado em segredo, com uma guitarra velha que aprendera a tocar escondida.
Movida por uma onda de nostalgia, Ashley sentou-se na banqueta e abriu a tampa que cobria as teclas. Seus dedos pairaram por um instante antes de começarem a tocar uma melodia melancólica, que parecia ecoar todas as emoções presas ali. Apesar do tempo sem praticar, suas mãos se lembravam de cada nota.
O tempo escoava enquanto ela tocava, até que um som vindo do andar de cima quebrou sua concentração. Ashley parou abruptamente, o silêncio da casa amplificando o eco do ruído. Ela prendeu a respiração, os olhos fixos na escadaria.
O barulho se repetiu, mais claro desta vez. Um arrepio percorreu sua espinha.
Lentamente, ela se levantou, os sentidos alerta. Cada passo em direção à escada era medido e cauteloso, o coração batendo forte no peito enquanto ela subia, o rangido dos degraus amplificando sua inquietação.
— Olá? Tem alguém aí? – A voz de Ashley ecoou pelo casarão vazio, ressoando entre as paredes desgastadas. A única resposta foi o silêncio, denso e inquietante, que parecia envolver o ambiente como um manto invisível.
Tentando dissipar a sensação de vulnerabilidade, ela pegou um candelabro de ferro que repousava sobre um aparador no corredor. O peso frio do objeto em suas mãos oferecia uma segurança frágil, quase ilusória, mas ainda assim suficiente para continuar.
— Olá? – chamou novamente, o som de sua voz reverberando pelo longo corredor. Seus passos, leves e cautelosos, aproximaram-se de um quarto com a porta entreaberta. Cada movimento era calculado, cada som amplificado pela tensão.
Um ruído súbito quebrou o silêncio, fazendo Ashley saltar. Seu coração disparou, pulsando em um ritmo frenético enquanto ela prendia a respiração. Firmando o candelabro nas mãos, avançou um passo, determinada a encarar o que quer que estivesse ali.
Ao cruzar a soleira da porta, encontrou apenas um quarto vazio. Pilhas de caixas estavam espalhadas desordenadamente, como se alguém tivesse revirado o espaço às pressas. Ela franziu a testa, abaixando ligeiramente o candelabro enquanto examinava o ambiente. A tensão parecia começar a ceder quando deu mais um passo para dentro.
Então, tudo mudou em um instante. Um impacto súbito e brutal atingiu sua cabeça. A dor foi intensa, mas fugaz, apagada pela escuridão que tomou conta de sua visão. O candelabro escorregou de suas mãos e caiu com um som metálico abafado. E, antes que pudesse reagir, Ashley se viu mergulhada no vazio absoluto.
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Atualizado até capítulo 40
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